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Machado de Assis

Tilion

Administrador
Como sou um cara legal, posso ler o post que a Clara apagou e "descanso" dos meus trabalhos de tradução traduzindo mais coisas, resolvi dar uma traduzida rápida no artigo proceis. Ei-lo.

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Uma breve análise do conto, parte 47: Machado de Assis

Para os leitores de língua inglesa, o brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis talvez seja o mais obscuro dos grandes escritores de contos da literatura mundial. Produzindo obras entre 1869 e 1908, Machado escreveu nove romances e mais de 200 contos, mais de 60 destes últimos aparecerendo após 1880. Essa data marca o ponto em que Machado se metamorfoseou de um escritor de histórias românticas insignificantes para um mestre do realismo psicológico, aparentemente de um dia para o outro. O poeta e crítico brasileiro Augusto Meyer comparou a mudança à das obras iniciais de Herman Melville e Moby-Dick.

O salto evolucionário é inquestionável, embora as razões precisas não sejam claras. Na verdade, a biografia de Machado, que era uma pessoa bastante reservada, é envolta em muitas incertezas. Talvez não seja de surpreender que tal homem viesse a criar uma obra que valoriza a dúvida mais do que a certeza. Meyer chamou a ambiguidade de o tema mais proeminente de Machado e os tradutores Jake Schmitt e Lorie Ishimatsu concordam, vendo-a como sendo "em parte o resultado da sua visão de mundo subjetiva e relativista, na qual verdade e realidade, que nunca são absolutas, podem apenas ser aproximadas; nenhuma relação dos personagens é estável, nenhuma questão é definida e a natureza de tudo é tênue". Machado escreve com agradável clareza – ele trabalhou como jornalista durante algum tempo –, mas a facilidade de suas histórias é uma camuflagem para uma bagagem menos óbvia e mais problemática.

O palco para quase todos esses dramas de incertezas é o Rio de Janeiro do Segundo Reinado (1840-1890), que se expande das suas páginas como uma cidade úmida e movimentada repleta de intrigas, fofocas e preconceitos. De modo notável para um homem que se tornou um distinto funcionário público e fundou a Academia Brasileira de Letras, Machado era neto mestiço de escravos (a escravidão persistiu no Brasil até a década de 1880) e recebeu pouco mais do que uma educação básica. Crescer pobre nos arredores do Rio lhe deu o olhar de um forasteiro sobre a sociedade carioca burguesa da qual mais tarde faria parte. Sua obra satiriza incansavelmente a inadequação humana dessa sociedade, ora de forma selvagem, ora com uma compaixão irônica. Que alguém com o seu passado viesse a se tornar o maior escritor do Brasil é, como observou um crítico, como se Tolstoy, em vez de herdar Yasnaya Polyana, tivesse nascido um servo.

O mais recente tradutor de Machado para a língua inglesa, John Gledson, diz que a dificuldade de traduzi-lo está em conseguir o equilíbrio certo entre distância, entendimento e empatia. Alçapões para o inesperado são abertos constantemente na sua obra, do sadismo de "A causa secreta", ou da violência implacável de "Pai contra Mãe", ao jogo sutil do que Michael Wood chama de seu "humor complicado e discreto". A leitura de Machado remete a tantos escritores diferentes que ele só pode ser único. A sombra arrepiante de Poe paira sobre "A causa secreta" e "A cartomante". "O alienista" reluz com uma sátira swiftiana. O trabalho astuto, até mesmo perturbador de Machado com o ponto de vista dos seus narradores o coloca ao lado de Henry James. Diversos contos antecipam a ambiguidade moral da obra madura de Chekhov, em particular "Singular ocorrência". O mapeamento literário que Machado faz do Rio remete a São Petersburgo de Gogol e Dostoevsky e anticipa a Dublin de Joyce. Por fim, algumas das suas obras mais obviamente estranhas (quase todas são estranhas em certo grau, o que é parte do seu brilho) evocam Borges e Kafka. Levando tudo isso em consideração, não é de espantar que o escritor e crítico Kevin Jackson tivesse segurança suficiente para afirmar que Machado "inventou a modernidade literária, sui generis".

