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Um Estranho na Ilha - Parte II

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Espanhol, 28 Jun 2011.

  1. Olá pessoal,

    Estou postando a 2ª parte do conto, com alguns (meses) de atraso :vergonha:. Confesso que passei um bom tempo pensando na solução do problema central da história, até encontrar uma solução.

    A segunda parte ficou comprida, então a dividi em duas partes. Críticas serão bem vindas como sempre.

    Boa leitura,
    Espanhol

    * * *

    Dois dias tinham se passado desde o encontro com Larson e estava na hora de Carlos prestar contas ao vilarejo. A atuação da polícia foi eficiente, como sempre: uma breve busca, algumas perguntas e Pedro considerado desaparecido. Pensando no bem estar da polícia, Carlos omitiu a parte da planta gigante e transformou Larson num seqüestrador.

    Naquele ponto, o vilarejo sabia dos fatos, mas preferiu assistir tudo de longe esperando sua vez. Quando alguém era assassinado, o problema era resolvido dentro de casa. Essa era a lei.

    - Confiamos em você, Carlos – disse Ruy forçando uma expressão severa.

    - Recebemos você e seu avô quando não tinham nada além da roupa do corpo... e ainda fizemos de você nosso líder!

    Sussurros de concordância ecoaram por um salão utilizado pelo vilarejo para discutir medidas em tempos de crise. No entanto, não haveria discussão: as cadeiras organizadas em duas fileiras, com Ruy sentado numa mesa de ponta lembravam um tribunal improvisado. E Carlos seria o réu.

    Ele virou a cabeça para trás e deparou com todos da vila, incluindo Zé Peixe, tia Júlia e Rita (sua mulher). Do burburinho, havia uma mistura de expressões de raiva e curiosidade.

    A raiva crescia na fileira da tia Júlia. E havia uma razão: Pedro, seu sobrinho, estava morto... E de quem era a culpa? Perguntava tia Júlia para sua platéia: – Do merdinha do Carlos! Ralhava ela.

    A curiosidade vinha da fileira da Rita e Zé Peixe. De lá, as perguntas multiplicavam-se: O que raios Carlos foi fazer na Ilha do Farol? Quem é Larson? O que o hippie quer com uma vila de pescadores de fim de mundo?

    Do Ruy, vinha a inveja e a reprovação. E não poderia ser diferente, refletiu Carlos. Ruy era um homem experiente e respeitado na vila, mas a forma violenta como resolvia os problemas o impedia de ser líder. Se estivesse no lugar do velho, reprovaria Carlos a ponto de desacreditá-lo e assumir seu lugar.

    Se isso acontecer, pensou Carlos, Ruy lideraria o vilarejo num ataque frontal contra Larson. E terminaria em massacre.
    Não, Ruy,
    - disse Carlos sentindo o sangue pressionar as veias da cabeça - você pode me humilhar na frente de todos, pode me espancar aqui. Mas pela honra do meu avô, Ruy, não vou deixar essas pessoas morrerem.

    Após silenciar o burburinho, Ruy voltou para o réu:

    - Carlos, meu filho, conta pra gente essa história direito... cê falou de uma cabana que ninguém aqui nunca viu, e depois encontrou um hippie cheirador de pó na praia - disse aumentando o tom incrédulo da voz - com uma planta gigante!

    - Planta essa que matou meu sobrinho, não é? Disse tia Júlia apoiada pelos olhares inquisidores da sua fila.

    - Ele não é um hippie! Defendeu-se Carlos percebendo o olhar de satisfação do Ruy – o nome dele é Larson. Como falei diversas vezes, o homem é um satanista e nos quer fora da vila!

    - Uai – disse Ruy repousando as mãos na mesa – e por que esse homem quer a nossa vila? Por acaso a gente mora encima de poço de petróleo?

    Carlos ouviu gargalhadas e sorriu nos seus pensamentos: Raposa velha, se festeja na carne seca que ainda lhe pego...

