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Monteiro Lobato censurado com a permissão da bisneta.

Ilmarinen

Usuário


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O texto está lá, praticamente por inteiro, mas frases inadequadas foram mudadas, assim como a representação de alguns personagens. A popular Tia Nastácia foi modificada cirurgicamente. Retiramos todas...

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/cultura/o...ZQi18kuJy_nuNjmabAX8q1LjZA4k00t5cDXUIOGz1B32U



Mensagem antiga minha com material relevante pra esse assunto que agorinha mesmo estou usando pro meu trabalho de faculdade. Agradecimentos devidos a Éomer pela preciosíssima citação do Memórias da Emília mostrando a profundidade da ambiguidade de Lobato a respeito do assunto, ambiguidade esta que, numa certa medida ( imensamente menor em relação a Lobato), também se aplicava a Tolkien ( cf artigo publicado em Tolkien Studies 07).

As partes referentes a Lobato estarão em negrito.
Ilmarinen
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Re: Sobre ananos, meões e traduções
Citação:
Post Original de Lingwilóke
Como eu disse, é uma paixão danada... Por exemplo, se no leitor anglófono o epíteto Dark Lord evoca de alguma maneira a Lúcifer e há todo um contexto que não só confirma mas também reforça isso, não é necessário saber que em tal carta Tolkien chamou Sauron de daemon e Melkor de diabolous.
.
Aí é que a gente meio que se engana, sabia, que com todos esses elementos, Dark Lord, menção a uma encarnação humana de "Maleldil" ( o equivalente de Ilúvatar nessa obra de Lewis) na Terra, etc, etc , etc a maioria dos críticos literários jornalísticos* ingleses da época não pegou o subtexto religioso e filosófico de Out of the Silent Planet? Ou fingiu que não para poder criticar o livro e suas idéias dissimulando a percepção de seu conteúdo religioso e sua relevância. E podemos ver que até aqui no Brasil, foi a conta de se alterar Dark Lord de Senhor das Trevas ou similar pra Senhor do Escuro e tem muito leitor brasileiro que fica míope e deixa de ver todas as alusões bíblicas do SdA só porque leva ao pé-da-letra o comentário de Tolkien sobre o repúdio à Alegoria e a confunde totalmente com Analogia.

*( por essas e outras que eu andei discutindo na Wiki em inglês, com a qual contribuo, dizendo que dar excessivo valor a coisas acadêmicas e textos jornalísticos como fontes secundárias ao mesmo tempo em que se menosprezam webpages confiáveis é um erro)

Dê uma olhada nessa discussão histórica do Orkut, apesar do deletamento de diversas mensagens, inclusive do pobre católico inteligente que começou o tópico e foi recebido a pedradas ( o orkut intepreta mensagem de perfil deletado como se fosse spam e some com elas )e vc verá que o fanatismo das pessoas que não querem ver o simbolismo já começa a parecer o da Santa Inquisição que eles mesmos tanto gostam de criticar. Alguém ai lembra de Fëanor?

Citando Nietzsche cujas influências sobre Tolkien estão sendo estudadas cada vez mais:
Citação:
"""Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você" - Nietzsche (Além do Bem e do Mal)""
E isso era algo que o próprio Tolkien não queria senão não teria feito tanta analogia nas cartas pra explicar sua mitologia pros outros, não teria reconhecido a influência da Virgem sobre a Galadriel, não teria chamado Melkor de Diabolus e nem Elendil de figura "estilo Noé" etc,etc..

Num sentido eu até entendo: minha geração foi uma que pegou Tolkien para ler quando ele era "cult", era um hábito esquisito ler o autor aqui no Brasil. Eu cresci dos quinze aos 19 anos sem conviver com nenhum outro leitor de Tolkien até entrar na faculdade Daí com as traduções literárias "populares" da Martins Fontes o hábito de se lê-lo foi disseminado. Mas o brasileiro meio que está vivendo um vácuo de crença, por um lado é a abordagem evangélica fundamentalista que parece que tenta enfiar o Gospell pela goela dos outros a qualquer preço e que chega a dizer que católico não é cristão por causa de fanatismo doutrinário e arrogância, por outro é o materialismo desmesurado dos nossos dias e a perda de valores morais, tornando tudo sem sentido e sem gosto.

Como a onda de popularização de Tolkien aqui no Brasil acompanhou a propaganda cinematográfica e o culto que as atuais bandas de Rock dão ao autor ( começando pelo disco temático do Blind Guardian e agora chegando a dezenas de bandas novas com nomes tolkienianos), eu já reparei que muito fã novo brasileiro, jovem e até não tão jovem, tende a pegar Tolkien como nova "religião". E ser igualmente fundamentalista em se interpretá-lo ao pé da letra, achando que tudo o que ele diz para todo mundo ,toda hora reflete sempre "a verdade" dos fatos. Haja vista a proporção cõmica que o assunto das asas dos balrogs atingiu entre a gente com o brasileiro chegando a forjar justificativas não acolhidas em nenhum lugar em inglês, disseminando boatos e lendas urbanas para justificar uma intepretação só em um assunto onde qualquer exame literário atento da matéria mostra que Tolkien deixou a questão dúbia , provavelmente, de propósito

Esse pessoal fica com uma tendência de ficar perplexo e até de se revoltar na hora que descobre que Tolkien embutiu propositalmente ( "inconscientemente na redação mas conscientemente na revisão" como ele mesmo alegou), um simbolismo "católico-cristão" na sua obra, porque, de repente, é como se descobrissem que Tolkien tem uma faceta que parece fazer dele mais um "evangélico", só que disfarçado, tentando doutriná-los com um "cavalo de tróia" literário.

É irônico que isso aconteça com Tolkien porque foi C.S.Lewis que confessou que queria que Narnia fosse "teologia infiltrada" por debaixo dos narizes dos "dragões vigilantes". Isso tudo reflete um descompasso que nossa sociedade global tem sofrido em relação à época de Tolkien e Lewis. Na época deles, os fanáticos eram os caras que não tinham uma religião e colocavam Nietzsche e Wagner e a ciência positivista num trono ou numa "Torre Negra", Como aqueles famosos do "Heil Hitler"!!Eram eles que tentavam doutrinar os outros e preconizavam a disseminação do culto da ciência e do método experimental como a panacéia pra resolver tudo. Era esse povo que estava por cima.