Porém, por mais amplo que Machado possa ser em estilo, há certos temas aos quais ele retorna continuamente. Leia muitos dos contos de Machado em sequência e você logo irá concluir que o mais dominante desses temas é uma obsessão com o tempo e sua passagem destrutiva. Quase todas as suas histórias se esforçam para se estabelecerem no passado recente ou no mais distante. "Morreu em 1859", começa "A desejada das gentes"; em "Eterno!", o narrador nos conta que "já lá vão vinte e sete anos". "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta", começa "Missa do Galo". A história é uma primorosa apresentação de uma tentativa fracassada de recapturar o tempo, neste caso um encontro sexual não consumado. Em "Mariana", um homem é transportado para o passado ao sentar diante do retrato de sua ex-amante epônima. Em "D. Paula", uma senhora de idade se torna quase vampírica no modo como revive um antigo caso através da sobrinha, que está de namorico com o filho do ex-amante de D. Paula. Mas quando a sobrinha se ausenta, a mulher não consegue recapturar as próprias lembranças de uma maneira que a satisfaça:

Mas tudo isso ... tudo isso era como as frias crônicas, esqueleto da história, sem a alma da história. Passava-se tudo na cabeça. D. Paula tentava emparelhar o coração com o cérebro, a ver se sentia alguma coisa além da pura repetição mental, mas, por mais que evocasse as comoções extintas, não lhe voltava nenhuma. Coisas truncadas!​

O que ela buscava só podia ser obtido, como Proust definiria em No caminho de Swann 30 anos mais tarde, pela ação da lembrança involuntária. O fracasso dela é partilhado por inúmeros personagens de Machado, que tentam continuamente encontrar caminhos que levem de volta ao passado. Dessa forma, o ato de contar e experimentar as histórias – e, por extensão, a literatura – torna-se não um modo de interpretar o mundo, mas o mundo em si. Nos momentos mais pessimistas, como na conclusão de "D. Paula", todo o prazer se encontra em um passado que se mostra impossível de ser acessado de maneira significativa.

Essa concepção de um presente vazio e irreal ligado a um passado genuíno, porém apagado, encontra o seu par no interesse de Machado na dualidade do eu e na exploração de personagens cujas personas externas e internas diferem radicalmente. Em "O diplomático", essa ideia é expressa através da descrição de uma paixão não expressa de um homem pela filha de um amigo. Em "Um homem célebre", um compositor de polcas bem-sucedido é atormentado por sua incapacidade de compor música 'séria'. Mas é em um tratamento anterior desse tema, em "O espelho", de 1882, que Machado captura o fenômeno de forma mais memorável. Sozinho em um sítio desolado, Jacobina, um alferes da Guarda Nacional, vê o seu reflexo ficar cada vez mais vago e indistinto. O único modo de fazê-lo entrar em foco novamente, e assim se prender à realidade, é passar várias horas por dia diante do espelho vestido com a farda. Jacobina sai dessa história estranha e assombrosa para assumir o seu lugar ao lado de Dmitri Gurov de Chekhov e Gabriel Conroy de Joyce, homens cujos eus fatalmente divididos os deixam presos em um limbo entre suas personas públicas e privadas. Da mesma forma como os personagens têm seus lugares um do lado do outro, o mesmo se dá com os seus criadores; ao escrever sobre Machado em 2002, Michael Wood reclamou: "Todos que o leem acham que ele é um mestre, mas quem o lê, e quem ouviu falar dele?" Não tantos quanto ele merece.
 
Última edição:

Béla van Tesma

Blood-sucker
Fiquei com preguiça de criar um tópico só para esta notícia, então reaproveitei este aqui.
Talvez a gente reaqueça esta área do fórum... Talvez não. :P

Militantes do país reivindicam identidade negra de Machado de Assis
Nos 180 anos do escritor, debate sobre seu embranquecimento pela história oficial continua presente

20.jun.2019 às 23h45

(A Folha não deixa copiar o conteúdo, então só acessando o link...) :flag:
 

Fúria da cidade

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(A Folha não deixa copiar o conteúdo, então só acessando o link...) :flag:

Se pesquisar na rede, existem extensões e no caso específico do Firefox por exemplo existe uma pequena modificação de entrada de registro a ser feita no endereço about:config que permite liberar isso, mas vou quebrar seu galho, dar uma força e posta-lo na íntegra.



