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Tolkiens Parish

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    A Terra Média de J.R.R. Tolkien é sem dúvida um dos mundos imaginários mais vividamente concebidos em toda a Literatura. De sua história para suas línguas, dessas para seus habitantes e além, é vasto no espaço, mas intricado nos detalhes, rivalizando até mesmo com mitologias de civilizações antigas inteiras. Um enorme número de leitores apreciou profundamente as histórias de Tolkien neste mundo, e para muitos o coração desse gosto está no prazer proporcionado pela própria Terra Média.

    O que faz da Terra Média algo tão agradável de se explorar? Existem muitas respostas, mas a mais simples de todas elas é a que, a certo nível, a Terra Média simplesmente se parece real. Essa é uma das idéias principais de Tolkien em seu ensaio "On Fairy Stories", onde alega que nenhuma história pode ser bem sucedida sem manter "a coerência interna de realidade". Um autor

    "faz um Mundo Secundário, no qual sua mente pode entrar. Dentro dele, o que ele relata é verdade: ela está de acordo com as leis daquele mundo... o momento de descrença surge, o feitiço é quebrado; a magia, ou melhor, a arte, falhou."

    Tolkien passou boa parte de sua vida procurando trazer esse nível de coerência para seu próprio "submundo" criado.

    Atingir esse objetivo não é tarefa fácil ao escrever uma história de fantasia! Tolkien segue reconhecendo que "É mais fácil produzir esse tipo de realidade com um material mais sóbrio". Os inumeráveis rascunhos e revisões encontrados nos livros The History of Middle Earth revelam a longa batalha de Tolkien para aperfeiçoar seu trabalho, mas eles também deixam claro que o processo estava longe de ser completo. No fim de sua vida, alguns de seus contos se aproximaram da forma "acabada" ou até mesmo se tornaram definidos em grande parte sendo publicados, mas muitos permaneceram em fluxo, e alguns existiram apenas em esboços.

    Por causa disso, é difícil saber como pensar sobre o Mundo Secundário de Tolkien. Em um sentido mais realista, sua obra existe apenas como uma criação em desenvolvimento que mudou continuamente através de sua existência. No prefácio ao Silmarillion, Christopher Tolkien faz observações sobre isso, explicando que seu conteúdo "estava realmente longe de ser um texto fixo, e não permaneceu imutável mesmo em certas idéias fundamentais relacionadas à natureza do mundo que retrata". Como podermos esperar encontrar a "coerência interna da realidade" em um mundo que estava tão inacabado na cabeça de seu próprio autor? A resposta, naturalmente, é que não podemos. A Terra Média nunca foi "terminada", e conhecendo o gosto de Tolkien em consertar seus contos, eles podem nunca ter convergido para uma forma final não importa por quanto tempo ele tenha vivido.

    Entretanto, este não pode ser o fim da discussão: a experiência positiva de tantos leitores deixa claro que muito da coerência interna de realidade já está lá. Isso é em partes devido aos próprios métodos de Tolkien para o desenvolvimento de suas histórias, nos quais ele freqüentemente "descobria" novos detalhes de seu novo mundo ao explorar as conseqüências lógicas de algum detalhe histórico ou lingüístico em particular. Isto também deve refletir sua soberba intuição para uma boa história. Em todo caso, os leitores de Tolkien têm noção de que a Terra Média "existe" em um sentido sub-criativo, e muitos deles têm um grande prazer em explora-la sozinhos o melhor que podem.

    Por essa razão, leitores que se arriscam além dO Hobbit e dO Senhor dos Anéis, rapidamente encaram a ambigüidade: qual versão de cada história é "verdadeira" no Mundo Secundário de Tolkien? E ainda mais fundamentalmente, como é possível definir uma versão deste mundo que seja estável o suficiente para explora-la dessa maneira? Para aqueles que querem compreender completamente a Terra Média, devem ler os originais de Tolkien e decidir quanto peso atribuir para cada uma. A seguir, eu discuto alguns dos problemas envolvidos no processo de definição da Terra Média "canônica", listo alguns objetivos que um conjunto de textos canônicos deve cumprir, e sugiro um enfoque geral para encontrar estes objetivos que prefiro.