Aqui no Brasil , Monteiro Lobato foi um intelectual, agnóstico ou ateu e positivista que embutia idéias assim nos seus livros, ainda bem que ele era bondoso, inteligente e culto demais para ir tão longe nessas idéias na literatura infantil do Pica Pau Amarelo . Mas dê uma olhada em O Presidente Negro e você ficará assustado com o fato de que ele podia, por exemplo, advogar a esterilização da raça negra aceitando uma versão mitigada da mesma doutrina racialista dos nazistas. Então a obra literária de Tolkien e Lewis era uma forma de reação contra essa doutrina predominante na época. Só que hoje o pêndulo oscilou pro outro lado.

Os fanáticos atuais são , por exemplo, os mesmos religiosos cristãos puritanos que, nos EUA, baniram o ensino de Darwin e da teoria da evolução no ensino secundário, os mesmos que endossam dois mandatos do presidente Bush e os mesmos que apoiam uma invasão do Iraque com o fajuto e absurdo argumento de se querer encontrar armas de "destruição em massa" num país já pobre e claudicante depois de anos de embargo econômico.Basicamente o lado de Lewis e Tolkien ganhou a Guerra e se perverteu , virando exatamente a mesma coisa que eles combatiam e usando suas crenças como pretextos pra justificar sua fome de poder, ganância e arbitrariedade. Então, não é pra menos que a juventude atual esteja em busca de "religião alternativa" e tenda meio que a tentar ignorar o simbolismo religioso de Tolkien, de J.K .Rowling, da Stephanie Meyer de Crepúsculo ( que faz a mesma coisa que Lewis, a saga inteira de Bella e Edward é smuggled theology também).

Por aí a gente vê uma coisa, fanático que é fanático mesmo, seja de que procedência ou tendência que for, não faz obra literária pra passar adiante ideologia pessoal e doutrinar os outros, zealots são pessoas que não querem que leitores aprendam a decodificar simbolismo, porque pra fazer isso eles têm que fazer uma coisa que mina sua base de poder, deixar os outros pensarem por conta própria e até ensinar metodologia pra fazer isso.

É sempre bom mesmo ficar de olho pra não se deixar influenciar mas o perigoso , muitas vezes, não é ser derrotado por "eles" é se tornar igualzinho a "eles"*no processo de se fazer a resistência. Foi o que aconteceu com Fëanor, tá vendo que dá pra se usar a filosofia de Nietzsche literariamente e como ensinamento para nossas vidas sem virar ateísta ou agnóstico?

Foi isso daí que transformou os EUA e Israel no tipo de força que são hoje, politicamente perniciosos e corruptos, e com a maior parte da população totalmente crente de que tudo que eles fazem é para o "bem maior" e ignorante dos efeitos da política externa deles sobre o mundo.

Passar a reconhecer a importância do simbolismo e das crenças cristãs subjacentes à obra de Tolkien não vai fazer lavagem cerebral em ninguém assim como eu posso ler o Presidente Negro de Monteiro Lobato ( livro que ficou fora de catálogo durante décadas porque a doutrina racialista caiu do pedestal) e não sair querendo esterilizar nenhum negro até, porque, se eu fizesse, deveria ter que começar esterilizando meu tatataravô paterno e , provavelmente, me apagando da existência ...
__________________
So great is the bounty with which he has been treated that he may now, perhaps, fairly dare to guess that in Fantasy he may actually assist in the effoliation and multiple enrichment of creation.

Tolkien no ensaio "On Fairy Stories"
Edição mais recente por Ilmarinen : 01-12-2009 em 10:18
 
Última edição:

Finarfin

Usuário
A princípio, me incomoda essa ideia de reedições modificadas. Já a sugestão de notas de rodapé, parece legal.
Também me incomoda esse apego todo com obras do passado. Elas tem sua importância, claro, mas seu uso deveria mudar com o tempo. Não é só a leitura de um texto que pode ser anacrônica, mas o uso que se faz desse texto também. Não digo que não se deva mais ler Monteiro Lobato, mas penso que não se deva mais lê-lo da mesma maneira como era lido antigamente.

Lembro do bafafá que rolou sobre a censura de Monteiro Lobato nas escolas por conta do racismo. Acredito que haja um (quase) consenso de que a obra do Monteiro Lobato foi escrita em um época diferente e tem que ser lida levando isso em conta. Contudo, porque uma obra escrita em uma época diferente ainda precisa ser usada como referência hoje em dia? Uma obra com conteúdo racista que foi escrita numa época mais racista que agora e que criou uma geração mais racista que hoje precisa mesmo ser usada nas escolas de hoje?

É legal que uma criança branca leia e de certa forma naturalize as frases racistas? É legal que uma criança negra (que é a maioria no Brasil) sinta-se negativa e depreciativamente representada nas obras? Certamente que não.
Reeditar é a solução? Não me agrada. Por que não usar literatura atual?

Que se mantenham as obras tais como foram escritas às suas épocas, mas que não as utilizem mais como instrumento de formação escolar pras crianças de nossa época. Numa idade mais avançada, quando a pessoa tiver mais consciência e puder entender que aquilo representa outra época, quem quiser ler, pode ler. Não se trata de tirar os livros das livrarias. Pode até ser utilizado em escola, mas em trabalhos de estudos sociais pra levantar aspectos sociais, inclusive o racismo. O que é bem diferente de deixar como literatura livre, de entretenimento e formação, nas escolas.

Monteiro Lobato tem seu valor histórico inegável, mas não serve mais como literatura infantil. Que seja usado então como literatura histórica.
Não sei até que ponto são válidas as modificações do texto. Por que a bisneta, ao invés de reeditar, não cria novas histórias no mesmo contexto?
Ou porque simplesmente não partimos pra coisas mais atuais? Não existe mais literatura infantil? Por que ninguém resgata o folclore? Por que temos que ficar presos a um autor já datado?
 

Reverendo

Usuário
(...)
Também me incomoda esse apego todo com obras do passado.

Não deveria incomodar. O que sobreviveu por décadas, séculos ou milênios, não sobreviveu à toa.. O atual ainda não passou pelo crivo do tempo.

Elas tem sua importância, claro, mas seu uso deveria mudar com o tempo. Não é só a leitura de um texto que pode ser anacrônica, mas o uso que se faz desse texto também. Não digo que não se deva mais ler Monteiro Lobato, mas penso que não se deva mais lê-lo da mesma maneira como era lido antigamente.
Lembro do bafafá que rolou sobre a censura de Monteiro Lobato nas escolas por conta do racismo. Acredito que haja um (quase) consenso de que a obra do Monteiro Lobato foi escrita em um época diferente e tem que ser lida levando isso em conta. Contudo, porque uma obra escrita em uma época diferente ainda precisa ser usada como referência hoje em dia?