  • Militantes do país reivindicam identidade negra de Machado de Assis
    Nos 180 anos do escritor, debate sobre seu embranquecimento pela história oficial continua presente


    Foi no morro do Livramento, no centro do Rio de Janeiro, que tudo começou. Ali, há exatos 180 anos, nascia um menino pobre, filho de um pintor negro e uma lavadeira branca. Órfão de mãe aos nove anos e epiléptico, seu nome era Joaquim Maria Machado de Assis.
    Imagem colorizada da campanha Machado de Assis Real, criada pela Faculdade Zumbi dos Palmares  - Divulgação

    Era um rumo improvável para a história, mas o rapaz virou o maior escritor brasileiro, celebrado por romances como “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. E não foi um caso de glória após a morte. Ela veio enquanto ele estava vivo.

    No seu aniversário de nascimento, comemorado nesta sexta-feira (21), um debate que existe há décadas —mas que nunca foi encerrado— continua vivo e ganha novos capítulos. Machado de Assis, dizem especialistas e militantes do movimento negro, foi embranquecido pela história oficial.


    Machado de Assis

    Na maior parte das fotografias do escritor que chegaram até nós, Machado de Assis parece branco. Não só na cor, mas com truques de luz que afinariam seus traços para não parecerem africanos.

    De fato, há só duas fotografias mais famosas em que seu tom de pele parece mais escuro —uma tirada de 1905 e outra de uma revista argentina, descoberta só no ano passado.

    No fim dos anos 1950, o pesquisador francês Jean-Michel Massa já revelara imagens encontradas em Portugal que sugeririam que o autor era negro —ou mulato, a depender da posição política que se assuma.

    Apesar de esse papo ser antigo, nada impediu que, em uma propaganda da Caixa Econômica Federal, em 2011, o escritor aparecesse de bengala, pince-nez —e branco.

    MA.jpg

    Nos seus 180 anos, acaba de chegar às ruas a campanha Machado de Assis Real, criada pela Faculdade Zumbi dos Palmares em parceria com uma agência de publicidade. A campanha colorizou uma das imagens em que o autor parece mais embranquecido, de 1893, a fim de retratá-lo como negro.

    Em um site, é possível imprimir a nova foto para colá-la nas orelhas de livros em que o escritor apareça retratado de outra forma.

    “A campanha traz a verdade e a possibilidade, especialmente para os negros, de celebrar um gênio a partir de sua filiação comunitária. E, para o Brasil, mostra como barreiras artificiais do passado não foram o suficiente para barrar a genialidade”, diz José Vicente, reitor da Zumbi dos Palmares.

    A foto não é só um resgate visual, mas um resgate de reputação. Embora reconhecido por méritos literários, durante muito tempo Machado foi criticado por, em tese, não ter tratado da escravidão e do racismo em sua obra —de fato, não há um protagonista negro em seus grandes romances.

    Além disso, ele chegou a ser acusado de tentar embranquecer a si mesmo. Na sua certidão de óbito, aliás, ele é classificado como branco. Machado seria assim o antípoda de Lima Barreto, o único a ostentar sua ascendência africana. Mas há estudos mais recentes que contestam essa visão.

    “Criaram teorias equivocadas. O Sidney Chalhoub [pesquisador, autor do livro ‘Machado de Assis Historiador’] diz que aquela teoria de que Machado pediu a Joaquim Nabuco para ser enterrado como branco não é verdade. E, como funcionário público, ele sistematicamente deu ganho de causa a escravizados”, diz a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz.

    Que Machado não era branco é ponto pacífico. Resta, contudo, um ponto de controvérsia. O antropólogo Antonio Risério, por exemplo, que acumula embates com o movimento negro, diz que o autor era mulato —palavra hoje maldita na militância negra.

    “Há um movimento ideológico feito pelo ativismo que se autoproclama negro. Eles caíram na conversa fiada de Gilberto Freyre, que disse que a mestiçagem foi algo dos senhores currando as escravas. A mestiçagem foi [um fenômeno] popular, com negros, negros libertos, índios e brancos pobres”, afirma ele.

