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Deus, Salve a Rainha!

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Pescaldo, 22 Mai 2009.

  1. Pescaldo

    Pescaldo Penso, logo hesito.

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    Ganhei uma caneta. E não era qualquer caneta. Essa caneta não tinha ornamentos em dourado, tampouco pesava mais do que o normal. Também não pertencia a nenhuma marca chique e sua tinta nem era preta, como é de costume nessas canetas abastadas. Era uma caneta azul, simples, uma BIC. Ignoremos o fato de a BIC ser francesa e da minha falta de apreço por essa região da Europa, mas, de fato, a caneta era dessas mais comuns, um instrumento que um mendigo poderia comprar ao invés de sua costumeira pinga.

    Entretanto, a situação, de extrema gentileza, fez com que esse objeto fosse ornamentado com todas as jóias possíveis aos meus olhos, mas só quando eu recordo do momento, na hora foi bastante complicado.

    Explico o porquê.

    Pesquisava em alguns livros para um escrito posterior. Livros grossos e de difícil linguajar. Quando, a caneta que usava, a fantástica caneta que me acompanhava já fazia três dias, falhou. O tempo era curto e eu precisava anotar a citação que achava interessante, afinal, a continuação da pesquisa dependia desse impasse entre eu e a tinta azul que me fazia falta. Olhava para os lados, aflito, a fim de encontrar um amigo que pudesse emprestar a ferramenta da escrita, no entanto, fui acometido por uma decepção de não encontrar ninguém.

    Estava inquieto e, como não sou de conversar com estranhos mais que o necessário, muito menos pediria emprestado alguma coisa a alguém, acabei me frustrando. Nesse momento, olhei para o lado e um rapaz que também fazia uma pesquisa na mesa próxima a minha me encarava com olhos esbugalhados, talvez a minha impaciência atrás de alguma caneta tenha chamado a atenção.

    Num instante percebi que ele portava duas BICs (uma vermelha e uma azul) e uma lapiseira. A lapiseira estava em sua mão sobre o caderno e as BICs se encontravam desamparadas. Passei por cima de minha timidez e do meu desgosto pelo país de Napoleão:

    - Amigo… poderia me emprestar a caneta? – balbuciei.

    - Hã? – como se não me encarasse – Ah, sim! Claro! – e estendeu a mão com o objeto desejado (e indesejado, são francesas essas malditas!) na minha direção. Peguei e agradeci com um sorriso e um sincero obrigado e comecei a anotar.

    Estava feliz com minha anotação. Alguns segundos depois (acredito), ele bate a mão no meu ombro:

    - Amigo, pode ficar com a caneta, eu preciso sair.

    - Hã? Não, o que é isso? Tome de volta, a caneta é sua, não posso aceitar, já terminei. – uma mentira deslavada, estava no meio da minha pesquisa para o dia. Talvez percebendo a mentira, retrucou:

    - Relaxe. Estou bem de canetas. – e ia saindo da biblioteca, eu, sem saber o que fazer, resolvi perguntar:

    - Que curso você faz?

    E ele respondeu com um sorriso, mas eu não me lembro o ano e nem o curso. Fiquei feliz e, ao mesmo tempo, desgostoso, afinal, a caneta era BIC e agora teria que levá-la para casa (uma obrigação moral) e deveria continuar minhas anotações com a tinta azul.

    Contudo, o que chama a atenção nisso tudo são três coisas: a generosidade dele, o meu constrangimento e a minha indiferença.

    Podem argumentar que uma caneta BIC é mais fácil de achar que foto de Che Guevara em camiseta de adolescente, mas ele realmente abriu mão de seu objeto e me entregou com um sorriso no rosto. Um largo sorriso, diga-se de passagem. E acho que foi exatamente isso que me constrangeu tanto. Eu não faria. Sou uma pessoa educada, distribuo cumprimentos por aí, inclusive para desconhecidos, gatos, cachorros e, volta e meia, para um conhecido, mas não acho que eu daria uma caneta esferográfica para um estranho apenas porque ele precisasse e eu não posso mais ficar no local. Eu a quereria de volta, sem dúvidas! Também devo ter ficado constrangido perante a minha impotência de nem sequer levar uma caneta reserva. Já faz um tempo, desde que voltei a escrever (e não é muito), que canetas costumam falhar depois de dois a quatro dias comigo. E falham feio, não voltam a funcionar. Talvez por uma influência esquisita de astros, eu tenho que trocar constantemente de caneta e isso tem feito com que eu ande com três canetas azuis no bolso. Nesse dia eu fui pego com apenas uma.