Porque ela é excelente.

Uma obra com conteúdo racista que foi escrita numa época mais racista que agora e que criou uma geração mais racista que hoje precisa mesmo ser usada nas escolas de hoje?

Sim. Faz parte da nossa história literária e precisa ser apresentada aos alunos. Agora... conteúdo racista? Ou um ou outro detalhe que realmente é infeliz?

O Sítio do Pica Pau Amarelo não é o Mein Kampf.

Ela tem uma visão de época, que entra em conflito com uma visão atual, que mudará com o tempo. Muito do que o homem produziu entra em conflito com essa visão atual. A Bíblia entra.

É legal que uma criança branca leia e de certa forma naturalize as frases racistas? É legal que uma criança negra (que é a maioria no Brasil) sinta-se negativa e depreciativamente representada nas obras? Certamente que não.
Reeditar é a solução? Não me agrada. Por que não usar literatura atual?

Use as duas. Use todas. Mostre... ensine, em vez de descartar.

Que se mantenham as obras tais como foram escritas às suas épocas, mas que não as utilizem mais como instrumento de formação escolar pras crianças de nossa época. Numa idade mais avançada, quando a pessoa tiver mais consciência e puder entender que aquilo representa outra época, quem quiser ler, pode ler. Não se trata de tirar os livros das livrarias.

Pois eu estou sentindo o cheiro disso.

Pode até ser utilizado em escola, mas em trabalhos de estudos sociais pra levantar aspectos sociais, inclusive o racismo. O que é bem diferente de deixar como literatura livre, de entretenimento e formação, nas escolas.

Pronto. Já tirou das prateleiras. Censura, em nome do politicamente correto.

Monteiro Lobato tem seu valor histórico inegável, mas não serve mais como literatura infantil. Que seja usado então como literatura histórica.
Não sei até que ponto são válidas as modificações do texto. Por que a bisneta, ao invés de reeditar, não cria novas histórias no mesmo contexto?
Ou porque simplesmente não partimos pra coisas mais atuais? Não existe mais literatura infantil? Por que ninguém resgata o folclore? Por que temos que ficar presos a um autor já datado?

Não é para ficar preso a Lobato. Aqui a questão é liberdade, não prisão. Lobato era um tremendo de um escritor. Sua obra não tem valor unicamente histórico e esse negócio de “literatura datada” não vai achar muito defensores.
 

Finarfin

Usuário
A ideia do que é um clássico pra um adulto não se aplica no contexto de ensino/aprendizado infantil.

E um clássico deveria o ser assim considerado e assim se manter por si só, sem depender de sua distribuição em escolas infantis pra ser lembrado. Clássico que é clássico se mantém nas bibliotecas, sebos, livrarias e na casa das pessoas. Se achar que tirar um livro clássico das escolas infantis vai fazer com que ele morra, então ele não é um clássico. Essa não deveria ser uma preocupação.
Eu mesmo nunca li Monteiro Lobato na escola, só fui ter contato com os textos dele depois que já tinha discernimento de entender o que aparece ali. Não acho que isso tenha afetado minha formação. Assim como não li a maioria dos clássicos da literatura mundial na escola. Nem por isso eles deixaram de ser clássicos, e nem por isso eu deixei de lê-los fora da escola.

Livros podem ser datados sim, mesmo os clássicos. Principalmente se for pensar no seu uso como literatura infantil. White Fangs é um clássico, é datado e é preconceituoso. Não é que não tenha que ser lido, mas já passou da época em que era literatura de entretenimento para crianças.

Um dos pilares da educação é a sensação de pertencimento. Uma criança negra que vai pra escola e se depara com esse tipo de coisas num livro que era pra ela se divertir:

“Perdemos o anjinho só por sua culpa. Burrona! Negra beiçuda! Deus, que te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo...”

“– Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, por ser preta.
– Que não seja boba e venha, disse Narizinho. Eu dou uma explicação ao respeitável público.”
“– Respeitável público [...] Também apresento a princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura.”

Onde está o pertencimento?
Racismo não é coisa do passado, apesar de ter gente que acredita nisso. A criança negra vive o racismo diariamente, e vai pra escola e ainda vê isso reforçado em frases desse tipo. Não é como se o racismo estivesse resolvido e as pessoas lessem e pensassem "nossa, como era ruim naquele tempo, né?!"
Não. Essas frases representam uma realidade que ainda é atual (e se é menos intensa do que já fora no passado é por "culpa" do que muita gente chama de mimimi). Estão longe de trazer o pertencimento pra criança, Se trazem algo, é humilhação.

Não há propósito em que a escola recomende esse tipo de leitura pras crianças como literatura infantil. O único propósito que isso se encaixa no ambiente escolar (de crianças, é sempre bom lembrar que estamos falando de crianças) é em discussões de cunho social. Aí sim, se bem conduzidas, podem ser muito produtivas. Mas é no mínimo ingenuidade achar que as escolas no Brasil estão preparadas pra esse tipo de condução. Se estivem, ótimo. Mas e as que não estão, é normal continuar dando esse tipo de literatura pra criançada?

Dizer que milhões de crianças negras no país podem ir pra escola e se sentirem humilhadas por um clássico, só porque um clássico deve ser intocável, pra mim é simplesmente um absurdo. Se quer defender Monteiro Lobato nas escolas, precisa de um argumento melhor que esse. A prerrogativa de clássico não deveria dar o direito a ninguém falar pra uma criança preta que um semelhante seu, que deveria lhe trazer pertencimento, é assim porque foi condenada por uma fada mas que pode um dia se tornar uma linda princesa loura. Isso é abjeto.

Assim como hoje em dia é datado (embora ainda mais modesto do que deveria ser, mas já é um começo) que existam apenas bonecas brancas, apenas príncipes e princesas brancas, e apenas atores e atrizes negras em papéis de empregados, a literatura infantil que ao invés de trazer pertencimento, humilha as crianças negras, também está datada.

Quer ler? Leia, leia à vontade. Mas leia por escolha. Não imponha isso pra uma parcela significativa da população infantil, num sistema educacional que já é bastante capenga, que pode se sentir depreciada com esse tipo de leitura.

