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Autor da Semana Rubem Braga

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Cantona, 3 Mar 2014.

  1. Cantona

    Cantona Tudo é História

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    Rubem Braga
    (12.01.1913 - 19.12.1990)


    Cachoeiro do Itapemirim fica no sul do Espírito Santo, a pouco mais de 700 km de São Paulo. Pro sujeito que quiser enfrentar a Via Dutra e a Lúcio Meira, num Corsa 2004, separe algo em torno de dez horas para estrada, três tanques de gasolina e quarenta e três reais e cinquenta centavos em pedágios. Pode parecer cansativo e dispendioso, mas a cidade capixaba compensa cada quilômetro de estrada, pois, além da boa acolhida, temos a chance de conhecer a Comunidade Quilomba de Monte Alegre, de desfrutar de suas belezas rurais e naturais, percorrendo as trilhas que levam à Pedra da Ema e cortam o Parque Natural Municipal de Itabira e, o que interessa ao tópico, adentrar na Casa dos Bragas, onde cresceu o nosso Rubem.

    Filho de Francisco de Carvalho Braga (descendente de portugueses da cidade de Braga, que pra cá vieram pelas propagandas governamentais de estímulo a imigração, fixando-se em Guaratinguetá) e Rachel Cardosos Coelho Braga (a Neném do Fadre, filha do velho Manoel Joaquim, grande fazendeiro da região), Rubem nasceu em 12 de janeiro de 1913. O pai, apesar de ter enfrentado as péssimas condições destinadas aos imigrantes nas fazendas do interior paulista, cedo mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital do país, onde entrou em contato com os grupos positivistas que desenhavam sua República. Anos mais tarde, ao se dirigir a Cachoeiro para tratar de alguma moléstia, acabou ficando. Casou-se com a filha do coronel, aproximou-se das lideranças políticas e foi feito prefeito da cidade, em 1914.

    Com o parágrafo acima, quero dizer que o nosso Rubem não teve muitos percalços na infância. Pode estudar sem se preocupar com o trabalho na lavoura de café - a monocultura capixaba naqueles tempos de Primeira República. Segundo a boca miúda, não se pode dizer que foi aluno exemplar, pois tinha grande dificuldade em álgebra. Já com o português, não precisou completar catorze anos para ver um texto seu publicado em jornal. Resultado de um trabalho escolar - uma redação sobre a lágrima -, seu professor gostou tanto que mandou a'O Itapemirim. Abaixo, um trecho das primeiras letras do futuro grande cronista Rubem Braga:

    "A Lágrima"

    " Quando a alma vibra, atormentada, às pulsações de um coração amargurado pelo peso da desgraça, este, numa explosão irremediável, num desabafo sincero de infortúnios, angústias e mágoas indefiníveis, externa-se oprimido, por uma gota de água ardente como o desejo e consoladora como a esperança; e esta pérola de amargura arrebatada pela dor ao oceano tumultuoso da alma dilacerada é a própria essência do sofrimento: é a lágrima
    E a lágrima, de homem e de mulher, de alegria ou de tristeza, é sempre reveladora e indiscreta, tradutora inconsciente dos segredos d'alma (...)"


    Sensível. Mas não se enganem que o moleque era turrão e arrumou lá suas desavenças com a direção do colégio Pedro Palácios. Acabou que foi terminal o ginasial em Niterói. Isso, se não me falha o biógrafo, foi no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1928, ou simplesmente 1928, já que Rubem foi ateu durante toda vida e atirou com volúpia na Igreja Católica. Paralelamente aos últimos semestres letivos, passou a enviar textos para o jornal Correio do Sul, fundado pelos seus irmãos Armando e Jerônimo, publicados na sessão "Carta do Rio":

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    Em um deles, falou sobre o Brasil, que "sempre foi um caboclinho assanhado. Logo na dentição, começou a trocar socos com um outro bebê; mas reparou que o sexo era diferente, curvou-se respeitosamente - o que ela também fez - e até já deram, juntos com outro guri, uma formidável surra em um molecote malcriado que se chama Paraguai". Em outro, sobre a saudade que sempre sentirá de Cachoeiro, e que já dá o tom do lirismo de suas futuras crônicas:

    "Eu tenho em minha frente o seu retrato. Há umas casinhas coloniais saindo do mato, nas margens do rio. Há pedras e umas canoas rústicas e você lá no fundo da paisagem. O rio vai espalhando tudo, direitinho. E as casas, as pedras, as canoas em você são mais belas, mais pensativas dentro do rio. Eu fico pensando - os olhos úmidos de saudade - que com certeza daqui a muitos anos as casas cairão e os bangalôs alegres hão de rir entre os pomares. As canoas descerão o rio para sempre e hão de vir as lanchas e os ioles. E talvez nem o rio fique mais tão pensativo nem a paisagem tão linda. Mas não faz mal. Haverá sempre algum bom capixaba e bom cachoeirense que de muito longe olhando o seu retrato - que você não mudará, graças a Deus - há de ficar com os olhos úmidos de saudade."


