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O que há por trás da onda de cancelamento dos contos de fada?

Fúria da cidade

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Capanha do projeto Conta Pra Mim, veiculada pelo MEC - Reprodução/ Youtube

Capanha do projeto "Conta Pra Mim", veiculada pelo MEC Imagem: Reprodução/ Youtube

Desde que, no último dia 19, a revista literária Quatro Cinco Um postou em sua página na internet uma crítica sobre a coleção "Conta pra Mim", escritores, ilustradores, artistas envolvidos com a infância e educadores de todo o Brasil estão em polvorosa nas redes sociais.

Trata-se de uma ação conduzida pela Sealf (Secretaria de Alfabetização) ligada ao MEC (Ministério da Educação), que recentemente disponibilizou 40 livros infantis em formato digital para ler, imprimir e pintar, além de vídeos com cantigas e fábulas. Entre opiniões sobre os critérios na escolha dos profissionais do projeto e a respeito da sua qualidade técnica, textos de contos de fadas da série são os que têm sido alvo de avaliações negativas. Seu conteúdo reflete os esforços de um movimento que vem acontecendo há algum tempo, não só no Brasil, que visa tirar dessas narrativas partes "inapropriadas e polêmicas" — ou seja, interpretadas como violentas e sexualizadas.

Nas versões de "Conta pra Mim", não há beijos para selar o encontro de amor entre príncipes e princesas. O lobo mau não é morto pelo caçador em "Chapeuzinho Vermelho"; apenas tropeça e cai em um rio. A figura da madrasta que convence o pai de João e Maria a deixá-los morrer de fome na floresta é substituída por uma boa mãe, que os instrui a marcar o caminho com pedrinhas antes de saírem para colher flores. E em "O Flautista de Hamelin", o sumiço de 130 meninos e meninas encantados pelo som da flauta é omitido — aliás, sequer há crianças no enredo.

A extinção ou a modificação das passagens tidas como incômodas é, de acordo com o psicanalista Mário Corso, "um elogio à ignorância". "Vivemos uma onda obscurantista calcada em opiniões de quem não entende e tampouco estuda o desenvolvimento da criança. Os contos de fadas trabalham com elementos simbólicos profundos, não têm um raciocínio linear. E patrulhar o imaginário não vai acabar com a violência do mundo real", argumenta ele que, em parceria com a mulher, a também psicanalista Diana Lichtenstein Corso, assina "Fadas no Divã - Psicanálise nas Histórias Infantis" (Ed. Artmed).

Para Ilan Brenman, mestre e doutor em Educação pela USP (Universidade de São Paulo) e autor de sucesso entre os pequenos com "Até as princesas soltam pum" (Ed. Brinque-Book), apoiar-se na perspectiva do chamado politicamente correto para tentar "salvar" as crianças de emoções e fatos inerentes à vida é o meio mais rápido para fragilizá-las. "Superproteger do mundo causa o efeito contrário. Os índices de crianças deprimidas e ansiosas e de suicídios entre jovens nunca foram tão altos. Devemos fortalecer os sensíveis e não enfraquecer a literatura", fala.

Higienização literária​


De fato, os primórdios do contos de fadas têm uma trajetória bem mais erotizada e sanguinolenta do que as versões que conhecemos hoje -- e que foram ainda mais açucaradas por Walt Disney (1901-1965), um fã do gênero. Só para se ter uma ideia: durante seu sono de cem anos, Bela Adormecida foi estuprada e deu à luz gêmeos, as irmãs de Cinderela cortam dedos e calcanhares para tentar, em vão, calçar o sapatinho de cristal; a madrasta de Branca de Neve dança até a morte calçando sapatos de ferro em brasa; a própria mãe de João e Maria envia os filhos para a floresta sombria e Chapeuzinho Vermelho se delicia com o sangue e a carne da avó sem saber de que se trata.

É válido ressaltar que os contos originais se destinavam ao público adulto e consistiam num entretenimento democrático -- que divertia os nobres nos salões e camponeses e outros serviçais que se reuniam à noite para ouvir e contar histórias depois de um dia de labuta. Por esse motivo, temas como sexo, canibalismo e vingança eram comuns.

