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Autor da Semana Euclides da Cunha

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Clara, 31 Mar 2014.

  1. Clara

    Clara Antifa Usuário Premium

    Euclides da Cunha, engenheiro, escritor, repórter jornalístico e historiador

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    “Os Sertões” de Euclides da Cunha também foi o Brasil vomitado.
    E qualquer obra de arte, para ter sentido no Brasil, precisa ser esta golfada hedionda.


    Nelson Rodrigues


    Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, nasceu na fazenda Saudade, em Cantagalo, aos 20 de janeiro de 1866; o arraial hoje é conhecido como
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    Órfão de mãe aos três anos de idade, foi educado por tios, vivendo parte da sua infância na Bahia, em casa da avó materna.
    Terminou os estudos preparatórios no Rio de Janeiro e, entre outras instituições, estudou no Colégio Aquino, onde foi aluno de
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    , que muito influenciou a sua formação introduzindo-lhe à
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    É nesta instituição que publica os primeiros artigos no jornal "O Democrata", fundado por Euclides e seus colegas de turma.

    Em 1884 matriculou-se na Escola Politécnica, mas a abandona um ano depois pois não possui recursos suficientes para prosseguir os estudos; nesse mesmo período começa a escrever uma série de poemas em uma caderneta, intitulada "As Ondas"

    No ano seguinte, ingressa na Escola Militar da Praia Vermelha, gratuita, sendo designado cadete número 308. A escola era tida como um dos principais centros intelectuais do País, ao lado das faculdades de Direito de São Paulo e Recife e que então passava por uma fase de ardente positivismo republicano.
    Nesta instituição, reencontra o professor Benjamin Constant, ingressa no movimento republicano e no mesmo período começa a escrever artigos para a "Revista da Família Acadêmica" da "Sociedade Literária da Família Acadêmica".
    Euclides ainda cadete, num ato de apaixonada adesão à doutrina que recebera dos mestres, afronta o Ministro da Guerra que visitava a Escola, lançando fora o próprio sabre (pequena espada colocada na ponta do fuzil): é excluído do Exército e, confessando-se militante republicano, está para ser submetido a Conselho de Guerra quando D. Pedro II lhe concede perdão.
    Segue para São Paulo e aí publica no jornal "A Província de São Paulo" ( hoje O Estado de S.Paulo) uma série de artigos oposicionistas.
    Com a proclamação da República, reintegra-se no Exército e passa a alferes-aluno. Cursa, de 1890 a 1892, a Escola Superior de Guerra, formando-se em Engenharia Militar e bacharelando-se em Matemática e Ciências Físicas e Naturais.
    Dedica-se à profissão de engenheiro e trabalha na Estrada de Ferro Central do Brasil. Apesar da proteção de Floriano Peixoto mantém poucos liames com o Exército.
    Jugulada a
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    , em 1893, Euclides, embora florianista, manifesta-se pela necessidade de respeitar os direitos dos presos políticos; Floriano, contrariado, afasta-o para Campanha, em Minas Gerais (1894) e Eudides aproveita o repouso forçado estudando temas brasileiros. Desliga-se em seguida do Exército e passa a trabalhar em São Paulo como Superintendente de Obras. Em 1897 colabora de novo para o jornal O Estado de S.Paulo: entre outras coisas, um artigo sôbre Anchieta e comentários sobre os fatos de Canudos, que interpretava então como uma revolta insuflada por monarquistas renitentes, chamando-a de "A Nossa Vendéia" (
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    , luta ocorrida na França entre republicanos e camponeses defensores da monarquia). O jornal manda-o como correspondente para acompanhar as operações que o Exército iria executar na região para destruir o "foco".
    Euclides permanece na Bahia de agosto a outubro de 1897; de volta, começa a escrever "Os Sertões", primeiro na fazenda do pai, em Descalvado, depois em São José do Rio Pardo (1898-1901) para onde fora incumbido de reconstruir uma ponte.
    O livro, que sai em novembro de 1902, alcança repercussão nacional: Euclides é aclamado membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e eleito para a Academia Brasileira de Letras (1903).
    Continuando a estudar os problemas brasileiros, compõe em 1904 vários artigos que reuniria mais tarde em "Contrastes e Confrontos".
    Em 1905, o Barão do Rio Branco, seu grande admirador, designa-o para a chefia da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus.
    Passa na Amazônia todo esse ano: fruto dessa viagem é o Relatório sobre o Alto Purus, publicado em 1906; no ano seguinte escreve, sobre uma questão de fronteiras, "Peru versus Bolivia". Desejando ingressar no magistério oficial, faz, em 1909, concurso para a cadeira de Lógica do Colégio Pedro II, concorrendo com Farias Brito que, apesar de mais feliz nas provas é preterido.
    Euclides assume as aulas, mas por pouco tempo. Na manhã de 15 de agosto de 1909 Euclides vai armado ao subúrbio carioca da Piedade, à residência de Dilermando de Assis, amante de Anna Emília, sua esposa.
    O escritor e o cadete Dilermando trocam tiros. Euclides é assassinado e o espisodio fica conhecido como
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    O corpo é velado no Salão da Academia Brasileira de Letras no Silogeu Brasileiro e é sepultado na sepultura 3026 no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
    Euclides da Cunha contava, ao morrer quarenta e três anos de idade.

