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[L] [Fallen Peacecraft] [Santo Orlópio e o tabelião]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Fafa, 21 Ago 2005.

  1. Fafa

    Fafa Visitante

    Santo Orlópio e o tabelião

    "Nem só de fé vive o homem. Mas também de pão e outros compostos similares."
    Machado de Assis

    Eu odeio introduções. Digo, essa é a opinião de Santo Orlópio, se bem que em verdade, ele não odeio nada, pois seria um sentimento humano demais para ele. O negócio que nosso amigo apenas se interessa em fins, e fins lucrativos.
    Infelizmente, vamos ter que ceder à vontade de Santo Orlópio, pois ninguém sabe ao certo como essa história começou, só existem alguns rumores que esse sujeito fora criado pelas formigas, antes de ingressar na sociedade humana. Mas não passam de boatos, e como diria Orlópio:


    Nunca se viu, tão vil desserviço
    Ficar de falatório, sem nenhum compromisso


    A única opção é começar pelo momento em que Orlópio se tornou um senhor notável, segundo os registros do atual tabelião.
    Se viu, o homem santo, como um varão assinalado, montado em seu corsel, a armadura a reluzir. Partia para a batalha, mas não se engane, pensando que ele fosse algum desses tipos belicosos e valentes, ou algum cruel sanguinário, simplesmente estava em busca dos espólios.
    Bem, foi aí que Orlópio se tornou, aos olhos de todos, um grande santo, mesmo nunca tendo sido fevoroso. Ao vencer a guerra encontrou um tesouro: a Guarrafa Sagrada. Era um objeto dourado que a todos ofuscava, ninguém tinha dúvida que era oriundo dos Céus, e quem o achou, um messias.
    Orlópio, agora São, tratou logo de converter a Garrafa em dinheiro, fazendo o milagre que sempre dominou muito bem: vender. O caso é que ele derreteu o ouro secretamente, e desde então todos estão tentando encontrar a Guarrafa Sagrada, e Orlópio passou a ser venerado.
    Faltou dizer que antes do surgimento do Orlopismo, o mundo era basicamente contituído de três coisas: deuses, heróis e poetas. Os primeiros, desapareceram. Os bravos e heróicos cavaleiros também sumiram sem deixar vestígios, pela Demanda da Garrafa. Só restaram os poetas, a quem Orlópio trouxe à sua causa, só que seus versos, que propagandeavam os feitos do Santo, tornaram-se tão medíocres como os vistos acima.

    Ó falsos poetas, ai, como puderam!
    Fazer de Orlópio o maior dos ascetas.


    Mas eles fizeram, e umm destes poetas era o atual tabelião, dono de uma voz e de uma arte magníficas, e foi por causa dele que Orlópio resolveu cessar com toda a Poesia, isso muito tempo depois, quando o Orlopismo já era uma doutrina consagrada. O problema é que o tabelião, conseguia manter nas entrelinhas dos assuntos mesquinhos, sobre os quais era obrigado a compor, um sentimentalismo tremendo, e isso irritava o homem santo. Orlópio, então, decidiu cortar-lhe a língua, não por crueldade, mas por ser uma medida necessária e útil. Coisas úteis o agradavam.
    Ora, Orlópio substituíra os poetas por grandes telões e implantou seu Programa de Virtudes. Que se resumiam a trabalho, trabalho e trabalho. Trabalho por trabalho, e nada mais. Trabalho para vocês, lucros para Orlópio.
    Vale contar sobre a vez em que ele resolveu visitar um Jardim de Jasmins. Uma das flores lhe disse.

    Ó Orlópio, ó companheiro,
    Sois doce e bondoso,
    e tão cheio de dinheiro!


    Ao que ele respondeu:

    Jasmim do Jardim
    você pertence a mim,
    Gostaria de transformá-la,
    em rico capim.


    E essa era a política que ele havia adotado, transformava tudo em capim, que era usado para alimentar animais, que gerariam mais dinheiro. Além do mais, tais jardins serviam de lugar parao ócio, e Orlópio não gostava de ócio.
    O tabelião, tudo assistia compassivo, resignara-se com sua nova profissão e servia, submisso. Era dos funcionários, o mais leal.
    Porém um dia, suas mãos, já descrépitas, cessaram de escrever, não tendo mais utilidae, foi mandado à rua. Por lá achou alguém que escrevesse o que viu. Não entenda mal o nosso tabelião por sua servidão a Santo Orlópio, era um bom sujeito, inclusive quando veio a expirar, fugiu da face da Terra qualquer resquício de humanidade, foi o triunfo do Orlopismo. Seu único
    erro fora escolher tão mal seus escribas.

    Por esse textinho, tão chato e insosso
    Cinco tostões encheram meu bolso.


    Quase me esqueço de meu último fardo, narrar uma das observações do tabelião, na época em que Orlópio montava seu corsel. Era um cavalo refinado, de um olhar profundo, de trote lento, e de que o Santo costumava chamar "uma lerdeza nada lucrativa". Ao se deparararem com um inimigo ferido, Orlópio ordenou que fosse atropelado, mas o cavalo nada fez a não ser dar um olhar de consolo para o moribundo, que o levou a dar seu último suspiro, com estes dizeres "Dentre os dois que vejo, quem é o cavalo e quem é o homem?". O tabelião que à distância assistia a cena, apenas sorriu.

    FIM.

    Que me desculpe o leitor insatisfeito, mas quando começo esse tipo de divagação, nesse caso inspirado na música clássica de Falla e na Ética protestante e o espírito do capitalismo, tenho que escrever e divulgar em algum lugar, caso contrário, sou assolado pela idéia fixa, e depois, e pela idéia latente, que me retiram o sossego mental.
    Passar bem.
     
    Última edição por um moderador: 21 Ago 2005

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