À medida que o conceito de literatura infantojuvenil foi se ampliando, alguns assuntos foram tirados de cena e, a maldade de certos personagens, amenizada.

Resultado de séculos de tradição oral, os contos de fadas começaram a ganhar importância com o trabalho do francês Charles Perrault (1628-1703), que colocou no papel histórias tradicionais como "O Barba Azul" e "O Gato de Botas", com um viés um tanto moralizante, principalmente em relação à conduta das mulheres.

No século seguinte, empenhados em resgatar a autêntica língua alemã, os irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) compilaram diversas narrativas a partir de conversas com contadoras de histórias. O êxito de sua coletânea — com clássicos como "Branca de Neve e os Sete Anões" e "O Príncipe Sapo" — firmou as bases para a criação da literatura infantil. Guiados pelos ideais cristãos vigentes na época e pelas críticas de intelectuais sobre a crueldade de certos contos, os Irmãos Grimm retiraram da segunda edição os episódios mais violentos e maldosos.

O dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) é outro escritor emblemático, que criou "Os Sapatinhos Vermelhos", "A Pequena Vendedora de Fósforos" e "O Patinho Feio". Neles, colocou elementos da própria vida como a sensação de abandono e inadequação. Algumas histórias recontadas por Andersen também tiveram alterações ao longo dos séculos — é o caso do destino da protagonista de "A Pequena Sereia" que, ao contrário do final feliz da Ariel da Disney, se suicida após perder a voz e o príncipe.

Ferramentas psíquicas​


Segundo Ana Lúcia Merege, pesquisadora da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e autora de "Os Contos de Fadas: Origens, História e Permanência no Mundo Moderno" (Ed. Claridade), essas histórias refletem a sociedade e a moral de cada época, mas são atemporais porque contêm conteúdos permanentes. "São enredos que faziam sentido para os nossos antepassados e continuam a fazer para nós, pois os aspectos da psique humana continuam a ser os mesmos", diz.

Não é à toa que vários psicólogos já se debruçaram sobre o tema e esmiuçaram suas camadas de simbologia. É o caso do austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990), autor de "A Psicanálise dos Contos de Fadas" (Ed. Paz & Terra), e do norte-americano Sheldon Cashdan, que assinou "The Witch Must Die: The Hidden Meaning of Fairy Tales" (em tradução livre, "A Bruxa Deve Morrer: O Significado Oculto dos Contos de Fadas"). Com linhas de análise diferentes, ambos chegaram à mesma conclusão: os contos abordam psicodramas da infância, espelhando lutas reais, e ajudam as crianças a lidar com os conflitos internos durante o processo de crescimento.

De acordo com Deborah Moss, neuropsicóloga especialista em comportamento infantil e mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP, o grande trunfo dos contos de fadas é fazer com que as crianças projetem, inconscientemente, partes delas mesmas em vários personagens. "Com sua linguagem acessível, essas histórias mobilizam os sentimentos de uma forma muito natural. É uma maneira de a criança notar o ciúme ou a raiva fora dela e, ao mesmo tempo, se identificar", explica.

Denise Guilherme, docente da pós-gradução "Livros e Jovens: Teoria, Mediação e Crítica" do Instituto Vera Cruz, em São Paulo, conta que é comum associarmos a imagem da infância ao ideal de pureza, segurança, satisfação e felicidade constantes.

"Todos nós, desde que nascemos, temos contradições e sentimentos bons e ruins. Os contos de fadas retratam a condição humana e permitem que as crianças lidem com emoções complexas de uma maneira muito simples. Crianças que têm irmãos, por exemplo, em algum momento viverão uma situação de ciúme ou rivalidade", observa. "Ao ler ou ouvir que as irmãs malvadas da Cinderela recebem um castigo, a emoção negativa se resolve em lugar simbólico e seguro. Isso porque os pequenos não entendem os contos de fadas de maneira literal", diz ela, curadora na A Taba, empresa especializada em curadoria de livros infantis e juvenis.