Clássico é bom, mas não pode servir de muleta pra não aceitar o novo, não aceitar que tem mudança que vem pra melhor, que a sociedade evolui, e que o papel do clássico não se extingue, mas muda.
 

Reverendo

Usuário
A ideia do que é um clássico pra um adulto não se aplica no contexto de ensino/aprendizado infantil.

E um clássico deveria o ser assim considerado e assim se manter por si só, sem depender de sua distribuição em escolas infantis pra ser lembrado. Clássico que é clássico se mantém nas bibliotecas, sebos, livrarias e na casa das pessoas. Se achar que tirar um livro clássico das escolas infantis vai fazer com que ele morra, então ele não é um clássico. Essa não deveria ser uma preocupação.
Eu mesmo nunca li Monteiro Lobato na escola, só fui ter contato com os textos dele depois que já tinha discernimento de entender o que aparece ali. Não acho que isso tenha afetado minha formação.

Pelo que estou notando, isso é duvidoso, já que só depois que saiu da escola, você estava em condições de discernir o que era relatado numa obra para crianças.
Lobato não depende da apresentação para os alunos nas escolas. Tire suas obras das escolas, e são elas, as crianças/escolas que saem perdendo.
Como se as coisas já não estivessem suficientemente ruins.


Assim como não li a maioria dos clássicos da literatura mundial na escola. Nem por isso eles deixaram de ser clássicos, e nem por isso eu deixei de lê-los fora da escola.

Livros podem ser datados sim, mesmo os clássicos. Principalmente se for pensar no seu uso como literatura infantil. White Fangs é um clássico, é datado e é preconceituoso. Não é que não tenha que ser lido, mas já passou da época em que era literatura de entretenimento para crianças.

Caninos Brancos preconceituoso? É a história de um cachorro, aliás de um mestiço, aliás de um canibal. Ali sobra bordoada para todo lado e está mais adequado para os jovens e adultos, não para crianças. A “realidade” de Caninos é dura e selvagem.
Você leu no original ou na tradução de quem?
Eu li na tradução de Monteiro Lobato (ele mesmo!) e ali, é melhor as crianças ficarem longe.

Sobre o “datado”, ao meu ver você usa o termo para designar “ultrapassado”. E nisso, eu não concordo.

É como dizer que a Ilíada ou A Divina Comédia está ultrapassada. Ou... O Patinho Feio.

Um dos pilares da educação é a sensação de pertencimento. Uma criança negra que vai pra escola e se depara com esse tipo de coisas num livro que era pra ela se divertir:

“Perdemos o anjinho só por sua culpa. Burrona! Negra beiçuda! Deus, que te marcou, alguma coisa em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo...”

“– Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, por ser preta.
– Que não seja boba e venha, disse Narizinho. Eu dou uma explicação ao respeitável público.”
“– Respeitável público [...] Também apresento a princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura.”

Onde está o pertencimento?

Na explicação. No esclarecimento. No ensinamento. No mostrar como as coisas eram e que mesmo um autor muito talentoso podia errar feio. Não no esconder debaixo do tapete. Não no pasteurizar. Não no subestimar o poder de discernimento das crianças, que junto com a leitura prazerosa (e como é bom ler Lobato), terão um aprendizado importante.

Plutarco, rapaz. Não se mostra apenas as qualidades, mas também os defeitos.

Essa conversa já é velha por aqui. Censores começam afastando Lobato das crianças, depois Mark Twain, rasgando essa e aquela aventura do Tintim, do Conan e do Fantasma. No caso dos jovens, nada de Ezra Pound, Fernando Pessoa, Aluísio Azevedo e padre Antônio Vieira. E alguém vai se sentir ofendido com “Otelo”, então, nada de Shakespeare, e trocamos o nome de um dos maiores sucessos de Agatha Christie. E que H. P. Lovecraft seja devorado por Cthulhu.

Ah... eu estava me esquecendo dela... nada de Bíblia.

Racismo não é coisa do passado, apesar de ter gente que acredita nisso. A criança negra vive o racismo diariamente, e vai pra escola e ainda vê isso reforçado em frases desse tipo. Não é como se o racismo estivesse resolvido e as pessoas lessem e pensassem "nossa, como era ruim naquele tempo, né?!"
Não. Essas frases representam uma realidade que ainda é atual (e se é menos intensa do que já fora no passado é por "culpa" do que muita gente chama de mimimi). Estão longe de trazer o pertencimento pra criança, Se trazem algo, é humilhação.

Alguém disse que racismo é coisa do passado?

Conheça o passado. Não esqueça o passado. Apresente o passado.

Você parece ser do tipo “esconde isso aí”.

Não há propósito em que a escola recomende esse tipo de leitura pras crianças como literatura infantil.

Tirando o fato de que Lobato está entre os melhores escritores que o
Brasil já produziu...
Mas se você quer gente mais nova, podemos citar Odilon Moraes, que é muito bom. Afinal, ele foi vencedor do troféu Monteiro Lobato de literatura infantil


O único propósito que isso se encaixa no ambiente escolar (de crianças, é sempre bom lembrar que estamos falando de crianças) é em discussões de cunho social. Aí sim, se bem conduzidas, podem ser muito produtivas. Mas é no mínimo ingenuidade achar que as escolas no Brasil estão preparadas pra esse tipo de condução. Se estivem, ótimo. Mas e as que não estão, é normal continuar dando esse tipo de literatura pra criançada?

É normal e deve ser dada , e comentada, e explicada, como estou repetindo continuamente. Muito melhor do que a censura, que começará com um e englobará um monte.

Dizer que milhões de crianças negras no país podem ir pra escola e se sentirem humilhadas por um clássico, só porque um clássico deve ser intocável, pra mim é simplesmente um absurdo.

Para com isso. A criança negra terá o conhecimento e não será humilhada, assim como não haverá qualquer humilhação ou vergonha em saber que Zumbi tinha escravos, e que o maior massacre de pessoas negras na atualidade, foi perpetrado por outras pessoas negras.

Se quer defender Monteiro Lobato nas escolas, precisa de um argumento melhor que esse. A prerrogativa de clássico (...)

Argumento já dado.

Assim como hoje em dia é datado (embora ainda mais modesto do que deveria ser, mas já é um começo) que existam apenas bonecas brancas, apenas príncipes e princesas brancas, e apenas atores e atrizes negras em papéis de empregados, a literatura infantil que ao invés de trazer pertencimento, humilha as crianças negras, também está datada.