    Diplomado no que hoje equivaleria ao nosso Ensino Médio, Rubem entrou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1929, ano que fecharia a década de significativas modificações na cultura nacional, capitaneadas pelos modernistas de 22.

    E chegaram os anos 30, abertos pelo movimento de Vargas e sua trupe (que ainda hoje gera discussões na historiografia entre os partidários de Golpe e Revolução), anunciando que a situação iria se embaralhar na vida dos Bragas. Isso porque a política de Cachoeiro e do Espírito Santo, sempre em acordo com as direções tomadas pelos presidentes café-com-leite, sofrerá um impacto com os "revolucionários" de 30. Como os documentos revelam, muitos foram os perseguidos e torturados. Sentindo o possível baque, Rubem, filho do Coronel e primeiro prefeito de Cachoeiro, desde o início, ainda na campanha da Aliança Liberal, se fez contrário ao clima de "excitação" e "mudança" vendidos. Tanto que quando os votos contados deram a vitória ao candidato da situação, Júlio Prestes, Braga escreveu "Politiqueiros! Oportunistas! A vossa missão está terminada. O povo do Brasil é um povo que se levanta para caminhar, cabeça erguida, passo firme, pela estrada da Democracia e do Progresso!". E "deixe passar o enterro da Aliança e levante a cabeça para olhar firme o futuro magnífico dessa pátria que Deus nos deu. E veja se esquece aqueles dias ingênuos em que você andou ostentado no pescoço um lenço vermelho, símbolo de uma revolução inglória, feita de ambições e baixezas". O resto da história, como sabemos: Vargas amarrou o cavalo no obelisco e ficou por uma década e meia no Catete. À nós, distantes no tempo, é fácil o julgamento: Braga acertou em ir contra Getúlio, mas se equivocou em apoiar o regime de então. Alguns anos depois se justificou, ou antes, reforçou sua opinião, dizendo:

    "Combati a Aliança Liberal porque sempre olhei com desprezo aquele ajuntamento político. Combati a revolução porque não acredito, senão de um modo muito restrito, na eficácia das revoluções (...) em face da atual situação do País, ainda não tive tempo de me arrepender dessas atitudes".

    E foi irônico:

    "Pensai naqueles heróis antes de 1930. Eram magros, famintos de ideal, perseguidos. A revolução ganhou, eles perderam o encanto e a virgindade, começaram a engordar. Hoje são heróis pancinhas, fumando charutos e negociatas. Nefandos heróis"

    Pela posição antivarguista e anticlerical assumida, bem como o cargo político ocupado pelo pai, Braga passou a ser perseguido pelo regime - o que lhe foi motivo de orgulho - e passou, também, a ser taxado de comunista - o que lhe causou azia. Ele, homem de esquerda e um dos fundadores do futuro Partido Socialista, sempre foi contra a doutrina propagada pelo PCB, capachos de Stálin. Chegou a escrever uma crônica espirituosa sobre os vermelhos:

    "A minha tentativa de avermelhamento foi um fracasso. Foi um mau amigo que me arrastou para os mistérios rubros. Deu-me alguns livros, que li. Depois, me deu um jornal. Ah, antes não o fizesse nunca! Achei o jornal bom, gostoso, xingando bastante. Então, um outro amigo me deu outro jornal. Xingava o primeiro. Compreendi tudo. Um comunista é um sujeito excelente. Dois comunistas são intoleráveis. Passam a vida discutindo pontos de doutrina. Um vigia ferozmente o outro, até que o pega em falta e berra:
    - Burguês, burguesão! (...)"