    BELO MONTE

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    Sucessivas secas assolaram o sertão na segunda metade do século XIX e culminaram na famigerada de 1877, causando uma crise econômica sem precedentes e um saldo final que ultrapassou os 100 mil mortos. Some-se a isso o fim do cativeiro em 1888, que atirou ao desamparo milhares de ex-escravos, muitos dos quais iriam engrossar as hostes conselheiristas.
    Tudo isso constituindo húmus propício ao surgimento de líderes messiânicos e de cortejos de retirantes.
    Quando começou a chamar a atenção, Antonio Conselheiro já se tinha transformado num penitente ou, como passaria a assinar, “O Peregrino”. Certos traços passarão a ser reiterados quando dele falam: seu tipo físico de sertanejo, com barba e cabelo compridos; o hábito azul de brim americano; a aparência desmazelada; o regime ascético, pelo qual se privava de carne, jejuava e dormia no chão; as obras de construção e restauração em que se empenhava; o carisma – e, naturalmente, o perigo para a ordem constituída.

    Já ia completar duas décadas sua peregrinação quando houve o primeiro desafio aberto dos retirantes capitaneados pelo Conselheiro às forças policiais, o que se deu em Masseté, no sertão da Bahia, em consequência de uma de suas iniciativas públicas, com sobretons políticos. Foi quando liderou em Bom Conselho, Itapicuru, Soure, Amparo e Bom Jesus, tudo no lapso de oito dias, em 1893, uma queima das tábuas com os editais dos novos impostos republicanos, os quais, como é óbvio, viriam sobrecarregar de gravames a economia de penúria dos pobres.
    Por todo o final do Império, alastraram-se pelo Nordeste os motins populares que receberam o nome genérico de “Quebra-quilo”, pois o alvo das iras do povo eram os padrões de pesos e medidas, bem como as tábuas de editais, em que os novos impostos se materializavam. Tratava-se de um ato aberto de desobediência civil; por causa disso, a polícia baiana foi chamada e, no confronto, sairia derrotada.

    A refrega de Masseté viria marcar um ponto de inflexão e deve estar na raiz da decisão de pôr um freio à errância, com o subsequente assentamento em Canudos. A essa altura, o andarilho Conselheiro já era reconhecido pelas gentes do sertão como um benemérito, que empenhava seu séquito em mutirões de boas obras.
    As terras em que ficava Canudos não eram desertas e ali se erguia um povoado com esse nome. Havia uma parca agricultura de subsistência, consistindo principalmente de mandioca para farinha e de cana-de-açúcar para rapadura. Também, como até hoje, criavam-se cabras, único vivente capaz de não perecer na caatinga sem água e sem verdura. Era pouco, ou quase nada.
    Mas nem todos eram miseráveis no séquito. Havia gente de posses, que liquidava seus bens para acompanhar o Peregrino. Em pouco tempo ergueu-se na praça das igrejas um correr de casas, que ficou conhecido como a Rua das Casas Vermelhas, assim chamadas devido à cor das telhas, destacando-se visualmente do conjunto. Duas igrejas, por sua vez, defrontavam-se de dois lados da praça.
    Ao redor desse centro formado pelas residências dos abonados e pela praça das igrejas, divisavam-se poucos arruados, perdidos em meio à aglomeração indistinta de casebres. Cobertos de folhas de icó, eram edificados em taipa ou pau-a-pique, ou seja, barro reforçado com galhos ou ramos, arquitetura comum a toda a população pobre do Brasil.