Quem é que está datado agora?

Quer ler? Leia, leia à vontade. Mas leia por escolha. Não imponha isso pra uma parcela significativa da população infantil, num sistema educacional que já é bastante capenga, que pode se sentir depreciada com esse tipo de leitura.

Bem... você não quer ler? Então, não leia “a vontade”. Lobato faz parte de nossa história literária e deve(!) ser apresentado, lido, discutido, criticado, apreciado. Não haverá um buraco no ensino. Você, é claro, tem o direito de enterrar a cabeça num buraco e negar o passado, a história, e o valor inegável de uma obra literária.

Clássico é bom, mas não pode servir de muleta pra não aceitar o novo, não aceitar que tem mudança que vem pra melhor, que a sociedade evolui, e que o papel do clássico não se extingue, mas muda.

Desde que o novo preste... ótimo. O tempo dirá.

Para Monteiro Lobato, o tempo já disse: ele permanecerá. Sua obra continuará sendo (estou me repetindo) criticada, ensinada e apreciada. E para tudo isso ela terá de ser lida.
 
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Fúria da cidade

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Usuário Premium
Só leio obra do Monteiro Lobato original.

Pra mim ler qualquer obra dele modificada = abastecer um veículo com combustível "batizado".
 
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Mercúcio

Usuário
@Finarfin , primeiro de tudo: lamentável o episódio que você trouxe. Em segundo lugar, sim, o racismo é uma realidade. Aliás, pelo que li da discussão, ninguém aqui disse o contrário.
Ao trazer esse vídeo, o seu ponto é o de que a literatura de Lobato contribui para a reprodução do racismo, é isso? E a sua sugestão é a de que, por isso, ele seja retirado das escolas.

Bem, eu estou com o @Reverendo nessa.

Me oponho a esse tipo de intervenção. Como já comentei outras vezes aqui, a História não é um passeio no parque. Existe toda sorte de violências, de opressão, de injustiças em sentido lato. E, naturalmente, isso se reflete na arte. Se admitimos expurgar a arte daquilo que hoje a nossa sensibilidade rejeita, teremos que nos perguntar onde essas intervenções iriam parar.
Eu entendo que no caso do Lobato a questão seja mais sensível, por se tratar de uma literatura voltada para crianças. Mas mesmo aqui essas questões, bem apresentadas, podem ter um papel formativo.

Lembro que há pouco tempo, nos EUA, se exigiu que "O Sol é para Todos" fosse retirado do currículo em escolas dos EUA, porque o livro feria a sensibilidade dos alunos, em razão do uso do termo "nigger". Também há pouco tempo se discutiu retirar do currículo das escolas italianas A Divina Comédia, uma obra do século XIV, porque ela seria racista, antissemita, islamofóbica e homofóbica.
Lembro de um vídeo do marxista esloveno, Slavoj Zizek, em que ele contava que, na Austrália, se intentou censurar a ópera Carmem, porque a cena inicial se passa diante de uma fábrica de tabaco - o que poderia ser um incentivo ao hábito de fumar.
Alguns anos atrás, houve uma polêmica a propósito de um filme dos X-Men, porque o poster mostrava o vilão Apocalipse estrangulando a Mística - o que seria um retrato da violência contra a mulher.

Olha... quando a direita escrota pôs as manguinhas de fora e saiu por aí, dando azo aos seus ímpetos censórios, patrulhando exposições de arte, etc... fui o primeiro a criticar. Mas já vinha criticando os ímpetos censórios partindo de uma parcela da esquerda. O problema nesse tipo de situação é que cada qual se julga detentor das mais puras intenções.
Eu tendo a ser refratário a esse tipo de expediente e considero mesmo reacionária essa "sanha purificadora", que quer livrar a arte de tudo aquilo que é feio, errado, deplorável, incômodo, anacrônico. O mundo não é mesmo fofinho e cor de rosa. E veja bem, com isso eu não estou defendendo que tudo aquilo que há de errado em uma obra não seja objeto de uma apreciação crítica. Mas tenho um bocado de medo dessas censuras "bem-intencionadas".
 

Finarfin

Usuário
Meu ponto é que esse tipo de coisa não cabe mais como literatura infantil.
Pode ser usado em aulas de história ou sociologia. Pode ser lido em casa por quem quiser. Mas se for pra ser simplesmente dado como leitura pra criançada na escola, eu não vejo propósito. Ofende e machuca (por isso trouxe o posto do twitter) a troco de que?

Eu também sou contra a censura de arte, mas não é porque é arte que é adequado em qualquer lugar, contexto e faixa etária. O próprio Reverendo comentou que o Caninos Brancos não deveria ser considerado literatura infantil (o que eu concordo). Mas já foi usado em escola como literatura infantil.
E pra mim, Monteiro Lobato também já está datado nesse contexto em particular. Não prego que tenha que ser banido, cancelado, ou queimado. Mas o contexto em que essa literatura era tida como adequada no passado já não me parece mais adequado hoje em dia. Eu penso que a sociedade já está mais evoluída nesse sentido, ou deveria estar.

Eu também não acho que proibir seja a melhor maneira de lidar com isso. O ideal seria que cada professor (ou escola) tivesse autonomia de de montar seu planejamento didático. E que se for algo muito bem pensado e conduzido, ok. Mas pra mim não é nenhum absurdo que se deixe de recomendar, ou mesmo se pare de usar, obras com frases tipo as que citei lá atrás. Pelo menos não até certa idade.

E isso de reescrever com uma roupagem politicamente correta, eu não gosto, isso me parece mais censura do que desrrecomendar pra uma faixa etária específica. Seria melhor esperar que as pessoas tenham mais maturidade pra poder ler o original com olhar mais crítico e menos passional.
 
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Mavericco

I am fire and air.
Me inclino a concordar com o colega de cima (não sei digitar esses nomes tolkenianos não, gente)

Literatura infantil é diferente da adulta pois envolve claramente o critério da formação de caráter do leitor. Por isso não basta só ser clássico ou bem escrito. A gente releva que o livro seja um aterro sanitário do ponto de vista moral se, uou, decassílabos.

Então é possível a princípio que obras clássicas sejam adaptadas pro público infantil, tanto pelo vocabulário quanto pela própria narrativa, ou mesmo que uma literatura infantil de séculos atrás seja adaptada para um formato mais alinhado ao que a gente quer que nossos pimpolhos hoje sejam.

