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Autor da Semana Julius Evola

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Paganus, 20 Jun 2014.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

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    Introdução

    Para mim é uma coisa muito importante, de um significado especial falar sobre Julius Evola, seja sobre sua vida seja sobre seu pensamento e a ligação indissolúvel entre ambas. Evola viveu uma vida intensa, profícua, exemplar, uma vida de fidelidade extrema, ascética aos ideais que propagava. É por isso também que ele é particularmente importante para mim, para uma redefinição de todos os meus horizontes ideológicos e filosóficos, principalmente pelas suas idéias, claro, mas, sem esquecer as muitas reservas que tenho em relação a essas mesmas idéias, o que me move há pelo menos um ano em uma arena especificamente ideológica (arena da qual sempre procurei fugir) como um evoliano confesso, é a absoluta unidade entre pensamento e ação, vida e obra, doutrina e testemunho. Por isso Julius Evola é importante para mim. É a voz solitária que clama no deserto, a voz do homem que permanece de pé entre as ruínas, a voz altiva, impassível, deificada de um homem que atravessou todos os possíveis círculos cósmicos e infernais, a voz revoltada de um homem da Tradição, do mais kshatrya entre os kshatryas.

    É a história de um guerreiro, acima de tudo um vate, um skald. Sua história e sua obra, altíssimas como a medida de sua lealdade ao mundo da Tradição. É impossível expressar com exatidão e devida honra o respeito imenso que a figura olímpica de Julius Evola me inspira. Sigamos, pois, em frente.

    Biografia

    Seu pai, Vicenzo Evola, pertencia à pequena nobreza da Sicília. Sabe-se muito pouco acerca da sua infância e adolescência, mas ter-se-á sentido atraído bem cedo pela filosofia de Nietzsche, Michelstaedter e Otto Weininger, bem como pela estética e filosofia do futurismo de Papini e Marinetti, e pelo Dadaismo. Evola começou por ser conhecido como pintor dadaísta.

    Em 1917 é mobilizado para a Primeira Guerra Mundial como oficial de artilharia, mas não chega a combater. Contacta com a filosofia budista em 1921, começando a dedicar-se à poesia e à filosofia.

    Em 1926 publica L'uomo come potenza, adoptando uma visão tantrica da natureza. Evola frequentava então os círculos antroposóficos inspirados na obra Rudolf Steiner, tendo vindo a colaborar desde 1924 na revista Ultra, ligada ao ambiente romano teosófico de Decio e Olga Calvari, Ignis, Biyichnis e Atanor.

    Na Itália vigorava o regime fascista de Mussolini, estando então Evola ligado às correntes aristocráticas antifascistas, colaborando em ll Mondo e Lo Stato democratico. Em 1928, publica o livro Imperialismo pagano, onde critica violentamente o cristianismo e pede que o Fascismo rompa com a Igreja Católica. Evola retomava ali o velho conflito entre guelfos e gibelinos, tomando partido pelos segundos, que afirmavam que o Império romano-germânico, herdeiro dos Césares de Roma era, tanto como a Igreja, uma instituição de carácter sobrenatural.

    Em 1930, conclui a publicação dos dois volumes de Teoria e fenomenologia dell 'Indivíduo Assoluto, onde quer superar a dicotomia do "Eu" e "Não Eu" numa perspectiva gnóstica e budista. No mesmo ano, funda com o psicanalista Emilio Servadio a revista La Torre caracterizada por um antimodernismo neopagão de pendor hermético.

    Em 1934, publica Rivolta contro il mondo moderno, considerada nos ambientes neofascistas como a sua obra mais importante. Nessa obra, sob a influência da interpretação do mito de Schelling, da visão cíclica das sociedades humanas de Jacob Bachofen, e da hipótese de Herman Wirth sobre a existência de um centro árctico primordial, Evola apela a um regresso às fontes pagãs da antiguidade e a um passado "hiperbóreo" comum às estirpes indo-europeias.

    A sua aproximação ao círculo político de Mussolini dá-se durante os anos 30, quando se acende a luta entre o regime fascista e a Igreja Católica. Em 1937, Evola manifesta-se contrário ao "racismo biológico", defendendo em alternativa um "racismo espiritual", publicando em 1941 o livro Sintesi di dottrina della razza, bem acolhida no seio do regime.

    Em 1945, Evola está em Viena, quando a cidade foi bombardeada, sendo ferido na coluna vertebral e ficando com membros inferiores paralisados.

    Após a queda do Fascismo, Evola vai fazer uma sua avaliação crítica do regime de Mussolini - considerando-o plebeu, demagógico e estático - e lançar alguns das grandes linhas de pensamento do que virá a ser neofascismo na segunda metade do século XX.

    Publicou o seu último livro em 1970: Il fascismo: Saggio di una analisi critica dal punto di vista della destra. Evola sublinhou um “heróico pessimismo” e a necessidade de restaurar “valores tradicionais” sob uma nova elite. Na sua visão, a história desenvolve-se por ciclos, e o mundo moderno, que classifica de "igualitário, materialista e hedonista", dirige-se para uma crise e catástrofe final, a partir da qual uma nova elite criará um novo tipo de Estado, numa nova ordem que será a civiltà solare — uma “civilização do sol” que restabelecerá a Tradição. A Itália, sendo na sua opinião uma terra de síntese ou mistura de paganismo Nórdico e Mediterrânico, tinha potencial para liderar o processo que levará a essa nova “civilização solar”.

    A urna contendo as cinzas de Julius Evola, de acordo com as suas últimas vontades, foi transportada para o glaciar do Monte Rosa, a quatro mil e duzentos metros de altitude, por uma "patrulha" de discípulos conduzida por guias alpinos.

    Pensamento

    Existem diversas definições, tanto filosóficas quanto propriamente ideológicas, para o pensamento evoliano. Pode-se traçar influências mais diretas, no aspecto morfológico-simbolista, do pai dos estudos tradicionalistas, René Guenon, o grande esoterista e mestre das doutrinas metafísicas tradicionais em sua exposição anti-moderna. Ainda que o considerasse seu mestre, Evola, porém, não o cita sem reservas, principalmente no que se refere a aspectos mais diretamente políticos (antes, metapolíticos) da Tradição, como o caráter divino da realeza, do sacerdócio entre outros pontos doutrinários. Em correspondências entre os dois, vê-se que Guenon tinha certas ressalvas quanto à ortodoxia doutrinária de certas posições gibelinas de Evola.

    Influências

    Porém, a natureza das influências evolianas é mais vasta e de caráter mais heterogêneo do que se imagina. Embora seja uma divisão mais abstrata, didática, que propriamente cronológica, pode-se dividir a natureza dessas influências com o período intelectual de Evola. Assim se pode falar de quatro ‘épocas’ de formação de seu pensamento através da recepção dessas influências. Podemos falar de uma fase filosófica, uma fase místico-religiosa, uma fase político-ideológica, e a derradeira fase tradicionalista, propriamente evoliana, integralizadora do pensamento evoliano ‘total’, o ventre do Tradicionalismo Integral como uma verdadeira Welltanschauung.

    A fase filosófica é caracterizada por leituras fecundas de diversos pensadores da tradição filosófica ocidental, como Platão, Hegel, Schelling, Fichte, a linha do idealismo alemão até Nietzsche, que o influenciou profundamente em diversos sentidos. Característico dessa fase é a leitura de diversos autores menos conhecidos do público mais amplo, como o círculo de artistas dadaístas, Filippo Tommaso Marinneti e Giovanni Papini, que influenciaram Evola artisticamente também. Sim,no começo de sua vida intelectual, Evola foi um pintor dadaísta, profundamente interessado pelas ligações que esses artistas faziam entre o mundo moderno e algumas lições do esoterismo ocidental e oriental. Aqui se destaca também a presença de autores como Carlo Michelstaedter, Otto Braun, Otto Weininger, Oscar Wilde, Gabriele d’Annunzio, Gustav Le Bonn e Oswald Spengler.

    É de Michelstaedter que se originam as reflexões evolianas sobre a natureza do Eu. Contrariamente às tradições filosóficas contemporâneas que colocavam em dúvida a realidade concreta do Eu e seguindo paralelamente à concepção idealista do Eu como um todo auto-referencial fechado em si mesmo, aqui se pensa o Eu como um todo que se referencia à consciência como a imagem retoricamente unificada e finalizada. Nem construção nem algo já dado, o Eu é de uma natureza apofática, incognoscível, incompreensível que só pode se dar a conhecer e se representar através da persuasão retórica, isto é, de uma objetivação de caráter simbólico. Eis a convicção. Essa idéia marca profundamente a idéia filosófica do barão no Idealismo Mágico (‘Saggi sull’Idealismo Magico’), da consciência como uma objetivação das instâncias mais profundas do eu através da convicção, magicamente ativada, mágica aqui entendida como uma comunicação ontológica entre o discurso interior e sua representação exterior, em formas simbólicas.

    De Otto Braun, Evola herda o ódio à burguesia como a personificação da mediocridade existencial, a encarnação social do empobrecimento semântico-axiológico diante da vida. Analisando Nietzsche, Braun percebe que o individualismo zaratustriano nada tem a ver com o individualismo liberal-burguês, é antes a sua antítese, e uma reação a todos os impulsos coletivistas e democratistas de uma civilização agonizante.