    Havia dois ofícios religiosos diários, à madrugada e à noitinha, e periodicamente os conselhos, ou sermões de leigo, com data marcada, para os quais acorria gente até de longe, ansiosa por ouvir a palavra do Peregrino. Canudos tornou-se um centro de romaria, atraindo crentes que ali chegavam para pedir audiência e fazer doações. Mas o arraial mudaria seu perfil à medida que a guerra se avizinhava, quando começaram a afluir voluntários de todos os quadrantes. Seu número cresceria vertiginosamente após o início das hostilidades em 1896.
    AS HOSTILIDADES

    As relações da Igreja Católica com o Conselheiro tinham sido indefinidas, no passado. Como ele não se arvorava a sacerdote,não pregava dentro das igrejas nem ministrava os sacramentos, nada usurpava. Além disso, seus mutirões para reparar igrejas e cemitérios implicavam poupança para a Igreja, que detinha essa responsabilidade. E suas campanhas de reavivamento, com realização de novenas e trezenas, traziam ganhos para os padres, que auferiam lucros para casar e batizar.
    Alguns vigários o detestavam, outros eram seus amigos. O padre Vicente Sabino dos Santos, vigário do Cumbe próximo, tinha até uma casa dentro do arraial. Mas essa situação logo mudaria, e a Arquidiocese de Salvador enviaria uma missão de dois padres capuchinhos, que ao regressar escreveram um relatório condenando Canudos sem perdão. Daí em diante, não mais poderiamcontar com o beneplácito da Igreja, e esta se aliaria àqueles que clamavam pelo extermínio.

    Aquela que seria uma verdadeira guerra, de um país inteiro contra um minúsculo povoado perdido no fundo do sertão, começou de modo quase fortuito.
    Como a escassa vegetação da caatinga não fornece madeira para construção, os canudenses tiveram que comprar fora o tabuado de que necessitavam para a Igreja Nova, cuja edificação já ia adiantada. A encomenda foi feita e previamente paga a um negociante de Juazeiro, de que eram bons fregueses. Todavia, o negociante se recusou a entregar a madeira, e os conselheiristas, revoltados, mandaram dizer que iriam buscar a encomenda pessoalmente. Pedida proteção policial para Juazeiro ao governador,
    iniciaram-se as hostilidades, que no total somariam quatro expedições.
    Após o insucesso de duas expedições, o governador da Bahia, que hesitava em comprometer a soberania do estado, decidiu-se a apelar para o governo federal, alegando que o problema era demasiado grave para encontrar solução dentro da esfera estadual de poderes. A 3ª Expedição redundaria numa debandada e num desastre, pois as tropas em fuga foram largando pelo caminho fardas, armas e munições. E que constituíram um maná caído do céu para os conselheiristas. Paupérrimos e vivendo uma subsistência de
    mínimos vitais, não tinham arsenal que valesse a pena mencionar. Lutavam com armas obsoletas, de armar pela boca, tendo por munição pregos e pedregulhos.

    Hoje, há mais de cem anos de distância, e tendo-se noção tanto das reduzidas dimensões do conflito quanto das reais forças de que os conselheiristas dispunham, não dá para fazer uma ideia do pânico que se alastrou pelo país.

    A opinião pública,apavorada, passou a ser habilmente orquestrada pelos jornais, sem dar-se conta dessa manipulação até após o término da guerra. A informação era tão tendenciosa que antes mereceria ser chamada de desinformação deliberada.

    Convocada a toque de caixa, a 4ª Expedição baseou-se no tripé tecnológico fornecido pela Revolução Industrial, que passaria a definir a guerra moderna: trem,telégrafo e jornal. O novo tipo de conflito usaria a estrada de ferro para mobilizar massas de tropas através de vastos territórios. Tal estratégia depende da instalação de uma linha de telégrafo até a base de operações, para transmissão das ordens de comando. E o jornal, valendo-se da rapidez das comunicações via telégrafo, é arma no controle da opinião pública.

