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Númenor, Elendil e viagens no tempo - parte II

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    O abandono da narrativa de The Lost Road marcou uma virada importante na obra tolkieniana. Com efeito, em fins de 1937, Tolkien abandonou pela primeira vez a grande mitologia dos Dias Antigos que vinha desenvolvendo há mais de 20 anos, e se voltou para a "seqüência de O Hobbit", um pedido insistente dos fãs de Bilbo e do editor de Tolkien, Stanley Unwin. Essa decisão surgiu principalmente da avaliação que os manuscritos de O Silmarillion receberam da editora de Stanley, a Allen & Unwin. Embora reconhecessem o interesse e a qualidade de algumas passagens [na verdade, apenas trechos da história de Beren e Lúthien chegaram a ser lidos pelos avaliadores da editora], a opinião dos editores era de que o livro não alcançaria um público grande o suficiente para compensar seu lançamento comercial. </P>




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    Tolkien parece não ter se abatido; nesse momento, considerava sua mitologia um assunto praticamente privado, e não acreditava que ela chegasse a ser efetivamente publicada. Voltou-se então com afinco à criação da "seqüência de O Hobbit". O resultado, porém, foi que o novo livro tomou um rumo completamente inesperado. Em vez de simplesmente continuar a história de O Hobbit, a "seqüência" se transformou na continuação e conclusão das lendas heróicas de O Silmarillion. É claro que estamos falando de O Senhor dos Anéis. </P>
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    A história de Númenor e de sua queda, bem como a dos reinos numenoreanos na Terra-média, começou a ser esboçada em 1937, mas só alcançou desenvolvimento verdadeiro durante a elaboração de O Senhor dos Anéis. Como sabemos, o livro foi sendo escrito em meio a muitas hesitações e interrupções. Uma das maiores talvez tenha acontecido em fins de 1944, quando quase todo O Retorno do Rei ainda não havia sido escrito. Durante mais de um ano e meio Tolkien não conseguiu progredir, ao mesmo tempo em que uma nova narrativa tomava forma. A única referência do próprio Tolkien a esse texto está numa carta a Stanley Unwin, de julho de 1946: </P>
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    "Em uma quinzena de comparativa folga, por volta do Natal passado, escrevi três partes de um outro livro, utilizando num escopo e ambientação completamente diferentes aquilo que possuía algum valor em The Lost Road" [Letters of J.R.R. Tolkien, 105]. </P>
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    Esse "outro livro", que viria a se chamar The Notion Club Papers [As palestras do clube Notion], foi publicado no nono livro da série The History of Middle-earth, chamado Sauron Defeated. The Notion Club Papers foi talvez a mais ambiciosa tentativa de Tolkien de entrelaçar sua mitologia com o mundo moderno através de uma "viagem no tempo", não física, mas onírica e até "mediúnica" [se é que se pode usar um termo espírita, um tanto estranho à mentalidade do católico Tolkien]. </P>
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    O cenário da história não podia ser mais familiar para quem conhece a biografia do Professor: um grupo de acadêmicos de Oxford, que se reuniam regularmente para discutir literatura e ler suas obras em desenvolvimento uns para os outros. O fato curioso, porém, é que Tolkien coloca esse círculo [muito similar aos Inklings, que o próprio autor freqüentava junto com C.S. Lewis] no futuro. Isso mesmo: a história se passa em algumas reuniões do clube Notion em 1987, das quais as misteriosas atas teriam sido descobertas num saco de lixo em Oxford no ano de 2012. </P>
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    As discussões do clube Notion são quase sempre a respeito de "literatura imaginativa": viagens no tempo e no espaço, mundos imaginários, a possibilidade do homem chegar a outros planetas. A maioria dos membros parece concordar [num ponto de vista tipicamente tolkieniano] que o tempo e o espaço [ao menos o espaço interestelar] dificilmente serão vencidos por máquinas. A discussão está nesse ponto quando Michael Ramer, um dos membros do clube e professor de línguas fino-úgricas [o grupo lingüístico do finlandês] vem como uma sugestão desconcertante: e se for possível observar outros tempos, e outros lugares, nos sonhos?</P>