Medo do próprio medo​


No ponto de vista de Cristiane Rogerio, especialista em literatura infantojuvenil e coordenadora pedagógica de A Casa Tombada, na capital paulista, pais que, a exemplo do que vem ocorrendo no Reino Unido, editam as partes cruéis das narrativas ao lê-las para os filhos o fazem porque, na verdade, são eles que sentem medo.

"Muitos não dão conta das perguntas das crianças sobre morte, tortura, sofrimento. Só que as dores estão aí, basta ver o exemplo das consequências do novo coronavírus. As crianças estão isoladas em casa, sem ver amigos e parentes, com medo de perder os pais ou de nunca mais voltar à escola. Negar que lidem com a angústia através do simbólico é extremamente danoso", argumenta.

No recém-lançado "Somos Todos Censores?", o crítico canadense Perry Nodelman argumenta: "Permanecer inocente, isso é, não tentar fazer o mal, requer o conhecimento do que é o mal. É o conhecimento que protege a inocência: só aqueles armados com o conhecimento do mal e o hábito de refletir sobre as implicações práticas e éticas de seu próprio comportamento ou do comportamento alheio é que dispõem dos meios para serem bons. E tenho a certeza de que isso inclui principalmente as crianças."

Para Dolores Prades, publisher da revista especializada "Emília" e consultora da Bologna Children's Book para América Latina, o medo também se estende à literatura e ao livro, principalmente entre adultos e pais que não cultivam o hábito da leitura. "O livro causa receio e perplexidade por abrir caminhos, possibilidades e convidar a sair da zona de conforto", fala. Nesse sentido, o texto simplista e "limpinho" da coleção do MEC, "Conta pra Mim", funciona muito bem ao evitar debate e controvérsia.

Daisy Carias, produtora de conteúdo do site A Cigarra e A Formiga, concorda que o cancelamento dos contos de fadas reflete muitas fragilidades da sociedade, como a falta de intimidade com a leitura. "Quando se se tem contato com a literatura desde muito cedo, a gente logo aprende que nem tudo é verdade, e que não se pode nem se deve acreditar em tudo. Não adianta transformar histórias incríveis, intrigantes e deliciosas em histórias rasas, bobas e sem graça... Como fazer alguém gostar de ler assim?", indaga.

 

Neoghoster Akira

Brandebuque
Muitos já comentam que ultrapassou o ponto do simples "cancelamento", hoje está no nível de "esmagar e destruir" e eu concordo com eles. E basicamente não apenas na literatura mas todo e qualquer ramo econômico existente até não sobrar mais nada. :(
 

Ana Lovejoy

Administrador
saiu um artigo bem interessante sobre esse conta para mim na revista quatro cinco um.

Políticas do livro​

Conta outra​

Funcionários do MEC recontam contos de fadas em coleção coordenada por discípulo de Olavo de Carvalho
Rubens Valente
19set2020 14h23 (01out2020 02h54)