    Concluo que o constrangimento tenha sido fruto de uma combinação de impotência (algo normal a meu ver, mas não menos embaraçante) com a constatação de que eu não faria aquilo. Justo eu. Alguém que se considera gentil e de boa índole. Fui acometido por uma angústia terrível de achar que sou um monstro sem coração e sem bondade que até meu bombeador se escondeu por completo atrás do respirador. Será isso da natureza humana? Ou é algo exclusivo de minha pessoa? Acredito que sei a resposta para essas perguntas, mas meu bom-senso não convém responder, até porque a situação piora um pouco.

    Estou indiferente a isso tudo.

    Se estou indiferente por que escrevo? Ora, não sei. Talvez o escritor se revolte com isso e resolva escancarar para o mundo a pessoa horrível que eu sou. Percebam que minha indiferença (talvez algo também natural na atualidade de hoje em dia) se constrói na pergunta que faço ao rapaz quando este se vai. Não pergunto pelo seu nome, nem onde mora, tampouco algum fator relevante que faça com que eu o encontre depois para lhe devolver a (tenebrosa) caneta. Pergunto o curso. E só. Nem me dignifico a lembrar do curso do sujeito para poder lhe devolver a BIC que me emprestara. Isso merece os questionamentos já feitos por mim algumas linhas acima. Talvez alguns outros, entretanto não vejo necessidade de fazê-los no momento, afinal, aqueles que me vieram em mente foram esquecidos antes que meus dedos proferissem tal blasfêmia contra mim.

    Talvez uma defesa de mim em oposição à vontade do escritor.

    Portanto, encerro o texto com um questionamento fundamental para a problemática principal que esse amontoado de palavras trouxe:

    O que fazer com essa maldita (porém, fortuita) caneta BIC?
     
  2. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    boa crônica, pescaldo.

    existem escritos onde a imaginação impera, em outros é a memória. em qual destes o seu se encaixa? pergunto pq o texto ficou mto real, e se fosse, ao menos metade ficção, teria me enganado direitinho. mas, mesmo sendo baseado em uma situação real, vc soube aproveitar bem o mote pra escrever um belo texto.

    qto à generosidade alheia, ela tem dessas nóias de nos deixarem pequenos, qdo na verdade poderíamos pensar q algum outro gesto seu poderia causar a mesma reação no outro rapaz. nem todos somos perfeitos ou imperfeitos no mesmo grau, nos mesmos atos, q os outros. essa é a maravilha da natureza q nos permite sermos indiferentes.

    ah, e eu nem desconfiava q a bic era francesa...
     
  3. Pescaldo

    Pescaldo Penso, logo hesito.

    Não revelo se a situação é real ou não. Entretanto, deixo no ar o seguinte dizer: a memória é uma criação, portanto, mesmo que real, ela ainda não é.

    Eu gosto muito do estilo do Trevisan e do Machado, dois escritores fundamentados no cotidiano. A simplicidade de Drummond também me é fascinante, mas isso não me impede de escrever algo um pouco mais esotérico. Voltei a escrever só agora (depois de uns 3 anos parado) e com a carga de quase formado em Letras, sinto-me mais seguro e, provavelmente, mais textos irão surgir.

    Vamos ver, pretendo experimentar de tudo (ui).
     
  4. Thorondir

    Thorondir Usuário

    Achei um pouco repetitivo... você usou 22 vezes a palavra "caneta" e oito a palavra "BIC".

    A repetição nem sempre é negativa, mas isso depende muito da mensagem que você quer passar e do seu público alvo. As poesias do Alberto Caeiro, por exemplo, são bem repetitivas, mas é proposital. Não sei se você pensou nisso, mas vale a pena dar uma revisada porque, para mim pelo menos, o tema foi se perdendo na palavra comum.
     
  5. Pescaldo

    Pescaldo Penso, logo hesito.

    É proposital. Se você perceber, a principal indagação que eu encerro o texto (e, praticamente, todo o texto) gira em torno mais da caneta BIC que do ato do doador.

    Qual é o tema que se perde na palavra comum? Gostaria de saber o que você viu no texto. Entretanto, mesmo que tenha se perdido, a intenção de desvio do assunto já aconteceu mais de uma vez, o que é um ponto positivo (interno) pra mim, porém estou colocando mais fé nas leituras de vocês que não me conhecem do que aqueles que me conhecem.

    Sou o tipo de leitor bastante crédulo ao que vejo nos textos quando os leio, procuro pensar em tudo, proposital ou não. Afinal, o escritor não quer dizer, ele diz. Por isso se acontece uma repetição exagerada ou alguma coisa do tipo, eu penso que é algo proposital. Como o Tabacaria.
     

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