    As influências de Otto Weininger são marcantes também. É Weininger que cunha uma verdadeira metafísica dos sexos, com uma ênfase particular no valor essencial da virilidade, virilidade não como uma mera masculinidade física e psicológica, mas uma virilidade espiritual oposta a toda feminilização presente e atuante em praticamente todas as esferas da vida. Paralelamente destaca os aspectos polares do masculino e do feminino enquanto instâncias estruturadoras não apenas de realidades físicas e comportamentos como de toda uma direção e essência espiritual, metafísica, algo obviamente captado por Evola. Oposição da virilidade espiritual, da espiritualidade ascética e transcendente propriamente masculina do caráter psíquico-anímico, devírico e imanente do ‘feminino’. O barão, por outro lado, tinha sérias reservas quanto à misoginia de Weininger, que ele atribuía a um deslocamento de polaridades. O tratamento evoliano das idéias sexuais pode se verificar em toda a sua obra, como ‘Revolt against the modern world’, ‘The Yoga of Power’, ‘Ride the Tiger’ e principalmente ‘The Metaphysics of Sex’ e muitas outras, servindo como fundamento filosófico da doutrina metafísica da sexualidade. Nessa última obra, Evola corrige várias das idéias de Weininger.

    Weininger, ele próprio um judeu, destaca o aspecto essencialmente feminil da raça judaica, com sua inadequação a toda pertença real a uma terra, um solo, uma idéia, a não ser o apego puramente devocional (igualmente feminino) ao seu Deus e à sua pátria espiritual perdida. Weininger vai além do antissemitismo, que declara ser uma grosseira regressão intelectual e psíquica, uma exaltação, através das acusações infantis e estereotipadas aos judeus, dos próprios defeitos morais dos antissemitas. Para o escritor, o que se deve ter em conta não é o judaísmo enquanto religião e muito menos como raça biológica, mas o ‘judaísmo espiritual’, isto é, um arquétipo quase platônico da ‘judiaria’, a idéia por trás de todos os fenômenos tipicamente atribuídos aos judeus enquanto raça e religião, mas que, na verdade, se atribuem a um certo espírito judeu, uma idéia judaica, uma comportamento, uma instância valorativa e julgadora, uma visão de mundo encarnada em determinados indivíduos e instituições, judeus ou não. Essa visão do judaísmo como uma espécie de espírito da modernidade, o espírito de idéias e tendências regressivas, animalescas, decadentes, anti-metafísicas, materialistas, como o evolucionismo, o marxismo (materialismo histórico-dialético), a encarnação do espírito feminil, mesmo abertamente anti-viril, é o que caracteriza essa idéia da ‘judiaria’. Não uma fé ou um povo específicos, mas a ideia mesma da judiaria, idéia em sentido platônico, é um ponto em que Evola e Weininger são irmãos ao considerarem como um dos principais responsáveis pelo deplorável estado atual do mundo, em geral, e da civilização européia, em particular.

    Daí as divergências de Evola para com as teorias racialistas de um Chamberlain, de um Gobineau, assim como para com todo o antissemitismo e racialismo biologicistas de todo o nacional-socialismo alemão.

    As influências de Oswald Spengler são mais óbvias. O grande teórico e crítico da cultura, no seu ‘Decline of the West’ forneceu os grandes quadros comparativos e morfológicos pelos quais o barão viajou para fazer a sua própria crítica do mundo moderno, uma correção dos brilhantes insights de Spengler, mas acompanhados da devida contextualização doutrinária, metafísica, que faltou a este. O mesmo se pode dizer de Platão, cujas idéias eram assumidas pelo barão até determinado ponto, onde ele reconhecia a limitação e os germes anti-tradicionais e racionalistas do pensamento platônico. De forma geral, Evola se une ao historiador das religiões Mircea Eliade na apreciação de Platão como o primeiro filósofo a dar uma roupagem mais intelectual e lógica a ideologias religiosas antiqüíssimas e tradicionais.

    Já sobre as influências de Nietzsche, talvez precisássemos de um volume inteiro. De fato, toda a linguagem retumbante, declamatória e, em muitos sentidos, carregada de uma poetização ideológica pessoal, característica de Evola podem ser um reflexo da linguagem do pensador alemão. Mas indo mais longe, pode-se mesmo dizer que Nietzsche foi o primeiro dos tradicionalistas, o primeiro que, com suas críticas das idéias liberais, democráticas e socialistas, assim como com seus insights no mundo tradicional, pode trazer, junto com reflexões estéticas e culturais de inestimável valor, o problema da cultura ocidental em suas fases terminais. A leitura de Evola já denuncia logo a influência nietzscheana na apreciação dos fenômenos sociais, políticos e ideológicos, na concatenação dos argumentos, na retórica fina, na organização e expressão das idéias, no tom declamatório, incisivo, retumbante. Pode-se mesmo dizer que o evolianismo é um nietzscheanismo depurado pelo fogo das tradições religiosas.

    Fazendo uma comparação, diversas idéias do filósofo alemão se encontram no pensamento evoliano, desde as críticas à civilização ocidental, ao socialismo, ao liberalismo e à democracia, ao darwinismo, o ódio a todo tipo de igualitarismo até a idéias propriamente positivas, como a idéia do eterno retorno (corrigida pelo cotejo de textos sagrados hindus), do super-homem (abandonada por Evola), da transvaloração de todos os valores (enfaticamente endossada). Digamos, para encerrar assunto tão complexo quanto as influências nietzscheanas na obra de Evola, que o ateísmo niilista nunca foi um problema para detectarmos essa influência, afinal, Evola considerava que tal ateísmo era mais uma reação contra os aspectos moralizantes, telúricos, feminis, democratistas presentes no cristianismo e não uma verdadeira negação da transcendência. Pelo contrário, em ‘Assim falava Zaratustra’, em diversas passagens, o apelo apaixonado de Nietzsche à transcendência chega a ser mesmo claro. A apreciação do alemão pelas tradições hindus, pelo sistema de castas e sua glorificação do ideal heróico-olímpico da Grécia homérica (apolínea) e da Germânia pré-cristã atestam ainda mais que, para Nietzsche, por mais confusa e mal colocada que estivesse a questão da transcendência, da possibilidade da transcendência, ele estava muito próximo do mundo da Tradição, muito mais que do da modernidade.

    Esse assunto é melhor exposto nos capítulos da Parte 2 do livro ‘Ride the Tiger’, onde Julius Evola se debruça sobre o pensamento de Nietzsche e sua influência no mundo moderno.

    Influências filosóficas menos ortodoxas são os escritos de Giambattista Vico e do alemão Bachofen. Ao primeiro deve considerações sobre uma filosofia da história, cíclica e tradicional, e seus relacionamentos com outras filosofias do tempo tradicionais e escatologias. As reflexões viquianas sobre o papel espiritual do herói também são essenciais no pensamento evoliano. Ao segundo, Bachofen, Evola deve suas posições dualistas na história das civilizações, imputando ao espírito feminino, telúrico-ctônico, ginecocrático e matriarcalista, o ‘mundo das Mães’ a principal responsabilidade pelo atrofiamento espiritual da virilidade olímpica do ‘mundo dos Pais e dos Herois’ e a conseqüente decadência civilizacional e espiritual modernas.

    A fase místico-religiosa é importantíssima por sua abrangência, totalidade e perenidade, visto que os interesses iniciais de Evola pelo textos sagrados das religiões e tradições esotéricas se deram já na sua primeira juventude. Na sua autobiografia ‘Path to Cinnabar’, ele declara que foi uma leitura dos escritos de Buda que o desviou de sua intenção de cometer suicídio. Mas Evola jamais deixou de recorrer, na sua trajetória intelectual, ao escritos tradicionais, não apenas como ferramenta hermenêutico-discursiva mas principalmente como fundamentação metafísica de toda a sua visão de mundo, o que seria ainda mais evidente na sua fase ‘tradicionalista’.

    Evola leu muito, além dos cânones budistas já citados, diversas obras do hinduísmo, como os autoritativos Vedas, as obras filosóficas dos Upanishads, diversos Puranas, e, em suas pesquisas na metafísica do sexo, tratados de hiperfisiologia e medicina tradicional, tantra (hindu e budista), além de estudos aprofundados no Samkhya-Yoga. No Vedanta já não tinha tanta leitura e apreciação, discordando, inclusive, da posição de Guenon de que este representasse a mais alta realização da ortodoxia metafísica hindu. Em suas pesquisas da metafísica da guerra, leu e citou abundantemente o Bhagavad-Gîta e o Alcorão, nos capítulos sobre a Jihad (Pequena e Grande Guerra Santa), presentes no seu livro ‘Metaphysics of War’, no ‘Revolt against the modern world’ e diversos artigos em revistas italiana. Da tradição extremo-oriental, tinha grande interesse pelo Tao-te Ching e textos alquímicos. Leu épicos chineses e hindus, bem como os textos herméticos de diversas épocas e culturas, desde o ambiente greco-babilônio original até o hermetismo persa, bizantino, islâmico e ocidental (renascentista). Leu muitos dos textos dos gnósticos e de outras heresias cristãs, como dos maniqueístas.