    O réu levantou e aproximou-se da seção dos curiosos.

    - Eu não me importo com o que cês vão fazer do meu destino, mas lhes digo que o satanista não é desse mundo...

    Fez uma pausa medindo as expressões - ainda havia muitas dúvidas.

    - Mas em último caso, a decisão é de vocês – completou - se quiserem enfrentar Larson, podem ir, mas sugiro de irem bem armados e em grande número - disse caminhando na direção de Zé-Peixe.

    - Pra não terminar como meu amigo. - disse levantando a camiseta de Zé: o torso mostrava marcas profundas de perfurações e cortes. – Vocês acham que um bando de caranguejos pode fazer isso sem interferência do demônio? - Gritou.

    - Ou que uma planta gigante aparece nos nossos quintais todos os dias? Perguntou Rita fitando Carlos com expressão de quem entendeu o que estava em jogo.

    - Não é tia Júlia? Repetiu a pergunta.

    - E daí? Isso não justifica o Carlos ter levado Pedro sem avisar ninguém daqui. Se desconfiava de alguma coisa tinha que convocar uma reunião! Essa é a lei! Ralhou.

    - Resolver o assunto sozinho não é atitude de líder, Carlos... – falou Ruy - por isso somos uma comunidade. A polícia caga e anda pra nós. O que fizeram quando não encontraram o corpo de Pedro? Deram o coitado por desaparecido!

    - Por isso, Carlos, cê ainda não incorporou o espírito daqui, apesar dos anos todos que vive na vila. Não somos nada sozinhos, se tem problema, todo mundo vai pensar e arregaçar as mangas juntos e...

    E nada raposa velha, por que lhe peguei onde queria.

    - Corta o discurso de botequim, seu Ruy... – interrompeu Carlos.

    - Eu sei que cê gosta de resolver as coisas na peixeira. Pensa que ninguém aqui sabe da surra que cê e mais três deram nos hippies no ano passado? Não fui eleito líder por acaso, caboclo...

    - Mas como pescador é uma mula da cabeça dura, vou lhes repetir os dizeres do satanista para que saibam com quem estão lidando:

    Você tem três semanas, Sr. Bertoldi. Três. - sussurrou Carlos para a platéia, com a mesma voz rouca que Larson lhe sussurrou nos ouvidos, na praia. E continuou: – Pensa que não sei por onde andou seu putinho. Tava fuçando minha cabana. Mexendo nas minhas coisas. O que achou de lá? Confortável? – disse aproximando-se da tia Júlia – Eu sei de muitas coisas, Sr. Bertoldi. Sei que é casado. Rita é o nome dela, não é? Sei também que você lidera esse vilarejo de pescadores.

    Carlos fez uma pausa fixando-se na tia Júlia (a essa altura encolhida na cadeira).

    “Eu quero seu vilarejo desocupado em três semanas. Não sei como vai fazer isso. Mas se falhar, minhas plantas vão ter carne de pescador o ano inteiro. Vão sim.”

    - Esse é o homem que quer destruir a nossa vila. Agora me digam...

    Vocês querem mesmo enfrentar Larson?

    O tribunal ficou em silêncio.

    - Como líder, quero uma última chance pra provar que posso lidar com esse satanista e recuperar minha honra.

    Ruy suspirou.

    - Eu não acredito em coisas fantásticas. Nosso negócio aqui é pé no chão, por isso sobrevivemos tantos anos aqui. Pra mim, esse Larson é um hippie que cheirou muito e matou Pedro. Mas não sou eu quem decide as coisas por aqui. Que a vila decida seu destino.

    E assim veio a sentença: Carlos conseguiu o prazo de uma semana para cuidar de Larson. Se falhasse, seria expulso da vila.

    Na prática, no entanto, ele sabia que se falhasse não seria expulso...

    Seria morto.

