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A Criação de Mundos

Tópico em 'De Fã Para Fã' iniciado por Gerbur Forja-Quente, 20 Set 2010.

  1. Gerbur Forja-Quente

    Gerbur Forja-Quente Defensor do Povo de Durin

    Estava relendo o Ainulindalë, o primeiro capítulo do Silmarillion com meus amigos nerds do grupo tolkeniano Torre Branca e a leitura do mesmo gerou muitas reflexões e debates compiladas pela nossa amiga Edhel e tudo isso me levou numa viagem de pensamento muito gostosa sobre a Criação de Mundos. Isso também porque somado a isso estamos jogando RPG.<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /><o:p></o:p>
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    A viagem da Criação é a seguinte:<o:p></o:p>
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    Numa entrevista que Sir Ian "Gandalf" McKellen deu e está no making of d'A Sociedade do Anel ele disse:<o:p></o:p>
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    "A história do Senhor dos Anéis nunca aconteceu, apenas em nossos corações, mas quando eu cheguei no SET de filmagens e vi o Condado, a fumaça saindo das chaminés, as crianças correndo atrás dos coelhos, as casas nas colinas com portas redondas... eu acreditei".<o:p></o:p>
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    Como ele disse, essa história fantástica não é real, nunca aconteceu. Assim como nossa aventura de RPG, mas até que ponto tudo isso não é real (agora apertem os cintos que eu vou viajar, rs)?<o:p></o:p>
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    Quero dizer, numa conversa que eu tive com a Edhel por msn Eras atrás, nós falávamos sobre a dedicação do professor com sua obra. Numa das cartas a seu filho Christopher, Tolkien disse que teria que revisar toda a obra porque a lua nascia e se punha sempre no mesmo lugar e isso estava errado devido a natureza da mesma (PQP, WTF!!!). Vejam a tamanha dedicação e preocupação com uma coisa absolutamente irreal, que pouquíssimas pessoas tinham conhecimento e que era, para todos os fins até aquele momento, um hobbie. Porque algo que demora cerca de 14 anos para render algum dinheiro não pode ser visto como um investimento financeiro, longe disso, é no máximo um hobbie, um passatempo.<o:p></o:p>
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    Tolkien ficou todo esse tempo nessa obra, nessa mentira que ele criou, nesse mundo fantástico que era só dele e pouquíssimas pessoas compartilhavam desse mundo, enquanto o mundo "real" desconhecia tudo isso e via Tolkien apenas como um professor.<o:p></o:p>
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    Mas quando o professor publicou seu mundo imaginário, o mundo "real" teve acesso ao mesmo, e o mundo da fantasia, o mundo-mentira, o mundo-Tolkien querendo ou não, mudou o mundo "real". Tolkien teve até que mudar de casa porque sempre quando ele ia colocar o lixo na rua, um grupo de fãs estava esperando o professor simplesmente para poder vê-lo.<o:p></o:p>
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    O mundo-mentira influenciou todo um gênero literário, mais que isso! Muito mais! Influenciou a arte de uma maneira geral, desenhos e mais desenhos foram feitos para ilustrar as primeiras imagens do mundo-mentira. Influenciou a música e inúmeras bandas fazem menção a ele, às vezes até o nome da banda é uma menção. Influenciou ONGs (Barbárvore foi um símbolo hippie nos EUA de uma ONG que protege as florestas). Influenciou o cinema e séries de TV até que finalmente ganhou seu próprio filme! Influenciou até a ciência (vi uma vez aqui na Valinor uma lista de animais descobertos que foram batizados com nomes científicos "tolkenianos"). Influenciou pessoas (alguém conhece gente que casou por causa de O Senhor dos Anéis?). Extravasou cidades e continentes e mares, o mundo-mentira influenciou o mundo.<o:p></o:p>
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    Mas é possível que uma mentira, algo que seja irreal mude algo que seja real? Bem se não é, então nossos domingos não existem e nós não nos conhecemos (jogamos RPG aos domingos).<o:p></o:p>