    Evola conhecia o Alcorão particularmente bem, assim como vários textos cristãos dos Santos Padres da Igreja e textos cabalísticos mas como atestam seu desprezo pelas tradições semíticas (cristãs e judaicas), não fez quase uso delas, exceto do Alcorão. Tinha grande admiração pelo Islã justamente pelo que nele é mais criticado na modernidade: a jihad, a transcendência pela via da ação, a ação heróica, ascese heróica e viril, a guerra como eternalização e transcendência. Conhecia amplamente as mitologias dos povos ocidentais,principalmente a nórdica, germânica e celta. O barão também estudou, para o seu livro ‘The Mistery of the Grail’ os mitos celtas de diversos ciclos, as lendas arturianas e os romances do Graal, assim como suas reinterpretações por diversos místicos modernos, conhecia a Rosa Cruz, a maçonaria (embora não tão profundamente como Guenon). Lera também os textos da tradição iraniana (mazdeísmo, mitraísmo etc).

    Nesse mesmo sentido, se detectam influências menores de outros esoteristas, como Aleister Crowley e Eliphas Levi, além dos trabalhos dos antroposofistas em um grau bem menor, até pelas relações que o maior dentre eles na Itália, Arturo Reghini, manteve com o barão até romperem. Mais importante que possíveis influências do esoterismo ocultista são as leituras diretas dos textos sagrados tradicionais, cuja interpretação Evola confiava mais por uma linha propriamente perenialista (portanto, guenoniana) que puramente academicista (naturalistas como George Frazer, estruturalistas como Levy-Bruhl, Claude Levi-Strauss, fenomenologistas como Van deer Leew, Georges Dumezil) e as linhas teosóficas, por ele desprezadas e asperamente criticadas em vários trabalhos, além de inseridas em uma crítica metafísica da cultura. O intercâmbio intelectual entre o barão e Mircea Eliade era particularmente profícuo, ambos trataram basicamente dos mesmos assuntos, respectivamente, nos seus ‘The Hermetic Tradition’ (Evola) e ‘Forgerers and Alchemists’ (Eliade), dentre outros trabalhos, em que se citam constantemente.

    A fase político-ideológica dos escritos evolianos se enquadra em dois ambientes distintos, mas ligados por uma certa unidade. Tal unidade se chama ‘metapolítica’, ou seja, é uma reflexão sobre a política a partir de certo ‘dado’ metafísico, ou seja, um entendimento da realidade política, da práxis, a partir do entendimento de sua natureza essencial como uma aplicação imagética de verdades eternas. Em outras palavras, a política reflete uma realidade anterior à práxis, uma realidade ideal, antedada.

    Um desses ambientes é a Revolução Conservadora dos começos do século XX na Alemanha entre-guerras, na chamada República de Weimar, centrada nos escritos de grandes pensadores políticos e juristas, como Eric Moehler, Carl Schmitt (obra-prima: ‘Political Theology’)e Ernst Jünger (‘Tempestades de Aço’), este último uma grande influência na chamada ‘metafísica da guerra’ de Evola, a partir de suas observações pessoais na Primeira Guerra, onde lutou pelos alemães, sobre o valor ascético e transcendente da guerra. Esse é um ambiente por onde Evola passou, chegando até a traduzir algumas das obras desses autores para o italiano. Em suas andanças e pesquisas pela Alemanha na época da Segunda Guerra, o barão teve o ensejo de coletar muito material dos intelectuais da chamada Revolução Conservadora. A idéia básica desses intelectuais, de um conservadorismo anti-marxista que fosse igualmente anti-burguês, anti-capitalista e, portanto, revolucionário, era a de um conservadorismo pré-moderno, inconformista, ideologicamente formado e militante, e foi de uma importância capital no pensamento de Evola e é um de seus traços mais marcantes, causando ojeriza na grande maioria dos que se dizem ‘conservadores’, mas ainda afiliados a um entendimento de sociedade burguesa, a uma concepção de mundo e indivíduo marcados pela filosofia iluminista, liberal, a la 1789. O conservadorismo aqui é extremista, revolucionário, um conservadorismo de esquerda.

    O outro ambiente, já mais marcado pela pertença a uma aristocracia decadente, porém contra-revolucionária no sentido que 1789 definiria esse termo, é o dos pensadores franceses Joseph de Maistre e Donoso Cortes. Aqui já se tratam de estudos político-jurídicos sobre a natureza das relações políticas no mundo antigo e medieval, a exaltação do medievo como a mais perfeita das épocas de integração de idéias políticas e unidade religiosa e civilizacional e críticas ao individualismo liberal, como a todas as idéias dos mentores das revoluções liberais que assolariam a Europa. Igualmente se destacam aqui reflexões sobre religião e cultura, o papel da Igreja, filosofia da religião.

    Certamente o horizonte político de Evola era mais vasto, mas se pode dizer que o círculo dos pensadores tradicionalistas católicos e o dos conservadores-revolucionários são os mais marcantes e óbvios. Um detalhe: houve, através das revistas e artigos polêmicos, um intenso diálogo entre o barão e Giovanni Gentile, o filósofo do fascismo, assim como com Benedeto Croce, sobre uma diversidade de temas, desde esoterismo e alta magia até nacionalismo, Risorgimento, o caráter verdadeiramente tradicional do fascismo, seu caráter totalitário e populista, críticas à guinada católica do fascismo etc. Evola nunca foi membro do partido fascista, mas sempre o admirou, embora até certo ponto, era um crítico feroz de vários de seus aspectos populistas e burgueses e de algo de seu objetivismo excessivamente agressivo, seu espírito de manada. Inclusive, uma das maiores decepções da vida do barão foi o acordo entre Mussolini e o Papa, contra o qual ele escreveu ‘Imperialismo Pagão’, apelando à Itália por um retorno, dentro do fascismo, ao espírito gibelino e imperial da velha Roma pagã, um espírito radicalmente diferente, em sua espiritualidade e essência, do cristianismo. Suas esperanças no fascismo foram frustradas principalmente aqui.

    Não se pode falar exatamente de uma fase tradicionalista no pensamento evoliano, mas antes de um período longo de sua plena maturidade intelectual, onde praticamente os mesmos temas e assuntos são tratados, embora, dependendo da obra em questão, fossem focalizados problemas mais políticos e culturais ou mais metafísicos e esotéricos. Trataremos agora dos princípios básicos desse pensamento.

    Antes é necessário colocar que embora separemos os pontos do pensamento evoliano por tópicos, este é um pensamento total, integral, uma verdadeira Welltanschuung, e não um sistema abstrato, fechado em si mesmo. Ao contrário, ele é totalmente uno e essa separação tem caráter didático, de puro elenco e organização.

    O Mundo da Tradição

    Em oposição às categorias de pensamento, classificação e mensuração do mundo moderno, em voga desde os primeiros suspiros do seu espírito, Evola coloca o Mundo da Tradição, de uma identidade, uma essência radicalmente diferente, mesmo oposta, da visão moderna da existência. Esse assunto é colocado de forma cabal em ‘Revolt against the modern world’, mas é tratado em todas as obras do barão, mesmo nas puramente esotéricas.

    Mas o que é o mundo da Tradição? Dizer, negativamente, que é o mundo da contra-modernidade, da negação dos princípios de 1789 e de 1848 é dizer pouco, e dizer mal. É preciso, antes de qualquer coisa, definir o que é Tradição.

    Para Evola, Tradição não é sinônimo de qualquer tradição humana, de qualquer comportamento, instituição, de qualquer moral, religião, ciência consagrados pelo uso, por qualquer eficiência formal, histórica ou pragmática. Não, todos esses aspectos da vida humana, da religião à dança, são antes aspectos que buscam reatualizar, tornar real, real-izar na imanência um rejuvenescimento da existência, um renascimento da vida pelo banhar-se nas fontes das origens. A cultura, portanto, é uma busca constante por impedir a realização do terror da história, da finitude, da decrepitude do mundo. Em sentido lato, a Tradição é a invasão consentida da imanência pela transcendência, para conter o terror da história. Em sentido estrito, a Tradição é a fonte inumana de toda a existência, fonte para a qual todos buscamos retornar, escapar dos condicionamentos espaciais e temporais da imanência, deles nos libertarmos e alcançarmos a plena realização metafísica, a saber, a união do Ser com o Ser, da individualidade com a totalidade, da subjetividade com a objetividade.

    Isso é realizado de diversas formas, seja através do reativamento de chaves mágicas e rituais, seja através de rememoração, reatualização metafísica operada pelo mito, todas as sociedades tradicionais, aquelas que vivem sob o signo permanente e total da Tradição buscam, no mito e no rito, a imortalidade, a quebra dos condicionamentos, buscam ativar em si um processo de esgotamento de sua pertença ao mundo psico-fisiológico e sua ascensão espiritual, sua deificação. Os diversos mitos e ritos que são transmitidos (tradere, paradosis, traditio) através das gerações não são criações sociais e culturais, são recriações culturais e sociais de métodos, terapêuticas, religações com as fontes puras, solares, celestes da Origem.