    A Guerra de Canudos, como vimos, acabou por revelar-se a ignomínia de uma chacina de pobres-diabos. Tornou-se evidente que não houvera conspiração alguma e que esse bando de sertanejos miseráveis não tinha qualquer ligação com os monarquistas instituídos – gente branca, urbana e de outra classe social, com horror a “jagunços” e “fanáticos” –, nem qualquer apoio logístico, seja no país, seja no exterior.
    A reviravolta resultante foi notável: a opinião mudou de lado e passou a lamentar o massacre de valentes compatriotas numa luta fratricida. Ademais, deixou de ser segredo que a conduta do exército estivera longe de ser irreprochável. Começou a ser revelada a prática de degolar em público os prisioneiros indefesos, sancionada por todos, inclusive pelos comandantes.
    Com a Guerra de Canudos, completa-se o processo de consolidação do regime republicano. Graças a ela, exorcizou-se o espectro de uma eventual restauração monárquica.
    Posteriormente, tendo à vista os testemunhos, pode-se dizer que a opinião pública foi manipulada e que os canudenses serviram de bode expiatório nesse processo. Desempenharam involuntariamente o papel de adversário comum a todos, aquele que se enfrenta coletivamente e que permite forjar a união nacional. À falta de um inimigo externo, capaz de promover a coesão do corpo social e político, infalível em caso de guerra internacional, suscitou-se um inimigo interno, com invulgar eficácia.

    Walnice Nogueira Galvão
    REVISTA USP, São Paulo, n.82, p. 46-53, junho/agosto 2009

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    o texto completo

    "OS SERTÕES"
    PASSO A PASSO


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    "Os Sertões" foi publicado pela editora Laemmert em 2/ 12/1902, com 637 páginas, contendo desenhos de paisagens e mapas geológicos, botânicos e geográficos como ilustrações, além de fotografias do conflito feitas por Flávio de Barros.
    No dia seguinte, um artigo elogioso do crítico literário paraense José Veríssimo, publicado no "Correio da Manhã",o apontava como obra de literatura, história e ciência, iniciando um padrão de interpretação sustentado por muito tempo.
    Veríssimo censurava, porém, o abuso de termos técnicos e o rebuscamento do estilo. Seguiram-se artigos de Coelho Neto,em "O Estado de S. Paulo", e de Araripe Júnior, no "Jornal do Commercio", atacando o colega paraense e exaltando o livro.
    Euclides da Cunha havia voltado deprimido e doente da cobertura da campanha de Canudos e demorou quatro anos para concluir o livro. A maior parte foi redigida em São José do Rio Pardo (SP), onde o autor viveu de 1898 a 1901 executando um trabalho de engenharia pública (construção de uma ponte metálica em substituição a uma outra, destruída em uma enchente).
    É o relato mais famoso da Guerra de Canudos (novembro de 1896 a outubro de 1897), que terminou com o massacre pelas Forças Armadas do povoado liderado por Antônio Conselheiro (1830-97).
    Entre as principais edições da obra de Euclides estão a de Alfredo Bosi, com texto cotejado e estabelecido por Hersílio Ângelo (ed. Cultrix, 1975), e a "Edição Crítica de "Os Sertões'" (Brasiliense, 1985), por Walnice Nogueira Galvão, que é considerada a edição de referência. Walnice Galvão também organizou, com Oswaldo Galotti, a "Correspondência de Euclides da Cunha" (Edusp, 1997), com quase 400 cartas do escritor. Em 2001, saiu outra edição -"Os Sertões - Campanha de Canudos" (Ateliê Editorial/Imprensa Oficial do Estado/Arquivo do Estado)-, em volume alentado, embora sem pretender ser crítica,
    organizada por Leopoldo M. Bernucci.

    A obra-prima de Euclides é dividida em três partes: "A Terra", "O Homem" e "A Luta".

