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Santíssimo Trindade

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Jacques Austerlitz, 2 Jan 2011.

  1. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

    SANTÍSSIMO TRINDADE




    Ok. Não vem ninguém aqui essa manhã. A Maria tá cuidando da filha, e o Eduardo tá doente. Eu vou avisar na portaria que tive que fazer um trabalho externo. Eu teria que deixar o departamento fechado, de qualquer jeito. Meu trabalho não é atender o público. Meu trabalho é a manutenção do prédio. Vou comprar uma fiação. É, a sala duzentos e sete está com problema na fiação. Não, não, eles sempre entram lá. O laboratório. Pode ser. Talvez eu não precise dizer isso agora. Só se me perguntarem depois. Daí, sim, falo que era para a sala duzentos e sete. Ou pro laboratório.


    Ela me disse que ficava livre até as onze. Depois tinha que fazer o almoço. Ela me disse para aparecer. Vou ligar antes. Será que era sério? Vou ligar. Que horas são? Oito e trita e sete. Cheguei cedo hoje. Talvez o marido dela ainda esteja em casa. Ela me disse que horas ele sai? Não lembro. Acho que não. Mas disse que eu podia ir hoje de manhã. Eu falei para ela que chegava às nove. Vou ligar para ela só às nove. Vou sair e tomar um café. Outro. Com leite. Isso. Meu casaco? Na cadeira. Não. Detrás da porta. Isso. É isso.


    Passo. Passo. Passo.
    Degrau. Degrau. Degrau.
    Quase caí. Estabanado.


    Lá tá o Ramon. O Ramon é daqueles tipos muito estranhos. Tem aqueles cabelos encaracolados e os olhos vesgos. Gorducho e baixinho. E o filho da puta está fumando ali dentro da cabine, de novo.
    — Ô, Ramon. Tenho que ir no centro comprar uma fiação. A Maria e o Eduardo não vêm hoje de manhã, tu sabe, né? Pois é, o departamento vai ficar fechado. Não sei que horas eu volto. Mas acho que até o fim da manhã tô aí. Tenho que ir até a cidade, sabe como é, né? Ha-ha, meu pai que falava “ir à cidade”; é coisa antiga isso, né? Apaga esse cigarro antes que o Professor Rogério chegue, viu?
    Nem me respondeu. Ainda soltou fumacinha na minha cara. É brincadeira. Acho que eu devia ter ido no banheiro, arrumar o cabelo. Deve estar bom. Estou cheiroso, estou cheiroso.


    Padaria. Logo ali no fim da quadra.


    Tá cheia. Lembro de quando eles não serviam café da manhã; tava sempre vazia. Eu passava sempre aqui antes de ir pro serviço, comprava uns pães para mim e para as meninas lá do departamento. Agora sobrou só a Maria. E o Eduardo. Era bom. Sinto falta daqueles tempos. Sinto falta da Elisa. Acho que ela gostava de mim. Eu gostava dela.


    — Café com leite.
    — Um e cinquenta.
    — Ah, ok.
    — Paga no caixa.
    — Ok.


    Paguei no caixa. Nem me lembrava. O café daqui é bom. E não é caro.


    — Ei, amigo.
    É comigo? Acho que ele tá olhando para mim. Tá vindo para cá. Acho que é comigo. Eu não conheço ele.
    — Sim? — respondi.
    — Desculpa, mas eu olhei pra ti e tive quase certeza que te conheço.
    — Não, acho que não. Desculpa, eu realmente não lembro de ti.
    É um tipo meio atarracado. Não propriamente gordo, mas encorpado. Cabelos pretos, meio compridos. Cabelo de adolescente. Acho que tem uns quarenta, quarenta e cinco, no máximo. Um dos dentes da frente, de cima, tá meio quebrado. Não muito, mas dá uma impressão estranha.
    — O teu nome é...? — iniciou ele, fazendo aquelas expressões de quem tá tentando se lembrar de alguma coisa com todas as forças.
    — Romero. Romero Trindade.
    — Nome incomum. É, acho que eu me enganei. Não, não conheço nenhum Romero Trindade. Não que eu me lembre — falou ele. Olhou para o banquinho vazio ao meu lado. — Posso me sentar?
    Será que ele é gay?
    — Pode, pode. À vontade.
    Verdade que era o único banquinho vazio perto do balcão. E as mesinhas tavam todas cheias. Nossa, o lugar ficou grande para uma padaria. Embora não seja mais só uma padaria. Confeitaria. E cafeteria. Aproveitaram que a locadora do lado faliu pra ampliar o negócio. Gente de visão.
    — Café com leite?
    — Ah, é sim.
    — Prefiro puro. Me vê um café preto, por favor — ele pediu pro guri que atende no balcão.
    — Um pila.
    — Ok — e foi tirando o dinheiro.
    — Paga no caixa.
    — Tá bem.
    O guri deve passar o dia todo falando “paga no caixa”.


    O atarracado pagou e voltou.
    — Um cafezinho pra enfrentar o dia longo que vem pela frente, né? — falou ele.
    — Ah, sim. Sempre bom.