João e Maria não foram abandonados na floresta pela sua mãe, pelo contrário, foi ela quem ensinou o truque para eles não se perderem. Branca de Neve não beijou o príncipe. O flautista de Hamelin não hipnotizou criança nenhuma para se vingar, ele foi remunerado após expulsar os ratos e celebrou o feito com um jantar na vila. Rapunzel não engravidou do príncipe nem deu à luz duas crianças na floresta.
O lobo que devorou Chapeuzinho Vermelho não foi morto pelo caçador por afogamento, o animal só tropeçou e caiu no rio “para nunca mais voltar”. O rico não foi punido pela cobiça e ficou sem nada, na verdade ele ficou muito envergonhado, aprendeu a lição e se tornou amigo da famíl
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ia vizinha e assim “viveram felizes para sempre”, o rico e o pobre.
Era uma vez a coleção de quarenta livros Conta Pra Mim, carro-chefe do programa de alfabetização voltado para “todas as famílias brasileiras, tendo prioridade aquelas em condição de vulnerabilidade socioeconômica”, como diz o texto oficial, do governo Jair Bolsonaro no MEC (Ministério da Educação). O órgão pretende investir, numa parceria com a Unesco, R$ 18 milhões na “aquisição e impressão dos materiais a serem distribuídos”.
Os livros foram produzidos sob a “supervisão técnica” do secretário de alfabetização do MEC, Carlos Francisco de Paula Nadalim, admirador e ex-aluno de Olavo de Carvalho, um teórico da conspiração de extrema-direita e influenciador da família Bolsonaro que mora na Virginia (EUA).
Segundo especialistas consultados pela Quatro Cinco Um, são adaptações “muito piegas e fora do tempo”, “simplificam e empobrecem a linguagem”, com ilustrações “toscas e primárias”. Apenas quatro dos quarenta livros apresentam supostos afrodescendentes – para especialistas, na verdade são pessoas brancas apenas pintadas de marrom — como personagens principais. Não há protagonistas indígenas nem asiáticos.
O mascote da coleção, um ursinho — animal que não é encontrado na fauna brasileira — de capuz, é muito parecido com os ewoks da saga de Hollywood Guerra nas estrelas. Há o enigma dos autores. Obras conhecidas, adotadas, lidas e admiradas por milhões de pessoas no mundo todo há mais de duzentos anos aparecem na coleção como escritas por brasileiros, incluindo uma certa “Equipe da Secretaria de Alfabetização”. Não há crédito às criações originais, várias delas dos irmãos Grimm, Jacob e Wilhem, que viveram na Alemanha de 1785 a 1863.
A mineira Rosana Mont’Alverne, escritora, editora e ex-presidente da Câmara Mineira do Livro, aparece creditada como autora de três livros: Chapeuzinho vermelho, João e Maria e A lenda da vitória-régia. Procurada, respondeu por escrito: “Quando sou eu a editora, eu troco ideias com os autores e chegamos a um denominador comum quanto à publicação. Como autora de três textos, como nesse caso da coleção Conta Pra Mim, a edição fugiu ao meu alcance e algumas alterações foram feitas”. Em síntese, a autora não reconhece como seu o resultado final das adaptações.
A edição dos livros é creditada a Marismar Borém, fonoaudióloga de formação e dona de uma editora de Belo Horizonte chamada Cora, pouco conhecida no cenário nacional do mercado editorial. Em seu site na internet, a editora se propõe a publicar obras “que ensinem coisas boas para as famílias e que levem bons exemplos para a infância”, com histórias “construtivas, alegres, sadias, com estímulos positivos que despertam o pensar e o sentir de nossas crianças”.
Além de Marismar e da equipe do MEC, são creditados como autores de livros da coleção Ricardo Moreira Figueiredo Filho, que assina a maior parte das obras, e Adriana Araújo Figueiredo.

“O MEC decidiu jogar solo”​

A pesquisadora, ensaísta, escritora de literatura juvenil, professora universitária e doutora em letras Marisa Lajolo, responsável por vários estudos sobre a literatura infantil brasileira, disse que “nunca ouviu falar” de Ricardo “em eventos e textos relativos à leitura e à literatura infantil” e tampouco conhece Marismar.
“O Brasil tem mais de um autor/ilustrador premiado internacionalmente com o prêmio Hans Christian Andersen, que é o maior prêmio mundial de literatura infantil/juvenil. Também o Brasil é presença destacada e várias vezes foi homenageado na Feira de Bolonha (Itália), maior evento (anual) da literatura infantil. Existe uma Fundação Nacional da Literatura Infantil e Juvenil (FNLIJ), uma associação de escritores e outra de ilustradores. Ou seja: acho que o MEC decidiu jogar solo. Duvido que dê certo”, disse Marisa.
O prêmio Andersen, criado em 1956 em homenagem ao escritor dinamarquês, é considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. Autores brasileiros já foram premiados três vezes: as escritoras Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000) e o escritor e ilustrador Roger Mello (2014).
Marisa comentou que “O jovem gigante”, da coleção do MEC, é “uma adaptação péssima de conto tradicional dos Grimm”. “Tudo muito antigo. Li os textos de fundamentação do projeto.É claro que todos achamos, com razão, que é legal os pais conversarem com os filhos e lerem com e para eles. Mas não creio que o material do MEC vai convencê-los a fazer isso. A classe social que me parece ser destinatária dos livros já sabe isso tudo”, disse Marisa.