    “Publicamente Machado nunca teve uma posição tipo Luiz Gama [contra a escravidão]. Ele era um menino pobre e mulato. Ele evita a pobreza. Acha que os pobres não são dignos da sua prosa. Ele é o romancista da classe dominante brasileira, na passagem do século 19 para o 20. E isso não diminui os méritos da sua obra.”

    Endereço da página

    https://www1.folha.uol.com.br/ilust...am-identidade-negra-de-machado-de-assis.shtml
 

Melian

Período composto por insubordinação.
Como dar vida a um defunto autor
Três especialistas preparam novas versões de obras de Machado de Assis para o inglês, o dinamarquês e o espanhol

Paula Carvalho


“Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado”, ensina Brás Cubas em seu breve prólogo “Ao Leitor”. Tomo, portanto, ao pé da letra, o conselho do defunto autor criado por Machado de Assis para ir direto ao ponto: a tradução de algumas obras do Bruxo do Cosme Velho para outras línguas.

Memórias póstumas de Brás Cubas vai ganhar duas versões: uma em inglês — empreitada realizada pela norte-americana Flora Thomson-DeVeaux, de 27 anos —, que vai sair no ano que vem pela Penguin Classics, e outra em dinamarquês, pelas mãos de Tine Lykke Prado, de 64 anos, nascida em Copenhague, e que será publicada pela editora Multivers.


Saída da tese de doutorado pela Brown University, a tradução de Thomson-DeVeaux é a quarta realizada dessa obra para a língua inglesa, mas é a primeira a ser publicada com notas explicativas, usadas tanto para justificar escolhas de tradução quanto para contextualizar historicamente o leitor anglófono do século 21 sobre o Brasil da segunda metade do 19. Aliás, “século 19” era o que ela esperava encontrar ao ler pela primeira vez esse romance, ao se embrenhar pela área de estudos brasileiros na graduação em Princeton: “Fiquei chocada! Eu não estava esperando achar no século 19 a ironia, a estrutura fragmentada, o jeito como Machado debocha do leitor, mexe com ele, despista. Parecia que estava vendo um mestre operando”.

Ela demorou oito meses para rascunhar uma primeira versão do romance, período em que ficou longe das outras três traduções “para não ficar contaminada”. Diante da precisão da linguagem de Machado, ela criou um método que chamou de “não científico”. Para além de dicionários tanto em inglês quanto em português do século 19, ela utilizou bases de dados de palavras para ver como eram usadas na época. Por exemplo, se alguma frase ou termo não usual chamava a sua atenção, ela entrava na página da Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional — onde é possível encontrar inúmeros periódicos digitalizados dos séculos 19 e 20 —, fazia uma busca por palavras e checava o que elas significavam naquele tempo para, assim, verificar se Machado estava parodiando, desconstruindo, criando ou mantendo seu sentido. Depois, recorria ao Oxford Dictionnary para tentar ver um termo que se aproximasse do utilizado por Machado.


‘As partes mais irônicas são outro desafio. Manter a leveza e as brincadeiras machadianas leva tempo’

Depois, transcreveu as traduções anteriores de Memórias póstumas de Brás Cubas — a saber, a de William Grossman (Epitaph for a Small Winner, ou “Epitáfio para um pequeno vencedor”, de 1952), a de E. Percy Ellis (Posthumous Reminiscences of Braz Cubas, de 1955) e a de Gregory Rabassa (The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, de 1997) — em uma tabela no Word, dividindo os trechos em colunas, com o intuito de comparar cada versão. Assim, conseguia perceber o estilo de cada tradutor e como Machado era visto por cada um deles. A conhecida ambiguidade do escritor também só lhe saltou aos olhos ao cotejar essas traduções.


Foi de uma tradução para o inglês que o editor de Tine Lykke Prado tomou contato com o romance e encomendou uma versão para o dinamarquês. De ascendência brasileira, Prado conta que teve Machado “pelas veias”, conhecendo-o através da sua família brasileira, além de ter frequentado cursos sobre sua obra tanto na Universidade de Brasília (UnB) quanto na Universidade de São Paulo (USP).