    * * *


    O Dicionário Oxford de Inglês define "canônico" nesse contexto como "de autoridade reconhecida, excelência, ou supremacia; confiabilidade". Para a maioria dos leitores de Tolkien, a escolha de um texto canônico não é consciente: eles supõem que os livros são igualmente confiáveis até encontrarem as primeiras ambigüidades óbvias. Estas suposições podem persistir com O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, mas são rapidamente destruídas pelos livros Contos Inacabados e os livros The History of Middle Earth.

    Uma vez que um leitor esteja prevenido sobre a questão da "canonicidade", muitas respostas gerais são comuns. Algumas pessoas abandonam completamente a idéia de uma "verdadeira" Terra Média e simplesmente apreciam a observação do processo de criação de Tolkien. Essa é uma escolha razoável, e eu não irei culpar qualquer um que decidir que a leitura desse ensaio poderia ser uma perda de tempo. Entre aqueles que continuam esperando encontrar uma "verdadeira" Terra Média, alguns tratam qualquer versão mais recente de qualquer história de Tolkien como canônica. Alguns escolhem uma referência (tipicamente O Senhor dos Anéis) como absolutamente canônica e julgam as outras obras de Tolkien por sua coerência com relação a ela. E alguns escolhem textos canônicos baseados em sua impressão pessoal do que "parece certo". Cada um desses enfoques tem seus próprios pontos fracos e fortes, e provavelmente existem tantas variações e combinações dos mesmos como existem leitores para discuti-los.
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    Qualquer tentativa de definir essas estratégias mais claramente, rapidamente levam a algumas observações essenciais sobre esse problema. Para começar, é óbvio que a canonicidade de um texto deve ser julgada em escala variável ao invés de um simples sim ou não: duas escolhas obviamente não seriam suficientes para distinguir confiabilidade de livros publicados como O Senhor dos Anéis, dos textos bem desenvolvidos como "Os Anais de Aman" em Morgoths Ring, e explorações recentes como The Book of the Lost Tales. Uma escala contínua nos dará a liberdade que precisaremos.

    A princípio é menos claro se a canonicidade deve ser atribuída texto por texto ou detalhe por detalhe. Isto é, se alguma parte do texto está "errada", deveria ser confiável qualquer outra coisa no texto? Parece que a resposta está em algum lugar entre o sim e o não. Certamente, se Tolkien baseia uma discussão em uma premissa "defeituosa" (uma que contradiga alguma informação categoricamente aceita), as conclusões que se seguem não são confiáveis. (O ensaio "The Problem of Ros" em The Peoples of Middle Earth é um exemplo clássico: Tolkien rejeitou a maior parte dele por essa mesma razão). Por outro lado, um pequeno equívoco em um texto não deve conduzir imediatamente a afirmações não relacionadas a serem rejeitadas como se fossem não-confiáveis (embora vinte erros possam). O melhor enfoque aparenta ser o de tomar cada decisão cuidadosamente baseando-se no contexto.

    Por fim, nós devemos indicar o papel das preferências pessoais. É até mesmo razoável procurar por uma definição do cânone Tolkieniano, ou cada um deveria fazer sua própria escolha? Se nós esperamos discutir a Terra Média juntos, nós precisamos ao menos de uma base comum, mas quanta variação pessoal a definição deve permitir? Um objetivo principal desse ensaio é procurar uma base a mais comum que seja possível enquanto reconhece as prioridades de cada pessoa na definição de um cânone diferente. Não há uma estratégia única que seja correta para todos.