    A Terra
    Estudo da natureza que simula um voo panorâmico sobre o planalto para descrever a geografia brasileira desde as escarpas do litoral ao sul, passando pela beira-mar do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia rumo à bacia do rio São Francisco, até o vale do rio Vaza-Barris, à margem do qual se encontrava a comunidade de Belo Monte. "O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas".
    Além da explanação do clima semi-árido e da caatinga, Euclides aborda o problema das secas da região. Espécie de versão laica do "Gênesis", a primeira parte seria uma recriação de "mundos revoltos e instáveis, varridos por mares pré-históricos e labaredas bíblicas", em que o autor desce às profundezas do solo e recua até a origem da região e seus habitantes "para explicar a irrupção quase vulcânica do Conselheiro e de seus seguidores".
    Outra iconologia que Euclides obtém na comparação entre a natureza e Canudos é a antecipação, pelo cenário árido, da tragédia: assim, as cabeças-de-frade estendidas sobre as pedras criariam "a imagem singular de cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica". Para sustentar a profecia de Conselheiro, segundo a qual o sertão viraria mar, apoia teorias controversas sobre a existência pré-histórica de mar na região de Canudos. A propósito da passagem "em 1896 há de rebanhos mil correr da praia para o sertão; então o sertão virará praia e a praia virará sertão", Roberto Ventura sublinha que, designando zonas úmidas entre o litoral e o semi-árido, "praia" simboliza uma "terra de promissão, capaz de abrir as portas do paraíso".
    O Homem
    Estudo do sertanejo ou, em suas palavras, dos "traços mais expressivos das sub-raças sertanejas", tributário que era de teorias deterministas da época. Euclides afirmava que os sertanejos estavam destinados ao desaparecimento ante as exigências da civilização: "Retardatários hoje, amanhã se extinguirão de todo".
    Tendo por base concepções racistas de teóricos como o austríaco Ludwig Gumplowicz, Euclides apresentava uma visão fatalista do Brasil como resultado dos malefícios da mestiçagem. Os "mulatos" do litoral seriam desequilibrados por resultarem da mistura entre brancos e negros, e os "curibocas" do sertão apresentariam vantagem em relação àqueles devido ao isolamento histórico que contribuiria em sua evolução racial e cultural: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo
    exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral".

    A Luta
    Narrativa da guerra de Canudos propriamente dita, em que o autor evidencia o fanatismo de ambas as partes: "A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada". Os soldados cultuavam a memória domarechal Floriano Peixoto assim como os jagunços aclamavam Antônio Conselheiro. Euclides observava tudo do alto do morro, ao lado dos oficias do alto comando e da comissão de engenharia: "Aplaudia-se. Pateava-se. Estrugiam bravos. A cena -real, concreta, iniludível parecia-lhes aos olhos como se fora uma ficção estupenda, naquele palco revolto, no resplendor sinistro de uma gambiarra de incêndios".
    A descrição da guerra encerra um paradoxo: o de, apesar de pretender-se denúncia do crime cometido em Canudos, não relata o massacre dos prisioneiros e a destruição da cidade, que seriam o mote principal de sua acusação contra as Forças Armadas.
    O autor argumenta tratar-se do inenarrável: "Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo.Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos".
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    Afinal, por que ler Os Sertões hoje em dia?

    Há cerca de dois anos, quando me decidi a ler Os Sertões pouca coisa sabia sobre a obra, simplesmente decidi conhecer um pouco mais os clássicos brasileiros, ler realmente aqueles livros dos quais mais se fala sobre do que se lê de fato.

    Depois da leitura e de ter conhecido vários estudos sobre o autor e a obra, o motivo maior que posso dar a alguém para ler Os Sertões é que se trata de um livro apaixonante.

    Euclides da Cunha era um homem sério e apaixonado, e está para sempre vinculado à sua obra-prima apesar dos vários textos que deixou escritos, muitos interessantíssimos sobre diversos assuntos como a Amazônia ou sobre figuras históricas, como os contidos no livro Contrastes e Confrontos, além de vários poemas (embora nosso colega de fórum,@Mavericco , tenha insinuado que Euclides da Cunha, como poeta, era um ótimo engenheiro).

    Euclides da Cunha era, portanto, um homem de ciências e ao mesmo tempo um poeta que nos transmite em seus textos suapaixão pelas letras, a grande bagagem literária que adquiriu ainda bem jovem, e o conhecimento das ciências que o ensino no colégio militar lhe disponibilizou, incluindo a famigerada
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    que a maioria dos intelectuais do século XIX aceitava sem reservas.

    A primeira dificuldade que encontramos ao começar a leitura do clássico é a linguagem difícil e rebuscada, a retórica excessiva mas de uma beleza extraordinária e que tem sua função no desenvolvimento da narrativa. Não se trata de "enfeitar o texto com palavras complicadas", e muito menos da conhecida "enrolação" de que muitos autores se valem.

    Euclides era dono de uma mente científica e acreditava no que chamava de consórcio entre ciência e arte, entre as quais não havia separação e assim é sua escrita.