Arqueologia

Ela compara a tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas a um “trabalho arqueológico”, pois diante da profusão de citações indiretas existentes no romance, ela — que já traduziu Clarice Lispector e Graciliano Ramos para o dinamarquês — tinha de pesquisar para descobrir e encontrar as fontes originais, além de conversar com historiadores e outros especialistas.

“As partes mais irônicas representam outro desafio, bem gostoso. Manter a leveza e as brincadeiras da linguagem machadiana leva tempo, pois para mim é essencial que o estilo elegante de Machado seja recriado na tradução, sem sombras”, conta ela, justificando a existência de notas no livro. “Como tradutora, dou valor ao estilo dos escritores, por isso me esforço muito para conseguir recriar o dele. Machado é um autor dos anos 1800 que ao mesmo tempo é moderno. Há ingredientes que são antigos, só que a linguagem dele não é. O balanço é achar uma linguagem recriada que não seja leve demais, e que seja divertida, mas que não seja tão boba. Esse é o maior desafio, e é isso de que eu mais gosto.”

Já a mexicana Paula Abramo, 39 anos, tem a missão de traduzir para o espanhol “todos” os contos de Machado, que vão de 1858 a 1906 – até o momento ela traduziu até 1882. “A palavra ‘todos’ é problemática, porque existem diversas propostas de corpus. Neste momento, estou traduzindo aqueles contos em que a autoria machadiana é segura, e vou deixar para a última fase do projeto as decisões sobre a inclusão ou a exclusão de contos de autoria duvidosa e textos genericamente ambíguos, que alguns estudiosos consideram conto e outros crônica”, explica ela, que ainda não tem editora.

‘Tem que tomar cuidado com as palavras, pois aqui é malvisto dizer ‘escravo’, que aparece muitas vezes’

A tradução para o espanhol desses contos se resume aos textos que aparecem nas sete antologias de sua obra que o próprio Machado editou: “Existe uma ideia, bem estendida, de que, se Machado escolheu esses contos, foi porque eram os melhores. Mas acho que, nesta altura do século 21, é válido questionar as escolhas do gênio e visitar o enorme continente que ficou fora dessas antologias, que também estou traduzindo”. Na sua visão, nada é descartável, e existem “joias absolutamente deliciosas”, como contos que beiram a literatura fantástica ou de terror, como “O anjo Rafael”, “O capitão Mendonça” e “O Esqueleto”; além de aparentes paródias como “Rui de Leão” e contos mais “duros”, como “Mariana”, de 1871, em que “a crítica às crueldades da escravidão e à opressão da mulher é escancarada”.

Sua rotina de trabalho consiste em fazer um rascunho do conto, em que “resolve os problemas mais fáceis”, deixando para depois as soluções mais difíceis. Em seguida, revisa e faz o “trabalho propriamente literário e de pesquisa mais profunda”, sendo a parte mais demorada. Ela não costuma consultar outras traduções nessa fase do processo. Só no final revisita ocasionalmente o trabalho de alguns colegas, para ver quais foram as soluções achadas por eles nas passagens mais difíceis. Durante a fase de revisão, ela procura ler literatura hispano-americana do período em questão para se familiarizar com o vocabulário e as expressões utilizadas no castelhano do século 19. Assim como Thomson-DeVeaux, ela também se vale da Hemeroteca Digital para ver as edições dos jornais onde os contos de Machado foram publicados, além das versões originais e as mais recentes das sete antologias.

Nhonhô

O trabalho de tradução não se resume apenas a traduzir palavras ao pé da letra. Faz parte do ofício também mergulhar no mundo do autor, se familiarizar com a época em que viveu. (Nesse ponto, a analogia entre a tradução e a arqueologia apontada por Prado acerta em cheio.) E, talvez, a palavra que melhor resuma o contexto vivido por Machado seja “nhonhô”.

Tanto Thomson-DeVeaux quanto Prado e Abramo apontam que essa foi uma das palavras mais difíceis para se encontrar um equivalente na sua língua. “Nhonhô” é outra forma de falar “nhô”, “sinhô” ou “ioiô” — a versão feminina é “nhá”, “sinhá” ou “iaiá” —, sendo um dos modos de o escravizado tratar os jovens senhores da casa-grande. É o Brasil — e mais especificamente o Rio de Janeiro — escravocrata. Esse é o contexto de Machado de Assis. Um mundo difícil de ser traduzido, principalmente para culturas que não conviveram com a escravidão moderna ou que não demoraram a aboli-la.