O foda do Lobato é que ele foi lido por muita gente. Quando o livro de literatura infantil é de séculos atrás, ok, é coisa do passado, cria-se um distanciamento que para todos os efeitos protege a obra de qualquer adaptação: se fizerem uma, será só uma e não vai substituir na memória afetiva imediata das pessoas a experiência do original.

Com o Lobato não. As pessoas leram no original, assistiram aquele seriado chato da TV e criaram um laço afetivo com aquilo. Se não fosse isso, penso que a ideia da adaptação não causaria tanto rebuliço, afinal de contas a literatura infantil é um gênero quase que por definição adaptável.
 

Mavericco

I am fire and air.
mas assim: não sei opinar se essa é a melhor medida com o Lobato. Falei só da possibilidade abstrata de que um clássico infantil seja adaptado. Tenho evitado ao máximo dar pitaco sobre coisas envolvendo educação já que não tenho vivência...
 

Ana Lovejoy

Administrador
eu acho que se você precisa adaptar, já não vale o trampo. não é uma adaptação de shakespeare para facilitar a leitura para crianças. é adaptação de um livro infantil para crianças.

e a literatura nacional infantil é riquíssima, temos livros às pencas, sobre todos os temas. não só valores morais, mas também que possibilitam várias abordagens da língua portuguesa. tanto livro que dá para formar um ótimo leitor sem nem passar pelo lobato. o currículo não pode ser escolhido a partir dos afetos de outras gerações. se fosse assim, ninguém leria nada de novo.

enfim, eu sei que parece confuso, mas eu acho assim: não mexe nos livros, não. quem quer ler, leia. mas se decidir levar para sala de aula, tem que existir algum tipo de mediação que aponte os trechos problemáticos.
 

Fúria da cidade

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Usuário Premium
Por mim se quiserem fazer versões "adaptadas suavizadas" das obras do Lobato podem fazer a vontade quantas quiserem.

Só não acho justo polemizar tanto sobre o conteúdo original e a partir disso criar um clima desnecessário de caça as bruxas para de alguma forma forçar a todo custo a tirar espaço desse conteúdo, seja das prateleiras das livrarias e/ou sebos no formato de livro físico, seja da Internet no formato eletrônico.

Todos merecem ter o direito de ter livre acesso ao conteúdo original. A pior censura que pode existir será se esse conteúdo for totalmente bloqueado em detrimento de outro. Aí será algo extremamente lamentável.
 

Ilmarinen

Usuário
Por que, no lugar de adulterar e editar, não chamam alguém como o Bráulio Tavares, o Roberto de Sousa Causo, o Marcelo Cassaro, o Ivanir Calado, o Ziraldo e/ou os tantos talentos de que dispomos para escrever novos livros do Sítio do Pica Pau Amarelo com a mesma pegada Pós Moderna do Lobato mas desconstruindo as tiradas anacrônicas e as unfortunate implications dos originais?

Já que o Pó de Pirlimpimpin é tão onipotente pq não fazer um novo livro onde, por exemplo, uma Emília mais esclarecida viajante do tempo confronta sua contraparte mais nova para que ela sacasse pq expressões como "negra beiçuda" são ofensivas? E/ou onde uma "Tia Anastácia" politicamente correta fosse colocada no lugar da original? Deflagrando uma busca pela "desaparecida" e, uma "Crise nos Infinitos Sítios"?


Uma coisa que, ao que parece, não foi falada nem nesse tópico até o momento e nem, tampouco, no outro da controvérsia do CNE e que, talvez, por não ser do conhecimento do @Finarfin, e, aliás, do grande público em geral, matizou um bocado sua percepção da questão lobatiana como literatura "para crianças"e, sem dúvida, a de outros dos postadores da Valinor sobre a polêmica e que, portanto, merece ser destacada com bastante ênfase aqui.

O Sítio do Pica Pau Amarelo do Monteiro Lobato NUNCA foi, no geral, literatura indicada nas escolas do Brasil ( e parece que é inteiramente PROIBIDA, ou, pelo menos, veladamente banida, em Portugal*.

Muito pelo contrário até. E isso por causa do "ateísmo" ou o que aparecia bastante, mesmo na literatura infanto-juvenil do Sítio , um "inconveniente" tipo de iconoclastia "anti-cristã"** do autor e o fato disso fazer com que ele colocasse no texto umas verdades contundentes, disparadas, a la metralhadora giratória ( bem ao modo do JRRT em suas cartas ), pra TODO lado ( "Esquerda" e "Direita", pra "Cima" e pra "Baixo"), veiculadas, por exemplo, pela boca da Vovó Benta em diálogo com a Narizinho. Isso só pra falar das poucas passagens lapidares e justamente célebres que, na minha ainda incipiente leitura do cânon do Sítio, eu me recordo e localizei aqui.

*mais ou menos como a Enid Blyton é best seller, idolatrada em Portugal, mas permanece, praticamente, inédita no Brasil.

**(que, na época, significava basicamente anticatólica em termos de Brasil)






– A conquista da América pelos europeus foi uma tragédia sangrenta. A ferro e fogo! Era a divisa dos cristianizadores. Mataram à vontade, destruíram tudo e levaram todo o ouro que havia. Outro espanhol, de nome Pizarro, fez no Peru coisa idêntica com os incas, um povo de civilização muito adiantada que lá existia. Pizarro chegou e disse ao imperador inca que o papa, havia dado aquele país aos espanhóis e ele viera tomar conta. O imperador inca, que não sabia quem era o papa, ficou de boca aberta, e muito naturalmente não se submeteu. Então Pizarro, bem armado de canhões, conquistou e saqueou o Peru.

