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... Mas livrai-nos do mal

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    Nunca fiz uma pesquisa exaustiva sobre as razões que levam as pessoas a gostarem de O Senhor dos Anéis ou da obra tolkieniana em geral, embora já tenha tido ocasião de perguntar a isso a especialistas em Tolkien ou a colegas fãs e amigos em geral. Acho que é mais ou menos seguro assumir que não há uma razão única ou mesmo geral: toda boa obra de literatura é polissêmica (jeito afetado de dizer que ela permite vários níveis e dimensões de leitura e interpretação), e num colosso de mais de mil páginas como a Saga do Anel essa dimensão ainda é mais clara.
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    Mesmo assim, gostaria de conversar com vocês sobre o que talvez seja a faceta que mais ajudou a tornar o livro parte da minha vida, algo que eu ainda vou entesourar quando estiver desdentado, careca e incapaz de usar a privada sozinho. Falo da dimensão moral e espiritual da história e, em particular, do clímax: o “fracasso” de Frodo nas Sammath Naur e a sua salvação (e a de toda a Terra-média) pelas mãos de alguém tão aparentemente odioso quanto Gollum.
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     Nunca é demais dar uma olhada nas famosas cartas do homem do cachimbo, The Letters of J.R.R. Tolkien, editadas por Humphrey Carpenter e Christopher Tolkien. É impressionante o grau de dedicação e seriedade que Tolkien despende para responder indagações de simples fãs, e os insights profundos sobre seu trabalho que ele não hesitava em compartilhar. É em duas dessas cartas, ambas escritas em 1956, que ele esclarece qual a chave em que devemos ler a cena-clímax do romance: “Eu diria que, dentro do espírito da história, a catástrofe exemplifica (um aspecto das) palavras familiares: Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
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     “Não nos deixeis cair em tentação etc. é o pedido mais difícil e menos considerado”, diz Tolkien. “O ponto de vista, nos termos da minha história, é que embora todo evento ou situação tenha (pelo menos) dois aspectos, a história e o desenvolvimento do indivíduo (algo do qual ele pode conseguir o bem, o bem supremo, para si mesmo ou falhar) e a história do mundo (que depende das ações dele em si mesmas) – ainda assim há situações anormais em que alguém pode ser colocado. Eu as chamaria de situações sacrificiais”.
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     Posições como essa espelham o que Frodo sofreu diante das Sammath Naur: um contexto no qual alguém como ele está fadado a fracassar, porque o que se exige está muito além do que pode fazer a força de corpo ou de espírito que ele possui. Em certo sentido, a Demanda estava destinada a falhar desde o começo, confessa Tolkien: alguém com maior poder natural teria sucumbido à tentação do Anel muito antes; um sujeito com a humildade e a integridade de Frodo sucumbiria na hora final. É uma armadilha da qual não há escapatória. O único resultado possível para o hobbit era a traição, ainda que involuntária. “E cheguei até receber uma carta selvagem, gritando que ele deveria ser executado como traidor, e não honrado”, conta Tolkien.
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     O autor vai além: compara a situação em que Frodo foi colocado aos sofrimentos das pessoas torturadas por regimes ditatoriais, uma coisa tristemente comum no mundo que Tolkien conhecera durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria que se seguiu. “Não imaginei que, antes que a história fosse publicada, entrássemos numa era sombria em que a técnica de tortura e de distorção da personalidade passasse a rivalizar com a de Mordor”, lamenta o Professor.
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     O resultado final, do ponto de vista da personalidade do herói, pelo menos, é que Frodo falhou inevitavelmente. “É preciso encarar o fato: o poder do Mal no mundo não pode ser vencido, em última instância, por criaturas encarnadas, por melhores que elas sejam”, diz Tolkien.
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     Parece uma sentença de desespero irreversível, não é mesmo? Contudo, na mesma frase, Tolkien acrescenta: “E o Autor da História não é um de nós”. É desse jeito, explica ele, que a cena-clímax da saga precisa ser lida.
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     Para alguns, tal idéia pode parecer decepcionante. Já ouvi um sujeito dizer que O Senhor dos Anéis o irritava profundamente porque os heróis sempre pareciam escapar por pura sorte no último momento, e o mesmo se repetia na cena final no Orodruin. “Eles nunca tem mérito ou capacidade para escapar; só se salvam por puro acaso”, reclamava esse cara. Tá na cara, contudo, que só uma leitura superficial pode passar essa impressão. Foi exatamente o mérito de Frodo, a sua compaixão por Gollum, junto com Algo (ou Alguém) que está muito acima do acaso, que o salvaram na sua hora final, como explica Tolkien.
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     “A salvação do mundo e a salvação do próprio Frodo é conseguida graças à sua piedade anterior e ao seu perdão anteriores. Em qualquer momento, qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que Gollum certamente o trairia, e que poderia roubá-lo no fim. Ter pena dele, evitar matá-lo, foi um ato de insensatez, ou uma crença mística no valor último da piedade e da generosidade em si mesmas, mesmo se elas forem desastrosas no mundo do tempo. Ele [Gollum] realmente o roubou e feriu no fim – mas por uma graça, essa última traição foi no momento preciso em que esse ato de maldade final foi a melhor coisa que alguém poderia fazer a Frodo! Numa situação criada pelo seu próprio perdão, ele foi salvo, e aliviado de seu fardo”.
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     A gente sabe que o mundo real, aparentemente, não é tão certinho quanto o mundo da história. O Autor da História às vezes parece distante ou, pior ainda, parece ter emprestado sua pena a alguém bem menos sábio e justo.
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    Mesmo assim, a coragem e a força moral que emana dos heróis da ficção pode servir de fonte de inspiração e firmeza – porque todos nós, mesmo no nosso pequeno mundo, podemos um dia correr o risco de adentrar as Sammath Naur.<SPAN style="mso-spacerun: yes">   </SPAN>
     

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