Prado conta que “‘nhonhô’ não tem equivalente nas línguas germânicas e anglo-saxônicas: “Não tivemos escravidão na Escandinávia — só em algumas ilhas —, mas parte desse mundo não existe, tem que recriar. Tem que tomar muito cuidado com as palavras, pois aqui não se pode dizer ‘negro’, e a palavra aparece cinco vezes por página. Aqui, é malvisto dizer ‘escravo’, que também aparece muitas vezes. Tem que dizer ‘escravizado’. Não dá para usar ‘escravizado’ no lugar de ‘escravo’. Escolhi ‘escravo’. Estou esperando ser castigada quando sair a edição. A editora também está preparada para ter uma reação dos
mais politicamente corretos”.

Abramo também vê dificuldade em traduzir o vocabulário associado à escravidão, que foi abolida no México em 1829 — muito antes do Brasil, que só fez isso em 1888 —, “de maneira que palavras como ‘muleque’ se tornam problemáticas, por remeterem a contextos mais antigos”. Thomson-Deveaux, mesmo vinda dos Estados Unidos, país que ainda convive com as chagas históricas do sistema escravista como o Brasil, resolveu criar uma nota definindo “nhonhô” como “little master”, ao mesmo tempo em que deixou o termo como uma espécie de nome próprio: “Não tem como ter um personagem chamado ‘lil’ master’”.

Fonte.

=*=*=*=

Nesta semana, a única coisa que tem me dado alegria é acompanhar as notícias sobre traduções do MACHADÃO DO MEU CORAÇÃO para outras línguas. Achei esse trem aqui bastante interessante, gente.
 

Giuseppe

Eternamente humano.
A obra completa de Machado de Assis está disponível em domínio público e pode ser baixada gratuitamente no site oficial do Machado. Romances, contos, crônicas, entre muitas outras coisas que ele escreveu. Até mesmo as traduções que Machado fez: ele traduziu Os trabalhadores do mar, Oliver Twist e Suplício de uma mulher. Enfim, pra quem gosta do autor fica a dica aí.
 

Spartaco

250 anos do nascimento
Hoje está fazendo 181 anos do nascimento do escritor Joaquim Maria Machado de Assis (21 de junho de 1839). Natural do Rio de Janeiro, ele é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Machado de Assis.jpg

Machado de Assis escreveu em praticamente todos os gêneros literários, pois foi poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, jornalista e crítico literário. Sua extensa obra constitui-se de nove romances, onde destacamos "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba" e "Dom Casmurro", além inúmeras peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas.
 

Melian

Período composto por insubordinação.
Hoje, acordei falando sobre o aniversário do amor da minha vida, também conhecido como Machado de Assis. Eu nem sei mais o que falar sobre o quanto os livros do Machado são importantes na minha vida. Por isso, vou me repetir.

Machadomemostroutodaahipocrisiadomundo.jpg

Esta imagem circulou no FB em 2014, naquela ocasião, escrevi um comentário sobre ela. Comentário que vou reproduzir aqui:


"Vou mais a museus e bibliotecas do que ao cinema, porque é de graça". Quando as pessoas me perguntam o porquê de eu ter escolhido estudar literatura e não cinema, eu nunca sei responder de maneira convincente, mas, provavelmente, é por causa disso. Frequento bibliotecas desde que comecei a estudar. Os livros eram minha rota de fuga de uma época muito difícil da minha vida (sobre a qual eu não consigo falar direito, e nem sei o porquê de não conseguir; mas acreditem nos psicanalistas quando eles disserem que as crianças se culpam quando veem os pais brigando; acreditem, as crianças pensam que têm algo a ver com aquela bagunça toda). Cinema, eu só pude conhecer depois de adulta. E, ainda assim, passo temporadas sem ir ao cinema porque o preço do ingresso mais o preço das passagens acaba deixando as coisas complicadas.