    A certa altura, no primeiro capítulo de Os Sertões, "A Terra", Euclides da Cunha afirma:

    "A natureza compraz-se em um jogo de antíteses”

    Assim é o autor e assim é o sertão, descrito por ele com detalhes poéticos.
    Não aconselharia, como muitos fazem, passar batido pelas duas primeiras partes do livro: "A Terra" e "O Homem", e ir direto para "A Luta", capítulo em que é descrito o embate em si, a guerra de Canudos, pois embora esta seja a parte mais longa do livro todo, é a que "deflagra retroativamente as duas partes iniciais" com bem explica a professora Walnice Nogueira Galvão, em palestra sobre Os Sertões, que pode ser
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    É preciso compreender as metáforas que Euclides usa nas duas primeiras partes para representar a guerra, daí a necessidade, ao meu modo de ver como leitora, de ler Os Sertões em sua ordem natural, com suas imagens e representações científicas (às vezes cansativas, é verdade) permeadas de lirismo, para descobrir, junto com o autor, a beleza, muitas vezes terrível do sertão, a natureza da caatinga, inclemente e hostil para o ser humano e o horror da guerra e principalmente a verdadeira natureza do conflito.

    Como foi dito acima, os canudenses eram vistos como monarquistas, revoltosos contra a República recém criada. A cidade de Canudos seria foco de uma conspiração internacional e devia portanto ser dizimada em prol da consolidação da república.
    Euclides da Cunha, um sincero republicano e um sincero militante republicano, comprometeu-se com essa ideia, assim como a maioria da sociedade inteligente e bem informada da época.
    Somente lá, em Canudos, é que o autor compreendeu que estava enganado e que as informações haviam sido manipuladas para servir aos interesses da política.
    Essa descoberta fazemos junto com Euclides.

    Por isso, como bem lembrou o professor Leopoldo Bernucci, não podemos ler Os Sertões como um livro totalmente coerente, pois muitas vezes percebe-se o esforço de Euclides da Cunha em conciliar as diferenças entre as teorias e os fatos que presenciava. Ele foi descobrindo na prática que aquelas teorias, como as referentes às raças, a visão negativa do homem tropical e especialmente do mestiço, que passava então como "científica" e "realista", não se encaixavam com os fatos, não eram consistentes. Presenciamos no texto momentos em que Euclides pende para o lado racional, da ciência e momentos nos quais está totalmente voltado para a defesa dos jagunços.

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    "O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de um guerreiro antigo exausto de refrega.
    As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no
    colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às
    pernas e subindo até as virilhas, articuladas em joelheiras de sola; e resguardados os pés e as
    mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado – é como a forma grosseira de um campeador
    medieval desgarrado do nosso tempo."

    Em Canudos, Euclides da Cunha conheceu o Brasil verdadeiro, um outro mundo, que não era voltado pra Europa, que não tinha nada a ver com o Brasil litorâneo e soube apontar as mazelas físicas, sociais e mentais do Brasil oligárquico e da I República.

    Termino minhas considerações com um trecho de Perfil de Euclides, de Gilberto Freyre, que por sinal se
    considerava um discípulo de Euclides da Cunha:

    Livros
    À Margem da História... Porto, Livr. Chardron, de Lello & Irmão, 1909. il. Edição póstuma.
    ____ 2. ed. Porto, Livr. Chardron, de Lello & Irmão, 1913. il.
    ____ 3. ed. Porto, Livr. Chardron, de Lello & Irmão, 1922.
    ____ 4. ed. Porta, Livr. Chardron, de Lello & Irmão, 1926.
    ____ 5. ed. Porto, Lello & Irmão, 1941.
    ____ 6. ed. Porto, Lello & Irmão, 1946.

    ____ Introd. Nota editorial, cotejo e estabelecimento de texto pelo prof. Rolando Morel Pinto. São Paulo, Cultrix; Brasília, INL, 1975.

    Caderneta de Campo. Introd., notas e coment. por Olímpio de Souza Andrade. São Paulo, Cultrix; Brasília, INL, 1975. il.

    Canudos (Diário de Uma Expedição). Introd. de Gilberto Freire. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1939. il. (Coleção Documentos Brasileiros, 16).

    ____ Ilustração de Poty. Rio de Janeiro, Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, 1956. il. Folhas soltas em caixa. Composto à mão e impresso em prelos manuais. Inclui a 1ª. Parte da edição de 1939.

    ____ Organização de Walnice Nogueira Galvão. Rio de Janeiro. Companhia das Letras, Minc/Fundação Biblioteca Nacional, 2000.

    Canudos e Inéditos. Introd. Geral, seleção cronológica e apresentações finais de Olímpio de Souza Andrade. Estabelecimento do texto a cargo de Dermal de Camargo Monfrê. São Paulo, Melhoramentos , 1967.(Panorama da Literatura Brasileira).