    É necessário enfatizar que Evola, seguindo as tradições esotéricas e seu próprio idealismo filosófico, se desfaz do dualismo religioso propriamente semítico: Eu-Deus, Deus-Eu. Ele vai além do ateísmo e do teísmo, ao colocar não uma Divindade única ou deuses múltiplos, mas uma força totalmente impessoal, que permeia todos os cantos e recantos do mundo manifestado, mundo que procede essencial e ciclicamente do ‘Ventre’ desse força impessoal. Essa força, esse Eu, não se contrapõe ao Eu e ao outro, mas é sua verdadeira face, sua identidade, seu fim e destino, é o Brahman eterno que postula, que pensa o mundo, a manifestação tanto fora de si (transcendência, ousia) quanto como uma emanação de Si (imanência, energeia). Logo, tudo é essencialmente diverso Dele tanto quanto é Dele consubstacial na sua contingência essencial.

    Assim toda forma de exercícios espirituais (askesis, ascese), oração, rituais e liturgias, mitos e literatura épica, toda forma de cultura, de relação consigo mesmo e com o outro, toda forma religiosa, toda ideologia metafísica, toda manifestação do espírito humano nunca é um fim em si mesmo, mas um instrumento em função de um objetivo: moksha, descondicionamento, libertação. Toda forma de cultura que se pretenda autossuficiente, um fim em si mesmo, representa um degrau na descida rumo ao inferno do estrangulamento de Deus, da decadência espiritual, da descida do Céu tradicional aos infernos do egoísmo auto-referencial, do imanentismo satânico.

    Antropologicamente, se segue que todas as manifestações da vida humana, enquanto instâncias que religam ao Absoluto, são carregadas de valor e essencialidade simbólicas, são chaves para outros estados, superiores e inferiores, da manifestação. Isso ocorre pelo caráter humano dessas manifestações vitais,culturais. Analogamente a essa doutrina das correspondências, que fará parte essencial de todas as doutrinas tradicionais, aliás, da própria vida do homem tradicional, culminando nas ousadíssimas homologações simbólicas do hinduísmo tardio, existe uma doutrina que postula a ligação dessas homologações com o homem. Por que é o homem o privilegiado, o único a usufruir desse sistema de símbolos e chaves? Porque só ele é o ser em que brilha a Luz da Divindade, ele é o Adão, o ser que, em si mesmo, não difere muito dos animais, mas que no seu ser mais profundo é o próprio Um, manifestado e individuado na manifestação corporal. Sem essa posição de centralidade metafísica, seria impossível ao homem se utilizar, de forma eficiente, dos instrumentos de libertação que a Tradição lhe oferece, assim como compreender sua própria história, tão intimamente ligada às fontes e origens do próprio cosmo.

    A doutrina das Quatro Idades

    Baseado em ‘O trabalhos e os dias’, do poeta grego Hesíodo, assim como em inúmeros textos de várias tradições (as quatro idades bíblicas em Daniel, as quatro eras no Avesta iraniano, as quatro Yugas no hinduísmo), o autor elabora uma complexa e típica classificação das eras da manifestação cósmica. Para o barão, o tempo é cíclico e linear, embora em perspectivas diferentes. Na perspectiva última, metafísica, o tempo, claro, é cíclico. Tudo se origina do Um, tudo volta para o Um, e novas criações se seguem, indefinidamente, eternamente, novas manifestações, eternamente.

    Na perspectiva cósmica, porém, há uma estratificação da vida da manifestação, um médium a partir do qual se estabelece a natureza do tempo, se tem uma medida qualitativa da manifestação em si mesma, ou seja, da imanência. Esse médium é o conteúdo da doutrina das idades (Yuga). Em primeiro lugar, Evola coloca, apoiado no testemunho dos textos tradicionais, que o tempo tem uma característica de degradação cósmica gradual, isto é, que quanto mais o tempo passa, por questões lógicas, mais se afasta temporalmente o cosmo de seu Princípio. Mas como tudo no cosmo ocorre de maneira integrada, uma degradação temporal não pode ocorrer sem uma degradação tópica, cósmica. Logo, se o cosmo se degrada conforme se afasta temporalmente do Um, seguindo a decrepitude natural desse afastamento, todo o cosmo se degrada. Ainda apostando na suprema unidade de todos os elementos teo-antropo-cósmicos, se segue que não apenas o cosmo se deteriora linearmente, mas todo o mundo humano, todos os seus valores, instituições, asceses, religiões e até mesmo símbolos!

    Assim, a tradição helênica afirma que a Era de Ouro apresentava uma humanidade absolutamente igual, em dignidade e natureza, aos deuses, uma humanidade perfeita, sem necessidade de nada, livre de contingências e condicionamentos. Uma humanidade imortal, olímpica, feita de seres deificados, perfeitos (‘esféricos’, na mentalidade platônica). Nessa época, não só não havia toda uma rede de símbolos aos quais se homologava o homem como estes não eram necessários, afinal, o homem já vivia no mais paradisíaco Éden, o Olimpo, o lar das mil virgens. A Tradição Primordial.

    A Era de Prata inicia a decadência através de uma falha ritual, um pecado original ou uma catástrofe metafísica para indicar o grau da absoluta alteridade de condições ontológicas entre esta e a Era anterior. Aqui já se tem o grande flagelo dos homens introduzido entre nós: a mulher e, com ela, todo reino condicionante das paixões, das necessidades sexuais, biológicas, as necessidades de se regular o devir, de se recuperar algo, um minimum da antiga glória através de símbolos. Aqui, pela primeira vez, se tem uma diferença clara entre homens e deuses. Os homens perderam muitas de suas características originais, são antes uma raça superior de homens, opostos a raças inferiores, que uma totalidade de deuses vivendo em comunhão. A aristocracia das raças e elites espirituais do tempo mítico das origens ainda existe, mas de forma limitada, reduzida a uma diferença espiritual entre elites governantes e massas governadas, em um plano, e entre raças espirituais diferentes, em outro plano.

    A Era de Bronze é marcada por um piora gradual das condições existenciais e espirituais da Era de Prata, a época do predomínio do poder feminino e matriarcal nas suas formas mais puras, virginais, demétricas. Aqui já temos diante de nós o ciclo do matriarcalismo daemônico, a predominância dos aspectos mais terríveis da mulher, a proliferação dos cultos ctônico-funerários associados a uma visão fatalista e cripto-evolucionista, a erosão da visão da individualidade como uma força em potencialidade de divinização, a relativização das puríssimas formas ascéticas na arquitetura, nas artes em geral, nos gêneros literários, das constituições políticas, da socialização,das castas etc. Princípios de anarquismo profano e religioso, época das grandes revoluções. Titanismo: a busca da transcendência pelas vias grosseiramente materiais, brutais. A ‘fascistização’ do cosmo, guerras cada vez menos pautadas pelos princípios ascéticos, a vitória da astúcia e do pacifismo covarde, a animalização do homem diante na natureza. Vitórias consecutivas do imanentismo. Absolutização dos dualismos religiosos, dos devocionismos, o crescimento da mentalidade semítica, moralista, em todos os campos da cultura. Crescimento de cultos mágicos com o fito de controlar, para os mais diversos fins, as forças mágicas nos níveis mais tenebrosos e inferiores. Desagregação dos simbolismos e das tradições esotéricas, adormecimento de centros primordiais, de omphalos, extinção de outros centros e de tradições iniciáticas.

    A Era dos Herois. Onde a Era de Bronze falhou com o titanismo, a Era dos Herois brilha. Os Titãs tentam escalar o Olimpo, tomar o poder de Zeus à força, mas perdem de vista as legítimas formas de transcender sua condição. Já os Herois seguem por essas, principalmente pela via ascética heróica, onde transcendem, em suas aventuras, seus condicionamentos e alcançam a apotheosis. Não apenas isso, os heróis inauguram uma nova humanidade, tão fraca e condicionada como a deles, mas prenhe de novos modelos, novos padrões e instrumentos iniciáticos, nessa humanidade a antiga condição decaída, inalterada, é renovada pela esperança trazida pelos empreendimentos heróicos. Assim como a mitologia representa uma decadência do rito, como atualiza as potencialidades transcendentes do homem de forma mais indireta que no rito, também temos a regressão de uma humanidade divina, olímpica, para uma humanidade mortal que se coloca em posição de inferioridade e dualidade diante do outro, diferente de si mesmo, a divindade olímpica e o elo entre esta e si mesmo: o herói. Não há mais uma tradição diretamente primordial atuando, mas tradições atuantes por diversas vias e cada vez menos eficientes. Mas já não há mais um desespero niilista absurdo: há esperança crescente na realização através da ascese heroica.

    A Era de Ferro. Conhecida nos textos purânicos como Kali Yuga, a época em que a Grande Mãe Kali, a Deusa da Morte, antes adormecida, desperta de seu sono cósmico, agita-se e revoluciona toda a existência. É a época da extrema dissolução de todos os valores, instituições, idéias tradicionais. Niilismo moral e religioso. Liberalismo. Individualismo. O poder terrífico e daemônico do capital e das coletivizações socialistas. O caos que precede a mahapralaya, a grande dissolução final.

    Como se percebe, Evola não trata a doutrina dos quatro Yugas como um acadêmico, ou seja, de fora, mas as integra na sua visão de mundo, as interpreta de acordo com a história universal. Para ele a interpretação metafísica não é uma visão mofada, para ser revisitada arqueologicamente, de fora, com pretensões objetivas (embora objetivantes), e sim uma visão realmente objetiva e transcendente por si mesma, apta a corrigir outras visões, modernas e imanentistas, portanto, falhas em universalidade e objetividade (possuem apenas uma objetividade de sistema, ideológica, logo, em última instância, subjetiva e limitada).