    * * *

    Quando Carlos abriu a porta de casa, Rita tomou-lhe a frente e disse:

    – Vamos conversar, Sr. Bertoldi.

    - Na cozinha.

    Carlos retardou o passo quando ouviu “na cozinha”- entre ele e Rita, era um código que significava longas horas de discussão, berros, e toda sorte de desentendimentos que poderia haver entre o casal.

    - Bela encenação – disse Rita enquanto enchia o bule com água – Você se saiu muito bem hoje: se livrou da toda ajuda que tinha, e agora vai ter de enfrentar aquele lunático sozinho.

    - Mas era isso que você queria, não é? Disse virando para Carlos.

    - Não vou mais arriscar a vida de ninguém – respondeu ele enquanto assistia a noite cair pela janela.

    Rita franziu a testa – Ah sim. Esqueci do Super Carlos e seus super-poderes. Não vai me dizer também que é o líder da vila? Das suas responsabilidade e blá blá blá?

    Carlos contemplava a paisagem fora como se pudesse alcançar a cabana de Larson. Gostaria de descobrir o que os pequenos olhos estavam planejando.

    - Olhe para mim enquanto estiver falando, seu Carlos!

    - Sim, mulher, sim. Disse Carlos afastando-se da janela - Lhe digo que sou o líder da vila e todo o blá blá blá que você conhece.

    - E lhe digo mais, vou fazer o que deveria ter feito: vou pegar a pistola do avô e dar cabo no caboclo. Simples assim.

    - Como você pretende enfrentar aquela criatura sozinho? disse aproximando-se de Carlos, com os olhos vermelhos – ou esqueceu do que Ele fez com o Pedro?

    Carlos engoliu a seco. A morte de Pedro se perdeu nas suas memórias com as discussões no “tribunal”, mas a lembrança estava viva e pronta para apertar seu coração contra o peito assim que escutasse o nome do amigo. Pedro o ingênuo, Pedro o amigo leal, o... morto.

    Carlos ficou em silêncio.

    - Simples assim, não é? Continuou Rita enquanto limpava as lágrimas – Você realmente acredita que a arma do avô vai dar cabo naquela coisa! – Disse com a voz trêmula.

    Carlos tinha, de fato, esquecido dos eventos passados: dos pequenos olhos, das criaturas servis massacrando a vila. O colt do avô não seria páreo para Larson e suas plantas carnívoras.

    - E o que você sugere, mulher?

    Rita relaxou os músculos da face e sorriu como uma menina:

    - Podemos discutir isso fora daqui.

    Os dois foram para a varanda. Carlos escutou o rádio do vizinho anunciar o programa mais popular daquelas bandas, a voz afetada do apresentador conclamava a todos os corações partidos que tentassem a sorte no My Lost Love.

    - Liga o rádio, mulher. Eu não consigo pensar com esse histérico gritando no meu ouvido.

    - Ai, Carlos! É um programa tão lindo... - disse ela sintonizando uma canção de Dire Straits.

    Carlos sorriu: - Com essa música eu posso ter uma iluminação.

    - Vamos voltar aonde paramos, seu Bertoldi: Se me lembro da história. Vocês vasculharam o quarto do lunático, não foi?

    - Foi sim.

    - E lá não tinha alguma coisa fora do lugar?

    - Como assim, fora do lugar?

    - Um ponto fraco...

    Carlos endireitou a coluna. Se o assunto era sobre ponto fraco, sua mulher era uma especialista. Definitivamente.

    - Sim, homem! Todo mundo tem... O seu, por exemplo, é a cozinha – disse espremendo os lábios para conter a risada.

    Carlos ignorou a brincadeira e percorreu a cabana de Larson. Se houve algo de incomum por lá, que não fosse vil ou estranho, ele imaginou; seria um sorriso generoso, de um bon vivant.

    - De Roberto Lamp – disse ele.

