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Númenor, Elendil e viagens no tempo - parte I

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    Observar a evolução da lenda de Númenor nos escritos de Tolkien pode revelar muitas coisas interessantes e insuspeitas. E, principalmente, faz o leitor lamentar o fato de que o velho Professor deixou incompletas duas obras fantásticas, intimamente relacionadas, que tratam do reino dos Dúnedain: The Lost Road [A Estrada Perdida], de 1937, e The Notion Club Papers [As palestras do Clube Notion], datado provavelmente de 1946 ou 1947. Além de terem em comum a temática numenoreana, esses dois livros inacabados trazem à baila, de forma bastante incomum, o batidíssimo motivo da Viagem no Tempo, típico da ficção científica, mas retrabalhado à instigante maneira tolkieniana.

    The Lost Road foi publicado no quinto livro da série The History of Middle-earth, que leva seu nome. Aparentemente, a idéia para escrever o livro partiu de uma série de conversas entre Tolkien e seu grande amigo de Oxford, C.S. Lewis. Eles decidiram que C.S. Lewis iria tentar escrever uma história de viagem espacial - que se transformou no livro Out of the Silent Planet - enquanto Tolkien iria se concentrar em viagem no tempo: o nunca completado The Lost Road.

    A narrativa, que chegou a ter quatro capítulos escritos antes de ser enviada à editora Allen & Unwin [e rejeitada para publicação], está lotada de elementos autobiográficos. O personagem central, Alboin Errol, filho do professor Oswin Errol, é um adolescente apaixonado por arqueologia, mitologia e pelas línguas antigas do norte da Europa. Seu nome é o mesmo de um lendário príncipe dos lombardos, e significa "amigo-dos-elfos". Alboin tem um hobby um tanto estranho: a criação de línguas. Eu disse criação? Não exatamente: em seus sonhos, Alboin escuta estranhos fragmentos de línguas desconhecidas, que ele tenta "registrar" quando acorda. Duas línguas, em especial, dominam as noites do garoto: o eressëano e o beleriândico. Adivinhou? Isso mesmo: o quenya e o sindarin. E, junto com esses sonhos lingüísticos, ele é perseguido por um nome - Númenor - e uma imagem ameaçadora: terríveis nuvens em forma de aves avançando do Oceano, ameaçando a terra - as "Águias dos Senhores do Oeste".

    Ao mesmo tempo, Alboin começa a "ouvir" fragmentos de poemas e canções em seus sonhos, alguns em línguas "reais" como o anglo-saxão, com um tema recorrente, resumido na frase: "uma estrada reta havia para o Oeste, e agora ela está curvada", e estranhas alusões à Ilha Solitária dos Elfos e à Terra dos Deuses. Alboin cresce, forma-se em história em Oxford e perde o pai; logo depois, casa-se, tem um filho chamado Audoin e fica viúvo. O desenvolvimento do eressëano e do beleriândico não pára, mas mesmo assim uma inquietação persegue Alboin; um desejo que ele identifica com um incontrolável anseio por voltar no tempo:

    "Considerando os últimos trinta anos, ele sentia que [...] seu estado de espírito mais permanente, embora muitas vezes encoberto ou suprimido, tinha sido desde a infância o desejo de voltar. De caminhar no Tempo, talvez, como os homens caminham em estradas compridas; ou de observá-lo, como os homens podem ver o mundo do alto de uma montanha. [...] Mas, de qualquer maneira, desejava ver com seus olhos e escutar com seus ouvidos: ver o aspecto de terras antigas ou mesmo esquecidas, contemplar homens antigos caminhando, e ouvir suas línguas da maneira que eles as falavam, nos dias antes dos dias, quando línguas de linhagem esquecida eram ouvidas em reinos há muito desaparecidos nas costas do Atlântico".

    Audoin, que recebera esse nome em homenagem ao pai do príncipe lombardo Alboin, revela ter interesses muito semelhantes aos de seu pai, mas com a diferença importante de pensar mais por imagens, ao invés de elementos lingüísticos como Alboin. Este pensa em revelar ao filho as línguas que estava criando ou "descobrindo", quando tem um sonho especialmente perturbador. Nele, um fragmento de eressëano parece descrever uma terrível catástrofe: os numenoreanos teriam caído sob uma sombra malévola, feito guerra aos Poderes e Númenor, como conseqüência, teria submergido no Oceano.

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    Enquanto tenta decifrar o verdadeiro sentido do fragmento eressëano, o desejo por voltar no tempo toma cada vez mais conta de Alboin. Ele deseja uma máquina do tempo, mas tem certeza de que "o tempo não pode ser conquistado por máquinas". Ele sente mais uma vez a ameaça das Águias dos Senhores do Oeste sobre Númenor, e adormece. E, no sonho, vem a resposta. Uma figura alta e sombria, que recordava a Alboin seu pai, surge e lhe fala:

    "Estou com você. Eu era de Númenor, o pai de muitos pais antes de você. Sou Elendil, que em eressëano é "amigo-dos-elfos", e muitos foram chamados assim desde então. Você pode ter seu desejo".

    Elendil oferece a Alboin a possibilidade de voltar no tempo, e contemplar aquilo que ele mais desejava e mais temia, com a condição de que ele levasse Audoin consigo. Mas adverte-o de que, uma vez no passado, os dois estarão no mesmo estado de suas vidas presentes, e sujeitos ao perigo e à morte. Alboin passa por um terrível momento de indecisão, mas decide aceitar a viagem. E pai e filho se vêem em Númenor, na pele de Elendil e seu filho Herendil [os dois nomes são traduções de Alboin e Audoin, respectivamente], tendo que enfrentar a Sombra de Sauron sobre Ponente.

    A narrativa de The Lost Road pára exatamente no momento em que Elendil explica a seu filho a verdadeira natureza e intenções de Sauron, e os dois decidem lutar contra o servo de Morgoth. Mas, ao que parece, Tolkien pretendia que a estrutura do livro fosse mais complexa: voltando progressivamente no tempo, pai e filho iriam se identificar com Aelfwine e Eadwine na Inglaterra saxã do século IX; com os lombardos Alboin e Audoin na Itália do século VI; e assim sucessivamente, passando por camadas cada vez mais profundas das lendas e mitos do noroeste da Europa, até chegarem a Númenor. Em cada episódio, um deles deveria pronunciar as terríveis palavras: "Eis as Águias dos Senhores do Oeste vindo sobre Númenor!". Infelizmente [ou felizmente, considerando que todo o desenvolvimento da lenda de Númenor teria tomado outro rumo], Tolkien jamais passou dos rascunhos para a conclusão da história.

    Parte II - Veja como as idéias presentes em The Lost Road evoluíram de forma surpreendente e geraram The Notion Club Papers, outra intrigante obra inacaba de Tolkien!
     

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