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Musicologia e Etnomusicologia no Silmarillion

Tópico em 'J.R.R. Tolkien e suas Obras (Diga Amigo e Entre!)' iniciado por Neoghoster Akira, 3 Jul 2015.

  1. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    Musicologia e Etnomusicologia no Silmarillion

    Bem, aqui vai uma introdução ao assunto.


    "All perception, indeed, already is memory." Heri Bergson, Matière et Mémoire



    Quem pode dizer o que é que torna a música de Eru tão importante, para que Tolkien a considere responsável direta pela concepção de Ëa?

    E o que diria o musicólogo Curt Sachs, escritor de "The Rise of Music in The Ancient World: East and West" (A Ascensão da Música no Mundo Antigo: Oriente e Ocidente) quando falava da carência de trabalhos como o de Robert Lachmman em seu Musik des Orients (Música do Oriente)?

    Música, diria ele, seria a única capaz de comunicar emoção estética no mais direto e alto nível de compreensão humana.




    A música, segundo se teoriza, teria se originado inicialmente pela convivência do instrumento mais próximo e básico possível, a voz humana, e nenhuma cultura até a data daqueles escritos estaria destituída de ter algum tipo de experimento ou produção musical.

    Então o que se diria do que dela foi feita? A harmonia sozinha e isolada não seria o bastante para constituir música, nem sons agradáveis por si só também o seriam a idéia de música. Ainda na receita também também contariam como ingredientes o ritmo e a resposta psicológica que cada som exerce em cada pessoa, dando talvez origem ao que chamamos de "dança".

    Partindo do princípio que ""Música" é a comunicação de emoções por meio de sons entre o músico e o ouvinte qual seria o significado pleno de a música preceder características lingüísiticas presentes num mundo como a Terra-Média?

    Que tipo de som seria capaz de evocar o desejo que perambulava pelo coração de cada Vala?



    Via de regra quem ouve música viaja, não apenas no sentido figurado, mas principalmente porque o organismo se sincroniza, entra em transe buscando prazer e inicia a apreciação de outro mundo, outra forma de arte. E é então que seria como colocar objetos instrumentais decorativos nas paredes de dentro de si mesmo:

    E é então que um som como o de um suspiro tenda a espelhar notas que associemos como sendo tristes e assim por diante.




    Particularmente, no livro de Curt, a música (o mundo da música) começa com cantoria, exatamente como a canção dos Ainur que também começa um mundo inteiro com cantoria. Ainda, é possível ver a formação de um espelhamento de gramática, gramática musical, como apontado:



    Cujo efeito pronunciado parece conter uma padronização que por vezes se afasta de características originais da origem da música e cria uma dualidade entre uma força natural e outra não natural:





    Atualmente, depois dos anos 2000, a luta dos músicos tem sido em escala global, uma busca por transmitir emoções humanas sob o caos das forças de globalização.

    No que os Poderes buscaram enfeitar ou decorar o mundo com as aproximações mais fiéis, únicas e belas das emoções evocadas pela música. As árvores de luz, por exemplo, eram um trabalho único que não poderia ser repetido, bem como as Simarilli, as jóias de Fëanor.

    No que a padronização musical, propiciada em grande medida pela revolução industrial que começou em países como, ora vejam só, Inglaterra corria o risco de se tornar num tipo frio de produção cultural.

    Não havia mais um par de objeto belos e únicos, mas uma linha de montagem. E houve um tempo em que se viu resistência:

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    Ou seja, que a solidificação dos desejos dos Poderes, por meio da estética músical, sedimentava e precitava no mundo instrumentos com diferentes formas, naturezas e belezas, correndo o risco de dar ou não dar certo.




    PROJECTING TOLKIEN'S MUSICAL WORLDS: A STUDY OF MUSICAL AFFECT IN HOWARD SHORE'S SOUNDTRACK TO LORD OF THE RINGS
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    • Ótimo Ótimo x 1
  2. Ragnaros.

    Ragnaros. Usuário

    Muito boa essa acepção. É bem provável que o professor tenha se baseado num conceito muito atribuído à Boethius -
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    No legendarium, a música é um instrumento que prenuncia a concretização de algo (de caráter harmônico ou dissonante) no mundo físico, de forma que a canção se associa com a matemática por conta da maneira como aquela deriva seus princípios da aritmética e aplica-os para as coisas naturais. Sendo este um entendimento parecido com o de São Tomás de Aquino, uma vez que a música representaria um "elemento intermediário" entre a matemática e as ciências naturais.

    Óbvio que quando estes pensadores atribuíram esse conceito "abstrato", eles levaram em conta a filosofia de Pitágoras que falava dessa associação entre música, matemática e harmonia cósmica. Neste caso, estou a falar da "Música das Esferas" ou Música Universalis:
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    :

    Esta associação à música faz com que a mesma não seja, necessariamente, literal ou audível, mas sim uma abstração matemática, seja através das proporções do mundo natural, desde o translado dos planetas até a natureza tangível do nosso dia-a-dia; seja no aspecto religioso com a teologia intimista/natural, a exemplo do que Tolkien falava quando explicava a ausência da religião no seu mundo, haja vista os seres racionais sentirem, mesmo que não entendam, a "música dos Ainur", vide esta passagem que fala do aspecto "elemental" da água no Silma:

    E não esquecer do sentimento externado por uma das (ou a mais) nobre das ações/artes dos filhos de Iluvatar: A música per si. O Ainulindalë tem muitas semelhanças com a Música das Esferas, pois no mesmo sentido em que não existe substância para tornar o "Som divino" audível ou literal (pois Tolkien dita que as vozes dos Ainur se pareciam ou eram comparáveis aos instrumentos musicais), a Música das Esferas incorpora o princípio metafísico que as relações matemáticas expressam qualidades ou "tons" de energia que se manifestam em números, ângulos visuais, formas e sons - todos conectados dentro de um padrão de proporção, o que equivaleria à harmonia primordialmente desejada por Iluvatar e que ocorrerá com o fim de Arda-desfigurada e a participação dos filhos de Iluvatar na próxima Música que criará uma nova Terra.

    Esta ideia de harmonia Cósmica é uma reminiscência da filosofia de Pitágoras, na proporção em que o Sol, a Lua e os planetas emitem sua própria "ressonância orbital" com base em sua revolução orbital, e que a qualidade de vida na Terra reflete o tenor de sons celestiais que são fisicamente imperceptível ao ouvido humano:

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    Vide:

    Neste sentido, para um religioso a Música dos Ainur fora o grande coral de anjos em louvor a Deus (lembrar que Lúcifer e Melkor têm relação com a "Música", sendo ao 1º atribuído a função de chefia das hostes que cantavam em Louvor a Deus, e o 2º batalhou contra Deus no início do Silma com...música):

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    Vs Melkor:

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    Essa linguagem universal está bem traduzida em diversas mitologias mundo a fora. Dentre as obras, podemos citar C.S Lewis que utilizou essa premissa por conta da criação de Narnia que fora erigida pela canção pela figura Cristã Aslan:

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    Ou a "música" que traduz a visão cosminicista de H.P Lovecraft com a corte insana do deus idiota, letárgico e demiurgo Azathoth rodeado por seus "músicos", no intento de manterem coeso a própria existência do universo:
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    Azathoth

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    Para um astrônomo renascentista a Música se traduzia/se externava com a translação dos planetas, a configuração das estrelas, as incontáveis estrelas da "Starmaker" Varda e a participação dos "Sagrados" na configuração de Eä e sua correlação com os "Círculos do Mundo", sendo perceptível que os planetas, as estrelas do firmamento possuêm uma tendência à formas de "Círculos":

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    Já um artista verá na colaboração e harmonia dos instrumentos musicais, com suas notas que prenunciam uma obra a criação de algo (para alguns isso seja só música, para outros cria-se um sentimento/ideia/um mundo próprio traduzido em música, e para os leitores do Ainulindalë fora isso que aconteceu na criação de Eä: No princípio houve o desenvolver da harmonia em grupos; em segundo plano - a apresentação da obra pelo Maestro-Iluvatar e os integrantes da ópera; e por fim, a concretização dessa Música que gerou o "Mundo que é".

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    Essa sacada de Tolkien, na utilização da Música como linguagem universal atinge também o mundo Natural. As próprias fórmulas matemáticas e sua correlação com as notas musicais podem ser exploradas no campo inatingível da matéria. Vai ver que os Ainur não tinham formas humanas, mas fossem aspectos concernentes à natureza, sendo Melkor a entropia, Varda a luz/estrelas, etc. A música/confrontação que eles fizeram não foram em formas tangentes, mas quem sabe o confronto de Melkor e os demais Ainur (como esferas quem sabe, e porque não?° Isso faz todo sentido teológico/filosófico Tomista, que atribui aos anjos não uma forma tangente, mas formas platônicas, ou seja, no campo das ideias.) seja como isso:
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    Última edição: 20 Jul 2015
    • Ótimo Ótimo x 1
  3. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    Pela quantidade de referências se trata de escolha de tema específico em comum com a criação ou fundação do mundo baseado no estudo dos sons de tradições históricas mais antigas como as que você exemplificou. Certamente em decorrência da educação musical do autor.

    Particularmente, chama atenção nos idiomas de Tolkien a frequência de cada som, contando sua própria história antes mesmo de formar uma palavra emitida pelos lábios e, como o "Gestalt Effect" na psicologia, refletindo o estado interno ainda não maculado pela manifestação.

    Dentro do citado conceito, perspectiva só pode ser visualizada dependendo do estado organizacional mental ou da frequência daquele que o observa. Da mesma forma, as palavras de um idioma podem ter partes de si reforçadas ou enfraquecidas à escolha de quem as use.

    Quando Eru apresenta a proposta de melodia Melkor passa a vê-la segundo aquilo que vibra nele, e como o que se passava era em grande parte medo (ele, que visitava o escuro vazio) obtém-se uma música á altura, que se afasta da proposta original por meio de uma mutilação de sons. As próprias notas saem truncadas porque foram violentadas e quebradas.

    Desse modo o Único oferece uma ponte para cada Ainu, a música, e cada um está presente para aquilo que mais aprecia (Eru reúne). A ordem é precisa, que a ponte ligue os desejos do velho mundo (ainur antes) aos desejos do novo mundo (ainur depois de entrarem no mundo). Um olho no passado e outro no presente preservando o melhor dos dois, quer dizer, é o mesmo que dizer que uma música atemporal serve para o passado e também para o futuro.
     

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