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    Ramer expõe um "método" que teria desenvolvido para esse fim, e os membros do clube sentem-se tocados [embora um tanto incrédulos] por essa estranha possibilidade. As conversas do grupo começam, então, a se concentrar nas relações entre os sonhos, o "inconsciente" humano e os mitos e lendas. Ramer tenta demonstrar a força que mitos e sonhos, especialmente os coletivos, podem ter sobre o mundo real:</P>
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    "- Não acho que vocês se dêem conta, não acho que nenhum de nós se dê conta da força, da força demiúrgica que os grandes mitos e lendas têm. Da profundidade das emoções e percepções que os geraram, e da multiplicação delas em muitas mentes - e cada mente, vejam bem, um mecanismo de obscuras mas imensuráveis energias. Eles são como um explosivo: podem gerar lentamente um calor constante para mentes vivas, mas se detonados de repente, poderiam explodir num estrondo; sim, poderiam produzir um distúrbio no mundo primário real. [...]</P>
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    Pensem na força emocional gerada por toda a borda ocidental da Europa pelos homens que finalmente chegaram ao fim do continente, e olharam para o Mar Sem-litoral, não-cultivado, não-atravessado, inconquistado! E, contra esse pano de fundo, que estatura prodigiosa outros eventos adquiririam! Digamos, a vinda, aparentemente daquele Mar, cavalgando uma tempestade, de homens estranhos com conhecimento superior, navegando barcos até então não imaginados. E se eles trouxessem histórias de uma catástrofe distante: batalhas, cidades incendiadas, ou da destruição de regiões em algum tumulto da Terra - fico pasmo ao pensar em tais coisas nesses termos, mesmo agora". </P>
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    Quando a discussão está mais animada do que nunca, Arundel Lowdham, um professor de anglo-saxão e islandês [isso lembra alguém pra vocês?] faz finalmente o mundo antigo irromper entre o clube Notion:</P>
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    "De repente Lowdham falou numa voz mudada, clara e terrível, palavras numa língua desconhecida; e então, virando-se furiosamente na nossa direção, ele gritou: " Eis as águias dos Senhores do Oeste! Elas estão vindo sobre Númenor!"</P>
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    Ficamos todos assustados. Vários de nós foram até a janela e ficaram em pé atrás de Lowdham, olhando para fora. Uma grande nuvem, vindo devagar do Oeste, estava devorando as estrelas. Conforme se aproximava ela abria duas vastas asas negras, espalhando-se para o norte e para o sul". </P>
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    A partir daí, os eventos se sucedem de maneira vertiginosa na narrativa. Lowdham revela que, em sonhos [assim como o personagem Alboin Errol de The Lost Road] ele ouvia estranhos fragmentos de duas línguas desconhecidas: o avalloniano [quenya] e o adûnaico - isso mesmo, o idioma dos homens de Ponente! Mais que isso: Lowdham revela dois textos, um em avalloniano e outro em adûnaico, que relatam a queda de Númenor [Anadûnê em adûnaico], graças à influência malévola de Zigûr [Sauron].</P>
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    Durante um dos encontros do clube, enquanto uma terrível tempestade vinda do Atlântico se abate sobre a Inglaterra, Lowdham e Jeremy, outro membro do grupo, têm uma experiência quase mediúnica: os dois falam entre si como Nimruzîr [Elendil] e Abrazan [Voronwë], e como que vivenciam mais uma vez a destruição de Númenor. Diante de seus atônitos colegas, os dois saem no meio da tempestade - a mais devastadora já registrada na Grã-Bretanha - e partem em busca de respostas sobre Númenor. </P>
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    A narrativa foi abandonada no momento em que Lowdham e Jeremy voltam de suas buscas e começam a relatar ao clube Notion o que descobriram. Christopher Tolkien, na análise que faz do livro, acredita que a concepção dele se tornara complicada demais para ser completada. Um último fato dos mais interessantes: Christopher diz que seu pai errou na previsão da Grande Tempestade por apenas quatro meses. No livro, ela acontece em 12 de junho de 1987; de acordo com Christopher, a maior tempestade já registrada na Inglaterra caiu sobre o país em 16 de outubro do mesmo ano. Nem os Senhores do Oeste seriam capazes de explicar essa...</P>
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    Tradução de Reinaldo J. Lopes
     

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