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  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    Capitulo I

    No ano 2941 da Terceira Era, Elenér foi presa por Thranduil sob acusação de conspirar com Sauron. A elfa trabalhava no castelo e foi surpreendida inúmeras vezes perto de Dol Guldur. Quando o Conselho Branco expulsou o Senhor do Escuro de sua moradia temporária, a jovem foi encontrada desmaiada no campo de batalha e condenada.
    No início da Quarta Era, Legolas, senhor de Ithilien, viajou com Gimli para o norte. O anão dirigiu-se para Dale e o elfo, para a Floresta Verde. Lá chegando foi ter com Thranduil:

    ― Elen síla lúmenn’ omentielvo.
    ― Meu filho, sua voz alegra meu coração.
    ― Senhor, alegria maior é vê-lo bem.

    A conversa foi interrompida por Galion, mordomo do rei, que anunciou:

    ― Senhor, Elenér está desmaiada no calabouço.
    ― O que?! Élen ainda está aqui! Meu pai, já fazem 100 anos, vamos vê-la.

    Legolas tornou-se um senhor amado e respeitado em Ithilien. Ficou mais sensato e sábio e desenvolveu a telepatia élfica. Por ser um senhor bom compadeceu-se pela cativa.

    Élen, por sua vez, desenvolveu ao máximo suas habilidades e, enquanto seu coração se tornava duro e frio como mithril, seu conhecimento sobre a mente humana e domínio das emoções aprimorou-se. Assim, ela foi capaz de simular um desmaio e quando a comitiva chegou ela já se encontrava lívida sentada em uma cadeira.

    ― Legolas?! Sabia que alguém importante havia chegado, mas, com todo o respeito, não esperava que fosse você.
    ― Como está Élen? - o rosto e a voz do elfo tornaram-se graves.
    ― Estou bem. Estou melhor.
    ― Está muito pálida. - Legolas já estava dentro da cela e tocando sua mão completou - e fria.

    Élener sorriu.
    ― É a falta de sol.
    ― Há quanto tempo não sai.

    Outro sorriso.
    ― Uns dez anos. A segurança melhorou depois que Gollun fugiu. Ele se perdeu com o Um Anel, não foi?
    ― Sim, como sabe?
    ― Apenas sei.
    ― Consegue, então, ver o futuro?
    ― Prever. Qual seria a graça se eu soubesse o que ia acontecer?

    Thranduil assistia esse diálogo em silêncio. Nunca vira seu filho com um olhar tão penetrante e a dama tão séria. Dir-se-ia que se passava uma guerra entre eles. E, realmente, eles diziam muitas coisas sem que ninguém ouvisse:

    ― Faz um bom tempo que não nos vemos, Élen.
    ― A culpa não é minha, sabe disso. Aprendeu telepatia élfica, muito bem.
    ― Não seja irônica.
    ― Desculpe, não é divertido brincar com os guardas.
    ― Sim, deve ser muito mais divertido brincar comigo, mas não faça isso.
    ― Muito bem. O que quer?
    ― Estive pensando em levá-la para Ithilien.
    ― O que? Por que?
    ― Ora, não posso ter o prazer de sua companhia?
    ― É você quem está sendo irônico agora.
    ― Verdade. Está nervosa comigo?
    ― Não, meus problemas são com seu pai, não com você. Sabe disso. Por que quer me levar para Ithilien?
    ― A sombra já passou, não há mais motivo para Prendê-la. está aqui há muito tempo.
    ― Servindo a Sauron não imagina o estrago que faria nos seus bosques.
    ― O fato é que nunca assumiu sua culpa? Tem como provar que é inocente?
    ― Acredita que sou inocente?
    ― Talvez. Pode me convencer?
    ― Poderia, se Gandalf, Sarumã, Elrond e Galadriel ainda estivessem na Terra-Média.
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    Legolas se levantou, porque até então estivera abaixado a altura dos olhos da elfa. Voltou-lhe as costas dizendo:
    ― Verei o que posso fazer por você.