Editora​

Marismar, a editora, reconheceu que Ricardo “realmente não é um autor conhecido, não tem muitas publicações” e que a ideia foi exatamente “dar uma oportunidade” porque a primeira história que ele escreveu “agradou ao MEC e a gente”. Segundo a editora, Ricardo é doutor em ciências. Na plataforma Lattes, ele aparece como doutor em ciência e cultura da história na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), com ênfase no tema ambiental, e mestre em história cultural.
“A gente fez testes. Vários autores não se encaixaram. Outros, sim. O Ricardo tem uma vasta bagagem para a escrita. Ele tem três cursos superiores, tem doutorado, hoje ele mora na Espanha. Então nós o selecionamos realmente pelo critério da escrita.”
A editora defendeu a decisão de não creditar os autores originais dos clássicos porque já seriam obras “de domínio público”. Ela considera as obras da coleção como “recontos, na verdade”. “Não é uma autoria, é um reconto do domínio público. Então você pode contar uma nova versão, uma nova roupagem, mas se a essência do conto se mantiver. Então quando foi feito o convite para a editora Cora fazer a produção mesmo da parte escrita, da ilustração, da organização, a gente selecionou alguns autores que tivessem o perfil e mantivessem a essência dos contos.”
Marismar disse que trabalha há 13 anos só com a editora. Ela é fonoaudióloga e professora há 27 anos. Sua editora, diz Marismar, já editou e lançou 98 publicações para o público infanto-juvenil antes da coleção do MEC, muitas dos quais adotadas em escolas particulares e públicas.
Indagada se o texto final dos livros era de total controle do autor, Marismar explicou que não e que o MEC faz revisões ao longo do processo, que passaram pela ortografia e estrutura dos textos e também pelo conteúdo da história. “É feita [no MEC] a revisão tanto da parte de português, de ortografia quanto a estrutura gramatical mesmo da narrativa. Então vários textos voltaram e a gente teve que adaptar uma roupagem realmente para ficar mesmo quase que um padrão de todos os contos. Porque como são quatro autores, nem todos escrevem da mesma forma.”
E sobre as alterações nas versões originais, como a ideia de criar uma mãe boazinha em João e Maria? “O texto foi livre, mas o que levar para a primeira infância, quem iria ler junto com as crianças, o próprio pai... Não foi uma coisa imposta, mas eles [MEC] pediram uma leveza na questão do texto. Então a gente optou por não colocar [certas passagens]. Por exemplo, tem conto de fadas que tem estupro. A gente não ia colocar isso numa história. Nem contamos essa história.”