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    Nesse sentido, quando o professor escreveu a primeira frase de O Hobbit: "Numa toca no chão, vivia um hobbit", nesse mesmo instante ele deixou de ser um professor e se tornou um deus. Mais que isso, ele se tornou um deus que se importa. Então ele criou a Terra-Média, Bilbo, Gandalf e os anões e tudo o mais. E esse mundo é tão real que ele colocou e ainda coloca comida no prato de muita gente, pensem nos trabalhadores da sua primeira editora, das demais editoras ao longo do mundo, dos tradutores, e da imensidão de pessoas que trabalharam nos filmes e jogos e que ainda vão trabalhar nos filmes, jogos e livros póstumos do futuro.<o:p></o:p>
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    O professor Tolkien se tornou um deus que criou um mundo e os deuses desse mundo, e "o mundo (real) mudou". E quando isso foi publicado o que era mentira tornou-se verdadeiro, pois o mundo-mentira virou papel, tornou-se palpável, acessível. E quando fizeram os filmes o que era verdadeiro tornou-se mentira, pois as pessoas reais (atores) vestiram pés peludos, e orelhas pontudas e longas barbas para se tornarem pessoas-mentira. E tudo se misturou e virou uma coisa só. E nós fãs líamos obcecados nos livros e assistíamos pasmos no cinema e constatávamos que aquilo era belo e magnífico.<o:p></o:p>
    <o:p></o:p>
    E essa bela mentira transformou um reles mortal (nosso querido professor) num deus imortal, lido em muitas línguas, mencionado em muitos sites, e-mails, festas, e grupos de amigos. E seu nome agora viverá para sempre e esse nobre artífice do nosso tempo será lido até o fim do mundo.<o:p></o:p>
    <o:p></o:p>
    E nós?<o:p></o:p>
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    Também não somos nós deuses criadores de mundos e pessoas-"mentira"? Vou falar de Hrötgar (porque é mais fácil para mim por se tratar do meu personagem, mas o mesmo vale para os demais).<o:p></o:p>
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    Quando nós votamos jogar RPG naquela tarde de domingo na Toca da excelentíssima Belba e do mestre Eli, eu sabia que criaria um anão. Inicialmente era só isso. Um anão. A medida que a coisa foi se desenrolando ele ganhou um nome: Hrötgar. Pouco depois ele já tinha um país de origem, data de nascimento, pai, avô, bisavô, tio, profissão, amigos e inimigos, um nome em outra língua e toda uma história passada e uma história que viria a ser. Hoje estou descobrindo seu temperamento, sua luz e suas trevas e além.<o:p></o:p>
    <o:p></o:p>
    Essa pessoa-mentira interage com outras pessoas-mentira e pessoas reais se tornam mais próximas e amigas (mais uma vez, o mundo-mentira está mudando o mundo "real") e de repente relatos sobre tudo isso está sendo escrito e publicado em e-mails. E algo absolutamente irreal no início torna-se cada vez mais concreto e palpável. Imaginem que num futuro (distante?) nossos filhos e netos encontrem os arquivos desses relatos e acabem descobrindo mais sobre nós, seus antepassados, estejamos nós vivos ou mortos. Isso pode nos aproximar deles, pode ser interessante para "homens ainda não nascidos" (ainda irreais). <o:p></o:p>
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    Seremos nós, então, deuses? Talvez pequenos maiar perto da "iluvataridade" do professor Tolkien, mas ainda assim, maiar criadores?<o:p></o:p>
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    Será que Hrötgar, Kálina, Balrum, Loriel, H., Fëanorino, Margarida, (e mais) Ligram, Karangûl, Tholman, etc (ou seja, os nossos personagens e os personagens do mestre). não se tornaram reais simplesmente porque falamos sobre eles? Vivenciamos suas aventuras? Escrevemos sobre tudo isso? <o:p></o:p>
    <o:p></o:p>
    Será que eles todos (belas-mentiras) não se tornaram reais simplesmente porque nós pessoas "reais" queremos? <o:p></o:p>
    <o:p></o:p>
    Isso tudo me lembrou uma poesia do mestre Mário Quintana: a<o:p></o:p>
    <o:p></o:p>
    "Do bem e do mal
    Todos tem seu encanto: os santos e os corruptos.
    Não há coisa na vida inteiramente má.
    Tu dizes que a verdade produz frutos...
    Já viste as flores que a mentira dá?"