    Capítulo II

    As últimas palavras de Legolas deixaram Thranduil inquieto. Ele se lembrava da amizade entre os dois elfos e de como Elenér tentou tirar proveito dessa para ser libertada. se naquela época Legolas tivesse se colocado a favor da amiga, provavelmente o rei a teria perdoado. Mas alguma coisa aconteceu e o jovem elfo ficou indiferente a sentença. Era difícil entender por que tanto interesse pela prisioneira.

    ― Meu filho, por que resolveu ver Elenér?
    ― Sonhei com ela há duas noites.
    ― Teve uma visão?
    ― Não - disse rindo - não. Sonhei com algo que ela me disse há muito tempo ...
    ― O que ela lhe disse?
    ― ... e pensei que seria bom tê-la em Ithilien. Sempre foi uma boa conselheira.
    ― Pretende levá-la para Ithilien?!
    ― Com a sua permissão.

    Thranduil calou-se e olhou para o filho, que parecia perdido em seus pensamentos. Legolas recordava a conversa que tivera com Élen às portas do salão do rei.
    Élen passou uma hora conversando com o rei e Legolas acreditava que na maior parte do tempo ela havia sido repreendida por caminhar sozinha em direção ao sul da floresta. Provavelmente era por isso que ela saía tão nervosa.

    ― O que foi? - disse o príncipe sorrindo.
    ― Seu pai que não me ouve - disse ela jogando a mão por cima do ombro esquerdo. O gesto e a entonação indicavam não só que ela estava nervosa, mas também que considerava o rei um completo idiota.
    ― Cuidado, ele suspeita de você. Acredita que de alguma forma você tem ligação com os sinistros acontecimentos ao sul.
    ― E tenho! Seu pai não percebe que grandes coisas estão para acontecer. Um novo poder está surgindo e o que está acontecendo agora apenas terminará na próxima era.
    ― De que poder está falando?
    ― Ainda não sei, mas ele influenciará o seu futuro, meu amigo.
    ― Há, há, há, claro! Agora me diga, esse poder vai me tornar rei?
    ― Não brinque. E não espere nada de seu pai, principalmente a coroa.
    ― Ótimo. Mais algum conselho?
    ― Ao fazer o bem, evite a notoriedade; ao fazer o mal, evite a autoconsciência.

    A batalha, no dia seguinte, em Dol Guldur, a conversa recente e as circunstâncias nas quais Élen foi encontrada não deixaram dúvidas a Legolas quanto a culpa da amiga. Mas Élen conhecia Gandalf e, quando ele se aproximava da floresta, eles passavam muito tempo conversando às margens do rio da Floresta, porque a floresta tinha muitos olhos e ouvidos atentos.
    Agora talvez Élen pudesse enganar a própria Galadriel, mas naquela época ela com certeza não poderia enganar o velho mago se realmente fosse aliada a Sauron.
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    Capítulo III

    ― Já lhe disse que deveria pedir permissão para sair. Até o príncipe percebe como está pálida - disse o chefe da guarda.
    ― Estou bem, Kanotar. E não pedirei nada ao rei.
    ― Um dia vai me contar o que tem contra o rei?
    ― Ele não viu as sombras que se aproximavam da floresta.
    ― Falando assim chego a duvidar da justiça de nosso rei e acreditar que não fez nada. Ora, pare com esse sorriso, o que disse não foi para lhe agradar.
    ― Pois bem, Kano, agora que já me fez rir deixe-me ler e volte para a sua ronda!
    ― Com prazer, senhora, divirta-se - e saiu sorrindo.

    Gostava de Kanotar. Com o passar do tempo, como as masmorras ficassem vazias, o capitão sugeriu ao rei que os últimos prisioneiros fossem alojados no primeiro andar abaixo do solo, onde, infelizmente, não havia janelas, mas era mais arejado e as celas eram melhores.
    A cela onde Élen se encontrava media 14 pés de comprimento por 7 de largura com uma porta na face sudoeste. Em um canto havia uma caixa de madeira forrada com feno, que servia de cama, e no lado oposto, uma mesinha e uma cadeira. Tudo de uma madeira escura que se assemelhava a imbuía e iluminado por uma tocha à noite. de dia, quando todas as janelas do palácio deixavam entrar a luz de fora, a porta ficava aberta para iluminar o pequeno quarto.