    Bertoldi explicou à Rita sobre o desenho de Lamp, a data (18 de Abril) e da dificuldade dele e de Pedro encaixaram Lamp no esquema de Larson.

    - De fato, Lamp parece algo fora do comum... – ponderou Rita - Mas o que o desenho dele fazia por lá?

    - Não tenho idéia.

    - Estamos sem opções – disse ela - Sem polícia, sem a vila... Vamos ter que fugir...

    Fugir não era uma opção para Carlos. Não podia abandonar o vilarejo.

    - Vamos atrás de Lamp. Ele deve ter respostas para essa loucura.

    Nos dias seguintes, o casal começou a busca pelo Roberto. Não seria fácil. Carlos acreditava que Roberto estaria em algum lugar próximo da vila - Senão, qual o sentido daquele desenho nas coisas do Larson? Perguntava-se. Começaram pela internet e a lista telefônica. Nada de Roberto. Pediram ajuda aos serviços públicos de informações: cartórios, prefeituras e delegacias de polícia das cidades vizinhas. Nada de Lamp. Perguntaram a conhecidos, frentistas, garçonetes. Nada do bon vivant.

    E os dias se passaram lentamente. Quando partiam para mais uma cidade, Carlos e Rita cruzavam com rostos conhecidos na vila; a princípio com ar de esperança, depois, desconfiança, e por fim, de vingança. Eles queriam Larson morto, de qualquer forma, e Carlos sabia que Ruy estava nos bastidores cultivando o desejo de vingança da vila, dia-a-dia, diligentemente.

    A um dia do confronto, Carlos e Rita estavam deitados na rede de descanso, na varanda de casa. Prestavam atenção à música que vinha da casa vizinha.

    Os dias anteriores tinham sido duros. E sem resultados. Era como se Lamp fosse um personagem de ficção criado por Larson. Carlos sentiu os músculos cansados caírem sobre a rede como pedras. Rita estava aninhada, ao seu lado.

    - Você não pode ficar, Rita.

    Ela continuou imóvel – Lá vem o Super Carlos...

    - É sério, mulher. Você sabe o que vai acontecer amanhã?

    Ela virou a cabeça para Carlos, e disse sem emoção:

    - Sim, eu sei. O Ruy vai reunir seus amigos e fazer uma incursão na ilha. Lá eles serão mortos, um a um. E depois... – Rita vacilou.

    - Depois ele vem te buscar. Ou não se lembra do que Ele disse a mim? Ele vem te buscar, Rita, porque sabe que você é meu ponto fraco.

    Ela sentou-se na rede, com o olhar perdido na praia. - E claro... você com seus super...

    - Dessa vez não vai funcionar. Você sai daqui amanhã.

    - Não! – protestou ela - Não podemos desistir...

    Carlos segurou a respiração e fechou os olhos. Como havia chegado naquele ponto? Pensou se terminaria como Pedro, no estômago da planta trituradora enquanto Larson o assistia com seu sorriso cínico: Eu o avisei, Sr. Bertoldi!

    Carlos silenciou sua mente. Era melhor assim. “Quando se pensa muito” lhe ensinava o avô, “as soluções passam na frente do nosso nariz”.
    Sem dizer nada, ele abraçou Rita. E assim permaneceram por um tempo, entregues ao silêncio. Um leve murmurinho chegou aos ouvidos do Carlos. Era de novo a rádio do vizinho. E de novo a gritaria do My Lost Love: “Babyyy!”, esperneava Marcos J., “não perca as esperanças... Se seu love estiver longe, encontraremos ele pra você. E se você não pegar ele... Eu o tomo de você!”

    “encontraremos ele pra você” pensou Carlos. Estava debaixo do meu nariz. Esse tempo todo, meu avô.

    Ele olhou Rita com um brilho característico. Não era necessário dizer nenhuma palavra. Ela sabia quando ele tinha uma idéia.

    * * *
     

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