    Eu não tô lá muito interessado em conversar.
    — Trabalha por aqui?
    — Na universidade.
    — Ah, professor? — ele perguntou, com aquele tom de quem fala com um literato. A gente nota como as pessoas tratam diferente aqueles que elas julgam superiores, de alguma forma.
    — Não. Trabalho na manutenção. Prédio de Economia.
    — Oh, sim, sim.
    Gole de café. Pensativo.
    — Eu me chamo Márcio. Esqueci de me apresentar.
    Sorriso. Aperto de mão.
    Desapontado. Deve ser do tipo parasita, que gosta de estar com pessoas bem sucedidas, ou algo do tipo. A gente também nota quando a pessoa acha que tem motivo para se sentir superior. O tom muda. Ele não foi pedante, nada do tipo, mas a gente nota. A gente nota.
    — Não foi lá que um professor foi preso dia desses? — falou. — Assassinou uma velhinha ou algo parecido? Eu li no jornal. Deu até na tevê. Isso, né?
    — Não foi ele. Quero dizer, ele foi preso, sim, mas ele não matou. Foi o que eu quis dizer. Ele, sabe, não matou. Ele nem tava aqui quando aconteceu.
    — Foi o porteiro do prédio da velha?
    — Parece que foi. Tinha mais um cúmplice. Disseram que o Professor Jorge foi o mandante.
    — Jorge, isso! Jorge Viana. Tava tentando me lembrar do nome dele. Ele ficou com um apartamento da velha, né? Ela deixou pra ele, no testamento. E eles nem eram parentes. É motivo pra matar, se me perguntarem. Eu não. Mas as pessoas matam por um apartamento.
    — Matam mesmo. Até por menos.
    — Eu não transo violência — disse ele. — Isso não é comigo. Esse pessoal que entra no bar de peito estufado e falando grosso. Depois toma um tiro pelas costas e não sabe por quê. As pessoas não sabem ficar quietas nos seus cantos.
    Ele deve achar que é um adolescente dos anos setenta, com essas expressões.
    — Verdade. Não sabem mesmo.
    Melhor concordar. Esses tipos, quando são questionados, não param mais de falar. Conheço bem.
    — Verdade mesmo — continuou ele. Eu nem precisei dar corda. Ele parece até um pouco embriagado. — A verdade é que hoje em dia não tem mais mocinho. É tudo bandido. Agora é tudo bandido. Não tem um mocinho, só bandido. E eles tão por aí atrás de ti, querendo te pegar.
    Devem estar, mesmo. Ele parou de falar. Eu devo ter parecido antipático. Não sou do tipo expansivo mesmo, eu acho. Não daqueles que adoram falar sobre o que quer que seja. Não, não sou assim.


    — Comprei um vinho ontem — voltou a falar. Talvez só quisesse tomar um gole de café mais à vontade. — Vinho branco, sabe? Bom, bom. Agora tenho que comprar um peixe. Salmão. Salmonzinho. Eu gosto de comer um Salmonzinho. É bom, né?
    — É.
    — Salmãozinho com um vinho branco. É Salmão ou Salmon? Nunca sei.
    — Acho que é Salmão, mesmo.
    — Prefiro falar “Salmon”. Mais bonito. Acho que os dois tão certos.
    — Pode ser.
    Bebeu o restinho do café fazendo barulho.
    — Desculpa. Coisa de mal-educado. Minha mãe sempre falava pra não fazer barulho. Sorver o café fazendo barulho. Falta de educação. Ela falava isso sempre que tinha sopa. Tu gosta de Salmon, afinal?
    — Gosto. Gosto sim.
    Não me lembro de já ter comido Salmão nessa vida, mas deve ser bom. Eu gosto de peixe, afinal.
    — Bom, bom.


    Talvez eu compre Salmão pro fim de semana. Não, mês que vem. Esse mês tá apertado. Espero que a Cláudia saiba preparar alguma coisa com Salmão. Que horas são? Ah, oito e cinquenta e oito. Ainda. Ele tá se levantando. Bem na hora.


    — Bem, amigo, vou seguindo — levantou-se falando. — É preciso tocar a vida, sabe como é. Prazer.
    Estendeu a mão para um aperto. Retribuí, sem me levantar. Parece até mesmo simpático. Genuinamente simpático.
    — Até mais.


    Vou esperar nove e cinco pra ligar. Não quero parecer desesperado. Não, não. Falei que chegava às nove, ligo agora e digo que parei para tomar um café e lembrei dela. Isso. Vai parecer simpático. Onde eu botei o número dela? Bolso de trás, não. Esquerdo, também não. Direito, não. Perdi o número. Não, não, no bolso da camisa. Isso, isso, tá aqui.