    Soberania Divina

    Aliando seus insights metapolíticos com a mais pura doutrina metafísica, Evola, polemizando com Guenon estabelece sua interpretação do fenômeno da soberania, da realeza, como a forma mais pura da espiritualidade viril e solar da Tradição Primordial. Para o barão, não é na função sacerdotal, mediadora dos ritos, que se deve buscar a origem da responsabilidade pela transmissão do segredo iniciático, da iniciação tradicional, da guarda dos lugares santos, os centros primordiais. Antes, a estes são delegadas certas responsabilidades mais ou menos limitadas pelos verdadeiros detentores da transmissão iniciática, a saber, a realeza.

    Diferente da visão guenoniana, a filosofia política evoliana se baseia nos inegáveis testemunhos das tradições que refletem, com bases metafísicas igualmente irrefutáveis, o papel central do Rei, do monarca, em diversas circunstâncias. Em algumas tradições, o rei é visto como o responsável pelo equilíbrio cósmico, sendo culpado pelo fracasso das colheitas e catástrofes naturais, sendo inclusive exigido seu sacrifício como forma de apaziguar os espíritos guardiões da nação. Essa é uma visão comum entre os povos primitivos e entre alguns povos germânicos, entre os celtas. Em outros, o papel do monarca é assimilado ao Axis Mundi, o Eixo do Mundo, pelo qual gira a roda da existência. O cosmo tem seu devir garantido, ele gira na roda, mas o rei não. Ele é o mestre da roda e garante essa sua transcendência pela sua imobilidade, seu caráter de Motor Imóvel, aquele pelo qual a roda gira, sem ele, contudo, participar desse movimento. Na China antiga, o imperador era visto, em sua função, como o Wei Tang o pilar cósmico ao redor do qual gira a roda cósmica. Na Roma antiga, o ideal do Imperium se encarnava na figura divino-humana do Imperator, visão que se encontra em outros reis, deuses encarnados, com determinadas funções cósmicas e caráter divino, como o faraó egípcio, os reis astecas, os khans mongóis, os chefes germânicos, escandinavos e eslavos. Na Germânia e na Escadinávia, se cria que os reis e chefes (earls, jarls) aristocráticos eram descendentes diretos de deuses, normalmente celestes, os representantes mais diretos da Tradição Primordial: Odin, Thor, Tyr. Frequentemente esses reis e heróis (fazer ligação da Idade dos Herois helênica com as sagas nórdicas e islandesas) personificavam essas divindades, seja diretamente, seja indiretamente pela mediação de estados de embriaguez mística pelo hidromel, pela guerra, na figura do berserk. Figuras monárquicas de caráter divino reduzido ou representacional são encontradas em outras tradições, como a iraniana-avéstica (persa), helênica, suméria, islâmica. Já os reis-sacerdotes e as grandes dinastias sacerdotais, como encontradas nas épocas terminais no Egito, na Babilônia e em praticamente todos os povos semíticos são explicadas por Evola como desvios, criações deturpadas de povos por demais afastados do ethos tradicional, olímpico, povos telúricos e originários da mítica Lemúria, povos fetichistas, que concebem o mundo como o palco de atividades demoníacas, para quem o grande referencial de poder era o poder de exorcismo dos magos negros, das Grandes Mães, povos escravizados, em suas vidas espirituais, pelo medo, pelo poder do matriarcalismo demoníaco. Em outras palavras, o caráter lunar e feminil do poder político-sacerdotal é originado de um desvio de polaridade, do desvio da função viril e exclusivamente masculina do mando, do poder, de um desbaratamento da aristocracia patrícia em função do poder tenebroso das feiticeiras e dos magos, do poder lunar, telúrico e ctônico, poder que não nasce de si mesmo, como o poder olímpico, mas do medo, das profundezas psíquicas e substanciais.

    Na gênese do mundo moderno, Evola vê o enfrentamento entre as ideologias e forças espirituais opostas da hierarquia real-solar, aristocrática, olímpica (gibelina) e do corpo sacerdotal-lunar, telúrico-ctônico (guelfo) como essencial, até mesmo de uma essencialidade dialética para a gradual decadência do mundo tradicional. O mundo moderno pode ser definido então como a vitória do espírito sacerdotal-lunar, ginecocrático, feminil sobre o espírito viril, olímpico, ou melhor, como o atrofiamento desse último, resultado das condições cósmicas degenerativas características desse estado da manifestação cíclica, a Kali Yuga. Com tal atrofia, o mundo tradicional cai cada vez mais no imanentismo, abrindo os caminhos para o domínio das Mães Infernais. Eis a gênese do mundo moderno e de suas ideologias políticas regressivas como a democracia liberal e o coletivismo bolchevique.

    Necessário estabelecer dois pontos:

    1-Embora possa parecer uma visão misógina e machista, na verdade, Evola critica justamente em seu influenciador, Otto Weininger, essa misoginia, pela estreiteza dessa visão. Não é o feminino espiritual que o barão demoniza, mas seus aspectos mais caóticos e desagregadores, produtos da degeneração cósmica e atrofia espiritual da espiritualidade viril. Metafisicamente, Evola segue Guenon: o masculino e o feminino, como tantas outras dualidades metafísicas a que esta preside, não são oposições, mas dualidades complementares. O masculino representa a essência da realidade, o ‘aspecto’ da transcendência, a representação mais direta da face de Deus, o espírito que atualiza tudo no ser. O homem é o Logos divino, o sopro que inspira a manifestação. O feminino é a substância, a imanência, o reino da lua e das formas, da vida, do desenvolvimento do cosmo e de diversos aspectos de vários reinos vivos, o devir, a sustentação do ser na realidade concreta. A mulher é a matéria, o sustento da manifestação, seu suporte. Ambos são essenciais. Sem o suporte feminino, o homem nada cria. Sem o espírito masculino, a mulher é uma terra estéril, que nada gera. O homem É, mesmo sem a mulher, ele é eternamente ativo, ativista. A mulher, sem o homem, não é, apenas Vive. No primeiro caso, se trata da atualidade infecunda da pré-manifestação, o momentum antes do sopro criativo. No segundo, se trata do cosmo fechado ao espírito, estéril e que está se desfazendo, nas últimas fases da Kali Yuga.

    2-Evola não vê a realidade como a dominação absoluta do princípio masculino, nem como de um equilíbrio entre masculino e feminino. Ele abomina tanto um patriarcado burguês, violento e animalizado quanto o igualitarismo caótico dos feminismos e igualdades de gêneros modernos. Para ele toda a manifestação, desde o primeiro suspiro da Vida até a grande dissolução de toda existência, é uma grande luta entre os dois princípios, uma verdadeira e cósmica guerra entre os sexos, entre as polaridades sexuais-metafísicas, que é o princípio por trás de todo o antagonismo cósmico e, no caso humano individual, sexual. Aí está a concepção evoliana da extrema desigualdade entre os sexos, não de um domínio de um sobre o outro, mas da natureza totalmente outra, diversa, dos caracteres masculinos e femininos. Tanto o machismo quanto o feminismo, tomados indiferencialmente, são posições anti-tradicionais.

    A Guerra Santa

    É característico de Evola a apreciação do sentido ascético e espiritual da guerra, ao que ele estende também o esporte. Em ambos os casos ele analisa a tipologia da ação pura e os aspectos deturpados e degradantes que tal ação tomou no mundo moderno.

    Influenciado pelo pensamento de Ernst Jünger, pensador alemão, a partir de suas memórias e reflexões de sua participação na Primeira Guerra Mundial (em que Evola também lutou), o barão fala sobre o valor de transcendência da ação pura no aspecto bélico. Nesse sentido é que ele examina os escritos de várias tradições arianas, de povos conhecidos pelo seu caráter heróico e amante da guerra, como os germanos, escandinavos, indianos e islâmicos (estes últimos não-arianos, mas que compartilharam com estes, a partir de sua tradição revelada, do sentido metafísico da guerra). É esse o tema do seu pequeno trabalho ‘Metaphysics of War’ e de vários artigos escritos em diversas revistas.

    Antes, é preciso falar do sentido geral da ação pura. A partir de suas reflexões da juventude sobre o idealismo alemão, Evola chega à noção da ação pura como uma forma paralela à da contemplação para fins metafísicos. Guenon estabelece que a peculiaridade do Oriente é o primado da contemplação frente a ação, diferente da preferência ocidental pela ação, nitidamente inferior, e que explica o caráter anti-tradicional deste. Polemizando também aqui com Guenon (e com todos os perenialistas), o barão italiano defende que para a realização metafísica existem duas vias de igual valor: a via da contemplação e a via da ação pura.

    Em sua polêmica com Guenon, Evola defende que a posição de seu mestre é absurda e que nesse ponto, como no ponto da realeza divina, ele só pode ser seu declarado inimigo. Só faria sentido contrapor ação e contemplação se houvesse, argumenta, nessas duas vias um caminho e direção únicos, como se estas não pudessem ser jamais desviadas de seus intuitos originais e como se, sempre, esses intuitos fossem opostos, per se. Evola argumenta que ambas as vias são, per se, legítimas e ambas podem ser deturpadas.