Platitudes​

A coleção é apresentada pelo MEC como peça de um plano mais amplo que batizou de “Literacia Familiar”. Nos textos que acompanham a coleção na internet, o MEC diz que o conceito significa “interagir, conversar e ler em voz alta com seus filhos. É estimulá-los a desenvolver, por meio de estratégias simples e divertidas, quatro habilidade fundamentais: ouvir, falar, ler e escrever!” Segundo o MEC, “não é preciso ter muito estudo, materiais caros bem morar em uma casa toda equipada e espaçosa para praticar a Literacia Familiar. Ela é acessível a todos! Bastam duas coisas: você e seu filho!”
O doutor em filosofia pela USP, pesquisador e consultor José Castilho Marques Neto foi o secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, vinculado aos ministérios da Cultura e da Educação, de 2006 a 2011 e de 2013 a 2016. Ele disse que o termo literacia vem do inglês “literacy” e depois foi adotado por Portugal.
“Literacia, para os portugueses — é o que está no plano nacional de leitura de Portugal —, se refere à pessoa que adquire a capacidade plena de compreensão de um texto. É quando o leitor entende o que o autor quer dizer, consegue refletir sobre o texto e ao mesmo tempo ter ideias próprias a partir do diálogo com o texto. Isso é uma pessoa que domina literacia. No Brasil se chamaria leitor pleno, absoluto.”
Citando uma pesquisa de 2018, Castilho disse que no Brasil só 12% dos leitores são considerados plenos, ou seja, 88% da população brasileira tem algum nível de analfabetismo funcional. Segundo o professor, o problema é que o pacote Conta Pra Mim, tal qual apresentado pelo MEC, e levando em conta o público-alvo declarado, dificilmente atingirá seus propósitos.
Ao final de cada livro, o MEC apresenta um decálogo da “Literacia Familiar” dirigido aos pais, mandamentos do tipo “valorize e respeite o que o seu filho tem a dizer”, “leia em voz alta para seu filho”, “leia e escreva diante de seu filho” e “dê livros de presente para seu filho”.
“Essas platitudes valem para uma família de classe média alta, talvez dos EUA. Por exemplo, ‘trate seu filho com muito amor e carinho’. Sabemos os altos índices de violência familiar no Brasil. Essa é a realidade brasileira. Pedir isso a um pai não quer dizer absolutamente nada. Outro ponto é a impossibilidade financeira, como a orientação de comprar livros para crianças. Ou mesmo ler e escrever diante de seu filho. A maior parte das famílias simplesmente não consegue. É apresentado um país de fantasia desde a infância. A maior parte dos ‘mandamentos’ é fantasiosa, fora da realidade. Pode ser encarada como cinismo. É uma solicitação cínica, já que o próprio Estado não provê as devidas condições para que os pais possam de fato chegar em casa e encontrar as crianças que, durante o dia, já foram à escola em tempo integral.”
Castilho lamenta que o MEC tenha desconsiderado, “jogado no lixo”, a ampla tradição brasileira no tema da literatura infantil, com autores premiados, centros de estudos e crítica acadêmica.
“Nunca faltou ao MEC um investimento significativo nessa área. Não falo nem dos últimos governos de Lula e Dilma, falo desde lá atrás, desde o Sarney [1985-1990]. Nos últimos 30 anos, nunca faltaram recursos e grandes compras. O MEC era responsável por 40% de todo o faturamento editorial brasileiro.”
Os planos nacionais de livro e leitura do governo, segundo Castilho, eram definidos após estudos que levavam em conta aspectos regionais, a dimensão territorial, a biodiversidade do país. “Presenciei inúmeras vezes iniciativas do ministério de fazer amplas consultas às várias correntes da literatura infantil, o ministério sempre se preocupou em escutar essas pessoas. A consulta se baseava também em comissões que selecionavam os livros a partir, muitas vezes, de reivindicações de professores da rede de ensino e de pessoas altamente gabaritadas nas universidades públicas.”
Sobre as histórias da coleção, Castilho também chamou a atenção para a qualidade das ilustrações, quase todas feitas por uma mesma profissional: “Primárias, que reproduzem vestimentas, gestos e traços que não são da maioria do povo brasileiro”.
“A literatura infantil é texto e ilustração. Tanto que há muito tempo os ilustradores são reconhecidos como autores também. Na leitura infantil daquele ser humano que está começando a entrar em contato com o livro, seja ele digital ou não, a ilustração diz tanto para ele quanto o texto. Muitas vezes a conectividade entre o texto e ilustração é que completa o processo de cognição infantil. A ilustração não é apenas deixar a página bonita, ou chamar a atenção. Muitas vezes a ilustração carrega um ‘texto’ que não é escrito. O [livro] Flicts, de Ziraldo, faz isso magistralmente, a história de uma cor.”

