1. Caro Visitante, por que não gastar alguns segundos e criar uma Conta no Fórum Valinor? Desta forma, além de não ver este aviso novamente, poderá participar de nossa comunidade, inserir suas opiniões e sugestões, fazendo parte deste que é um maiores Fóruns de Discussão do Brasil! Aproveite e cadastre-se já!

Dismiss Notice
Visitante, junte-se ao Grupo de Discussão da Valinor no Telegram! Basta clicar AQUI. No WhatsApp é AQUI. Estes grupos tem como objetivo principal discutir, conversar e tirar dúvidas sobre as obras de J. R. R. Tolkien (sejam os livros ou obras derivadas como os filmes)

O Velho

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Luciano Altoé, 27 Abr 2010.

  1. Luciano Altoé

    Luciano Altoé Usuário

    [size=medium]O VELHO
    [/size]

    O velho caminhava trôpego. Cabeça baixa, olhos apertados pelo Sol fustigante. À frente um prédio branco. Fórum. Em sua mão dois papeis: pedido de revisão de aposentadoria; laudo médico. Câncer, metástase. Nada mais importava. Só mais alguns passos.

    No pequeno cubículo reservado ao público, apoiou-se na bancada de fórmica. Esperou. Alguns minutos passaram. Na sua mente, transcorreram dias. Ou melhor, anos. Desde que aquela tortura começara. Só desejava aumentar sua aposentadoria. A doença estava com fome, pedia mais dinheiro. Em troca ofertava-lhe mais algum tempo. O dinheiro acabou. O tempo também.

    No fundo do cartório alguns funcionários riam. Em sua mente isso soava como deboche. Esperaria um pouco mais. Passos arrastados se aproximaram. Um funcionário passou pelo velho como se este já estivesse morto. Pousou uma folha sobre a máquina copiadora e saiu rancoroso com o irmão gêmeo do documento, retornando para sua letargia em uma mesa empoeirada no canto de sua sala.

    O velho persistiu. Outras vezes tinha sido ignorado. Desta vez não. Afinal, era sua última. Mais alguns instantes. Outras incontáveis eternidades.

    Por quanta humilhação ainda seria obrigado a passar? O laudo médico em sua mão dizia que poucas estavam por vir. Seus olhos percorreram a sala, mas nada conseguiam fitar. Mirou paredes, computadores, papeis... malditos papeis. Dois estavam em sua mão para dizer o quanto era insignificante.

    Desanimado deixou os olhos caírem sobre as próprias mãos. Virou-as. Suas palmas tinham marcas profundas. Nelas enxergou a si próprio. Sua vida. Sua história. Sua luta. Ele era mais que uma pilha de papel em uma mesa. Ele era mais do que os papeis que estavam em sua mão.

    Não esperaria mais. Resignado pela derrota, mas decidido por honrar a história escrita em suas mãos, virou-se e caminhou até a saída. Seus dedos sem sensibilidade tocaram a maçaneta no mesmo instante em que seus ouvidos captaram um chamado. Uma Senhora. Voz doce. Marcas no rosto. Voltou-se para o balcão.

    Sua mão transmitiu para ela os dois documentos. Ela fitou robótica o primeiro. Ela enxergou, humana, o segundo. A Senhora levantou o olhar. O velho endireitou dolorosamente a postura. Não desejava piedade. Aspirava somente o que era seu.

    Minutos mais tarde, retornou ela com o olhar distante. Procurava algo. Queria evitar o velho.

    – Sinto muito! Seu pedido foi julgado improcedente. – Esticou a mão e devolveu os dois papeis.

    O velho retirou os papeis da Senhora, segurou firme sua mão. Todas as profundas marcas em seus dedos eram sentidas por ela. Havia uma história naqueles desenhos imperfeitos. Resistiu por alguns instantes, mas, ao final, seus olhos foram tragados pelo olhar dele.

    – Obrigado! – Disse o velho. Olhos ardendo com as lágrimas que teimavam não sair. Tentou engolir a saliva três vezes. Não conseguiu.

    – Mas... senhor, seu pedido foi negado.

    – Minha jovem, vivi bastante para saber o significado de improcedência. Não agradeço porque perdi o processo. Tampouco estou feliz por isso. Agora não faz mais diferença. Agradeço porque hoje alguém olhou para mim. Hoje sou uma pessoa. Vim aqui dezenas de vezes, em todas eu era apenas papel e como tal fui deixado em um lugar mofado desse local estéril. Hoje não. Desta vez, eu fui mais. Fui um rosto. Fui alguém. A resposta me foi dada e eu a aceito. Ao menos, essa resposta foi concedida a um homem, não a uma pilha de celulose que, mais tarde, será reciclada. Obrigado.

    Saiu. Passos penosamente lentos. Cabeça erguida. Olhos mareados. Orgulho restaurado. Os dois papéis que repousavam em sua mão não interessavam mais. Deixou-os no lixo. Fitou as próprias mãos. Sorriu. Nunca mais pisou no Fórum.

    No balcão, a Senhora permaneceu uns instantes. O velho se foi. A sensação provocada pela mão áspera deste e o nó em sua garganta permaneceram.

    O processo do velho foi arquivado. Manteve-se por um tempo em uma caixa como tantos outros. Após a hibernação na reclusão, foi triturado e misturado com tantas outras vidas. Ajudou a formar novos processos. As decisões nele contidas presenciaram incontáveis destinos.

    A Senhora permaneceu. Assim como o rosto do velho em sua memória. Mas ele não viajava sozinho na mente dela. Todos os dias era apresentado a vários outros que ansiavam apenas uma resposta. Agora, para ela, todos os processos tinham faces. E as faces respondiam agradecidas o seu olhar atencioso.


    Um abraço!
     

Compartilhar