    No primeiro ponto, é colocada a via da contemplação, a via diretamente ascética, do monge, do santo, do homem que renuncia a todas as posições sociais e honras, responsabilidades e colocações, deveres e direitos e se coloca ao completo dispor da busca mística de Deus. É como o pária, alguém para quem a vida em sociedade é proibida, alguém que vira as costas para todas as honras e questões mundanas para se dirigir unicamente à busca de sua libertação. Diferente do pária, porém, o santo renuncia às obrigações sociais, elas mesmas prenhes de valores espirituais, após ter cumprido tais obrigações ao seu máximo e revelado, em sua vida, uma superação dessa espiritualidade ‘social’. Já o pária se revela excluído da vida social pelos motivos opostos: sua pseudo-espiritualidade social, heresia, blasfêmia, doenças mentais e físicas que lhe tornam a vida social um meio impossível e envolvimento com formas inferiores de magia. É por isso que todo bruxo é considerado um pária, pelo seu envolvimento com forças tenebrosas; não ocorre só no cristianismo, muito menos ocorre por ‘intolerância religiosa’, como defendem certos estudiosos.

    Esse é o caminho da vida monástica. Em sua versão mais solar, temos os santos indianos, os místicos islâmicos, as tradições ascéticas de vários povos primitivos, o xamanismo mais ‘puro’. Alta magia. É a perspectiva do exoterismo, das religiões, em forma pura e condicionada, dependente do aspecto esotérico, que lhes fundamenta.

    Em sua versão lunar, deturpada, temos uma busca excessiva por exercícios ascéticos exagerados (estilitas, faquires, monasticismo ocidental), um dualismo religioso de teor devocionista (típico de todo ascetismo semítico, particularmente cristão), prática de magia baixa, superstição, tirania espiritual, controle de forças baixas e até demoníacas. Xamanismo demonizado. Não se trata propriamente de religião, mas de mera religiosidade sentimentalista a la protestantismo, na melhor das hipóteses. Na pior, trata-se de puro fetichismo.

    O segundo ponto, a via da ação, é admiravelmente expressa em uma tradição conhecida pela sua preferência à via da contemplação: a tradição hindu. Aqui temos os textos do Bhagavad Gîta, que narra o diálogo metafísico do kshatrya, príncipe e guerreiro, Arjuna, com o cocheiro que, na verdade, é um avatar do deus Krishna, a manifestação do Um na realidade visível e concreta daquele ciclo. Atormentado por dúvidas sobre a moralidade de seus atos em uma guerra tão terrível e prolongada, o príncipe se dirige ao cocheiro, em uma conversa entre mestre e discípulo, buscando compreender a natureza dos nossos atos. Krishna explica a ele que a contemplação não é a única via para o moksha e que não são todas as ações que produzem karman, os frutos psíquico-espirituais, condicionadores, de nossos atos, a carga negativa, pesada, que lhes acompanha. De fato, nosso estado condicionado na rede causal de condicionamentos e renascimentos, o samsara, não é quebrado unicamente pela recusa a praticar qualquer ação na renúncia monástica. Krishna lhe alerta que para o kshatrya, cuja natureza está no mando e na guerra como uma pura ação, fora da qual não encontra seu verdadeiro eu, portanto, se pode (e é até um dever) buscar na atividade própria do kshatrya a via de libertação por meio da ação pura. Essa via da ação pura tem seu maior representante na guerra. Logo, Arjuna deve se libertar de todo sentimento humanitário e pacifista, que pertencem à ordem profana, mundana, da existência cotidiana, característica das raças e castas inferiores que, na sua covardia espiritual, só sobrevivem como vermes e parasitas, incapazes de experimentar a ascese libertadora, arriscada e mortífera da guerra, característica dos aryas. Ele deve se livrar dessas considerações limitadas e, buscando unicamente a sua libertação e considerando a vacuidade da existência enquanto sistema fechado em si, buscar a transcendência pela via heróica. De fato, Krishna deve ser o modelo de Arjuna: ele, um deus, pode encarnar em diversos avatares e cumprir diversos avatares, mas não se torna ‘apegado’ (attached) às realidades em que se encontra, mas nelas apenas está enquanto pode auxiliar os aryas, a aristocracia espiritual e viril, a encontrar moksha.

    O outro modelo de tipicidade da guerra santa usado por Evola é, é claro, a jihad islâmica. Ao contrário do que se pensa, nem as Cruzadas nem a jihad são ou jamais foram movidas por interesses puramente profanos, políticos e econômicos (embora estes até existissem, nunca foram os dominantes), nem foram meios utilizados para a propagação pura e simples da fé, cristã ou islâmica. De fato, citando diversos trechos do Alcorão, Evola demonstra como o Profeta elenca as virtudes dos combatentes na jihad, as promessas de Alá a esses guerreiros, seus méritos espirituais e, acima de tudo, o efeito transcendente da participação na jihad. O Profeta fala de duas guerras santas, duas jihads: uma é a Grande Guerra Santa, a guerra espiritual, interna, a batalha do homem consigo mesmo, a luta contra as paixões baixas, os vícios da alma humana, como forma de se apresentar na pequena guerra santa já como um vitorioso, um herói vitorioso contra si mesmo, um conquistador do Satanás em si. Paralelamente, Evola elenca textos ascéticos cristãos: é fora de questão o uso amplo e claro que os Santos Padres faziam de imagens e metáforas militares para tratar do combate espiritual contra as paixões, a busca por sua purificação, pela impassibilidade.

    A deturpação da via da ação pura está quando a ação deixa de ser pura, se contamina com outros motivos e esses motivos tomam o lugar do verdadeiro centro da vida humana: moksha. Assim se troca a ação pura e ascética pelo mero ativismo individualista e profano. A história social e intelectual do Ocidente é um exemplo perfeito dessa deturpação e até onde ela pode levar. No que se refere diretamente à guerra, isso é ainda mais claro: a guerra, conforme praticada e buscada pelos ocidentais modernos, apesar de seu pacifismo, demonstra a dominação total do homem pela técnica, a escravidão do homem moderno, em suas necessidades e projetos plutocráticos e economicistas, à guerra como uma luta de extermínio, um massacre de homens e terras, de consciências, de almas. A guerra moderna, pelo seu caráter de artificialidade heróica e patriótica, pelo seu objetivismo tecnológico, com a sua retórica nacionalista e imperialista, não apenas não permite a realização metafísica em uma ascese heróica da ação pura como destrói o homem, o animaliza,o escraviza à auto-destruição em sua idolatria da máquina. A guerra moderna mente quanto promete o mesmo, ou o minimamente parecido com a guerra tradicional, ela é a deturpação mais satânica do ideal da ação pura da guerra, é a guerra mais impura, a guerra pelos recursos puramente materiais, dos interesses hegemônicos das nações plutocráticos, uma das ferramentas mais úteis da contra-iniciação na sua busca da dissolução final.

    Pode-se dizer que a participação em todo e qualquer tipo de rito, assim como toda e qualquer iniciação é ação mais pura. Logo, a guerra, como a sexualidade, é tão iniciática quanto a ascese monástica e toda tradição esotérica, ou melhor, são todas essas ‘ações puras’ a mesma Iniciação.

    A metafísica dos sexos

    Embora esse tema seja tratado em praticamente todas as obras do barão, ele se foca particularmente nele em ‘Metaphysics of Sex’ e no tratado sobre Tantra, ‘The Yoga of Power’. Partindo da via da ação pura, Evola considera que a sexualidade não pode ser tratada como a mentalidade ocidental a vem tratando há séculos. Ela não pode ser vista simplesmente como um meio de reprodução nem como uma simples forma de obtenção de prazer,conforme a mentalidade hedonista. A explicação psicanalítica é igualmente insuficiente, ao tentar explicar o superior pelo inferior, típico das ciências modernas.

    Não, é preciso buscar no testemunho tradicional o caráter especificamente metafísico, transcendente da sexualidade. E é isso que o barão faz: analisando testemunhos de livros eróticos e romances, manuais de psicologia, textos esotéricos (tântricos e de alquimia sexual), além das obras de autores como sua grande influência, Otto Weininger, faz uma devassa nos aspectos que não se enquadram nas teorias sociológicas, psicológicas e filosóficas da sexualidade, desvelando seu nítido caráter metafísico. Sobre essa questão, basta repetir o que dissemos antes, quando falamos da soberania divina:

    1-Embora possa parecer uma visão misógina e machista, na verdade, Evola critica justamente em seu influenciador, Otto Weininger, essa misoginia, pela estreiteza dessa visão. Não é o feminino espiritual que o barão demoniza, mas seus aspectos mais caóticos e desagregadores, produtos da degeneração cósmica e atrofia espiritual da espiritualidade viril. Metafisicamente, Evola segue Guenon: o masculino e o feminino, como tantas outras dualidades metafísicas a que esta preside, não são oposições, mas dualidades complementares. O masculino representa a essência da realidade, o ‘aspecto’ da transcendência, a representação mais direta da face de Deus, o espírito que atualiza tudo no ser. O homem é o Logos divino, o sopro que inspira a manifestação. O feminino é a substância, a imanência, o reino da lua e das formas, da vida, do desenvolvimento do cosmo e de diversos aspectos de vários reinos vivos, o devir, a sustentação do ser na realidade concreta. A mulher é a matéria, o sustento da manifestação, seu suporte. Ambos são essenciais. Sem o suporte feminino, o homem nada cria. Sem o espírito masculino, a mulher é uma terra estéril, que nada gera. O homem É, mesmo sem a mulher, ele é eternamente ativo, ativista. A mulher, sem o homem, não é, apenas Vive. No primeiro caso, se trata da atualidade infecunda da pré-manifestação, o momentum antes do sopro criativo. No segundo, se trata do cosmo fechado ao espírito, estéril e que está se desfazendo, nas últimas fases da Kali Yuga.