    Vamos ver... hm, hm, hm, hm, hm-hm, hm, hm. Um toque, dois, três.
    — Alô.
    — É... Marta?
    — Quem é? Ele não reconheceu minha voz.
    — Romero.
    — Ah, sim, imaginei que fosse. Só perguntei pra confirmar.
    Com quantos será que ela marcou?
    — Sim, sim, sou eu mesmo. Parei pra tomar um cafezinho e pensei em te ligar. Tudo bem?
    — Tudo, tudo.
    — É, comigo tamb—
    — Vai vir?
    — Ã? É, é, pensei nisso também, sabe —
    — Vem ou não?
    — Eu... Vou, vou.
    — Ok, vou te esperar. Demora ainda?
    — Não, tô perto.
    — Te espero na varanda.
    — Ok, até.
    — Até.
    Desligou. Tô tremendo. Acho que nunca fiquei tão nervoso assim. Ou ao menos não desde que planejei convidar a Elisa para ir no cinema comigo, ver um filme romântico. Quando o filme terminasse, os créditos subissem e a música final começasse a tocar, eu levaria ela até um dos degraus do corredor que separa os dois lados dos grupos de cadeiras e dançaria com ela, enquanto as pessoas passavam por nós. E eu ia pedir que ela fingisse não saber dançar, para eu não ficar muito constrangido. Não tive oportunidade. Nem coragem. Ela tinha que ir pra casa.


    Passo. Passo. Passo.


    O prédio dela fica a duas quadras. Quase dá para ver, já. Será que eu tô bem? Não passei no banheiro de novo. Droga, devia ter ido.


    Lá tá ela, na varanda. Até que é bonita. Um pouco mais alta que a Cláudia. Um pouco mais gorda também.


    Chegando, chegando. Ela me viu. A porta de entrada tá abrindo.
    Não tem porteiro. Melhor assim. Qual é o número do apartamento mesmo? Hm, seiscentos e dois. Vou de elevador. Lá vou eu, lá vou eu.


    Primeiro. Segundo. Terceiro. Quarto. Quinto. Sexto. Aqui. Cheguei. Direita ou esquerda? Direita. Lá. A porta entreaberta.


    Passo. Passo. Passo.


    Vou entrando, é aqui mesmo.
    — Com licença, Marta? Marta?
    — No quarto.
    Tô tremendo de verdade. Nossa, a casa dela é meio desarrumada. Será que ela faz isso sempre?


    Corredor, quarto.


    — Eu, eu... — nossa, ela já tá pelada.
    — Deita aqui, gatão.
    Gatão. Hm. Deitando. Opa, opa, as tetas dela são molengas. Já tô de pau duro.


    Barulho de chaves. Porta abrindo. É na sala. Puta. Que. Pariu.
    — Meu marido! — disse ela, sem mexer os lábios e me empurrou.
    Ó meu Deus, ó meu Deus! Pra onde?
    — Onde? — murmurei.
    — Amor? — disse uma voz masculina, vinda da sala, seguido por um barulho de chaves sendo largadas sobre uma mesa.
    — Varanda! — murmurou ela, aflita. — Pega a tua roupa.


    Era o cara da padaria. Será que ele me viu aqui? Será que ele me viu entrar? Será que ele sabia? E ela, sabia? Talvez seja um fetiche, essa gente é doida. E se ele me pega aqui? Me dá um tiro e diz que eu tava assaltando a casa. E ela ia confirmar, claro. É o marido dela. Se eu morro, como é que eu ia me explicar lá em cima? E pior, se eu sobrevivo, o que eu ia dizer? Como eu ia explicar? Era horário de serviço e eu saindo para dar uma trepada. E em casa? Meu Deus, o que eu ia falar em casa? Puta merda, está ventando aqui. As pessoas devem estar me vendo. Nem vou olhar para baixo. Que ridículo que eu tô. Encolhido. De cueca. Na sacada do sexto andar.


    — Romero?
    Ahm? Será seguro sair?
    — Ele já foi?
    — Já.
    — Meu Deus, eu achei que eu fosse infartar.


    Degrau. Degrau. Degrau. Andar por andar.


    Eu devia ligar para a Elisa. Eu sinto saudade. Que idiotice pensar que essa Marta fosse igual à Elisa. Marta e Márcio. Bobagem. Queria aquele fim de tarde de volta, quando eu me sentei no chão e deitei minha cabeça nas coxas dela e ela acariciou os meus cabelos. Depois me disse, sorrindo, que tinha que ir. E voltou para casa. Voltou para o marido. Verdade que os bons momentos não duram muito. Verdade que o que se foi não volta mais.


    Passo. Passo. Passo.


    Vou passar no Mercado. Comprar um Salmão.
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Assisti um filme recentemente, After Hours. O cara sai pra um trepada e se fode. Só um cara normal, burocrata de escritório da mais baixa hieraquia tentando se divertir.

    Quando comecei a ler pensei que cada parágrafo fosse de uma personagem diferente. Estranho isso.

    Os pensamentos depois das falas me lembrou na hora Todo Mundo Odeia o Chris.

    Ah! Vou deixar de comentar contos alheios e vou ali comprar Salmon. Sálmon? Salmón? Qual é mais chique?
     
  3. Jacques Austerlitz

    Jacques Austerlitz (Rodrigo)

    O conto é livremente inspirado em um personagem real com quem eu convivi quando trabalhava na UFRGS.

    Usei os espaços duplos entre os parágrafos só pra marcar que passou tempo.
     

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