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    Tendo estabelecido o que nós referimos como "canônico", o próximo passo lógico é listar um conjunto de metas que gostaríamos que a Terra Média canônica satisfizesse. A lista a seguir inevitavelmente reflete minhas preferências pessoais, mas espero que pareçam ao menos razoáveis para a maioria dos leitores. Esses objetivos estão listados aproximadamente em ordem de prioridade como eu a vejo (e eu suspeito que a ordem está mais propensa a ser controversa do que os conteúdos). Os objetivos são:

    1. "A coerência interna de realidade": acima de tudo, os fatos canônicos aceitados sobre a Terra Média devem descrever um mundo internamente consistente. Essa coerência deve ser natural, também: "atos de Deus" devem ser limitados àqueles que Tolkien descreveu, e soluções menos complicadas são geralmente preferíveis as mais.

    2. Coerência com os textos publicados: as obras que Tolkien completou e compartilhou com o mundo devem ter prioridade sobre as que não. Essa parece ter sido a própria estratégia de Tolkien na maior parte do tempo (sim, ele fez revisões, mas não com freqüência, e nós não temos esta liberdade). Se estes textos são incoerentes, as coisas ficam mais complicadas; a maioria concorda que O Senhor dos Anéis tem prioridade sobre os outros, mas procurar uma solução mutuamente coerente é melhor. Problemas como os erros tipográficos são provavelmente melhor resolvidos através da dedução das intenções de Tolkien a partir de esboços e rascunhos (como aquelas nos livros "História do Senhor dos Anéis").

    3. Preservar a estrutura geral da mitologia: enquanto grandes e pequenos detalhes variam a toda hora, as lendas de Tolkien preservaram o mesmo esquema básico pela maior parte de sua vida. Embora Tolkien ocasionalmente considere mudanças radicais nesta estrutura, nossa única esperança de construir uma imagem completa da Terra Média deve ser baseada nas versões melhores desenvolvidas das histórias. Dessa forma...

    4. Baseado nas mais recentes e bem desenvolvidas declarações de Tolkien: Tolkien passou a maior parte de sua vida tentando aperfeiçoar seus contos da Terra Média, logo a versão mais recente de cada conto e ensaio é o nosso melhor guia para sua visão. Observe, entretanto, que algumas de suas histórias mais antigas são também as mais vívidas: elas podem expressar a "sensação" dos eventos na história da Terra Média com mais sucesso que outras versões mais novas, mesmo quando os detalhes são inteiramente não confiáveis.

    5. Fazer uma história satisfatória e agradável: isso certamente abre as portas para as preferências pessoais, mas não é um mau modo de decidir entre variantes que de outra maneira parecem apenas comparavelmente confiáveis.

    6. Gerar tanta informação quanto for possível: como uma regra geral, é preciso ser cuidadoso na hora de aceitar uma informação, mesmo que apenas experimentalmente. Não rejeite todo o conteúdo esboços intermediários detalhados porque algumas partes deles contradizem um rascunho mais recente.

    Com objetivos como estes em mente, nós leitores já temos uma idéia geral de como escolher textos canônicos que serão o mais satisfatórios possíveis. Eu darei um passo adiante e esboçarei uma visão mais específica da Terra Média canônica, que pode fornecer uma filosofia condutora para atingir essas metas acima. Isso é essencialmente uma declaração de enfoque pessoal, mas acredito ser válido compartilhar.


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    Eu imagino a "verdadeira" Terra Média como um resultado que Tolkien teria eventualmente alcançado se ele fosse dado tempo ilimitado e produtivo em ordem de aperfeiçoa-la. Eu gosto de imagina-la como um Tolkiens Parish, sua própria versão do "quadro tornada real" que ficou conhecida como o Niggles Parish em sua história "Leaf by Niggle". Isso é apenas uma metáfora: eu não pretendo implicar que Tolkien escreveu "Leaf by Niggle" com uma comparação tão específica ao seu próprio trabalho em mente. Ainda assim, a própria experiência de Tolkien e seus pensamentos sobre a natureza da arte devem ter contribuído para todas as suas obras, e eu ficaria surpreso se todas as similaridades entre Tolkien e Niggle fossem meras coincidências.

