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Zéfiros

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Raphael, 18 Dez 2008.

  1. imported_Raphael

    imported_Raphael Usuário

    [align=justify]Esse é um daqueles contos que escrevemos por tédio. Quando os delírios da febre ou as promessas de uma taça de vinho nos fazem pensar em inspiração. Foi escrito anos atrás e o encontrei por acaso. Pertence tanto ao lixo como a essas páginas eletrônicas. Se eu tiver paciência, o continuo. O mais provável é que não. [/align]


    ---------------------------------------------------------------------


    [align=right]"There is but one truly serious philosophical problem, and that is suicide. Judging whether life is or is not worth living amounts to answering the fundamental question of philosophy. All the rest — whether or not the world has three dimensions, whether the mind has nine or twelve categories — comes afterward. These are games; one must first answer."[/align]

    [align=right] Albert Camus, The Myth of Sisyphus[/align]



    [align=justify]Quando você sabe que vai morrer nada realmente importa. Tudo é como um sonho, você tem consciência que está andando, vê imagens passando a sua frente, pode até saber que está interagindo com outras pessoas, mas não tem controle sobre nada disso. É como se alguém fizesse tudo por você. É mesmo como num sonho.


    Meu nome é Vincent, peço desculpas por essa introdução um tanto macabra. O fato é que acima descrevo uma ocasião do meu passado. Para ser mais preciso, algo que ocorreu há uns dez meses. Dez meses... Ainda parece que foi ontem.


    Eu costumava ter uma namorada, seu nome era Lúcia. Lúcia não podia exatamente ser definida como a garota dos meus amores. Estava mais para, digamos, só uma garota. Imagino que nosso namoro era normal, mesmo a situação que estou prestes a descrever deve ser uma das coisas mais prosaicas para os casais comuns. Em todo caso, esse incidente aparentemente sem nenhuma peculiaridade maior colocaria em movimento uma corrente de acontecimentos que terminariam por determinar meu destino.


    Há não mais que dez meses fui visitá-la em sua casa. Era noite, eu acabara de abandonar meu emprego e a idéia de alguns dedos deslizando por meus cabelos não parecia tão ruim. Geralmente esse era o tipo de surpresa que deixaria minha namorada em êxtase. Ela me completava, como costuma-se dizer por aí nesses casos. Tinha tudo que eu não possuía. Era eufórica, falante, sorridente, sempre disposta a tudo. E isso era profundamente irritante... Pensando agora, é difícil entender por que estivemos juntos. Enfim, de volta à história.


    Cheguei em sua casa para encontrar uma Lúcia ofegante, cabelos bagunçados e olhos arregalados.


    -Posso entrar?


    - Vincent. O que você faz aqui a essa hora? Não devia estar trabalhando? O que...


    -Pedi demissão, o lugar vai sobreviver sem mim. Posso entrar?


    Esqueci de mencionar. Eu trabalhava num daqueles postos de conveniência durante as madrugadas. Um trabalho que estranhamente não condizia com meus sonhos de glória da infância, sejam lá quais tenham sido...


    -Meu amor, está tarde. Meus pais estão dormindo, mamãe ficou doente. Não quero incomodá-los.


    Mal ela terminou de falar, um carro encosta ao lado do jardim. Um senhor de smoking desce e abre a porta para uma mulher trajando vestido longo. Aparentemente, a mãe de Lúcia se recuperou e foi festejar sem contar à filha.


    -Crianças, vocês estão malucas? Esse frio é insuportável. Para dentro! Venha tomar uma xícara de chocolate, Vincent. – disse a mulher de vestido longo


    -Vincent já estava de saída, Mamãe. – O constrangimento era quase palpável


    -Bobagem. Entre, Vincent, não aceitarei recusas.


    Eu estava num misto de curiosidade, preguiça e sono. Se por um lado queria saber o que estava acontecendo, por outro tinha preguiça das possíveis conseqüências de tudo aquilo. A curiosidade acabou falando mais alto. Entrei.


    Não chegamos nem mesmo a guardar os casacos. Bastou uma olhadela para dentro e vimos o suposto primo de Lúcia ( ou ao menos era assim que ele foi apresentado a mim por ela certa vez). Sentado no sofá, pés na mesa, vestindo nada além de cueca e meias.


    Fim do namoro.


