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Outras vidas

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Edu, 5 Set 2009.

  1. Edu

    Edu Draper Inc.

    “Sabe como tornar alguém imortal?”, perguntou. Naquele tempo, eu ingeria todo tipo de literatura e podia opinar sobre um tudo nas rodas de conversa, desde algo a respeito de culinária, passando por política, guerras e comunismo, e finalmente culminando em palpites sobre as agências espaciais e seus entusiásticos foguetes. Claro, “imortalidade” estava dentro de meus domínios.

    Mas, bem, eu respondi “Não” quase instantaneamente. Suponho que deva explicar porquê. Já havia, de fato, lido sobre o assunto algumas vezes, geralmente em revistas que chegavam para mim pelo correio ou comprava nas bancas, mas o problema é que, ao lidar com quem eu conversava, era sempre bom negar tudo. Saber ou acreditar em certas coisas nem sempre é o mais indicado em uma discussão com ele.

    “Uma pena”, ele me disse, “realmente uma pena”. E aí ficou tamborilando com os dedos no tampo da mesa, tentando reproduzir uma canção. Minha cabeça pendia meio para baixo, meio para o lado, inclinada como se algo a estivesse puxando em direção ao chão. Não podia ser a gravidade, pensei, afinal de contas, ela toda estava dentro do corpo do velho sr. Gutiérrez, ali à minha frente. É assim que sempre o imaginei, desde quando era menino e meu pai costumava recebê-lo em nossa casa.

    Para mim, o sr. Gutiérrez sempre fora a maior fonte de energia em qualquer ambiente onde estivesse. Sempre atraía os olhares, juntamente com a atenção, dos outros que o cercavam. Despertava nos mais velhos um misto de saudosismo e admiração, e nos mais novos qualquer medida na dose certa entre respeito e interesse desinteressado. As palavras dele nos atraíam, não importava o assunto, e era exatamente esse, para ser sincero, meu principal receio em relação ao sr. Gutiérrez.

    Quando eu era criança, costumava ouvir escondido as conversas entre meu pai e ele. A maior parte delas eram discussões um tanto polêmicas, ao menos para um menino de nove anos de idade. Meu pai dizia ser ateu, e certa vez começou a debater sobre a existência de Deus com o sr. Gutiérrez. Ao final de quase uma hora, os dois saíram de casa; umas semanas depois fui matriculado em uma catequese católica, e ao final daquele mesmo ano recebi a primeira comunhão. Pois o fato de eu acreditar em Deus hoje em dia deve-se ao poder que carregam as palavras do sr. Gutiérrez.

    “Mas, bem, tem interesse por essas coisas? Seu pai não gostava muito, mas você é tão diferente dele... tão diferente...”, ele me perguntou. O que eu poderia responder? Que não? Acabei sacudindo afirmativamente a cabeça.

    “Ah, bom, bom...”, o sr. Gutiérrez falou, e daí a pouquinho voltou a tamborilar os dedos. E ficou só nisso. Ele não era mais o mesmo de minha juventude, suas reações estavam lentas, as respostas vagas e as conclusões não faziam sentido algum. Transformara-se em um pedaço insosso de homem, carcomido, feito quebradiço pela ação constante do tempo. Ao menos era assim que eu o imaginava agora.

    “Tenho interesse”, disse outra vez, tentando fazer sua atenção voltar-se para mim. Ele murmurou e fez sinal para a garçonete, que lhe trouxe uma xícara de café.

    “Sabe, William...”, Wilson, eu tive de corrigi-lo, “sim, isso... mas, sabe, a gente se depara com umas coisas engraçadas enquanto vive. Acho que você vai me entender, porque está vivo, e isso já ajuda bastante. Você está vivo, não está?”

    “Estou”, respondi, com a testa já ligeiramente franzida.

    “Err... só checando”, disse o sr. Gutiérrez, levantando os ombros. “Chega uma época em que a gente não tem mais certeza de nada. Para alguns, essa tal época vem mais cedo, quase sempre ali pelos vinte e poucos anos, ou aos quarenta. É quando tudo o que sabemos ser verdade é que existimos de algum jeito, isso porque nós temos de existir; caso contrário, não quero nem pensar...”

    “Sei... e, para o senhor, essa época é agora?”

    “Ora, é um tanto estranho pra mim, não estou acostumado com o que está acontecendo, e talvez me engane sobre algumas coisas; mas, respondendo à sua pergunta, sim, é agora. Você já deve ter passado por isso, sua geração é mais fresca...”

    “Como?”

    “Mais fresca.”

    “Cheia de vida, o senhor quis dizer...”

    “Não fale bobagens! Quis dizer que vocês são mais fracos. São frescos, afeminados, eu arriscaria falar, mas hoje em dia até suas mulheres não são mais o que eram no passado. 'Suas' porque as minhas mulheres estão todas mortas, sepultadas ou sobrevivendo pela metade num tempo que não lhes diz respeito e no qual não aprenderam a se encaixar. Mas, hoje, as substitutas delas, as garotas que vocês cortejam, são mais fortes para elas mesmas e para o mundo. Elas sabem que a vida não se limita a um único marido e alguns filhos, e isso é o melhor que podem fazer, eu acho.”