109 – Mas que diferença há, vovó, entre estes homens e aquele Átila, ou aquele Gêngis-câ que marchou para o Ocidente com os terríveis tártaros, matando, arrasando e saqueando tudo? – A diferença única é que a história é escrita pelos ocidentais e por isso torcida a nosso favor. Vem daí considerarmos como feras aos tártaros de Gêngis-cã e como heróis, com monumentos em toda parte, aos célebres “conquistadores” brancos. A verdade, porém, manda dizer que tanto uns como outros nunca passaram de monstros feitos da mesmíssima massa, na mesmíssima forma. Gêngis-cã construiu pirâmides enormes com cabeças cortadas aos prisioneiros. Vasco da Gama encontrou na Índia vários navios árabes carregados de arroz, aprisionou-os, cortou as orelhas e as mãos de oitocentos homens da equipagem e depois queimou os pobres mutilados dentro dos seus navios. – Que bárbaro! – exclamou a menina horrorizada. – E que diz a isso Camões em seu poema? – Camões não toca no assunto. Era tanta orelha que ele achou melhor pular por cima... – Que pena, vovó, terem essas feras destruído as civilizações americanas! – lamentou Pedrinho. – Como tão mais interessante e variado seria o mundo, se esses povos tivessem podido seguir seu caminho... – Na realidade, meu filho. Mas que quer você? Tais gloriosos conquistadores não passavam de insignes piratas de audácia igual à daqueles normandos que invadiram a França e a Inglaterra. O pretexto era a necessidade de introduzir no Mundo Novo a religião de Cristo – do meigo e infinitamente bom Jesus. Foram infames até nisso, de esconderem a insaciável cobiça sob o nome do homem tão sublimemente bom que até virou deus. O sarraceno pregava o Corão com a espada em punho. O cristão pregava a Bíblia com o arcabuz engatilhado. O diabo decida entre ambos... e os tenha a todos no maior dos seus caldeirões. (p. 160)
Comparar o trecho acima com essa citação de carta de Tolkien:

Carta 81 para Christopher Tolkien: As notícias da guerra ocidental, é claro, ocupam boa parte de nossas mentes, mas você sabe sobre elas tanto quanto nós. Tempos ansiosos, apesar da gritaria um tanto prematura. Os camaradas blindados estão no auge dela e acham (deduzo) que ainda haverá uma boa parte do auge. Não consigo compreender a linha adotada pela BBC (e pelos
jornais, e desse modo, suponho, emanando do M[inistério] D[a] I[nformação]) de que as tropas alemãs são um grupo variado de vivandeiros e homens falidos, ainda que registrem a defesa mais amarga contra os melhores e mais bem equipados exércitos (como realmente o são) que já entraram em batalha. Os ingleses se orgulham, ou costumavam se orgulhar, do “espírito esportivo” (que incluía “dar o braço a torcer”), não que o comparecimento a um jogo da liga de futebol não fosse suficiente para desfazer a noção de que o “espírito esportivo” fosse algo que um grande número de habitantes desta ilha possuísse. Mas é angustiante ver a imprensa se rebaixando a um nível tão baixo quanto o de Goebbels no seu auge, gritando que qualquer comandante alemão que se mantém firme em uma situação desesperadora (quando as necessidades militares de seu lado também beneficiam) é um beberrão e um fanático apatetado. Não consigo ver muita distinção entre nosso tom popular e os “idiotas militares” celebrados. Sabíamos que Hitler era um cafajestinho vulgar e ignorante, além de quaisquer outros defeitos (e das origens deles); mas parece haver muitos cafajestinhos v. e i. que não falam alemão e que, dada a mesma oportunidade, apresentariam a maioria das outras características hitlerianas. Houve um artigo no jornal local defendendo seriamente o extermínio sistemático de toda a nação alemã como o único curso apropriado após a vitória militar: porque, com sua licença, eles são cascavéis e não sabem a diferença entre o bem e o mal! (O que dizer do escritor?) Os alemães têm tanto direito de declarar os poloneses e judeus vermes sub-humanos extermináveis quanto nós temos de selecionar os alemães: em outras palavras, nenhum direito, seja lá o que tenham feito. É claro, ainda há uma diferença aqui. O artigo foi respondido e a resposta impressa. O Cafajeste Vulgar e Ignorante ainda não é um chefe com poder, mas ele está bem mais próximo de se tornar um nesta verde e agradável ilha do que antes. E tudo isso você sabe. Ainda assim, você não é o único que deseja soltar fumaça ou rebentar às vezes; e eu poderia soltar fumaça se eu abrisse a válvula, comparada com a
qual (como a Rainha disse à Alice) isso seria apenas um borrifo de perfume. Não pode ser evitado. Você não pode enfrentar o Inimigo com o Anel dele sem se tornar um Inimigo; mas, infelizmente, a sabedoria de Gandalf parece ter passado com ele há muito tempo para o Verdadeiro Oeste.....

Checar tb essa citação de uma gravação quase inteiramente suprimida:



Do mesmo modo, a obra adulta do Monteiro, ainda mais a que continha racismo como a raison d'etre do livro como O Presidente Negro, ficou uns 50 anos sem ser editada no Brasil direito. Eu fiz faculdade em BH nos anos 90, frequentava livrarias e sebos direto e sei que bem ANTES da treta jurídica dos herdeiros do Lobato com a Editora Companhia Nacional a partir de 1998, os livros adultos do Lobato já eram raridade disputada a tapa nas livrarias de livros usados. As tiragens não acompanhavam a demanda.





A grandiosidade da obra de Lobato


Sua produção é realmente fabulosa e merece todos os créditos recebidos. Lobato, guardadas as devidas proporções, realiza no Brasil o que escritores como Mark Twain ou Charles Dickens no passado, ou J.K.Rowling, no presente, fizeram em suas obras em língua inglesa, como Huckleberry Finn, Oliver Twist e os livros da série Harry Potter.


A celebração da brasilidade


A brasilidade está presente na obra infantil e adulta de Monteiro Lobato, um nacionalista convicto, que defendeu bandeiras importantes para o país, como por exemplo, a exploração de petróleo em solo nacional antes mesmo da criação da Petrobras e que, por conta de suas ideias e importância, foi preso durante a ditadura de Vargas. Os elementos brasileiros que constam em sua produção para crianças são de grande valor para o resgate e preservação de ideias, personagens, habitats e, principalmente, da rica cultura do interior do país e de seu folclore. Para conhecer melhor este grande brasileiro é recomendável a leitura do livro “Monteiro Lobato: O Furacão da Botocúndia”, de Carmem Lúcia de Azevedo, Márcia Mascarenhas Camargo e Vladimir Sacchetta.


monteirolobato01.jpg



Sobre a importância de se ler mais as obras e Lobato


Lê-se menos do que se deveria a obra de Monteiro Lobato nas escolas brasileiras. Deveria ser parte integrante das listas de leitura e do currículo nacional o estudo de sua proeminente literatura
. A importância disso se refere a própria necessidade de valorizar o Brasil, sua cultura, seus elementos fundantes e, com isso, evitar que estereótipos negativos a nosso respeito, que acabam por levar adiante práticas escusas como “o jeitinho brasileiro” ou ideias de inferioridade, como “a síndrome de vira-latas”, expressão criada por outro grande escritor brasileiro, Nélson Rodrigues, se consolidem. É também importante para criarmos uma identidade nacional e não nos submetermos totalmente a valores importados de outras nações.