    Não era a traição que me incomodava, pensei enquanto andava rumo à praça. Lúcia não era importante, não estava irritado com ela. Lúcia representava toda a humanidade. Lúcia era o frívolo, o efêmero e eu queria me livrar disso. Queria livrar-me da humanidade. Qual era a importância de tudo aquilo, afinal? Minha vida não passava de um suspiro irrelevante. Não importa o que aconteça, eu serei esquecido assim como Lúcia, seus pais, meus pais, nossos animais de estimação e tudo que existe ou existiu. Teria eu que cometer um genocídio para ser lembrado por meros 300 anos? Quem sabe pregar uma nova ordem para não ser olvidado em míseros dois milênios? Em todo caso, de que isso me serviria? Ninguém sobrevive realmente nas lembranças. Essa filosofia me parecia nostalgia fantasiosa. Uma lembrança, por mais amada que seja, continua sendo o que é: só uma lembrança. Tanto fazia então que eu fosse uma lembrança morta.


    Como eu disse, quando você sabe que vai morrer tudo é como num sonho. Eu estava com uma garrafa de vinho em uma das mãos e não fazia a menor idéia de como a tinha conseguido. Não me entendam mal. Amaldiçoei nosso destino mas dei bênçãos à garrafa.


    Tomei consciência de onde estava quando já tinha chegado à praça. Ela é pequena, típica das cidades provincianas como a minha. Nessa praça havia uma queda d’água belíssima incrustada num grande rochedo. É interessante como as pessoas não se sensibilizam mais com as belezas rústicas. A praça estava vazia, sim, mas mesmo que não fosse plena madrugada, dificilmente seria possível encontrar mais que três ou quatro pessoas por ali.


    Depois de verter as últimas gotas dos lábios de minha amante momentânea, joguei a garrafa queda abaixo e assisti, parado em sua beirada, os pedaços estilhaçarem. Eles brilhavam como que sinalizando meu destino, a beleza de tudo aquilo não poderia ser maior. O barulho da água, a lua completa em sua majestade, o frio, o brilho dos pedaços da garrafa. Mais um passo e tudo findaria. Mais um passo...


    -Precisa fazer agora


    Mais um pouco e eu perderia o equilíbrio. Por sorte, ou não, isso não aconteceu.


    -O quê? – perguntei irritado


    A voz que por pouco não me fez cair era feminina. Vinha de um banco de madeira logo abaixo duma árvore onde eu costumava sentar. A Lua acabara de ser encoberta, não pude distinguir a figura entre sombras.


    -Se não fizer agora, será mais difícil na próxima vez.


    -De que você está falando? – perguntei com aspereza


    -Nem sempre os desejos vencem o instinto humano, às vezes ele acaba arrefecendo o espírito. Se não fizer agora, a derrota para cada nova tentativa se tornará um hábito e o fracasso será costumeiro. O desejo poderia continuar e aumentar ou a resignação suscitada pelas derrotas também - Essas palavras aparentemente solenes foram pronunciadas no mesmo tom de descaso das anteriores – Por isso, se quer mesmo fazer, faça agora.


    Levei algum tempo para digerir o que aquela garota havia dito. Não posso me culpar, minha situação naquele momento não era das melhores.


    Hesitei enquanto olhava para baixo.


    - O que sugere, então? – a pergunta era movida pela curiosidade e irritação. Curiosidade por aquelas palavras que pareciam falar sobre algo aborrecidamente comum. Irritação pela intervenção. Aquele momento deveria ser meu, deveria ser meu momento final e a estranha estava arruinando tudo.


    - Como disse, o mais seguro é que faça agora


    -Por que pensa saber sobre isso?- depois dessa última pergunta a lua deixou de ser bloqueada, sua luz refletiu de leve nas faces da garota. Não consegui reparar tão bem, mas imaginei ter visto certa expressão de sarcasmo. O rosto era muito branco, os cabelos muito escuros e lisos o destacavam com a ajuda da luz do luar. Parecia bonito. Não pude ver o suficiente naquela primeira vez.


    -Falo por experiência


    Depois ela simplesmente se levantou e saiu sem qualquer outra palavra. Tive a impressão de que encarou tudo aquilo como algo corriqueiro que se pode ver numa esquina qualquer e é capaz de prender alguns minutos de atenção.


    Enquanto ela ia embora, se virou por alguns segundos e me olhou de um modo que pareceu algo de emocionado e resignado, ou quem sabe enfadado, para depois desaparecer nas sombras.


    Fiquei parado por algum tempo. Suspirei. Não pularia naquela noite. De alguma forma a maneira como aquela garota havia falado comigo, como havia sorrido, me incomodara.


    Olhei de novo para baixo. Estava com preguiça de pular, com preguiça de morrer. Tudo isso parecia estranhamente cansativo. Se ao menos aquela garota não tivesse aparecido...[/align]
     

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