    <o:p></o:p>
    Bem, desculpem o imenso post, me empolguei. E obrigado aos corajosos que leram até aqui. Espero ter recompensado aos ousados com um texto apaixonado.

    Abraço Anão,<o:p></o:p>

    Gerbur.<o:p></o:p>

    PS: Eä<o:p></o:p>
     
    • Ótimo Ótimo x 1
  2. etienne

    etienne Usuário

    Aiya, excelente texto. Já pensei em algo do tipo, escritores tem um desejo profundo de ser Deus, principalmente quando querem criar algo novo, nunca antes visto. pelo menos eu sou assim, tenho uma vontade imensa de ser escritora e meus estudos sempre atrapalham meus textos, por que realmente é um hobbie, não é algo que vai me sustentar. No entanto parece que é assim ... como aqueles que escutam a música de Ulmo e " passam a ouvi-la para sempre em seu coração, e o anseio pelo mar nunca mais os abandona...", não conseguo suportar essa realidade que nós vivemos hoje! é tão deprimente e sem graça. Somos verdadeiros escravos do Um Anel mas disfarçadamente. O que me acalenta é essa mentira encantadora que sussurra no meu ouvida e que me leva a perder 5 minutos do meu tempo lendo ou digitando. Um grande abraço, seu tópico está excelente!
    Etienne.
     
    • Gostei! Gostei! x 1
  3. Carnildo

    Carnildo O Esquecido

    Parabéns pelo texto, muito bem escrito e seu ponto de vista muito bem explicado e plausivel.
    JOKE MODE ON:

    Que dorgas vc usou pra viajar tão longe assim ?
     
  4. cpm22

    cpm22 Visitante

    Nossa, perfeito sua imaginação, pensava desta forma também.
     
  5. Náring

    Náring Mad Hatter

    É parecido com algo que eu penso tambem.
    Eu escreveria aqui minha idéia, mas estou meio sem tempo no momento, tentarei fazer isso em outra ocasião.
     
  6. Arringa Hrívë

    Arringa Hrívë um papo e um bom chimarrão... Usuário Premium

    Muito bom seu texto. Acredito eu, que muitos fãs de TOlkien tiveram um pensamento parecido em alguma epoca da vida. MASSSS, poucos de nós saberia expressar no papel assim, e com numa viagem tão loca, que não sei como tu regressastes a Terra. :lol:

    Mas sabe, grande Gerbur, então, no fim vou acabar viajando aqui também. Ó CÉUS!!!
    Continuandoo o raciosínio..., a verdade é que Tolkien só queria um hobbie, mas este virou trabalho para o filho, que mudou suas expectativas de talves ter outro trabalho, em consequencia, se ele não tivesse seguido por esse lado( o filho), ele poderia muito bem, ter um carater totalmente diferente (talves tendo outros hobbies e outros amigos- que também inflienciam- e não seriam os livros publicados na epoca que foram) e então, surgiria outro livro e mais um Deus para o mundo, (isso levanto em conta, que o livro mudou os fatos, antes mesmo das pessoas se darem conta ou QUEREREM, deixá-los reais, por gosto)Foi uma mudança, simplesmente porque Tolkien começou e alguém tinha que terminar.
    Foram escolhas automáticas da vida, e talves pré-determinas, ou uma mera casualidade.
    Mas então, ja dizendo, as mudanças e o mundo-mentira, na real, mudou a realidade, mesmo com nós não QUERENDO, não amando os livros ainda, eles simplesmente mudam, nós vamos seguindo, e de repente entram em nossas vidas,ja tendo vida própria, porém, nós acrescentamos um pouco masi de gás, e eles continuam a jornada para se tornarem imortais.Através de séculos e mais...


    E ainda se todos os grandes mestres da literatura de hoje,foram como Tolkien, como Homero,Cornwel( ficção),M.Z. Brasley (ficção), George Lucas (star wars, clássico),Michael Ende ( a histórai sem fim) e vários outros ,então fossem considerados, estes, ou não bons na epoca, eles foram Deuses e continuam sendo a quem os lê, e gostou deles, a quemestes indicam a outros, contam um conto feito por si, baseado naquele OUTRO livro que leu.
    Enfim...
    E se só para escrever os primeiros rascunhos, o escritor ja mudou sua rotina, e a da família, e por conseguinte a da família que morava longe, e a família vizinha fica curiosa do porque aquele cara fica em casa e tals, e isso também muda a parte física do mundo,ou seja, tudo em volta de uma Ideia maior MUDA os fatos, que são cooligados a outros e outros que formam uma cadeia de fatos que foram mudando por seus mundos-mentira, e issso também não os tornou mais reais, o Mundo-mentira sendo criado. Sim.
    Então quantos mundos mentira não existem?!
    E cada fã aumentando e dando gás novo aos mundos,para serem cada vez mais reais.
    É incrível, daria ra escrever e religar ideias de um monte de lugares.

    Vou parando pro aqui, to me sentindo em outro planeta já.
    Puxa, ficou gigante. Tenho que ir pegar os BUS, termino ou explico depois,se ficou incompreensível!!!!!
    MAS acompanar os pensamenos loucos é dificil, vão muito rápido pela cabeça. Ufffa...........
     
