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Jun Kyonase e Hikojiro Kyonase (“Yume: A Lenda da Energia Interior”) - Parte 2

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Rurouni Silvia, 9 Jun 2011.

  1. Rurouni Silvia

    Rurouni Silvia Usuário

    [align=justify] Córrego com sua água ainda marcada levemente pela cor rubra da morte...
    O céu encontra-se escurecido por nuvens acinzentadas e o vento sopra continuamente dando ênfase à aproximação de uma tempestade. Na margem contrária ao arrozal, dentre os corpos jazidos ao chão, dois de menor tamanho chamam a atenção. Um deles, o de uma garota desnuda e marcada pela violência sofrida à sua pureza, manchada por seu próprio sangue, encontra-se jogado próximo a margem do rio, tendo um dos braços tocando a água. Um pouco mais adiante, subindo o planalto, o outro corpo jaz em meio a um solo completamente destroçado com partes de galhos quebrados e pedras rachadas e em pedaços, com a vegetação pisoteada, indicando que, há pouco tempo, aquele havia sido um local de luta. Este corpo tem um estado deplorável: escoriações, erupções cutâneas como se fossem rasgões, sinais de alguns ossos quebrados, inchaços, além de sangue cobrindo praticamente toda a sua extensão compõem o que antes aparentava ser o corpo de um garoto saudável.
    Os olhos da garota se abrem visualizando o céu negro. Sua visão, mesmo fraca, muda o foco buscando algo aparentemente importante, devido à angústia contida no mesmo. Ao se deparar com o corpo daquele menino estendido ao chão poucos metros acima do planalto, seus olhos fixam-se nele e começam a derramar lágrimas as quais se misturam com o sangue em seu rosto, formando um líquido brilhoso, de cor rósea, que percorre sua face limpando-a das marcas de sangue do sofrimento ocorrido há algumas horas atrás.
    Um pingo de chuva cai em seu rosto ao tempo que outro atinge a face muito machucada do garoto. Este acorda já focalizando o olhar em direção à sua observadora. Ele também começa a chorar.
    Tem início a tempestade.
    Eles estão vivos, entretanto ainda não acreditam nesse fato. A irmã mais velha, Jun Kyonase, que antes era capaz de agir até pelos outros, agora não encontra um resquício sequer de sua força interior para, ao menos, tentar chegar até o irmão. Este, Hikojiro Kyonase, que era o contrário da irmã, sempre dependendo dela, em contrapartida à mesma nesse momento, consegue iniciar uma dolorosa busca, arrastando-se vagarosamente em direção ao local onde ela se encontra.
    A chuva cai imperdoável, com seus pingos fortes e espessos, enquanto o vento percorre velozmente o ambiente. A tempestade aparenta ser de uma natureza furiosa, porém, para o casal de irmãos, mais parece uma espécie de renascimento, como se aquela água proveniente do céu fosse lágrimas dos deuses devido à morte das pessoas daquele lugar e o vento, o suspiro de suas perdas. Água banhando para purificar e vento soprando para amenizar a dor.
    Muitos minutos se passam até que os irmãos se encontrem. Ao alcançar, finalmente, sua irmã mais velha, Hiko se agarra à ela, deixando-se sentir a segurança calorosa de seu corpo, feliz por ainda tê-la em sua vida. Jun recebe o abraço do irmão em prantos, retribuindo o mesmo. Ambos buscam amparo e sabem que, juntos, estão seguros.
    A tempestade se intensifica, agora os banhando fortemente. Mesmo a água do córrego flui com mais vigor, enquanto o casalzinho permanece inerte à sua margem.
    - Hiko, gomen... Eu não pude fazer nada pra salvar a gente dessa vez... - fala fracamente a garota.
    - One-san, - balbucia o menino - a gente não teve culpa do que aconteceu. Nenhum de nós esperava que isso fosse acontecer... Já não bastasse a vila ser atacada... cof, cof... - ele começa a tossir expelindo sangue.
    - Hiko, por favor, não morra. Não me deixe sozinha. - Ela apertando o irmão contra o próprio corpo tentando aquecê-lo. - Está me ouvindo, Hiko? Fale comigo, dozo!
    As lágrimas em seu rosto mostravam claramente o medo aterrador da solidão em seu espírito. Aquele tinha sido o dia em que perdera tudo de mais importante em sua vida e, quando a esperança parecia ter-lhe dado uma segundo chance, seu irmão perecia em seus braços.
    - Ototo-chan, por favor, não morra... - repete ela já em desespero descontrolado.
    O garoto para de tossir por um instante:
    - Não se preocupe, one-san... cof... Eu não vou morrer agora. - fala ele, quase sussurrando.
    A irmã mais velha sentiu-se aliviada ao escutar as palavras fracas do irmão.
    - Eu vou viver - Hiko continua ainda balbuciante - e vou ficar forte pra te proteger e nunca mais deixar ninguém te fazer... cof... - a tosse o atinge mais uma vez - eu prometo, Jun... - ele desmaia deixando-se apoiar por completo sobre o corpo da irmã, como que servindo de proteção contra a tempestade e o vento gelado.
    - Arigatou, Hiko... - a garota aceita a proteção do irmão mais novo e, em seu interior, uma nova força surge com um leve tom de esperança vital, a qual, há horas atrás, ela pensava ter perdido de vez.
    Eles sobreviveram ao sofrimento e, apesar de não ter a mínima idéia do rumo a ser tomado a partir dali, a pequenina estava contente por ter o irmão a seu lado e saber que ele a protegeria, assim como ela a ele, para o resto de suas vidas.
    Os minutos foram se passando e o cansaço foi se apoderando daquele pequeno corpo feminino aos poucos. Na verdade, ela não pretendia se entregar até que o irmão acordasse e pudesse já reagir, temendo que, caso adormecesse também, outro mal os viesse abater.
    Aos poucos a tempestade foi cessando e o céu revelando sua cor noturna. Por mais que lutasse, a garota já havia cochilado inúmeras vezes e tinha consciência de que, cedo ou tarde, o corpo não suportaria. Repentinamente, seu olhar alcança não apenas o céu e a face de seu irmão como, também, vários vultos negros, os quais não consegue definir. Um destes aproxima-se de ambos, tocando-os no pescoço e pulsos e fala olhando para trás:
    - Estão vivos, Sensei-sama.
    - Ótimo! Já sabem o que fazer.
    A resposta brandia altiva de um vulto de postura ereta que se aproximara mostrando sua silhueta imponente, com seus cabelos longos e soltos esvoaçando ao vento. Ele olhava fixamente para os irmãos enquanto outros se aproximavam. A visão da pequena não era total devido ao cansaço, mas ela pudera enxergar um brilho no olhar daquele homem que a fizera, de alguma forma, sentir-se segura. Agora poderia, finalmente, descansar e assim o fez.
    ____________________

    VOCABULÁRIO (Termos Japoneses):

    Gomen: desculpe

    One-san: irmã mais velha (qnd se fala diretamente com ela)

    Dozo: Por favor

    Ototo-chan: irmão mais novo, no caso, "irmãozinho" por causa do sufixo "-chan"

    Arigatou: Obrigado(a)

    Sensei-sama: Professor ou Mestre. No caso, Mestre, enfatizado respeitosamente pelo sufixo "-sama".[/align]
     

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