‘Mensagem moral’​

A mestre em crítica literária pela PUC de São Paulo Cristiane Tavares, doutoranda em educação na Unifesp e coordenadora do curso de pós-graduação em literatura para crianças e jovens do Instituto Vera Cruz e do Programa Myra, concorda que a Política Nacional de Alfabetização lançada pelo governo Bolsonaro em 2019, da qual a coleção Conta Pra Mim faz parte, “desconsidera décadas de pesquisas de excelência sobre alfabetização realizadas pelas universidades brasileiras, optando por um retrocesso à visões ultrapassadas sobre o modo como as crianças aprendem a ler e a escrever e revelando concepções restritas e bastante questionáveis sobre infância, educação e literatura”.
A especialista salientou que o secretário Carlos Nadalim “tem como uma de suas principais bandeiras (e também de seus negócios) o ensino domiciliar, ou homeschooling, uma proposta polêmica que dá amparo legal às famílias que desejam educar seus filhos em casa, sem garantir-lhes a escolarização”. Antes de assumir o cargo, em fevereiro de 2019, Nadalim era coordenador pedagógico da escola Mundo do Balão Mágico, em Londrina (PR). Foi cofundador do blog Como educar seus filhos, no qual publica “vídeos, entrevistas e artigos com dicas para os pais sobre educação infantil, especialmente no tocante à alfabetização familiar”. Afirma ter ajudado, “pela internet, 1.630 pais e mães a alfabetizarem seus filhos em casa”.
“A promoção da literacia familiar como objetivo principal da coleção Conta Pra Mim tem, por trás, essa perigosa concepção que caminha no sentido de mais uma supressão de direitos básicos previstos na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases, como o acesso à Educação e a valorização da escola como espaço privilegiado de construção de conhecimentos”, disse Cristiane.
A pesquisadora também lamentou o conteúdo e a apresentação dos livros. “A coleção contém, em sua maioria, narrativas com uma mensagem moral explícita, como versões adaptadas e reduzidas de fábulas e contos de fadas clássicos. Isso se explica, dentre outras razões, pela visão estreita que todo o Programa revela acerca do processo de alfabetização e do pouco ou nenhum valor dado à importância do contato da criança com a linguagem escrita literária, em sua composição ética e estética.”
Cristiane cita o “Guia de Literacia Familiar”, destinado às famílias, que afirma, à página 20, que “as histórias infantis tendem a transmitir uma mensagem positiva, apresentando o valor das virtudes, dando conselhos ou ensinando regras de boa conduta. Essa habilidade permite entender que Chapeuzinho Vermelho não deveria conversar com estranhos; que Cachinhos Dourados não deveria entrar na casa dos outros sem ser convidada; e que Pedro não deveria mentir sobre o lobo”.
Para Cristiane, reduzir a literatura infantil a esse pensamento também limita “as experiências leitoras proporcionadas às crianças”.
“A função da literatura não é moralizar ou ditar normas de conduta. Muitos contos de fadas, inclusive, não correspondem às características descritas neste trecho do Guia. Há personagens perversos, maldosos, há traição e abandono, há a vida em toda a sua complexidade real e simbólica nestas histórias e esse é um aspecto que em muito favorece a percepção e a reelaboração das crianças, como já apontaram inúmeros pesquisadores do gênero (Bruno Betelheim, por exemplo). Falta no material diversidade de gêneros literários. Há, inclusive, livros que mais se assemelham às antigas cartilhas escolares, com palavras correspondendo às imagens, sem sequer chegar a compor um texto.”