    2-Evola não vê a realidade como a dominação absoluta do princípio masculino, nem como de um equilíbrio entre masculino e feminino. Ele abomina tanto um patriarcado burguês, violento e animalizado quanto o igualitarismo caótico dos feminismos e igualdades de gêneros modernos. Para ele toda a manifestação, desde o primeiro suspiro da Vida até a grande dissolução de toda existência, é uma grande luta entre os dois princípios, uma verdadeira e cósmica guerra entre os sexos, entre as polaridades sexuais-metafísicas, que é o princípio por trás de todo o antagonismo cósmico e, no caso humano individual, sexual. Aí está a concepção evoliana da extrema desigualdade entre os sexos, não de um domínio de um sobre o outro, mas da natureza totalmente outra, diversa, dos caracteres masculinos e femininos. Tanto o machismo quanto o feminismo, tomados indiferencialmente, são posições anti-tradicionais.

    A regressão das castas

    Associado com a realeza divina, a doutrina dos Yugas e o centro do mundo da Tradição, vemos a unidade do pensamento tradicional. O papel do mito e do rito é o mesmo da lei, do Estado, do Império. São todas instâncias humanas que operam como imagens da realidade transcendental, do Éden perdido, buscam reatualizar no homem a imagem divina perdida, sem moralismos e sem dualismos religiosos. Toda iniciação, e isso inclui o monasticismo e a metafísica da guerra, assim como a sexualidade no seu caráter iniciático, buscam o mesmo fim de libertação cósmica, realização metafísica. Particularmente visível é a sociologia tradicionalista que postula que as estruturas, instituições e classes sociais não são criações arbitrárias nem expressões de uma dominação política e social profana, mas a verdadeira expressão na manifestação de uma realidade transcendente.

    Assim é que Evola pode avaliar o feudalismo medieval, assim como Joseph de Maistre e Donoso Cortes, como uma das mais perfeitas formas de vida e relação social. Em ‘Men among Ruins’, seu livro mais abertamente político-ideológico, praticamente um manual de metapolítica tradicionalista, assim como em diversas passagens de ‘Revolt against the modern world’, o barão traz à tona uma valorização tradicionalista da vida social. Para ele, as castas são a mais perfeita e integral expressão no mundo humano do Éden. As castas, uma diferenciação social, assim como toda diferenciação, como a de gênero, de profissão, não significam que o nascimento define a natureza social, mas que a natureza espiritual define o nascimento. Os shudras nascem shudras, os kshatryas nascem kshatryas, os vasyas nascem vasyas. Não é nenhuma ideologia igualitarista que mudará a imutável lei cósmica que se reflete na ordem social, esta é uma manifestação direta da extrema desigualdade espiritual dos homens e tal desigualdade não pode ser corrigida senão por uma extrema desigualdade social (embora não desenfreada e inumana, como acontece no mundo capitalista industrial), que reflita tal desigualdade e busque corrigi-la por uma ascese social, um enfrentamento da vida social segundo a missão, a idéia e os valores de cada casta, integradas no todo da vida tradicional. Não se trata de conformismo, mas ao contrário, de um enfrentamento das limitações espirituais através do trabalho ascético em prol do Imperium.

    As castas, portanto, em suas limitações extremas, em sua unidade interna e impossibilidade de mistura preservam não apenas algo de uma pureza racial no sentido biológico (que não é algo lá tão importante assim) como a pureza de uma raça espiritual, de um povo que mesmo que seja racialmente miscigenado, no sentido espiritual, preserva uma unidade interna poderosíssima, uma força ontológica suprema na sua fidelidade extrema aos arquétipos celestes da Tradição Primordial. As castas são tanto o princípio de classificação das raças dentro da raça, quanto o meio da superação ascética dessa mesma desigualdade. É na batalha social, no seio das castas, que se desenvolve o primeiro embate espiritual, o Sanathana Dharma, a Lei Eterna, a partir de onde se definem os santos (via contemplativa) e os heróis (via da ação pura). Só os que foram iniciados nesse campo de batalha podem partir para os campos de batalha superior, embora isso varie de tradição para tradição.

    O mesmo que se diz das castas pode ser estendido à lei e da lei ao Imperium. O Imperium como uma idéia-força, uma realidade socialmente recriada para imanentizar a realidade espiritual, se firma na sacralidade da realeza, se estende pelos laços aristocráticos de uma elite espiritual apta e transmissora do segredo iniciático, o topo do vértice social e seus auxiliares, a casta sacerdotal, se firma nas atividades econômicas e sociais da classe média dos burgueses em direções e formas criativas, onde se impede toda judaização do capital, se controla esse capital, onde se estabelecem relações de trabalho justas e sustentáveis, tudo sustentado pela multidão das massas de shudras, os seres sem espírito e portadores quase exclusivamente de alma, de paixões, o mundo da prakrti, a manifestação no mundo humano e social da realidade pura substância, da pura matéria, matéria que não é apenas argamasse mas é cheia de potencialidades de auto-superação ontológica. Imperivm.

    Contrariamente, o mundo moderno representa a negação básica do mundo da Tradição nesse aspecto social. Com a vitória da total feminilização desenfreada da espiritualidade, das relações sociais, idéias, sexualidade, ação e contemplação, afrouxamento da disciplina ascética em todos os aspectos da vida, tem-se o fenômeno mais característico da Kali Yuga: a regressão das castas. Toda diferenciação social é eliminada ou relativizada em termos puramente econômicos, plutocráticos, é colocada uma igualdade puramente numérica, massificadora, da humanidade. Igualitarismo que nivela por baixo, vitória dos egoísmos das massas, democratismo assolando e pervertendo toda relação tradicional envolvendo honra e respeito, igualdade desumanizadora, individualismo animalesco e hedonista. Ocorre a shudranização da humanidade, sua proletarização.

    Essas visões políticas do mundo da Tradição e essa crítica social do mundo moderno se refletem em praticamente todas as obras de Evola, particularmente em ‘Men among Ruins’ e ‘Revolt against the modern world’.

    Racismo espiritual

    Aqui já nos colocamos diante das aproximações de Evola com o fascismo e o nazismo, mas se engana quem pensa que estamos diante de um reflexo passivo do ambiente ideológico da Terceira Via. Ao contrário, através delas e lhes corrigindo as insuficiências doutrinárias, Evola elabora uma profunda e complexa doutrina racialista, embasada também no testemunho das tradições.

    Raça para Evola há de três tipos: raça biológica, raça psíquica e raça espiritual. Essa divisão reflete a concepção antropológica tradicional de corpo, alma e espírito. A raça biológica é a enfatizada pelos racistas, de Gobineau e Chamberlain a Hitler, uma concepção limitada. O barão não nega a importância da raça puramente física na constituição externa dos indivíduos mas para ele isso ainda é pouco, se se ignora a natureza psíquica de raça, como se pode falar, por exemplo, de alma latina, alma germânica. Não são meras generalizações psicológicas, mas verdadeiras realidades raciais, embora de natureza inferior à natureza da raça espiritual, uma raça do espírito, formada pela longa e extrema tradição da ascese racial, da formação e desenvolvimento de raças em todos unificados interiormente ainda que exteriormente diversos.

    Se ao falar da Tradição Primordial e dos primeiros momentos da Era de Prata, o barão enfatiza seu caráter quase que exclusivamente ariano, ele não esquece as inúmeras prostituições que os arianos realizaram nessa mesma tradição. Da mesma forma ele não esquece do caráter muito tradicional de inúmeros povos lemurenses (negroides, semitas, pelásgicos, etruscos) que, mesmo sendo essencialmente anti-tradicionais, se venderam menos aos traços regressivos de suas raças físicas e psíquicas que vários povos arianos (um exemplo é a tradição egípcia original que, biologicamente, nada tem de ariana, mas, espiritualmente, nada tem de lemurense; o mesmo se diga do islamismo em toda a sua história que, espiritualmente, é ariana, mas fisicamente, é semita.) O Ocidente é um exemplo desse estado de coisas. Nessa direção, dificilmente se pode falar de raça alemã ou de raça italiana da mesma forma que se fala de uma raça romana, uma raça persa, uma raça helênica, germânica, viking, mesmo que estas últimas apresentam um grau de miscigenação infinitamente superior ao das primeiras. A raça espiritual é de um caráter claramente superior ao da raça biológica e mesmo ao da raça psíquica, afinal, a idéia aqui não é a simples pertença a um grupo social e étnico ou a uma forma de pensar e se comportar, mas a comunhão em um todo integral, em uma visão de mundo definida e imperialmente assumida e vivida.