    Esse enfoque naturalmente satisfaz todas as metas listadas acima. Niggle, como Tolkien, lutou para aperfeiçoar todos os detalhes de sua arte, e quando ele explorou a compreensão de seu quadro, ele descobriu que "Nada mais precisava ser alterado, nada estava errado, até onde ele tenha ido, mas ele precisava chegar a um ponto definitivo". Tolkiens Parish seria o Mundo Secundário da própria Terra Média, com toda a sua história, e é claro que ela teria "a coerência interna de realidade".

    Assim como o coração da terra de Niggle era a Árvore, o coração do Tolkiens Parish seriam as histórias dO Senhor dos Anéis e as outras obras que Tolkien publicou enquanto vivo, mas perfeitamente executadas, "da forma como ele as imaginou, ao invés da forma como ele as fez". A localização da Árvore de Niggle com relação ao resto de seu país também tem um paralelo claro com os trabalhos de Tolkien. Nós lemos que "A Árvore estava terminada... mas na Floresta ainda existia um número de regiões não concluídas, que ainda precisavam de trabalho e idéia". Da mesma forma, o Silmarillion e outros contos mais antigos foram imaginados, mas não foram completados. O apelo especial de suas histórias distantes até mesmo combina com o apelo especial da "floresta distante" de Niggle, da qual alguém pode se aproximar ou até mesmo entrar "sem que ela perca seu charme particular" (algumas pessoas preferem não ler O Silmarillion com medo de que suas histórias perderão a mística da distância).

    Porque algumas das últimas obras de Tolkien tentam retirar todas as referências a uma terra plana antes do sol e da lua, fica menos claro que Tolkien tenha escolhido no final "preservar a estrutura geral de sua mitologia". Entretanto, ele poderia muito bem ter feito desse modo: afinal, ele havia considerado seriamente a mesma idéia anos antes de abandona-la. Tolkien considerou essas mudanças para aproximar a natureza e história da Terra Média do mundo real, mas ele pode ter reconsiderado uma vez que tenha percebido que não existe uma ligação realística possível com a verdadeira história.

    As ligações entre esse conceito de Tolkiens Parish e as últimas três metas finais são claras. Naturalmente, os escritos mais recentes de Tolkien dão bons indícios sobre a forma final da mitologia (e essa estrutura fornece um guia na escolha entre eles). Seus trabalhos, acabados e inacabados, são profundamente agradáveis para uma grande quantidade de pessoas, e na maioria eles melhoraram apenas quando ele colocava mais esforço e idéias neles. E, finalmente, como um completo Mundo Secundário sub-criado,o Tolkiens Parish seria "completo" em sua história e conteúdo.

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    É claro, a compreensão total do Tolkiens Parish nesse sentindo seria impossível, tanto que Tolkien no final não a alcançou. Que valor tem então esse conceito para nós, fãs e leitores? Primeiro, ele oferece uma estrutura comum para discussões sobre a Terra Média que torna claro o papel da preferência pessoal. Muitos debates inflamados poderiam ser mais civilizados e produtivos se os participantes entendessem as suposições de cada um.

    Depois, isso guia nossos esforços para ir além dos fatos diretamente estabelecidos nos escritos de Tolkien. Na tentativa de preencher as lacunas dos nossos conhecimentos como Tolkien teria feito, procurando respostas que trariam a Terra Média mais perto de ser um coerente Mundo Secundário, nós podemos ganhar uma nova percepção para essa visão. Naturalmente, nós temos menos liberdade de escolha nisso do que Tolkien tinha, logo onde ele poderia tomar uma decisão final, nós podemos fazer apenas leves suposições.

    No final, entretanto, o maior benefício de imaginar a Terra Média como Tolkiens Parish, é o prazer de explorar um verdadeiro Mundo Secundário. Pouquíssimos autores conseguem se equiparar a Tolkien em sua habilidade de retratar um mundo tão diferente do nosso e mesmo assim torna-lo tão real e vivo. Tratando esse mundo com seriedade, como tendo uma verdadeira existência no plano artístico, nós chegamos o mais próximo possível de conhece-lo como Tolkien mesmo fez, o mais próximo que podemos para compartilhar seu prazer e amor pela Terra Média.
     

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