    Élen, apesar de presa, não ficava ociosa: quando não estava cosendo ou conversando com os guardas, lia livros que Kanotar emprestava da biblioteca real. como estava entretida na leitura não percebeu quando Legolas entrou no aposento, apenas levantou os olhos quando ele disse:

    ― Venha, vamos dar uma volta.

    Capítulo IV

    Saíram para os jardins escoltados por três guardas. Andavam em silêncio, de braços dados, conversando apenas por pensamento:

    ― Sei que está bem e que não precisava sair. Esperava conversar abertamente com você, mas, como pode ver - disse inclinando a cabeça na direção dos guardas - temos companhia.
    ― Não há problema. Conversemos.
    ― Já perguntou alguma vez a meu pai se ele a libertaria?
    ― Quer saber se já pedi um novo julgamento? Sim, apresentei minha versão várias vezes e nada mudou.
    ― Por que não pediu ajuda a Gandalf?
    ― Gandalf não sabia que estava presa. Mesmo que soubesse, era melhor que eu ficasse no castelo: ajudei a expulsar Sauron da floresta, pode imaginar o que ele faria se soubesse onde estou?
    ― Por que não deixa a floresta agora que Sauron foi derrotado?
    ― Não teria para onde ir. Valfenda e Lórien estão quase desertas. Condenada na Floresta estou condenada em Ithilien também e seria terrível viver entre mortais.
    ― Quer dizer que sairia da floresta se tivesse um lugar para ir?
    ― E se conseguisse sair.
    ― Vou pedir o seu exílio.
    ― Como?
    ― Se for expulsa da Floresta pode seguir comigo para Ithilien.
    ― Meu amigo, por que está fazendo isso por mim?
    ― Seus conselhos sempre me foram úteis e vejo que brigamos exatamente quando deu-me os mais valiosos e verdadeiros.

    Terminaram o passeio em completo silêncio. Legolas pensando que em dois dias Gimli chegaria a Floresta para que seguissem juntos a viagem de regresso e Elenér imaginando o final do livro.
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    Capítulo V

    Na manhã do dia seguinte, logo após o primeiro desjejum, Legolas pediu uma audiência ao rei. Thranduil sabia que seu filho queria discutir a situação de Elenér, mas não esperava que o elfo dissesse:

    ― Quero que condene Elenér ao exílio.
    ― Meu filho, esperava que me pedisse para libertá-la...
    ― E já estava pronto a recusar.
    ― Sim, mas não esperava que me pedisse isso.
    ― Pai, não peço; exijo. Ela o insultou gravemente.
    ― E o que ela disse?
    ― Que o senhor usa uma coleira, que é um servo. Chegou a dizer que o senhor não é imortal e que eu não carrego o seu sangue.

    Embora Élen nunca tenha falado abertamente ao príncipe, eram esses os termos com que ela se referia ao rei intimamente e que Legolas leu-lhe na mente.

    Pela maneira com que Legolas respondia as perguntas, Thranduil percebeu que as palavras da elfa realmente magoaram o príncipe. Assim, emitiu a ordem imediatamente e Legolas se apresou em avisar Elenér sobre sua partida.
    Assim que entrou no quartinho ela, que estava sentada na cadeira, se levantou.

    ― Então?
    ― Deverá partir agora a tarde.
    ― Pensei que partiria com você.
    ― também, mas o rei se pronunciou imediatamente.
    ― O que disse para que tudo ocorresse tão rápido?
    ― Saia da floresta e siga para leste. Encontre-me depois de dois dias na estrada que segue para o sul por volta das dez horas.
    ― Está bem. Não vai me responder?
    ― Não.

