1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

CLARICE LINSPECTOR

Tópico em 'Autores Nacionais' iniciado por Denethor II, 20 Fev 2005.

Situação do Tópico:
Fechado para novas mensagens.
  1. Denethor II

    Denethor II Pontífice Inquisidor de Gondor

    PRIMEIRAMENTE: de acordo com a lei, é permitido publicar e anunciar ao maximo 10% de um conteúdo literario. Esse texto a seguir tem menos de 10%, por isso, é extremamente legal sua cópia.

    Alem de ser um dos livros mais famosos da literatura brasileira, "A Hora da Estrela" é a ultima das obras de Clarice Linspector, uma mulher que sem duvida nenhuma tem um capitulo em especial na história da cultura brasileira.

    A seguir deixo o inicio do livro "A hora da Estrela", quem estiver disposto a ler, quando terminar de ler o texto, talvez sinta a mesma ancia que 9 de 9 anos meus sentiram: eu necessito ler esse livro... Aí vai!


    Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse
    sim a outra molécula e nasceu a vida.
    Mas antes da pré-história havia a pré-história da
    pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre
    houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais
    começou.
    Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade
    através de muito trabalho.
    Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
    continuarei a escrever. Como começar pelo início, se
    as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da
    pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos?
    Se esta história não existe, passará a existir. Pensar
    é um ato. Sentir ó um fato. Os dois juntos - sou eu
    que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A
    verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A
    minha vida a mais verdadeira é irreconhecível,
    extremamente interior e não tem uma só palavra que a
    signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e
    reduz-sé ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor
    de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada
    funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo
    uma melodia sincopada e estridente - é a minha própria
    dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade.
    Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada
    pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
    Como eu irei dizer agora, esta história será o
    resultado de uma visão gradual - há dois anos e meio
    venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da
    iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei.
    Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou
    lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo
    - como a morte parece dizer sobre a vida - porque
    preciso registrar os fatos antecedentes.
    Escrevo neste instante com algum prévio pudor por
    vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e
    explícita. De onde no entanto até sangue arfante de
    tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se
    coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa
    história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há
    veracidade nela - e é claro que a história é
    verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça
    em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem
    pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade
    por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a
    quem falte . o delicado essencial.
    Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda
    o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do
    Rio de Janeiro, peguei no ar de relaxe o sentimento de
    perdição no rosto de urna moça nordestina. Sem falar
    que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das
    coisas por estar vivendo.
    Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é
    que os senhores sabem mais do que imaginam e estão
    fingindo de sonsos.
    Proponho-me a que não seja complexo o que
    escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos
    sustentam. A história - determino com falso livr
    arbítrio = vai ter uns sete personagens e eu sou um
    dos mais importantes deles, é claro. .Eu, Rodrigo S.
    M. Relato antigo, este, pois não quero ser, modernoso
    e inventar modismos à guisa de originalidade.
    Assim é que experimentarei contra os meus hábitos
    uma história com começo, meio e "gran finale" seguido
    de silêncio e de chuva caindo.
    História exterior e explícita, sim, mas que contém
    segredos - a começar por um dos títulos, "Quanto ao
    futuro", que é precedido por um ponto final e seguido
    de outro ponto final. Não se trata de capricho meu -
    no fim talvez se entenda a necessidade do delimitado.
    (Mal e mal vislumbro o final que, se minha pobreza
    permitir, quero que seja grandioso.) Se em vez de
    ponto fosse. seguido por reticências o título ficaria
    aberto a possíveis imaginações vossas, porventura até
    malsãs e sem piedade. Bem, é verdade que também eu não
    tenho piedade do meu personagem principal, a
    nordestina: é um relato que desejo frio. Mas tenho o
    direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo
    isto é que não vos dou a vez.
    Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo
    vida primária que respira, respira; respira. Material
    poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula com
    seu estrondo possível de átomos. O que escrevo é mais
    do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa
    moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja
    de pouca arte, o de revelar-lhe a vida.
    Porque há o direito ao grito.
    Então eu grito.
    Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que
    vendem o corpo, única posse real, em, troca de um bom
    jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a
    pessoa de quem falarei mal tem corpo
    para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua,
    não faz falta a ninguém. Aliás - descubro eu agora -
    também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo
    um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria
    que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar
    piegas.
    Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas
    por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de
    balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que
    são facilmente substituíveis e que tanto existiriam
    como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu
    saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem
    será que existe?
    Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando
    as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me
    lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar
    o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza
    era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-
    me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma
    - e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do
    que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança
    do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de
    ter é o de não pedir e somente acreditar que a
    silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - a meu
    mistério.
    Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada
    vez mais simples. Aliás o material de que disponho é
    parco e singelo demais, as informações sobre os
    personagens são poucas e nâo muito elucidativas,
    informações essas que penosamente me vêm de mim para
    mim mesmo, é trabalho de carpintaria.
    Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-
    o-quê o meu material básico é a palavra. Assim é que
    esta história será feita de palavras que se agrupam
    em frases e destas se evola um sentido secreto que
    ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo
    escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos:
    conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos
    e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em
    vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas
    não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da
    moça esse pão se tornará em ouro - e á jovem (ela tem
    dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo,
    morrendo de fome. Tenho então que falar simples para
    captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a
    humildemente - mas sem fazer estardalhaço de minha
    humildade que já não seria humildade - limito-me a
    contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade
    toda feita contra ela. Ela, que deveria ter ficado nó
    sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma:
    datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o
    terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada
    na datilografia a copiar lentamente letra por letra -
    a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à
    máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim
    dalilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na
    linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra
    linda e redonda do amado chefe a palavra "designar" de
    modo como em língua falada diria: "desiguinar".
    Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim que
    sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um
    pouco pois descobri que tenho um destino. Quem já não
    se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
    Quero antes afiançar que essa moça não se conhece
    senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse
    a tolice de se perguntar "quem sou eu?'' cairia
    estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?"
    provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade?
    Quem se indaga é incompleto.

    [...]
     
  2. Lordpas

    Lordpas Le Pastie de la Bourgeoisie

  3. Ka Bral o Negro

    Ka Bral o Negro Tchokwe Pós-Moderno

    Lembrem-se: antes de abrir um tópico, procurem saber se já existe um com o mesmo assunto através da ferramenta Pesquisar, situada no canto superior direito da página deste Fórum.

    E não chame a Clarice de LiNspector.


    :jornal:
     
  4. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    Eu chamava quando era mais nova :joy:
     
Situação do Tópico:
Fechado para novas mensagens.

Compartilhar