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Terra arrasada

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Luciano R. M., 5 Jul 2010.

  1. Luciano R. M.

    Luciano R. M. vira-latas

    A cidade parecia ter sido bombardeada. Estava deserta, em ruínas. O frio e o Sol brilhante, branco, combinavam-se para acentuar a sensação de abandono. E nada era muito nítido, como se a poeira ainda não tivesse assentado.

    Triste e sozinho, eu andava pela cidade destruída, procurando por algo. Procurando por alguém. Eu olhava ao redor com movimentos lentos, mal enxergando os passantes. Era a cidade em que eu sempre vivera- e ainda assim eu não a reconhecia.

    As pessoas preocupavam-se com coisas que eu não saberia dizer. Alguns corriam por suas vidas, alguns corriam pela vida dos que amavam. Alguns corriam por coisas menos importantes: seus pertences, seu dinheiro. Eu mal tinha tempo de prestar atenção neles. Eu mal tinha tempo de ver seus rostos, de olhar em seus olhos e de me importar: um instante depois já haviam desaparecido, na zona de guerra em que a cidade se transformara.

    Enquanto eu acendia um cigarro eu pensava no quão irracional era que as coisas tivessem chego a esse ponto. Eu não era capaz nem mesmo de encontrar o caminho de casa, quanto menos um bar onde eu poderia beber algo, algo que fosse forte e me ajudasse a acalmar-me.

    Lembrei, não por acaso, do poema de Cezariny, que você sempre gostou tanto. Em todas as ruas… um poema triste, mas de uma tristeza singular: não dava vontade de chorar, apenas de andar pelas ruas, perdido, a procurar alguém. Quase como eu o fazia, agora.

    Resolvi, então, ir a todos os lugares em que eu pensava que poderia te encontrar, caso fossem outras as circunstâncias: fui ao café onde a vi pela primeira vez, fui ao bar onde bebemos juntos em tantas ocasiões. Fui até a biblioteca em que você sempre emprestava livros- livros tão bonitos, os quais eu jamais pensaria em ler se não fosse você os ter me indicado. Fui até mesmo ao cemitério, em que você costumava passear nos momentos ruins, ficar em silêncio em meio aos mortos. E não a encontrei em nenhum desses lugares. E não a encontrei em lugar algum.

    O café pareceu-me ter sido totalmente tombado, só haviam pessoas mortas. O bar estava fechado. A biblioteca estava lá, mas só encontrei pessoas amedrontadas, com almas reduzidas a retalhos. O cemitério era o mesmo de sempre, o mesmo silêncio, os mesmos defuntos. Nada de vivo lá.

    Eu começava a me desesperar. Fumava mais e mais. Eu não sabia o que fazer, nessa cidade perdida, nessa cidade arrasada. Eu perdera meu caminho de volta, e não havia mais para onde prosseguir.

    Sentei no meio fio, sem esperanças. Minha vontade única era chorar. Mas eu havia esquecido como se fazia isso. Ao invés disso acendi, obviamente, mais um cigarro e pus-me a lembrar da última vez que tínhamos conversado.

    Eu e você, em cadeiras opostas na sala de sua casa. Deveríamos estar encarando um ao outro e talvez o fizéssemos, mas não acho que qualquer um dos dois tivesse a coragem para isso. Nenhum teria a coragem porque, por mais que ainda não tivéssemos dito nada, sabíamos tudo que havia para ser dito, como se fosse um filme ruim, em que se pode prever tudo antes que aconteça.

    Na mesa de centro- de vidro e madeira, conforme você havia escolhido com tanto zelo- uma garrafa de uísque e uma de vinho. Eu nunca gostei dos seus vinhos, é verdade: doces demais, como só os sonhos deveriam ser. Bebíamos em um belicoso silêncio, esperando uma aniquilação iminente.

    Então você terminou de beber, largou o copo na mesa e pousou a mão sobre a minha. A sua mão direita sobre a minha mão esquerda. Nesse instante o uísque tornou-se mais forte do que jamais fora. Acho que, também, os aviões inimigos decolaram em direção à cidade.

    Eu não sabia se deveria apertar sua mão, ou se eu deveria puxar a minha. Eu fiquei paralisado, a boca seca. Eu tremia.

    Foi então que eu falei. Foi nesse instante as bombas caíam lá fora. Não sei se você ouviu direito o que eu falei, mas de qualquer modo seus olhos se encheram de lágrimas. Você mesma decidiu e puxou a sua mão. Derrubou o uísque, o vinho, os copos.

    E eu… eu não sei mais. A próxima coisa que eu me lembro é de estar sozinho, em meio à cidade arruinada. É de estar sozinho e não reconhecer mais nada e não ter mais nada. Como se uma guerra tivesse acontecido e tudo que eu prezo e conheço tivesse sido destruído, destroçado, tivesse desaparecido.

    E, no entanto, nenhuma bomba jamais caiu sobre a cidade.
     

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