    Algum tempo depois que o elfo saiu, Galion e Kanotar foram ver a prisioneira:

    ― Boa tarde, como estão?
    ― Muito bem , obrigado - disse Kanotar.
    ― O rei decidiu que deve juntar suas coisas e sair da floresta até o pôr-do-sol.
    ― Entendo. Podem esperar um pouquinho? Tenho poucas coisas para arrumar. Não vai demorar muito.
    Elenér vestiu uma capa cuja cor se confundia entre o bordô e o preto e apoiou no ombro a alça de uma bolsa de couro que lhe chegava até a altura dos joelhos.
    ― Estou pronta.
    ― Vou levá-la até o portão - disse o capitão ao mordomo.
    Élen seguiu o guarda em silêncio até os portões do palácio, onde ele lhe disse no idioma comum:
    ― Estrela, tem algum conselho para mim?
    Ela respondeu, no mesmo idioma, sorrindo:
    ― Eu que deveria pedir-lhe conselhos. tem algum para mim?
    ― Tente passar essa noite na Cidade do Lago. As estradas são seguras, mas acho que você não está acostumada a viajar. Se for seguir para outra região seria bom comprar um cavalo. Só isso.
    ― Obrigada, farei isso. Cuide-se, meu velho.
    ― Cuide-se você, Estrela.

    A elfa seguiu pela estrada que contornava o palácio e chegou a Esgaroth onde permaneceu por dois dias.
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    Capítulo VI

    Gimli, o anão, visitou seus parentes na Montanha e foi para a Floresta Verde encontrar-se com Legolas. Quando chegou ao palácio foi recebido por Galion:

    ― Mestre Gimli, espero que goste mais de sua estadia aqui do que seu pai.
    ― Ora, isso com certeza, senhor - respondeu com a costumeira risada dos anões.
    Gimli foi conduzido ao salão do rei onde encontrou-o com Legolas.
    ― Ora, meu amigo, pensei que não vinha!
    ― He, he, he, me atrasei pelo caminho. Não quis vir a cavalo.
    ― Meu pai, este é Gimli, filho de Glóin, meu amigo e grande companheiro.
    ― É um prazer conhecê-lo - disse Thranduil.

    Naquela noite, por ser início de outono, houve banquetes na floresta e o anão ficou surpreso com a alegria e a música dos elfos, principalmente quando viu o príncipe dançando no meio deles. Legolas, que sempre parecia sério, comportava-se como um jovem elfo.
    Conforme a noite se estendia, Gimli ia ficando cansado. ele tinha viajado a manhã toda e descansara muito pouco. Legolas sentou-se ao seu lado enquanto o anão bocejava.

    ― Acho que estamos o aborrecendo.
    ― Claro que não, estou apenas com um pouco de sono.
    ― Estava brincando. mas também estou cansado...
    ― E deveria, pela maneira como estava dançando!
    O elfo soltou uma gargalhada tão alta que assustou o anão.
    ― Acho melhor irmos descansar. Hoje foi um dia cheio e amanhã vamos partir cedo... ou prefere passar mais algum tempo aqui, amigo-dos-elfos?
    ― Vamos partir amanhã. Quero saber o que os artesões estiveram fazendo.
    ― Devem estar trabalhando no palácio do Rei Faramir.
    ― Vamos passar por lá na volta?
    ― Talvez. Vamos voltar para o palácio.

    Gimli teve uma noite de sonhos tranquilos, entretanto Legolas sonhou com o mar e isso sempre o deixava preocupado. Seu coração ansiava pelo mar, mas ele ainda não estava cansado da Terra-Média e não era hora de abandonar seus bosque e seus amigos.
    Tomaram o desjejum com o rei, que foi com eles para as cavalariças.

    ― Gimli, vai aceitar um cavalo, ou prefere cavalgar comigo em Hasufel? - perguntou Legolas.
    ― É mais seguro ir com você. Ainda não fazem cavalos para anões.

    Depois de receberem as bênçãos do rei, montaram e partiram. Seguiram as margens do Rio da Floresta, pararam em Esgaroth para almoçar e continuaram o caminho margeando o Anduin.
    A uns dois quilómetros da cidade avistaram um vulto negro montado e um calafrio percorreu-os, porque a visão se assemelhava muito a um Cavaleiro Negro.