    Um outro ponto é o citado antissemitismo de Evola que é particularmente igual ao de Weininger. Evola despreza as considerações biologicistas e os estereótipos sócio-comportamentais dos antissemitas oficiais, com relação à ‘questão judaica’, considerando-as pseudo-intelectuais, grosseiras e expressões de uma mentalidade regressiva e apaixonada. Para ele o inimigo que deve ser combatido não é o povo judeu, a raça hebraica, a religião judaica, seus costumes e práticas culturais (muitas das quais, excepcionalmente tradicionais), muito menos o indivíduo judeu e aspectos relativos de um judeu ou outro, mas a ‘judiaria’, aqui elevada a categoria arquetípica. Trata-se de um espírito judaico abstraído, mas não totalmente separado, das instituições e coletividades judaicas, trata-se do espírito do capitalismo industrial, do capital especulativo, da força demoníaca da plutocracia e das considerações puramente econômicas da existência, do mammonismo, do universalismo cosmopolita, do globalismo contemporâneo, da mentalidade especificamente moderna de rompimento de fronteiras raciais, étnicas, religiosas, sociais, fronteiras que, em si mesmas, são carregadas de uma realidade simbólica, espiritual. Desnecessário dizer que essa ‘judiaria’ não se aplica exclusivamente a judeus, membros do povo israelita, praticantes da religião judaica nem a algum clube maligno que busca a dominação mundial. Não, a judiaria não se separa de um conteúdo morfológico concretamente judaico mas não se resume a ele, a ele não se confina e requer muita atenção e cuidado na sua identificação.

    Conforme tratado em ‘Men among Ruins’, a judiaria não é o único nem o mais terrível dos inimigos da Tradição, antes a judiaria é, ao lado de certas agendas políticas, econômicas, sociais e ideológicas de diversos grupos, como a maçonaria, o marxismo internacionalista, grupos de intelectuais liberais etc, apenas instrumentos inconscientes das grandes forças impessoais da dissolução. Usando a terminologia guenoniana, esses grupos seriam como pseudo-iniciações, manipuladas pela Contra-Iniciação, cujo caráter é, pela sua própria essência, indefinível, incognoscível, satanicamente oculto. É nesse sentido que se coloca o antissemitismo e o racismo evolianos.

    É no sentido da doutrina das quatro idades também que se enquadra a noção evoliana da regressão das castas e do contínuo declínio das raças superiores.

    Obras

    Podemos dizer que as obras principais de Julius Evola são as de sua famosa ‘trilogia’,onde o núcleo de seu pensamento metafísico e metapolítico é expresso unitariamente. Essa trilogia é formada pelos livros ‘Revolt against the modern world’, ‘Men among Ruins’ e ‘Ride the Tiger’.

    ‘Revolt against the modern world –

    politics, religion and social order in the Kali Yuga’


    A obra principal do barão italiano é uma verdadeira súmula do seu pensamento e a Bíblia do movimento tradicionalista, o livro de cabeceira do evoliano. O livro se divide em duas partes. A primeira se foca em fazer uma descrição morfológica e comparativa do mundo da Tradição. A segunda faz uma viagem pela história das civilizações tradicionais apontando as razões e processos que levaram à gênese e formação do mundo moderno.

    Na primeira parte são elencados vários temas que organizam e estrutura a face ideológica do mundo moderno e neles são explicadas, com o auxílio de vários textos tradicionais e pesquisas no campo da mitologia e religião comparadas, as faces verdadeiras do chamado ‘mundo da Tradição’, o mundo pré-moderno, possuidor de uma identidade, um direcionamento, um espírito radicalmente diversos aos do mundo moderno. Evola começa introduzindo a questão spengleriana do declínio do Ocidente e contrapondo o passado tradicional ao presente decaído, traz à tona o tema da realeza divina, o caráter essencialmente metafísico de praticamente todas as manifestações humanas desse passado, discute os temas simbolistas dos pólos, a função dos ritos e mitos, o caráter sacro do patriarcado, da virilidade espiritual, da lei, o Imperium. O barão também coloca as várias dualidades tradicionais em confronto à tona: homem e mulher, realeza e sacerdócio, iniciação e consagração. Apresenta os temas da metafísica da guerra e dos sexos, das duas vias ascéticas, o assunto das castas e do racismo espiritual.

    Como se vê é uma súmula do mundo da Tradição.

    Já na segunda parte, Evola segue um caminho diverso do da descrição tipológica e se encaminha por um excurso histórico, embora não uma historiografia à qual estejamos acostumados. O barão examina a história ideal, metafísica, isto é, a história da humanidades desde a ‘época’ mítica da Tradição Primordial até sua ‘época’ propriamente histórica, ou seja, é uma história essencialmente mitológica, por mais contraditório que isso possa parecer.

    Iniciando com a Tradição Primordial e seus representantes, a mítica humanidade hiperbórea, Evola descreve como se deram seus prováveis movimentos migratórios e como se dá sua abrupta queda ontológica e os meios tentados para se recuperar tal estado primordial perdido. Aqui é que se enquadra a humanidade lendária de Atlântida, ainda imortal, mas já contaminada pela dualidade sexual, sob o signo feminino da Lua e dos aspectos benéficos da Mãe demétrica e das Virgens. Posteriormente segue os caminhos do declínio das civilizações atlânticas, as tentativas dos Titãs e os inícios da Kali Yuga, com a formação das civilizações antigas como as conhecemos. Examina o papel do matriarcado demoníaco nas tradições mais afastados da Luz hiperbórea (pelasgos, semitas, povos negroides) assim como as tentativas dos povos arianos em se reaproximar mais dessa Luz (grandes Impérios, iranianos, indianos, romanos, germânicos). Examina mais detidamente o experimento tradicional do Império Romano e, posteriormente, a aliança entre Imperivm e Igreja no Sacro Império, e seu aborto com as maquinações sacerdótico-lunares da Mãe Igreja, do cristianismo anti-tradicional e das diversas ideologias modernas, de caráter feminil-telúrico até sua consumação no capitalismo mammônico e no coletivismo bolchevique, verdadeiras faces asquerosas da Contra-Iniciação. Examina outros aspectos deletérios da Kali Yuga como o liberalismo em suas mais diversas formas, o democratismo, igualitarismo, coletivismo, feminismo, pós-modernidade, homossexualismo etc.

    É um livro essencial para quem quer conhecer o pensamento evoliano, um resumo de toda a sua obra. Aqui estão as suas maiores virtudes tanto quanto suas maiores falhas. Leitura imprescindível.

    ‘Men among Ruins –

    Post-war reflections of a Radical Traditionalist’


    O livro mais ‘político’ do barão é um manual de metapolítica no verdadeiro sentido da palavra. Evola examina aqui a natureza metafísica, ou antes, anti-tradicional das ideologias políticas modernas, seja de esquerda seja de direita. Destroi capitalismo e socialismo ao lhes desvendar a natureza caótica e desagregadora no espírito humano e social, fala diretamente da natureza daemônica da economia, principalmente em sua influência nas ideologias modernas, o economicismo. Análise do caráter metafisicamente ‘kálico’ das revoluções modernas, insuficiência do conservadorismo burguês, críticas aristocráticas da mentalidade e civilização burguesas.

    O barão, motivado pelo espírito da Revolução Conservadora dos pensadores alemães da República de Weimar (Carl Schmitt, Ernst Jünger), conclama uma luta, nas novas gerações do pós-guerra para uma nova militância política, não mais esclerosada nos princípios mofados do fascismo, mas em uma nova e revolucionária orientação, uma orientação tradicional. Ele fundamenta essa nova orientação na tradicionalidade dos antigos Impérios, descreve a natureza das relações sociais, políticas e econômicas desses Impérios e lhes contrapõe o mundo caótico, fragmentário e dissolvente do mundo moderno.

    O Evola político? Está aqui em toda a sua força, magnitude, bombástica declaração de guerra ao mundo moderno.

    ‘Ride the Tiger –

    Survival manual for the aristocrats of the soul’


    Escritos já nos seus últimos dias, esse livro apresenta uma idéia já característica de Evola nos seus tempos finais de vida: apoliteia. Desiludido com o fracasso das ideologias de Terceira Via na restauração do Imperium e com o avanço cada vez mais desenfreado das forças regressivas e dissolutivas na vida social, intelectual e espiritual nesses últimos anos da Kali Yuga, o barão escreve esse pequeno tratado de cunho existencial, dirigido ao ‘tipo diferenciado de homem’, os poucos homens da Tradição que se sentem deslocados e perdidos nesse mundo degradante, conclamando-o a não tomar parte alguma na vida política da pós-modernidade. Apelando à apoliticidade total em um mundo caótico, Evola se dirige a esse tipo de homem e lhe faz um ‘manual de sobrevivência’, tentando explicar os diversos fenômenos que levaram de uma modernidade já decadente aos fenômenos do niilismo, do ateísmo, feminismo, desregramento hedonista total, uso de drogas, homossexualismo, casamento e relação entre os sexos, arte e cultura em geral, música e literatura. Examina também os aspectos espiritualmente degradantes da consciência moderna em sua representação em uma filosofia masturbatória, em uma ciência abstrata e sem a capacidade de oferecer uma compreensão concreta da realidade, examina os existencialistas, e vários aspectos da filosofia de Nietzsche.
     
    • Ótimo Ótimo x 3

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