A literatura salvou a minha vida de todas as maneiras que poderia salvar (e continua a fazê-lo). E, como vocês já estão cansados de ouvir/ler, meu amor pela literatura se confunde com o meu amor por Machado de Assis. Fiz Letras por causa do Machado. E tô chorando, aqui, por tamanha identificação com a história do seu Zé. Tô chorando porque sinceridade é algo tão fugidio que, quando aparece, é um fenômeno que nos emociona. Tô chorando porque, nossa, gente, cês tão vendo o porquê de, mesmo com todas as merdas que acontecem, o tempo todo, eu não desistir do ser humano?

"Depois que você lê Machado, nunca mais é humilhado. Machado me mostrou toda a hipocrisia do mundo. Todos os preconceitos estão na obra dele. Recito 'Helena' de cor e salteado".O seu Zé acabou de dar uma aula de literatura, sociologia, ciência política e antropologia. Vejo que a literatura também salvou a vida dele. E, ó, ler uma coisa tão linda quanto a fala do seu Zé só me faz ter a certeza de que o meu coração está no lugar certo.
 

fcm

galináceo voador
Usuário Premium
Ingleses não diriam Shakespeare?
Italianos não diriam Dante?
concordo contigo.. pachequei nessa e sou #TeamMachado
Mas falando um pouco mais sério também acho dificil. A leitura é um pouco temporal as vezes.
Tem dia que ler Machado de Assis é a melhor coisa do mundo, mas tem dias que quero ler um Jogos Vorazes ou um Paulo Coelho da vida!
Machado está entre os melhores do mundo, acho que assim fica melhor!
 

Fúria da cidade

ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
Usuário Premium
Agora que o mundo está conhecendo melhor o Machadão, vamos seguir acompanhando cada vez mais essa bela repercussão.
 

Clara

Perplecta
Usuário Premium
1280.png

Ficção científica de Machado de Assis é reunida em edição digital
7.jan.2019 às 18h12

Machado de Assis (1839-1908) foi também um dos precursores da ficção científica no Brasil. O registro desse episódio está agora completo em “Sobre a imortalidade de Rui de Leão” (editora Plutão), livro digital lançado no ano passado e que contém as duas versões de uma mesma história, escritas no final do século 19.

Nas duas narrativas, o mesmo personagem, Rui de Leão, encontra um chefe indígena que lhe oferece um elixir ancestral da imortalidade. Produzidas com um intervalo de dez anos, as histórias variam na maneira como o personagem enfrenta a nova e incomum condição.

Em “Rui de Leão”, publicado originalmente em 1872 no Jornal das Famílias, o personagem principal recebe a poção preparada por um líder de aldeia segundo a ordem de Tupã –divindade da mitologia indígena brasileira. O narrador machadiano passa então a contar as aventuras de Rui, que vive até se cansar de tudo que o mundo pode oferecer.

Na segunda versão, “O Imortal”, publicado pela primeira vez em 1882 na revista A Estação, o narrador é o próprio filho de Rui. O texto mostra o amadurecimento da premissa inventiva de Machado. Em um certo momento, o narrador diz: “A ciência de um século não sabia tudo; outro século vem e passa adiante. Quem sabe, dizia ele consigo, se os homens não descobrirão um dia a imortalidade, e se o elixir científico não será essa mesma droga selvática?”

O autor criou, assim, uma história que refletia seu contexto. As cidades incharam no século 19, as péssimas condições de saneamento nesses novos aglomerados urbanos fez aumentar a proliferação de doenças infecciosas, tornando a longevidade um item de luxo. Ao mesmo tempo, todo o desenvolvimento científico iniciado com a Revolução Industrial chegava a seu auge e dava esperanças de melhorias em áreas como a medicina e a nutrição.

O livro digital traz ainda um prefácio de Roberto de Sousa Causo, autor e pesquisador de ficção científica. No texto, Causo traça um breve panorama do nascimento e desenvolvimento do gênero no país. A obra está disponível para Kindle, Kobo e Android, mas os contos podem também ser lidos separadamente de graça no portal Domínio Público (“Rui de Leão” e “O Imortal”).
Na amazon está por R$ 5,90 ou grátis pra quem assina 'kindle unlimited'.
 
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