    Apesar do curso de Direito, Braga nunca advogou. Foi jornalista e nos anos 30 iniciou sua peregrinação de jornal a jornal; de cidade a cidade. E foi pelas mãos do irmão Newton, também cronista - e alguns conterrâneos o dizem melhor do que o nosso Rubem - que estreou em território não-capixaba, escrevendo para o mineiro Diário da Tarde, de Assis Chateaubriand. Nesse período conheceu a comunista Zora Seljan, com quem se casaria no retorno a Minas, em 1936. Com ela Braga teria o único filho, Roberto Seljan Braga. Foco no casal:

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    Mas antes de cair no matrimônio, Rubem foi correspondente da Revolução de 32. Diante dos horrores do combate, sentenciou:

    "- Vim lá da frente, onde os irmãos estão se matando. Vou para a cidade onde os irmãos estão discutindo. E trago no peito um segredo que só direi a você. O Brasil não existe. Lá na frente eu ouvi muitas vozes, mas não eram humanas nem brasileiras. Falavam os Schneider, alemães, as Hotchkiss, francesas, as Colt, americanas, e os Z.B., belgas. Falavam na algaravia rude do ferro e fogo. E cada palavra deles era um homem que tombava. O matraquear e o ribombo das máquinas da morte ecoavam nas serras e invadiam as matas de onde todos os pássaros haviam fugido. E eu não ouvi, nunca, a voz do Brasil. O Brasil está mudo, está morto."

    Braga ainda passou uma temporada em São Paulo, trabalhando junto de António de Alcântara Machado. Aqui, iniciou a grande amizade com Oswald de Andrade, que o conduziu a zona do baixo meretrício e as gonorreias, essa doença que atestava virilidades. Andou pelo Rio, por Recife, sempre nos trazendo suas crônicas que contam uma porção de coisas sem grande importância. Continuou, evidente, com suas incursões na política, mas, como diria Manuel Bandeira, o melhor Braga é o Braga sem assunto.

    Em 1936, conseguiu fugir de Filinto Müller, mas não fugiu do matrimônio. Virou marido e teve seu primeiro livro publicado, pela José Olympio, O conde e o passarinho ("Minha intenção principal, publicando isto, é apenas ganhar dinheiro, porque no momento o jornal em que eu trabalhava fechou, o que veio agravar minha quebradeira normal"). Em 37, surgiu o papai Braga, como dissemos, o que aumentou suas contribuições às companhias ferroviárias, já que suas andanças não se interromperam, por necessidades financeiras e dribles na polícia varguista. Rio, Porto Alegre, São Paulo...

    E nem a família sossegou o facho do rapaz que, embora tímido e sisudo, sempre foi cheio de amor e muito dado às mulheres. Solteiras, casadas, não se importava. Sobrava até para as esposas dos amigos. Um verdadeiro talarico, esse Braga! A primeira vítima conhecida foi Bluma Schafir Wainer, senhora de Samuel Wainer, o fundador do Última Hora. Com ele, Rubem havia trabalhado na revista antigetulista Diretrizes. Mas a grande conquista amorosa foi Tonia Carrero.

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    Nada bobo, hem. Segundo Vinicius, só a lua de Copacabana rivalizava em beleza com Tonia.

    Braga também foi correspondente de guerra, o que resultou no livro "Com a FEB na Itália". As crônicas, novamente, de grande sensibilidade:

    " A cabeça de Silvana descansava de lado, entre cobertores. A explosão estúpida poupara aquela pequena cabeça castanha, aquele perfil suave e firme que Da Vinci amaria desenhar. Lábios cerrados, sem uma palavra ou gemido, ela apenas tremia um pouco (...) É preciso acabar com isso, e acabar com os homens que começaram com isso - o sistema idiota e bárbaro de vida social onde um grupo de privilegiados começa a matar quando não tem outro meio de roubar (...) por esse pequeno ser simples, essa pequena coisa chamada uma pessoa humana, é preciso acabar com isso, é preciso acabar para sempre, de uma vez por todas."

    O tempo passou e Vargas saiu, para depois retornar ao poder. ("Em todo caso essa chato Getúlio não merece que a gente se aflija demais com ele. Desejo-lhe um câncer no cu, para lhe tirar o gosto de sentar no poder"). Rubem e Zora se separaram. Foi feito chefe do Escritório Comercial do Brasil, no Chile. Posteriormente, no governo Jango, foi nomeado embaixador do Brasil em Marrocos. Fundou, com Sabino, a Editora do Autor - a primeira a publicar "O Apanhador no Campo de Centeio" -, e venderam-na por "inaptidão administrativa". Anos depois, teimosos, fundaram a Editora Sabiá - a primeira a publicar "Cem anos de Solidão".

    Em Ipanema, sua cobertura, uma "fazenda suspensa no ar", tornou-se o ponto de encontro dos grandes escritores e intelectuais da época.