    Castro Alves e Seu Tempo. Discurso proferido no Centro Acadêmico Onze de Agosto, de São Paulo. Rio de Janeiro, Impr. Nacional, 1907.

    ____ [São Paulo], Grêmio Euclides da Cunha, [19--]. il. (Biblioteca Euclideana, 1).

    Contrastes e Confrontos. Pref. De José Pereira de Sampaio (Bruno). Porto, Empr. Literária e Tipográfica, 1907.

    ____ 9. ed., com pref. de José Sampaio (Bruno), estudo critico do Dr. Araripe Junior e uma noticia biográfica de João Luso. Porto, Lello & Irmão, [19--].

    ____ Introd. de Olímpio de Souza Andrade. Cotejo e estabelecimento de texto pelo prof. Rolando Morel Pinto. São Paulo, Cultrix, Brasília, INL, 1975.

    La Cuestión de Limites Entre Bolívia y el Peru. [Peru Versus Bolívia]. [Trad.] Buenos Aires, Compañía Sul-Americana de Billetes de Branco, 1908.

    Um Paraíso Perdido; reunião de ensaios amazônicos, com seleção e coordenação de Hildon Rocha; introd. de Arthur Cezar Ferreira Reis. Petrópolis, Vozes, 1976. (Coleção Dimensões do Brasil, 1).

    Peru Versus Bolívia. Rio de Janeiro, Tip. do Jornal do Commercio, 1907. il.

    ____ Com 2 mapas e um estudo de Oliveira Lima. 2. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1939. il. (Documentos Brasileiros, 17).

    ____ Introd., cotejo e estabelecimento do texto pelo prof. Rolando Morel Pinto. São Paulo, Cultrix; Brasília, INL, 1975.

    ____ Com 2 mapas e um estudo de Oliveira Lima. 3. ed. Rio de Janeiro, Record, [1975?]. il.

    O Rio Purus [ Pref. De Leandro Tocantins]. Rio de Janeiro, SPVEA, 1960. il. (Coleção Pedro Teixeira, 3). Reedição, sem os anexos do Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, editado em 1906.



    Poesias

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    Estâncias. Revista da Família Acadêmica. Rio de Janeiro, out. 1888.

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    Explicando uma Fotografia. In: CRETELLA JUNIOR, José. Português para o Ginásio. São Paulo, Ed. Nacional, 24a ed., 1954.

    Fazendo Versos. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, jan. 1888.

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    [Nesta Choupana de Roça...] Gazeta do Rio Pardo, São José do Rio Pardo, 8. ago. 1982. Suplemento Euclidiano Escrita em Manaus, em 5/2/1905, num cartão postal.

    Ondas. Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, ano 24, ago. 1933.

    ______Revista do Grêmio Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, 15 ago. 1927.

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    Página Vazia. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 14 ago. 1938. Suplemento.

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    _______In: VENANCIO FILHO, Francisco. A Glória de Euclides da Cunha. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1940. Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série 5a .Brasiliana.

    O Paraíso dos Medíocres. Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, ano 24, ago. 1933.

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    Quadras. Autores e Livros, Rio de Janeiro, ano 2, 16 ago. 1942. Suplemento literário de A Manhã.

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    Rimas. Autores e Livros, Rio de Janeiro, ano 2, 16 ago. 1942. Suplemento literário de A Manhã.

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    _______In: VENANCIO FILHO, Francisco. A Glória de Euclides da Cunha. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1940. Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série 5a Brasiliana.

    Robespierre. Autores e Livros, Rio de Janeiro, ano 2, 16 ago. 1942. Suplemento literário de A Manhã.

    ______Dom Casmurro, Rio de Janeiro, maio 1946. Número especial.

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    Saint-Just. Autores e Livros, Rio de Janeiro, ano 2, 16 ago. 1942. Suplemento literário de A Manhã.

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    _______In: VENANCIO FILHO, Francisco. A Glória de Euclides da Cunha. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1940. Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série 5a Brasiliana.

    [Se acaso uma alma fotografasse...] O Globo, Rio de Janeiro, 20 jan. 1966. 1 cad. Soneto escrito em Manaus em 1905, numa fotografia.

    ______Renascença, Rio de Janeiro, dez. 1906.

    ______Revista Americana, Rio de Janeiro, abr. 1910.

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    _______In: VENANCIO FILHO, Francisco. A Glória de Euclides da Cunha. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1940. Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série 5a Brasiliana.

    Soneto [Eu sou fraca e pequena]. Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, ano 24, ago. 1933.