    Mas assim que os viu, Élen puxou o capuz para traz e cavalgou na direção deles. Apesar de estar usando um vestido, ela montava como um homem. Logo que a reconheceu, Legolas avançou e foi cumprimentá-la:

    ― Como passou?
    ― Bem. Ia esperá-los na Cidade do Lago, mas achei melhor encontrá-los na estrada. Um bom dia, Gimli, filho de Glóin, é um prazer conhecê-lo.
    ― O prazer é meu jovem dama - e completou olhando para o elfo - mas ainda não fomos apresentados.
    ― Esta é Elenér. Será minha conselheira em Ithilien e vai viajar conosco.
    ― Será bom ter uma companhia, Legolas anda quieto como uma pedra.
    ― Preocupado?
    ― Um pouco, queria saber como você estava. Não tem mais perigos nas estradas, mas já fazia um bom tempo que você não saia da floresta.
    ― Me virei bem - disse a elfa sorrindo - consegui até um cavalo. Vamos?
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    Capítulo VII

    Andaram conversando, num ritmo leve e não tiveram problemas durante o percurso. Chegando próximo à fronteira do reino de Faramir, Elenér mudou de posição e sentou-se de lado sobre o cavalo. Mas o fez num movimento tão sutil que Legolas só percebeu quando virou para olhá-la.

    ― Vamos encontrar guardas.
    ― Provavelmente, - respondeu o elfo - mas não vamos passar pela cidade, vamos direto para os bosques.
    ― Aí vem eles.
    ― Eles quem? - perguntou Gimli.
    ― Senhor Legolas, é o senhor? - perguntou o primeiro soldado de um grupo de três que se aproximava.
    ― Sou sim, Bergil, já faz parte da guarda?
    ― Desde a semana passada, senhor. Vai visitar o Senhor e a Senhora?
    ― Agora não, mas mande meus cumprimentos a eles. Como está Beregond?
    ― Meu pai está de dispensa. Pegou um resfriado e está de cama com febre.
    ― Com licença, meu senhor, - Legolas olhou para Élen ao mesmo tempo com dúvida e surpresa - mas é bom tomar um pouco de mel com limão para a febre e o resfriado passarem.
    ― Oh, muito obrigado, senhora - agradeceu Bergil.
    ― Bergil, temos que seguir. Melhoras para o seu pai.
    Dizendo isso Legolas pôs o cavalo em marcha. Passados alguns instantes perguntou intimamente a Élen:
    ― Por que falou “meu senhor”?
    ― Estou a seu serviço e sob a sua proteção. Era o termo certo, não era? E você é o líder da cavalgada. prefere que eu use outro termo?
    ― Faz sentido. Não, não precisa - em voz alta. - A esquerda, se olhar bem, vai ver a cidade de Ithilien Oriental onde moram Faramir e Éowyn. Os bosques são a direita. o rio é a divisa, mas elfos e homens andam livremente por toda Ithilien.
    ― Hum, e os anões?
    Quem respondeu foi Gimli.
    ― Os anões vivem nas Cavernas Cintilantes onde eu sou senhor, mas estamos trabalhando em Gondor e Ithilien.
    ― Passamos o rio, não há guardas deste lado?
    ― Temos apenas a Guarda da Cidade Leste.
    ― E por que há dois senhores numa terra só? - Legolas remexeu-se - Desculpe, estou sendo impertinente.
    ― Não, não está. Vou explicar mais tarde. Estamos chegando. - Mas o elfo nunca respondeu e Élen resolveu não repetir a pergunta.

    O caminho mudou, de um piso de terra para paralelepípedos, e passou a se ramificar. Fazendo uma curva Élen pôde ver o palácio.
    Uma construção semelhante a da Floresta Verde, mas com dois andares e janelas arqueadas. Élen se divertiu com a idéia de que, com certeza, a construção fora projetada pelos elfos de Legolas, mas os materiais foram trabalhados pelos anões de Gimli. O conjunto tornava o palácio um lugar belo e tranquilo.
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    Encontraram vários elfos pelo caminho e Legolas, que ia a frente, cumprimentava-os. Foram até as cavalariças onde deixaram os cavalos e entraram no palácio.
    Era o fim da tarde e já começava a escurecer. Legolas pediu para prepararem um jantar rápido para os viajantes e então perguntou:

    ― Gimli, vai querer descansar u pouco antes da janta?
    ― Não, vou para o salão ver se descubro como estão as coisas.
    ― Ótimo, vou mostrar para Élen onde ela vai ficar e encontro você lá.