Monteiro Lobato em Portugal​


Publicação: 30 de Novembro de 2010 às 00:00


A proibição de um livro de Monteiro Lobato ( Caçadas de Pedrinho) pelo Conselho Nacional de Educação chega a Portugal e é comentada por um dos principais jornalistas portugueses, João Pereira Coutinho, também escritor e professor, que assina uma coluna quinzenalmente na Folha de S.Paulo. Ano passado, a editora Record lançou o livro Av. Paulista, reunindo dezenas de crônicas de JPC publicadas na Folha entre os anos de 2005 e 2008. Lá se encontra de Política à Literatura, passando pelo Futebol, outras artes, viagens e sexo também, em enredos que acontecem pelo mundo afora. João Pereira Coutinho é graduado em História da Arte e doutor em Ciência Política. Escreve no Correio da Manhã, de Lisboa. Seu artigo “O caso Monteiro Lobato”, publicado ontem na Folha contém a melhor análise que já li sobre esse absurdo da proibição do livro de Monteiro Lobato nas escolas públicas do Brasil. Vai na íntegra:

- A minha infância foi pobre. Televisamente falando. Não poderia ser de outra forma. Nasci depois da “Revolução dos Cravos”, que enterrou a ditadura portuguesa de 1974. A televisão lusa dava os primeiros passos em liberdade e a programação era, digamos, incipiente.

- Mas havia excepções. Uma delas era “O Sítio do Picapau Amarelo”, uma produção da TV Globo baseada na obra de Monteiro Lobato (1882-1948). Lembro-me das aventuras de Pedrinho e Narizinho com a mesma gratidão com que me lembro das aventuras de Lucy ou Edward nas crónicas de Nárnia de C.S. Lewis, que li na mesma idade, teria uns 7 ou 8 aos. Sem falar da boneca Emília, de Dona Benta e da Tia Nastácia. Puro encantamento.

- Por causa de Monteiro Lobato, conheci melhor o folclore brasileiro; e, claro, a própria literatura brasileira. Depois da série, li Monteiro Lobato “lui même”. E, por causa do autor, fui entrando no cânone. Primeiro, “O Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos, desde logo porque havia um “portuga” na trama. O livro fez um sucesso em Portugal digno de J.K.Rowling. E depois passei a dietas mais pesadas, com Lima Barreto, Nelson Rodrigues. E o notabilíssimo Rubem Fonseca.

- O racismo de Monteiro Lobão incomodou-me? Nem pensei nisso. Não penso nisso agora. O que não significa que Monteiro Lobato não o fosse: as suas referências a “pretos” podem ser desconfortáveis para uma audiência moderna. Mas se as audiências modernas apenas lessem o que se ajusta ao cânone politicamente correto do momento, que obras ficariam nas nossas bibliotecas? Precisamente. Poucas. Quase nenhuma. Todas as épocas têm suas fogueiras.

- Por isso pasmo com a decisão do Conselho Nacional de Educação de sinalizar com pânico radioativo e institutos censórios a obra “Caçadas de Pedrinho”, publicadas por Monteiro Lobato em 1933. O caso já chegou à imprensa portuguesa, que tem dedicado alguma atenção ao assunto. Deveria dedicar mais porque estamos na presença de um exemplo clássico de ignorância cultural. E, ironicamente, de preconceito ideológico.

- Segundo leio, o livro “Caçadas de Pedrinho” tem referências que não são agradáveis à população negra. Uma princesa, por exemplo, aconselha Emília a não beber café. Para não ficar “morena”. E a Tia Nastácia, que cozinhava os melhores petiscos da minha infância, é referida como “pobre preta”.

- Isso, para o Conselho de Educação, é intolerável. A função do ensino, para o nobre órgão, é inculcar os valores certos na cabeça das crianças, afastando qualquer ofensa às minorias. Sou capaz de entender a generosidade do Conselho de Educação. Mas se a função do ensino é afastar do currículo tudo aquilo que ofende a sensibilidade moderna, repito, não fica nada para mostrar.

- Apagar o passado que nos interpela com seu rol de ofensas e preconceitos é apagar Platão ou Aristóteles, dois conhecidos escravagistas com intoleráveis tendências migósinas. É apagar os versos de Dante na sua “Comédia” com passagens islamofóbicas. É apagar Voltaire pelas mesmas razões, a começar pela sua peça “Maomé”. É apagar Mark Twain pelos mesmos motivos que nos levam a censurar Monteiro Lobato. É não permitir que Shakespeare nos contamine com seu esporádico antisemitismo. E por falar em antisemitismo, é jogar no lixo a poesia de T. S. Eliot, o maior de todos os modernistas. E etc. etc. etc. A lista não tem fim.

- Avaliar a cultura passada com as lentes ideológicas do nosso tempo não é apenas um grosseiro erro de anacronismo. É vandalizar esse passado pela destruição do mundo que ele expressa; é, no limite, uma privação cultural.

- E esse crime não é apenas um crime que cometemos sobre o passado. É também uma porta que abrimos para crimes futuros; para que as gerações vindouras, dominadas por seus próprios valores ou preconceitos, passam usar a guilhotina sobre os nossos valores ou preconceitos; sobre a nossa voz singular e presente; sobre nossos vícios e virtudes; sobre nós. Uma inquisição permanente que não tem descanso.

- O caso Monteiro Lobato é mais um exemplo de como o objetivo do pensamento politicamente correto não é “corrigir” o pensamento politicamente incorreto. É criar um mundo de silêncio, transformando o passado num imenso cemitério.

 
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Ilmarinen

Usuário
E, interessante:, coisa com a qual topei enquanto pesquisava pra fazer os replys aqui.

Monteiro Lobato não era ateísta mas, sim, espírita. Ao que tudo indica, pelo menos no final da vida.



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Reverendo

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Realmente, como disse o português, todas as épocas têm as suas fogueiras e a horda fofinha está juntando madeira para queimar as obras malvadas e ímpias. Ou transformando alimentação forte, em papinhas insossas para os estômagos delicados da geração mimimi.
 

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