MEC se pronuncia​

Em nota à Quatro Cinco Um, o MEC defendeu sua coleção. “As histórias foram escolhidas por serem clássicos universais da literatura infantil. São histórias que boa parte da população conhece, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Isso diz muito sobre a qualidade delas. O MEC entende que todas as crianças brasileiras têm o direito de conhecer as grandes obras de arte imortais da história da humanidade. Além disso, coleção Conta Pra Mim traz livros de folclore brasileiro; livros de fábulas; cantigas populares brasileiras; quadrinhas; parlendas; trava línguas e poemas de Olavo Bilac e de Francisca Júlia.”
Segundo o ministério, “a escolha dos títulos e temas foi feita visando abarcar os diferentes subgêneros literários (poesia, fábulas, folclore brasileiro, contos de fadas), bem como títulos com diferentes graus de complexidades (livros apenas com imagens, livros para bebês, etc.)”. “Como o programa tem como objetivo sensibilizar toda a sociedade quanto à importância de se cultivar a leitura em família, foi fundamental escolher títulos e temas que refletissem o interesse literário das diferentes faixas etárias.”
José Castilho discorda e diz jamais deixaria seus filhos lerem os livros da coleção Conta Pra Mim.
“De maneira alguma. Tenho sobrinhos-netos e tenho uma neta a caminho. Em janeiro, quando fiz um primeiro podcast falando sobre essa coleção, passei um Whatsapp para todo mundo [família e amigos]. ‘Fiquem longe dela e não deixem seus filhos chegar perto.’ Não tem nenhum sentido isso. Não é uma perfumaria. É como pegar uma criança e enchê-la de balas e chocolates todos os dias. É o mesmo efeito. Colocar para uma criança uma aberração dessas? Não deve mesmo.”

Rubens Valente, repórter desde 1989, é autor de Os fuzis e as flechas – história de sangue e resistência indígena na ditadura (Companhia das Letras, 2017) e Operação banqueiro (Geração Editorial, 2014).



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É importante dizer que não acho a proposta de ler com o filho inválida, inclusive já tem pesquisa que comprova que o contato com livros desde a primeira infância ajuda na formação de leitores. E aí é que vem o primeiro alarme: tem muita pesquisa aqui no Brasil sobre formação de leitores, e o documento elaborado não cita um pesquisador nacional sequer.

Isso para não falar que a ideia é basicamente uma cópia do Leia para uma criança do Itaú, que existe há 10 anos. A sensação que dá é que é muito mais pela ideologia (garantir que os livros distribuídos sejam totalmente bowdlerizados, como contam as reportagens), tentando se passar como proposta de formação de leitores.
 

Reverendo

Usuário
Eu realmente estou perdendo a paciência.
Logo logo vão querer que, numa versão politicamente correta do Gênese, Abel tenha morrido num lamentável acidente, em vez de assassinado pelo irmão.
 

Mavericco

I am fire and air.
Eu acho sintomático que a palavra "cancelamento" seja jogada no título e depois, no texto em si, só no finalzinho, na fala de alguém. A impressão que eu tenho é que a palavra virou um troço vago que dá nome a uma enormidade de coisas.

Vamos por partes. Que cancelamento, exatamente, existe dos contos de fadas? A narrativa que é dada no início do texto é que estão adaptando e tirando partes supostamente incômodas. Isso é cancelar?

Adaptações fazem parte da história do gênero. O próprio texto relata que muitos desses contos eram originalmente histórias para adultos. A gente pode questionar o tipo de adaptação que é feita - mas a adaptação em si; ela é cancelamento?

Vou até além: isso é deturpar o conto de fadas? Eu acho que não. Se não existe original do conto de fadas, já que o gênero manipula histórias que são por definições adaptáveis, recontáveis - assim como a mitologia antiga -, então, por definição, não tem como você deturpar. É só um jeito diferente de contar uma história.
 

Neoghoster Akira

Brandebuque
Não me admira a estranheza. Vale lembrar que na época em que o conceito de adaptação funcionava redondinho a onda de cancelamento não havia começado a tomar forma nos nichos da modernidade líquida e do pós-moderno. E eu não me surpreenderia, se for um conceito tipo buraco negro, que vai agarrando tudo pelo caminho (uma espécie de grande atrator) ele pode vir a usar a adaptação como um sapato ou um par de meias.
 

Finarfin

Usuário
Fico imaginando o que esse pessoal acharia do Struwwelpeter, um livro "educativo" alemão, bastante peculiar.
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Por exemplo, temos a história da Paulinha, que, desobedecendo seus pais quando estes estavam ausentes, foi brincar com fósforos. O resultado fica claro nas ilustrações:
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