    Ele fez sinal para que ela o seguisse. Viraram a direita, andaram por um corredor e subiram uma escada. Uma parte do segundo andar era destinada aos dormitórios e ao quarto de banhos. Legolas levou-a ao fim do corredor, mostrando onde era o quarto de banhos e parando na penúltima porta.

    ― Se gostar, esse vai ser o seu quarto. o meu é ao lado e o de Gimli, quando está aqui, é em frente. Está cansada?
    ― Um pouco.
    ― Então acomode-se descanse. Quando o jantar estiver pronto peço para a chamarem.
    ― Para mim está bom, obrigada.
    ― Descanse.

    Ele fechou a porta e fez o caminho de volta até chegar no salão. Elenér colocou a bolsa no chão, ao lado da cama e deitou-se. Dormiu profundamente, ate ouvir leves batidas na porta. Provavelmente uma mulher, pensou.

    Capítulo VIII

    Os elfos que viviam em Ithilien vieram da Floresta Verde e a grande maioria se lembrava de Elenér. Legolas e a elfa tinham concordado em esconder as condições de sua vinda para os bosques, de forma que ela foi bem acolhida no palácio.

    Depois que a sombra passou, Ithilien se tornou um belo lugar. As duas cidades, Ithilien Ocidental e Oriental, se desenvolveram rapidamente com a ajuda dos anões e os dois senhores mantinham boas relações com Gondor.

    Toda aquela região a sudeste da Terra-Média era agora pacífica e Élen não sabia onde poderia ser útil. No primeiro mês ela conheceu os caminhos da floresta seguindo os elfos caçadores, embora Legolas dissesse que ela atirava “tão mal que não acertaria nem um olifante!”. Só no terceiro mês ela se acostumou com a rotina.

    O tempo passou: meses para os elfos e décadas para os homens. Elenér foi algumas vezes para Minas Tirith e muitas para Ithlien Oriental. Tudo estava bem, tudo parecia calmo, mas Élen estava preocupada.
    Quando Legolas entrou no salão do palácio viu a elfa parada, virada de frente para uma janela com os braços cruzados. Aquela pose, já conhecida do elfo, fazia com que Élen se parecesse com a dama Galadriel.
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    ― No que está pensando?
    Ela esperou um pouco, pensando como começar a conversa. Virou-se sorrindo:

    ― Minas Tirith fica muito longe do mar?
    ― Não muito. É só descer o rio.
    ― Já fez isso?
    ― Não, por que está perguntando isso?
    ― Gimli me disse que você ouviu o canto das gaivotas quando foi lutar com Aragorn.
    ― É isso que está te preocupando? - ela confirmou balançando a cabeça - Elas falavam das espumas das ondas, de como elas quebravam na areia da praia...
    ― Não quero ouvir isso!
    ― Porque os Sindar não deviam ouvir tais coisas. Sei disso.
    ― Então por que começou a falar?
    ― Parecia curiosa ... se não é isso, o que quer saber?
    ― Vai embora ... logo?
    ― Não sei, gostaria muito de ir para as Terras Imortais. Isso te preocupa?
    ― Um pouco. Você fica muito inquieto quando pensa no mar. Não gosto disso.
    ― Se eu for embora, vai cuidar de Ithilien?
    ― O que? Sim, sim, claro que vou!
    ― Então está tudo bem.
    Elenér ficou confusa. “Será que Legolas vai partir logo?”
    ― Quando ... quando pretende ir?
    ― Já disse, não sei. Ainda não estou cansado de viver na Terra-Média.

    Élen não queria que Legolas fosse embora. Se ele seguisse para Valinor, ela teria que cuidar de Ithilien... sozinha. O medo de perder seu amigo se transformou em raiva e ela respondeu quase gritando:
    ― Só os Exilados se cansam daqui! Você é um Sindar, nunca vai sentir isso, só pode querer ir para o mar!