    O sr. Gutiérrez tornou a beber seu café em pequeníssimas doses. Instantes depois a garçonete voltou à nossa mesa trazendo os pedidos que havíamos feito logo quando chegamos à lanchonete: sanduíche de queijo para ele e sopa de tomate para mim.

    “Olha, estou interessado em saber mais sobre o que está havendo com o senhor. Foi para falar disso que marcou esse encontro, afinal?”, perguntei após a pausa.

    “É. Teria falado com seu pai, se ele já não tivesse morrido, então, por consideração, liguei pra você. Bem, o que está acontecendo é algo com que só me deparei agora, na velhice. Quando disse que você provavelmente já passou por isso, não estava mentindo, e vou te provar o que digo. Como você se sentia aos seus vinte anos?”

    “Eu tenho vinte anos.”

    “Melhor ainda! Nem precisa forçar os neurônios para responder.”

    “Bem, para ser sincero, não me sinto o melhor dos homens. Ando com algumas dúvidas sobre meu futuro, minha carreira, meus relacionamentos, enfim...”

    “Pois é, né? Eu disse, você já havia passado por isso. A questão, Wilson, querido, é que você e eu estamos num mesmo barco sem rumo. A gente segue desgovernado pelo rio da vida e não tem mais controle sobre ele, como tínhamos antes.”

    “Acho que nunca o controlamos, sr. Gutiérrez...”

    “Você é um tolo! Talvez tenha herdado isso de seu pai, ele também o era, embora para certos assuntos fosse bastante inteligente. Escute com atenção o que vou lhe dizer sobre tudo isso, meu jovem...”, ele falou, mas não completou sua frase.

    “Sim...?”, indaguei.

    “O quê?”

    “Estou esperando o que o senhor vai me dizer.”

    “Eu já disse, criança, mas você não é mesmo dos mais espertos...”

    Franzi outra vez o cenho e tomei umas colheradas de sopa. O sr. Gutiérrez deu alguns tampinhas na minha mão e lançou-me um olhar aflito.

    “O que eu poderia te dizer é exatamente isso: nada. Você não entendeu direito o que eu contei, filho, então repito: estou passando por um momento onde a única certeza que não questiono é a que estou conversando com você agora — e olhe lá!”

    Continuei tomando minha sopa, sem desgrudar os olhos do homem sentado à minha frente. Reparando melhor nele, percebi que o sr. Gutiérrez parecia mais velho e cansado do que estava quando o encontrei naquela tarde. Pensava que o velho estava exagerando em tudo o que dizia, sobre suas dúvidas e tudo o mais, não conseguia compreender o desespero que sentia, e muito menos seus motivos para sentir-se assim.

    “Por que não tenta um psicólogo?”, perguntei. Ele me olhou desgostoso.

    “Na minha idade, próximo à morte como estou — e não faça essa cara! Encare os fatos —, o melhor a fazer é se conformar e rezar para ganhar um lugar na outra vida. Pois, Wilson, de uma outra coisa eu passo a ter certeza agora, e conversar com você foi o que me ajudou a enxergar isso: nossas descrenças, questionamentos e desesperanças sempre nos acompanham a vida toda, mas é quando estamos mais frágeis que eles se revelam. Aqueles da minha época nunca tiveram tempo para pensar nessas coisas, sempre vivemos sob o peso de um destino já traçado por nossos pais e avós. Já hoje, para vocês, isso é diferente. Há muita liberdade no mundo.”

    “Mas isso não é bom?”, questionei.

    “Acredito que sim. O problema é quando as oportunidades são dadas a um velho que não teve tempo suficiente para conviver com elas e aprender a usá-las. O medo do que podemos fazer é sempre maior que o medo que sentimos daquilo que fizemos. Eu não fiz muita coisa no passado, mas agora posso reverter esse quadro e, quem sabe, deixar algumas marcas no mundo. Mas não é o suficiente, não existe meias-vidas....”

    “Entendo o que diz, mas acho que ainda há tempo para fazer o que tem vontade: viajar, ou se divertir... talvez adquirir alguns bens.”

    “Sim, eu sei, Wilson, mas não desejo mais nada disso. Para fazer sumir as dúvidas e satisfazer minhas vontades nesse fim de vida, só uma coisa basta: saber que os que sobreviverem a mim levarão algo do que fui dentro de si, e que isso terá alguma importância para eles. É o que eu quero, é o que me fará feliz. Me responda, filho, você acha que consigo?”

    “Jamais vou conseguir me esquecer do senhor, sr. Gutiérrez, nem do homem que foi no passado, nem daquele que se tornou com o passar da idade, e muito menos vai desaparecer da minha memória tudo o que me disse hoje”, confessei a ele.

    “Fico imensamente feliz, Wilson, imensamente...” Sorveu mais alguns goles do café e me perguntou outra vez: “Sabe como tornar alguém imortal?”

    “Não”, eu falei, curioso pela resposta.

    Ele sorriu. “Sim, você sabe, sim.”
     

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