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[L][Cervus][Supernova]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Edu, 26 Jul 2006.

  1. Edu

    Edu Draper Inc.

    Supernova


    As ovelhas berram fora de casa. Deve ser uma nova sinfonia caprina sendo ensaiada, retificada pela mãe-carneiro e orquestrada pelo pai. O som irrita, mas com o passar do tempo se torna familiar, e assim deixa de perturbar. É como se mil manhãs raiassem e fossem embora em um segundo apenas (e como se no outro segundo tudo começasse novamente). É como se parte do céu despencasse sobre o teto de madeira da casa, e ressoasse pelo horizonte a voz irada de Deus, que grita: “mais barbantes! mais barbantes!”.
    Quando as ovelhas cessam seus berros, e tudo fica silencioso outra vez, como deveria ser, é possível ouvir o barulho de todas as crianças que nascem mundo afora naquele instante. Vem abafado, como o som do mar ouvido dentro de uma concha, mas mesmo assim vem. Não falha. Nauseia a alma escutar os berros dos pequenos homens no lugar do das velhas ovelhas, mas, assim como o dos enovelados animais cessa, também o dos pequenos se vai, e tudo se torna nada outra vez.
    Com o silêncio que invade o mundo após as crianças se calarem vem também uma nova voz, que dessa vez não é divina, nem pede barbantes. E ela ecoa pelos campos, distorcendo-se conforme tromba com um obstáculo qualquer, até chegar a ser ouvida: “caboom!”. E então também se vai — também some. Mas logo depois é explicada por uma outra coisa, maior e ainda mais bela: um grande facho de luz ora branca, ora dourada, que se desprende dos altos céus, do grande Universo, para vir iluminar a Terra e a casa. A luz não faz barulho: ela só está — e permanece brilhando, mas mesmo assim ainda é mais mítica do que a serenata das cabras, os barbantes santos ou o choro dos jovens homens.
    Mas como todo o resto, o facho de luz também termina. É o ponto final, que finda mais um capítulo da carochinha dos anjos, intitulada “Sempre e De Volta Outra Vez”, onde o homem é bordado como aquele que só existe para apreciar o espetáculo angélico, como os olhos e ouvidos de um pobre macaco qualquer, que se embriaga com o cheiro da champanhe que é servida na recepção celeste em honra à essa peça teatral. Tontos, acabamos perdendo a maior parte da superprodução, tanto que muitos de nós não conseguem ver nem mesmo o final, a última grande surpresa da noite.
    Vendo Deus onde só há ovelhas, e crianças onde não há nada, já mais que embriagados pelos cheiros e sons da festa que acontece nos Sete Céus, só resta aos pobres macacos deitarem em suas camas e se esquecerem de tudo; buscarem um mundo onde possam sonhar com tudo isso, por estarem demasiados cansados para conseguirem assistir a peça até o final — até quando explode a última supernova do Universo, e tudo o que aconteceu antes perde o significado. E o sentido. E a razão de ter sido admirado um dia. O último raio de luz antes das cortinas se fecharem sempre será o motivo de tudo ter acontecido. É como se fosse posto no fim para que nós não o enxergássemos mesmo, pois, de um jeito ou de outro, jamais entenderíamos o que há de tão misterioso e onipotente em um punhado de claridade, já que a peça não é inteligível, nem consegue despertar em nós a vontade de viver em um lugar melhor ou mais bonito do que o que estamos acostumados a ver todos os dias; pois não se trata de entender como as coisas funcionam, porque elas funcionam ou acontecem, já que, no fim, tudo se resume a amar — e — viajar — pelas — estrelas.
     

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