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[L] [Eli Nerwen][O Cartão de desculpas]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Eli Nerwen, 3 Out 2004.

  1. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    [Eli Nerwen][O Cartão de desculpas]

    - Carlos tem pouco tempo de vida.
    Essas foram as ultimas palavras que Lúcia ouviu naquele dia. Depois, acordou numa sala do hospital, o mesmo hospital em que estava internado seu amado filho, o mesmo hospital que lhe deu a mais desagradável surpresa de sua vida. Carlinhos tinha uma doença genética incurável.
    Abriu os olhos e viu Carlinhos ali, olhando direto em seus olhos. Oh! Como emagrecera naqueles últimos meses. Os olhinhos sem brilho saltavam das órbitas à medida que a pele grudava no ossinhos da face tornando-a cadavérica. Mas ainda assim, era Carlinhos. O mesmo Carlinhos que a assombrava em sonhos por anos a fio...
    Acordou de novo assustada. O marido tentava acalma-la. Ela chorava e desabafava com a voz entrecortada.
    Olhando, escondido, pela porta entreaberta, estava Sam. Não ousava entrar, não desde que sua mãe lhe dissera aquelas coisas horríveis. Agora era como se ouvisse os ecos daquele dia.
    - Não posso amar esse menino, pois o concebemos apenas com o intuito de salvar a vida de Carlinhos, mas a crueldade de Deus levou o filho que eu mais amava e deixou esse daí, que não passa de uma promessa não cumprida da engenharia genética...
    O garoto correu silente pelo corredor e enfiou-se debaixo dos lençóis tapando com força os ouvidos e adormeceu pouco tempo depois com a cabeça latejando.
    Sam fora a esperança de Lúcia durante nove meses. A benção oferecida pela engenharia genética. A única chance de Carlinhos viver. Meses depois tudo fora por água abaixo. Carlinhos não foi compatível com o irmão e faleceu pouco tempo depois. Sobrara o pequeno Sam, cuja mãe recusou-se a amamentar e nunca o considerou seu filho legitimo. Ele era apenas a tentativa fracassada, que não atingira a meta para a qual tinha sido criado. Seu pai, Mario, entretanto, sempre amara-o do mesmo modo que amara Carlos.
    Sam contava agora com quatro anos, e conhecia de perto todo o ódio que poderia alimentar uma criatura, e ele personificava-se em sua própria mãe.
    Na ultima semana depois da conversa escutada por trás da porta do quarto, Lucia tornara-se agressiva para com o filho. Passava horas a fio trancada no quarto com uma foto do amado primogênito; nessas ocasiões, Sam batia na porta e chamava, manso, pela mãe. A resposta era sempre enraivecida e ele não tinha outra alternativa a não ser sentar-se na sala ouvindo o choro e lamentos de Lucia e esperar o pai, que de nada sabia, chegar.
    O estopim veio numa tarde, em que, depois da saída de Mario, Lucia trancou-se como de costume no quarto. Nessa tarde, Sam estava convencido de que deveria falar com a mãe, e preparou-lhe um cartão, bem ao modo das crianças, com um pedido de desculpas. Ele nunca soube ao certo o que fizera, mas tinha a certeza de que tinha cometido um erro terrível, e essa tarde estava disposto a conserta-lo.
    Já era quase a hora do seu pai chegar. Lucia abriu a porta do quarto e dirigiu-se à sacada. Sam seguiu-a com o cartão em mãos, mas a ele não foi dado tempo. A mulher começou a gritar, espumando de raiva. Dizia-lhe coisas feias, que fora o assassino de seu filho, seu único e verdadeiro filho, era culpado, e ela faria de tudo para ter Carlinhos de volta agora.
    Sam, com lagrimas a escorrerem-lhe pelas faces tampara os ouvidos, fechara os olhos com força e agora gritava, desesperadamente, para ela parar. A mulher, entretanto, continuou, e, um dos movimentos frenéticos do garoto, em meio a gritos e muito choro, empurrou-a em direção à grade da sacada. Lucia vacilou por um instante, seus pés a traíram, e ela caiu, desmontando-se no gramado verde do quintal.
    Mario chegou naquele momento e encontrou um Sam apático, olhando estarrecido para baixo. Abraçou forte o filho, escondeu seu rostinho no peito levou-o dali.
    O cartão caiu em direção ao solo, leve como uma pluma e pousou sobre o peito da mulher, o vermelho do coração desenhado cuidadosamente no papel misturou-se ao sangue de Lúcia.
    Uma sirene soou ao longe.
    ______________________
     
  2. Masei®

    Masei® Usuário

    Hmmm... Gostei da idéia do conto que acaba culminando no fato final, e me parece que você construiu o resto da narrativa em torno daquela última imagem.

    Mas tá bem legal, gostei pra caramba. Parabéns.
     
  3. Itarillë

    Itarillë Usuário

    Legal! :D

    Achei o tema bastante intrigante, a rejeição de alguns filhos em face de outros. Só uma coisa: talvez tal exclusão pudesse ter sido mais sutil, de uma forma que não fosse tão aberta, pois esse tipo de rejeição, silenciosa, machuca muito mais :twisted: .
     
  4. Eli Nerwen

    Eli Nerwen Usuário

    Eu também queria fazer uma coisa assim, mais sutil (e melhor elaborada), mas essa redação eu fiz a partir de um tema de escola, pré-vestibular, não tive muita opção. Por isso que ela é curtinha jeito... :)

    Thanks.... :mrgreen:
     

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