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    Mas os anos seguiram, sem tréguas, e Rubem os sentiu:

    • "Tenho hoje 35 anos, e o que pensei foi isto: em como teve importância na vida dos homens de minha geração e ofício a temporada da ditadura (...). É desse pequeno homem, extremamente medíocre e feioso, que me lembro no dia do meu aniversário. Na fase de nossa melhor mocidade tivemos o caminho atravancada pelo homenzinho."
    • "Do alto dos meus 44 anos, minha melancolia vos contempla."
    • "Faço cinquenta anos. Não é divertido. Para falar com franqueza, eu preferia (e obscuramente sinto vontade de dizer: eu merecia) fazer quarenta anos. Não tenho saudade dos trinta, quero dizer, não teria vontade de ser como eu era aos trinta anos - e muito menos aos vinte."

    Não era mais o mesmo garoto, não ostentava a mesma vitalidade. Chegou a septuagenário e continuou com as crônicas, sempre líricas. Teve como últimos trabalhos os textos que assinava para a TV Globo e a coluna publicada no Estadão.

    Faleceu de câncer na laringe, decorrência dos seus longos anos de fumante, no Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1990, aos 77 anos. Recusou qualquer tratamento e pediu que seu corpo fosse cremado e lançado no rio Itabira.

    No Youtube:

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    Uma biografia mais cronológica e a bibliografia,
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    E a página Centenário Rubem Braga,
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    Referência Bibliográfica:

    Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, Marco Antônio de Carvalho
     
    Última edição: 4 Mar 2014
    • Ótimo Ótimo x 6
  2. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    Quem são os caras da penúltima foto?

    Só consegui identificar Chico, Vinicius e o Stanislaw Ponte Preta. :think:
     
  3. Cantona

    Cantona Tudo é História

    Clara, fiquei em dúvida no Otto Lara, mas o Google confirmou que é ele mesmo. Então, vamos lá, da esquerda pra direita: Chico Buarque, Rubem Braga, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Stanislaw Ponte Preta (vulgo Sérgio Porto), Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.
     
    • Gostei! Gostei! x 1
  4. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    Jóia! Adoro essas fotos.
    Nossa, como o Otto Lara Resende era baixinho!
    E o Chico Buarque, mocinho, fazendo o deslumbrado. :lol:
     
    • Gostei! Gostei! x 1
  5. Cantona

    Cantona Tudo é História

    Olha essa outra, que deve ter sido tirada no mesmo dia:

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    No site
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    tem um monte!
     
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  6. Cantona

    Cantona Tudo é História

    Uma carta de Rubem Braga a Graciliano Ramos, quando este completou 50 anos em 1942:

    Meus senhores,

    Não se pode levar muito a sério esse velho Graciliano, nem devemos lhe fazer muita festinha, porque amanhã vai dizer que lhe demos uma comida "ruim como a peste" e lhe fizemos discursos "horríveis, sem sintaxe nenhuma". Também não sei quem teve essa ideia de trazer para um lugar decente, com discurso bonito de poeta transcendental, um cambenho tão desgraçado das Alagoas.
    Graciliano: eu gostaria de lhe oferecer hoje um almoço daqueles da pensão da Correia Dutra e era capaz de mandar buscar no botequim da Bento Lisboa duas cervejas hamburguesas. Você poderia encher bem o prato, fazendo um monte de arroz, feijão, farinha e carne. Ali nos sentaríamos com nossa família e mais a velha viúva que ia jogar 30 mil réis na roleta no número da catacumba do Tinoco; o "tira" da Ordem Social que ficava desesperado quando você dizia que Victor Hugo é uma besta; o rapazinho que queria ser poeta e o velho surdo; o suboficial palrador, o Vanderlino com sua cara de jaca e personalidade de Dostoiévski...
    ... e também, para dar à nossa mesa a inquietação dos pecados, o vulto suave de Dona Ester, tão desonesta e tão boazinha, que a tuberculose levou. Ah, naquele tempo você se chamava Brasilino, porque a dona da pensão achava que, cobrando 600 mil réis por quatro pessoas amontoadas num quarto, não tinha obrigação de aprender seu nome direito...
    ...Você se chamava Brasiliano! Seus cabelos, que haviam raspado na ilha, ainda não tinham nascido bem. Saíra há pouco da cadeia e já havia escrito "Angústia". Toda manhã, bem cedo, abria o pequeno armário de pinho do seu quarto de pensão, tirava lá do fundo a garrafinha de cachaça, tomava um gole em jejum e sentava-se à mesa. A paisagem era um longo telhado sujo onde os gatos do Catete se amavam sem vergonha e um pátio de garagem onde os motores dos caminhões custavam a pegar.
    E ali, caneta na mão, fumando cigarro Selma, ia contanto, devagar, num papel vagabundo, as pobres aventuras da canhorra Baleia. Queria fazer um romance, mas a conta da pensão não podia esperar um romance.
    Por isso, cada capítulo ficou sendo um conto que era vendido logo para um jornal do Rio e outro da Argentina, único meio de aplacar a fome de dinheiro de D. Judite. E enquanto armava, peça por peça, o seu romance desmontável, você ia fazendo um ou outro artigo ruim. Ah, Brasiliano, ganhava-se pouco, mas era divertido.
    Nas noites de verão a gente podia apagar a luz e ficar espiando a janela da vizinha até que ela viesse tirar a roupa, mostrando um belo corpo moreno completamente nu.
    Como era bonita a nossa vizinha, Brasiliano! Você vivia zombando de mim e do Vanderlino porque nós gostávamos de espiar, mas uma noite te pegamos lá no escuro, de tocaia. Corremos para outra janela. Sabemos que você cuspiu de nojo e disse a palavra "peste" quando no lugar da bela moça morena quem se mostrou foi a cafetina gorda de carnes brancas e bambas.
    Graciliano Ramos, hoje que você completa 50 anos de vida literária e ganha um banquete cobrado a mil réis por cabeça, achei que devia falar.
    Ninguém me pediu que fizesse isso, estou falando por conta própria. Mas não é apenas como seu amigo de pensão do Catete nem como seu colega de ofício e parceiro de conversa mole na livraria José Olympio. Que a minha voz, nessa festa de hoje, seja a voz de companheiro.
    Vamos se mais exatos e pronunciar a palavra horrível, a palavra de mau gosto, a palavra quase proibida em reuniões americanas: companheiros de política. Peço que ninguém saia da mesa ou finja não estar escutando; ninguém tenha medo que não falarei demais. Mas alguma coisa é preciso dizer.
    Preciso dizer que um dia de festa de Graciliano Ramos é um dia de festa para toda uma grande turma de pessoas no Brasil que perante ele não são apenas leitores e admiradores, são companheiros também. Dessas pessoas umas estão aqui dentro e milhares e milhares de outras andam por aí, pelo Brasil afora. Devemos confessar que não é uma gente muito distinta nem bem-educada.
    É gente que vive brigando e falando bobagem, e às vezes até vai parar na cadeia. Não Graciliano, você sabe que não vejo nossa turma como um bando de anjos. Se fosse possível reunir todos aí na Praça Lido para cantar em coro em seu louvor é mais provável que a festa acabasse em pancadaria.
    Nosso reino não é do céu e às vezes se parece um pouco demais com o inferno. Com seu pessimismo desgraçado, pessimismo de velhote ingênuo, você chega a dizer que nossa gente é a pior que há. Não é verdade. Não somos piores que os outros.
    Se os nossos defeitos aparecem mais é porque somo mais exigentes conosco mesmos e de vez em quando somos submetidos a provas que os outros não conhecem. Eu, por mim, nunca me espantei demasiado com os espetáculos a que tenho assistido em nosso meio - com as transigências, as fraquezas, a intolerância, a confusão, a safadeza, a presunção, a má-fé e tudo o mais. Somos homens, lidamos com homens, e jamais devemos esperar grande coisa.
    É difícil, à primeira vista, distinguir D. Quixote de Gil Blás, e os dois são igualmente perigosos e úteis e marcham no mesmo trote pelas estradas poeirentas de nossa aventuras. O que me espanta, Graciliano, nessas campanhas atrapalhadas, não é que tantos fraquejem, é que tantos aguentem a mão e, entre esses, alguns aguentem até onde aguentaram e estão sempre aguentando.
    O que me espanta não é a traição que dá na vista, não é a tolice que brilha em público. É a decência que se mantém, é a dignidade que se preserva, é a honradez que se resguarda, é o sacrifício obscuro e quotidiano que se continua. Eu lhe digo, porque tenho vivido em muitos cantos do Brasil e mexido com muita gente - posso lhe dizer que, entre milhares de homens tão diferentes de caráter e mesmo de ideias, sempre se tem conservado, através de todas as tribulações e contingências, um patrimônio comum. E você, Graciliano Ramos, faz parte desse nosso patrimônio.
    O que senti vontade de lhe dizer hoje, e fica dito agora, é o seguinte: que, tanto quanto eu, há milhares de pessoas no Brasil que não estão presentes ao banquete mas que desejam que você fique sabendo que estão ao seu lado. Conte conosco, não apenas na hora de comer e beber, como também na hora de ter ódio de Julião Tavares, de lutar contra Julião Tavares - e de matar Julião Tavares.
     

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