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Como (não) ler os clássicos, por Michel Laub

Tópico em 'Generalidades Literárias' iniciado por Bruce Torres, 18 Jul 2014.

  1. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    DE SÃO PAULO

    18/07/2014 02h00
    A vida é curta para ler "História da Literatura Ocidental sem as Partes Chatas", da americana Sandra Newman, que foi tema da "Ilustrada" no último sábado. A vida pode ser longa, no entanto, e certas polêmicas acabam inevitavelmente se repetindo.

    No caso, o confronto entre um suposto elitismo do cânone literário com as supostas necessidades de uma época de poucos leitores. Com outra roupagem, outros protagonistas e graus variáveis de inteligência e boa fé, repetem-se debates como o que recentemente envolveu a "simplificação" de Machado de Assis por uma professora paulista.

    Newman resolveu fazer um "guia irreverente" dos clássicos, atribuindo notas de zero a dez a uma lista que vai dos gregos a James Joyce, de acordo com critérios de "importância, acessibilidade e diversão". Nomes como Luiz Costa Lima atacaram a iniciativa. Outros, como Luís Augusto Fischer, acreditam que o guia ajuda a difundir a leitura e a saudável discussão em seu entorno.

    A princípio, estou com Fischer. Em sua definição comum, clássico é a obra que resiste à prova de sucessivas gerações. Que sigam os testes, portanto: cada um publique o que quiser, tente ganhar uns trocos fazendo o barulho que conseguir, e o público que embarque ou não na onda.

    Desconfio é da objetividade, essa prima do simplismo, como são definidos -parece ser o que Newman fez- os conceitos de "acessibilidade" e "diversão".

    Por que gostamos de um romance, conto ou poema? É uma pergunta com resposta sempre condicional. Quanto maior o repertório de um leitor, sua base para comparações com outros estilos e abordagens de temas semelhantes, maior a chance de perceber a originalidade e complexidade de um texto.

    "Chato" ou "difícil" pode ser apenas o que não entendemos por ignorância, como alguém que interpreta literalmente uma frase irônica.

    Ler também é superar essa estranheza inicial. Até uns 15 ou 16 anos, minha dieta fora dos Josés de Alencar da escola se resumia a enredos policiais, que acostumam o leitor a uma fórmula narrativa e um modelo de prosa e construção de tipos.

    Foi por causa do gênero, inclusive, que resolvi enfrentar uma história detetivesca que acabaria mudando a minha vida: "O Nome da Rosa", de Umberto Eco.

    Trata-se de um catatau que inclui longos debates teológicos (dos quais não entendi xongas) e passagens em latim (que pulei sem dó). E, no entanto, por um desses mistérios no caminho de quem se dedica a uma convenção inútil, antissocial e às vezes ingrata como a leitura, algo daquela aridez sem concessões me fisgou.

    Nenhum leitor de clássicos, aos quinze ou oitenta anos, deixa de sentir prazer -ou algo próximo disso, como a vaidade- ao enfrentar um deserto de centenas de páginas e chegar ao outro lado como um sobrevivente.
    De maneira análoga, a "diversão" não necessariamente está ligada ao riso direto, à fluência da escrita ou às peripécias de personagens aventurescos. Alguns dos melhores escritores contemporâneos provavelmente levariam bomba de Newman.

    A profundidade de J.M. Coetzee é moldada por uma prosa lenta e com frequência gélida. A grandeza de Karl Ove Knausgard nasce de intrincadas descrições e digressões sobre assuntos que resvalam na mesquinhez.
    Nos dois exemplos, rimos (ou temos prazer) ao reconhecer as idiossincrasias de autores que não fazem esforço para serem agradáveis. Talvez seja um sentimento externo ao texto, mas qual o problema? A diversão não precisa nascer do sabor ou da surpresa.

    Às vezes é um reconhecimento meio sarcástico: lá vai aquele chato -Faulkner, Kafka, Beckett, Thomas Bernhard, Lobo Antunes, Dalton Trevisan- dizer de novo aquelas coisas esquisitas.