    Ela soltou os braços e saiu apressada pela porta. Legolas ficou de frente para a janela, quase na mesma posição da elfa e de repente disse:
    ― Se você não estivesse olhando na direção do mar e eu soubesse com certeza o que se passa no seu coração, Élen, diria que você também não quer ficar.

    A noite jantaram em silêncio. Isso chamou a atenção de Gimli, que estava acostumado a ver os elfos conversando e rindo enquanto comiam. Quando comentou que eles estavam muito quietos, Legolas falou:
    ― Élen está chateada comigo - e a elfa se virou para ele mostrando a língua.
    ― Às vezes vocês dois parecem crianças.
    ― É que ela é boba.
    ― E ele é chato!

    Agora eles falavam brincando e Gimli gargalhava. Logo os dois elfos não falavam mais sobre o mar, mas Élen sabia que Legolas sofria quando se lembrava do canto das gaivotas.

    Capítulo IX

    Pouco antes de morrer, o rei Elessar chamou seus últimos companheiros da Sociedade do Anel. O rei se sentia velho e cansado, sabia que era a sua hora e desejava conversar com seus amigos. Elenér ficou sozinha em Ithilien.
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    Élen não gostava quando isso acontecia. Apesar de ter muitos amigos no palácio e nas cidades, ela não se sentia bem quando Legolas e Gimli saiam juntos. Thranduil sabia a muito tempo que ela estava em Ithilien, mas a elfa tinha medo e esperava a qualquer momento os guardas da Floresta Verde.

    Legolas e Gimli passaram dois dias em Minas Tirith relembrando suas aventuras com o rei e só voltaram quando Arathain foi coroado.
    Depois que o rei abriu mão da Graça dos Valar, Legolas sentiu um grande vazio e o desejo de velejar tomou conta de seu coração. Ele decidiu que finalmente era hora de deixar a Terra-Média.

    Legolas começou a construir um barco e fazer os preparativos para sua viagem. Gimli e Elenér logo perceberam as intenções do elfo, mas ela achou melhor não comentar com ninguém e esperava pacientemente o dia em que seu amigo iria para Valinor.

    Um dia Gimli foi procurar Legolas e contou que gostaria de viajar, pela última vez com o elfo, para as Terras Imortais. O elfo hesitou um pouco, mas acabou cedendo. Avisaram Élen durante o jantar:

    ― Vão juntos? Isso é bom - disse ela com uma voz triste que tentou disfarçar com um sorriso.
    ― Tudo bem para você, Élen? - perguntou o anão.
    ― Tudo. Acho... acho bom que... - ela começou a soluçar, mas se controlou tossindo - É bom que façam companhia um ao outro.
    Legolas segurou a mão dela ― Vai sentir nossa falta? Élen virou encarando-o séria:
    ― É claro que vou.
    ― Bom, sei que não quer ir conosco agora, mas se quiser, os Portos deve permanecer abertos por mais alguns anos.
    ― Talvez eu vá, Cirdan vai ficar feliz em me ver.

    Capítulo X

    Naquele dia todo o palácio acordou cedo. Elenér havia pedido para anteciparem o desjejum e invadiu a cozinha para preparar ela mesma uma sacola com mantimentos para os viajantes.
    Quase não conversaram durante o desjejum e, depois de comerem, foram andando até o rio. Quando foram se despedir, Gimli pegou a mão da elfa e beijou-a. levantou a cabeça e olhou nos olhos dela enquanto dizia:

    ― Adeus, senhora, espero vê-la de novo.
    Ela começou a chorar enquanto segurava a mão do anão, que abaixou a cabeça e se virou para subir no barco. Élen levantou a mão a boca para tentar para o choro, então Legolas a abraçou. Ficaram abraçados em silêncio por um bom tempo até que o elfo cochichou:

    ― Eu preciso ir, eu quero ir, mas você é muito importante para mim. Não quero que fique triste aqui. Tem certeza de que não vem?
    Ela falou com a voz baixa cortada por soluços.
    ― Tenho.
    Ele se soltou, olhou nos olhos dela e deu-lhe um beijo na testa. Legolas empurrou o barco para o rio e saltou para dentro. Assim que a embarcação entrou na correnteza ele se virou:

    ― Até logo.
    Élen abanou a mão de leve e cruzou os braços. Ficou parada vendo o barco diminuir de tamanho conforme se distanciava.
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    Capítulo XI

    No dia em que Gimli morreu, Élen sentiu uma brisa gelada soprar do Oeste e suas lágrimas congelaram. Ela havia visto a ascensão dos homens e o declínio das outras raças, assim como Gandalf previra e concluiu que logo seus bosques teriam o mesmo destino de Lothlórien.
    Era hora de partir, mas os elfos haviam desaprendido a manejar os barcos, os Portos não existiam mais e os homens temiam a raça élfica. Ah, quantos de seu povo não foram massacrados por aqueles que se esqueceram das antigas alianças!

    E de repente ela teve uma sensação nova: um sentimento de grande perda e uma irresistível vontade de deitar na relva e esperar o tempo acabar, assim como Arwen Undómiel. Suspiro. Era hora de partir.
    Élen correu para o palácio e a cidade dos elfos. Naquele lugar os homens não chegavam, a sua magia não deixava, um cinturão mais fraco, mas importante como o de Melian.

    “Por que estou me lembrando daqueles que já passaram?”
    Ela subiu correndo para seu quarto e pegou uma capa e uma bolsa, as mesmas que havia usado quando veio da Floresta Verde. Ela sabia da existência de um porto ao sul de Minas Tirith. Se conseguisse chegar lá poderia pegar um barco e se lançar ao mar, então, talvez, Ulmo se encarregasse de levá-la para as Terras Imortais.

    Chegou no cais no meio da tarde e caminhou de um lado a outro procurando uma pequena embarcação. Finalmente encontrou um velhinho sentado ao lado de um barco a remo.

    ― Com licença, boa tarde, o senhor é o dono desse barco?
    ― Sou sim, por quê?
    ― Eu estou interessada em comprá-lo.
    ― Bem, senhorita, isso vai lhe custar 250 moedas, ou eu e a senhorita podemos...
    ― Dou-lhe um colar de ouro e o senhor me dá o barco, certo?
    ― Certo, não quer ouvir a outra proposta?
    ― Não faço questão - e quando disse isso ela havia empurrado o colar para o velho e estava saltando para dentro do barco.

    O velho murmurou um “Boa viagem, princesa” e foi embora. Élen se acomodou no barco, segurou nos remos e disse bem baixinho na sua língua:

    ― Essa é uma boa hora para descobrir como se rema.
    Ela respirou fundo sentindo pela primeira vez o cheiro do sal dissolvido na água, tomou coragem e conseguiu remar para o mar aberto. Depois de um dia navegando Élen resolveu descansar e confiou seu barco a Ulmo, que guiou a embarcação enquanto ela dormia.
    Quando a elfa acordou, avistou um porto e seus olhos brilharam quando ela viu as orelhas pontudas de um marinheiro. Então ela remou com vontade e parou ao lado de uma plataforma. Os olhos verdes de um elfo moreno olhavam ara ela.

    ― Oi, por favor, pode me dizer onde eu estou?
    ― Está em Aqualöunde, de onde vem?
    ― Da Terra-Média. Hã, pode me ajudar a sair daqui?
    Assim que desceu do barco ela perguntou:
    ― Você sabe onde posso encontrar Legolas? Ele veio para cá a muito tempo junto com um anão...
    ― Ah, claro, ele mora na cidade, é só seguir por aquela estrada... Espere, o que vai fazer com o barco - Elenér já estava correndo para a estrada.
    ― Fique com ele.
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    O caminho era mais longo do que ela esperava e o cansaço obrigou-a a diminuir o ritmo. Mas assim que ela avistou Legolas vindo em sua direção ela retomou a corrida e se jogou em seus braços:
    ― Como sabia que eu vinha?
    ― Gandalf me disse.
    ― Hã, e como Gandalf sabia?
    ― Acha que eu me importo com isso? Nem perguntei, vim correndo para cá - ele beijou-lhe a testa. - Estou feliz por você estar aqui.
    ― Também estou feliz.
     

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