1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

Literatura: uma bebida doce e edificante ou uma taça de medo e horror?

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Melian, 13 Nov 2018.

?

O título do tópico é pretensioso?

  1. Sim

  2. Não

  3. Não sei o que significa "pretensioso".

  4. Não li, mas votei, porque sou do tempo em que enquete e Morfindel eram sinônimos.

O resultado é visível apenas após você votar.
  1. Melian

    Melian Período composto por insubordinação.

    O narrador do livro E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto*, de Rubem Fonseca, define a literatura do seguinte modo:

    Há alguns anos, quando li esse livro, me lembrei bastante do Schopenhauer, que definia a vida como “um constante sofrimento”. Para ele, apenas a arte representava uma trégua temporária. O pessimismo de Schopenhauer tem a ver com metafísica (sempre ela!), uma interpretação do cosmos. Não é um pessimismo do senso comum, do tipo, “olha, eu acho que as coisas não vão dar certo”. O entendimento do Schopinho (sou íntima dele!) é o seguinte, o que comanda o mundo é a vontade. Mas a VONTADE para Schopenhauer não é a minha vontade, a sua vontade ou a vontade de cada uma das pessoas.

    A vontade, para nosso querido filósofo, é uma força cósmica, uma força metafísica, que está em tudo: na pedra, na cadeira, no meu sapato, na sua cabeça. A vontade humana é a manifestação dessa vontade-força. É como se o mundo manifestasse todo o seu movimento em uma força que tem a característica da nossa vontade. É como se o mundo estivesse sendo impulsionado por uma força que é o retrato da vontade humana, embora não seja a vontade humana (sacaram? Eu também não saquei.)

    A vontade não tem um objetivo. Ela não é a razão. A razão tem objetivo, a vontade MUDA. E se a vontade não tem objetivo, ela é caótica. Ora, em um mundo caótico, sem ‘télos’ – objetivo -, é claro que as coisas ruins vão acontecer. Se o mundo tivesse uma determinação, e tivesse um objetivo posto pela razão, a razão poderia programar as coisas, para que as coisas todas fossem boas, mas como não é, você precisa aceitar o fato de que o percurso do mundo não é necessariamente bom., é permeado por coisas boas e ruins (Jura?). Ora, se tem coisas ruins, eu não posso ficar muito otimista, não.

    Usar os pressupostos filosóficos de Schopenhauer para fazer um paralelo com a definição de literatura proposta pelo narrador do livro do Rubem Fonseca parece não ter sido uma boa ideia, né? Eles parecem sugerir que, como a vida é um barril de caos, do qual extraímos medo e horror, a literatura deve espelhar essa realidade, e nos servir taças de medo e horror (Schopz não sugere nada, eu é que sugeri, mas relevem, ok?).

    Tudo bem, esqueçam-se de Schopenhauer, concentrem-se em Hegel! Para ele, quem comanda o mundo é a razão. E ela organiza tudo para que aconteçam coisas boas. Nessa perspectiva, a literatura poderia ser uma taça de uma aconchegante bebida, doce e edificante. (Vocês sabem que Hegel não falou isso, mas, até aí, Clarice Lispector não falou a metade do que a internet diz que ela falou, então, está ok).

    Eu não gosto de ser taxativa, porque acredito que a literatura pode ser tanto doce e edificante como causadora (catalisadora?) de medo e terror. Por ora, eu prefiro considerar a literatura como o que acontece ENTRE esses extremos. Ela está no meio do oceano, mas só pode ser compreendida por quem está à margem.


    *Amo o título! A propósito, ele foi retirado de versos do "Poema do Frade", do maravilhoso Álvares de Azevedo, poeta que habita o meu coração byroniano.
     
    • Ótimo Ótimo x 2
    • Gostei! Gostei! x 1
    • Mandar Coração Mandar Coração x 1
  2. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Gosto dessa sua visão, Cléo! Também acho que ela está entre esses dois extremos, mesmo porque a realidade e a nossa experiência da realidade está entre esses extremos. Posso dizer que o mundo é um vácuo atormentado, um sistema de erros, como o Drummond disse, e minha visão se corrobora quando leio um tabloide sensacionalista. O problema é que quando eu ouço a notícia de uma mulher que salva um animal de rua, eu meio que entro em crise. Enfim. Vai saber. O Blake escreveu canções da inocência e da experiência. Num conjunto temos poemas fofinhos a respeito de um cordeirinho e no outro temos um poema terrível em que o Eu Lírico basicamente se indaga Quem foi capaz de criar uma máquina de matar. Esse espanto diante do mundo, esse espanto diante de uma coisa tão bonitinha quanto um cordeirinho saltitante e diante de uma coisa tão terrível quanto um tigre capaz de estraçalhar uma corça; no final das contas esse espanto é, muito provavelmente, o que move a arte e a estada humana neste planetinha azul.
     
    • Ótimo Ótimo x 2

Compartilhar