    Para quem mirou na irreverência, há algo de conformista nos possíveis critérios de Newman. Uma lista canônica que se curva aos prazeres mais imediatos e cômodos, sem arestas nem desafios, reproduz um dos piores vícios da tal época sem leitores: o populismo anti-intelectual.

    Nesse contexto, o terceiro pilar dos juízos da americana, a "importância", soa como conversa de burocrata ou alpinista cultural.

    Fonte:
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  2. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Muito bem ponderada a opinião do Laub. Gosto das opiniões dele...

    Mas, sinceramente? Não vejo razão pra tanto escarcéu. Existem alguns detalhes no meio disso daí que o pessoal não tá percebendo... Por exemplo, o título. Ao que me consta, o título do original é: The Western Lit: The Survival Kit. Na sinopse, lemos

    Numa parte da introdução,

    Essa discussão me lembra uma parte do livro que estou lendo atualmente, Cultura de interface, do Steven Johnson, onde ele menciona que se por um lado até podemos comparar Shakespeare com a MTV, do outro, se comparamos a MTV com Shakespeare, é porque estamos com algum problemão de leitura. Mas não me parece que a Newman tenha querido chegar simplesmente aí. Mesmo porque, pra citar de novo a introdução:

    De todo modo, li um pouco do livro dela acessando o preview no Amazon e não achei a proposta um absurdo. O título original é muito melhor que o título da edição brasileira...

    Por exemplo. No primeiro capítulo ela fala de Homero, Hesíodo, esses chapas. Falando do Homero, ela dá um resumão da Ilíada bem humorado e até faz uns comentários formais legais pro leitor, como o dos adjetivos e epítetos no texto homérico. (Por exemplo, achei boa a forma como ela comparou os epítetos homéricos aos epítetos usados por políticos). Aí ela vai falar do Hesíodo. Não se demora muito; é menos de uma página (p. 8). E dá as seguintes notas:

    THEOGONY: Importance (3); Acessibility (6); Fun (o).
    WORKDS AND DAYS: I (3); A (6); F (7).

    Claro que ela está lançando um olhar contemporâneo ao dar 0 de Fun para o Theogony. Mas ela deixa bem claro, ora essa, que: "5. For an ancient Greek, pretty fun -- and much, much shorter than Homer."

    Certo; não li o livro todo, então não sei se ela faz caca mais pra frente... Mas, do que pude checar, não achei uma ideia tão má assim. É verdade que à priori ela simplesmente endossa a opinião comum de que livro X é chato; mas acho que ela, na medida do possível (e talvez a crítica resida aí: ela poderia ter se esforçado mais), tenta dar alguns indícios de interesse pro leitor, como que dizendo: "É chato, eu sei, mas veja, ele pode ser legal!..." O ideal seria que as pessoas estivessem enfrentando as obras originais, ou enfrentando guias criticamente mais sérios? Sim, esse seria o ideal. Mas é preciso colocar os pés no chão. Ninguém começa num patamar tão alto assim!
     
    Última edição: 20 Jul 2014
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  3. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Pois é, @Mavericco , até eu quero comprar esse livro. :lol: Não vejo como um livro desses pode ser ruim quando penso nas obras de Thomas Foster e David Lodge, dois teóricos que também tentam abordar a literatura de forma mais acessível, explicando os conceitos básicos ao leitor. Não sei se Laub e Lima leram esse livro dela como uma tentativa de redefinir o processo de avaliação do cânone ocidental, mas sei de uma coisa: não daria um Bloom pra alguém que ainda não tem experiência com a literatura. :lol:
     
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  4. Ana Lovejoy

    Ana Lovejoy Administrador

    tava lendo a resenha da folha e olha, parece ser um livro bem divertido. tem uma frase da autora sobre hamlet que me conquistou, algo mais ou menos assim: "ver hamlet tentando vingar o pai é como ver seus filhos adolescentes procurando emprego" :rofl:
     
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  5. Bruce Torres

    Bruce Torres Let's be alone together.

    Eu já conhecia a autora por um outro livro dela, chamado "How NOT to Write a Novel". Só o fato de a capa conter frases de um romance sobre vampiros já vale a risada. :lol:
     
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