    Última edição: 29 Set 2010
    • Gostei! Gostei! x 1
  7. Anwel

    Anwel Nazgûl Cavaleiro

    Gostei do seu post Gerbur, mas não concordo com ele. Não inteiramente.

    Refleti um pouco e apesar de não ter formado uma opinião totalmente clara, vou tentar expor aqui meus pensamentos. E já peço desculpas por uma possível e provável confusão.

    Acho que comparar um autor com um deus, leva-nos a pensar sobre o "poder de criar" do escritor. Sobre isso, nada mais a adicionar do que já foi escrito e comentado.

    Mas a parte de "transformar o irreal em real", eu só concordo até o momento que a palavra "influência" é usada. Pra mim, o irreal só pode influenciar, jamais possuir uma aura de realidade. Não que os domingos de RPG não existam, mas eles só existem porque os jogadores e mestres tem um interesse em comum, e esse interesse os une a passar sua tarde/noite juntos (tal qual a Valinor aqui).

    E esse interesse pode ser qualquer coisa: paisagens, animais, música, literatura, cinema...

    Hrötgar, Kálina e Balrum são uma extensão do narrador e dos jogadores, e não personagens por si só.

    Acho que podemos dizer que os personagens dos Rpgistas são "pequenos mundos irreais" neles mesmo, mas não mundos reais.
     
    • Gostei! Gostei! x 1
  8. Elmarien

    Elmarien Mighty Mane Thorin

    Belo post, Gerbur.

    Uma pequena viagem minha (e nisso pode jogar tempo livre, livros, papel para rascunho e muita tinta de caneta) me fez chegar à conclusão de que as palavras são o instrumento de maior poder que a humanidade possui. Podem criar ou distorcer realidades, e, o mais impressionante, podem dar a imortalidade a seres mortais.

    Do momento que alguém escreve alguma "mentira" (no sentido de não corresponder à realidade como ela é, não como tentativa de manipular a realidade atual), um mundo ficcional surge. Por exemplo, certa vez escrevi sobre uma cidade que, abandonada pelo sol, permanecia em eterna noite, banhada apenas pelo luar e pelas estrelas; à falta de luz, as plantas floresciam pela música, e a cidade se tornou um reduto de artistas e sonhadores. Tenho certeza quase absoluta de que a maior parte das pessoas acaba imaginando essa cidade ao ler sua descrição. Alguns imaginam até os moradores dessa cidade. Se eu resolvesse criar uma "mentira" em que alguém dessa cidade resolve deixá-la para ver o resto do mundo, eu teria que criar o resto do mundo, o aventureiro ou aventureira que deixaria sua terra natal rumo ao desconhecido, as pessoas que ele encontraria, seus amigos e inimigos. Eu teria criado uma realidade à parte da nossa, apesar de exercer e receber influência da nossa realidade, e (por algumas definições) teria adquirido o status de divindade de um mundo imaginário. O próprio Tolkien já escreveu a respeito da criação de uma Realidade Secundária a partir de uma Realidade Primária, ato que torna o artista o Subcriador da Realidade Secundária, ou seja, uma divindade (comparado com o Criador da Realidade Primária, ou seja, Deus). Eu citaria mais rigorosamente, mas esqueci onde guardei o meu "Sobre histórias de fadas".

    Voltando a um dos meus raciocínios, as palavras concedem imortalidade a seres mortais. Muitas pessoas, mortas há muitos anos, ainda estão de certa forma vivas por suas palavras. Citações, ensaios, manifestos, romances e poemas (entre muitos outros) são capazes de dar a seus escritores autoridade e notabilidade suficientes para que o tempo, em si, possa matá-los mas não matar suas idéias. A imunidade ao esquecimento também pode acontecer se uma pessoa for usada como inspiração ou como personagem: é como se a pessoa fosse copiada da nossa realidade temporal para outra, a realidade atemporal literária.

    Quanto aos personagens, pessoas-mentira habitantes de mundos-mentira, é possível que se tornem pessoas quase reais. Não chegam a entrar de fato em nossa realidade: precisam de pessoas reais que lhes emprestem rosto e voz, precisam de réplicas de seus ambientes e, fundamentalmente, precisam de uma idéia de alguém real para começar a existir. Podem adquirir a aparência de pessoas reais em filmes, apesar de ser uma ilusão de realidade (infelizmente...).

    E aí está minha viagem. Ou quase.
     

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