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    Soneto Antigo. Democracia, Rio de Janeiro, 7 jun. 1890. Também figura com os títulos: Mundos Extintos e Velhice Trágica.

    Stella. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, jul. 1888.

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    Tristeza. Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, ano 24, ago. 1933.

    Último Canto. Autores e Livros, Rio de Janeiro, 16 ago. 1942. Suplemento literário de A Manhã.

    _______In: VENANCIO FILHO, Francisco. A Glória de Euclides da Cunha. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1940. Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série 5a Brasiliana.

    Velhice Trágica. Tapejara, Ponta Grossa, set. 1952. Também figura com os títulos: Mundo Extintos e Soneto Antigo.

    Verso e Reverso. Autores e Livros, Rio de Janeiro, 16 ago. 1942. Suplemento literário de A Manhã.

    ______Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, ano 24, ago. 1933.

    _______In: VENANCIO FILHO, Francisco. A Glória de Euclides da Cunha. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1940. Biblioteca Pedagógica Brasileira. Série 5a Brasiliana.

    Versos [Meu Pobre Coração]. Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, ano 24, ago. 1933. Incompleta. Também figura com o título: Estâncias.

    ______Revista do Gremio Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, 15 ago 1916.Incompleta.
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    Bibliografia

    Perfil de Euclides e outros perfis, Gilberto Freyre, Ed.Global, 1ª edição digital (2013);
    História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, Ed. Cultrix, (1976)
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    - entrevista com o Professor Leopoldo Bernucci
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    com a Professora Walnice Nogueira Galvão
     
    Última edição: 31 Mar 2014
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  2. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

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    Eu não disse!...

    É. Eu disse. Não acho o Euclides lá essas coisas como poeta... Mas ainda assim ressalto a poderosa cadeia poética que existe em Os Sertões, já estudada por Guilherme de Almeida e Augusto de Campos (
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    ). Você encontra, por exemplo, frases que são decassílabos heroicos ao longo da obra. É um trabalho admirável pois o Euclides dá um relevo especial e único à forma como uma história é contada.

    Do Euclides poeta, tem também um ensaio do Leminski (trans/paralelas, no segundo volume do Ensaios e Anseios Crípticos) onde ele analisa o soneto Dedicatória (1905) do Euclides como uma "tradução" (o sentido que o Leminski dá à tradução é mais amplo) do soneto Mal secreto do Raimundo Correia:

    Diz o Leminski:

    A edição da EdUSP com a poesia reunida dele (
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    ) é realmente muito boa... Mas não tem muita coisa não. O lance principal é Os Sertões. O próprio Augusto chegou a montar poemas só com trechos do livro:

    E por falar em edições... Essa da Ateliê é um mimo que só, hein?:

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    A Ateliê tem uma tradição com essas edições recheadas de notas. Só olhar Homero/Virgílio traduzidos pelo Odorico Mendes... (Pena que depois eles abandonaram o barco).
     
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    • Mandar Coração Mandar Coração x 2
    • Gostei! Gostei! x 1
  3. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Valeu pelo post, Mavericco. Cara, há tempos eu sabia que algo me incomodava ao ler Euclides, mas nunca tive coragem de deixar isso claro, essa veia lírica presente em meio ao discurso cientificista. Me lembro que ao ler "Os Sertões" pela primeira vez, não conseguia entender patavinas do que ele dizia - tinha só 15 anos, give me a break. :lol: Contudo, fiquei impressionado com a fluidez do texto, isso que me encantava. Valeu por elucidar isso, cara. :)
     
  4. Clara

    Clara Antifa Usuário Premium

    Sim, eu queria ter essa edição da Ateliê.
    É uma edição comentada, inclusive, deve ser bem bacana.


    E as imagens que o Euclides evoca em os Sertões são bem essas mesmo como Augusto de Campos mostra nos poemas.

    Encontrei no texto do Alfredo Bosi umas frases que dão ideia de oposição e de conflito e que ele escreveu ao longo de Os Sertões (mas que não consegui encaixar no texto) que achei muito poéticas:
    O famoso Hércules-Quasímodo (pra definir o Antonio Conselheiro) e também: paraíso tenebroso. sol escuro, tumulto sem ruídos, carga paralisada, profecia retrospectiva, medo glorioso, construtores de ruínas.
    São imagens poderosas que ele evocava, e era muito bom nisso.
     
    • Ótimo Ótimo x 1

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