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Gatos Empoleirados

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Pips, 19 Nov 2008.

  1. Pips

    Pips Old School.

    Gatos Empoleirados

    [size=xx-small]por Pips[/size]

    [align=right][size=x-small]para Amanda Brencys e Gabriel Tonelo[/size][/align]



    As noites à Boulevard de Rochechouart servem apenas para que o vento leve embora os papéis deixados pelos vendedores de Malboro na porta do metrô. Ainda consigo sentir o cheiro dos pombos que voaram durante o dia por aqui. Muitos deles. Sujos, doentes e cegos. Um bairro de africanos. Longe de ser algum tipo de comentário racista, mas quando os africanos, e assim que gostam de ser chamados, vêm para a França não se consideram franceses. Nem seus filhos ou netos nascidos aqui.

    O dia serviu a mim como luz para a leitura, não sai de casa para comer ou apaziguar as idéias. E ainda não tirei a idéia de que sextas-feiras são mórbidas e hoje é sexta-feira. Talvez devesse ir até o Sena, beber um vinho e ouvir os estudantes de intercâmbio tocarem músicas em inglês enrolado, pelo vinho ou pela péssima dicção. Isso pouco importa.

    Devo ressaltar que apenas sairei esta noite porque tenho saudades de Amanda. Da sua voz grossa, como a de uma cantora negra de R&B nascida no Mississipi, na vida passada fora uma escrava provavelmente, que cantava as dores de um dia ao lavar os poucos trapos que tinha. A voz exalta sua beleza caucasiano-italiana, com olhos levemente puxados, sorriso que mostra apenas os dentes de cima, uma beleza sem mácula do tempo, do ambiente e das pessoas. A única marca em seu rosto talvez seja das lágrimas que deixa cair. Sensível, amável e volúvel – eterna insatisfeita.

    Vou sem avisar. A única vantagem de ser sexta-feira é que eu sei onde ela estará, espero conseguir convencê-la a ir para outro lugar. Com certeza estará no Louvre, aproveitando que as sextas-feiras à noite o museu fica aberto e não é preciso pagar. Ela estará onde há peças egípcias. Visto um casaco surrado do Bruno, dono do prédio onde loco este apartamento, que guarda um maço de cigarros e um cantil vazio no bolso interno – que espera desesperadamente, quase como uma criança, ficar cheio até o gargalo. Todavia, dessa vez não irei de carro. Paris de carro é como beber vinho sem fazer sexo após.

    O metrô é a melhor opção. Algumas estações, algumas pessoas estranhamente parisienses – deslocadas em seu próprio habitat. “Odeio Paris no verão”, diz uma loira que não sabe como dosar o perfume que usa. A maior reclamação das pessoas que não conseguem viajar no verão é que a cidade não é para quem mora nela, é apenas para os estrangeiros. A classe média delira com nossas estátuas, museus, catedrais e no final vai até a Virgin para comprar algum eletrônico. Para falar a verdade, o que importa? O problema de Paris são as sextas-feiras, o resto é suportável.

    Chego ao Louvre pouco depois das nove da noite, esperando ansioso para vê-la, mas antes preciso de um cigarro-calmante, de um alívio ao soltar o ar que sai da minha boca. O cigarro é meu calmante e nada me faltará, apenas ela. O que há de tão belo em Paris que minha fumaça só faz enaltecer? Será que estou precisando de uma boa conversa, um bom vinho tinto, um bom vento nos cabelos, uns bons guris me pedindo trocado, um café amargo; a verborragia da amargura. Não interessa.

    Passo por esfinges, por pinturas e chego até as múmias. Lá está ela, vestindo uma blusinha preta, um sutiã vermelho (noto por causa das alças), um cachecol amarelo em volta do pescoço, calças jeans e sua bolsa de sempre, a do gato Felix. Amanda observa cuidadosamente os gatos empoleirados dos faraós. “Chats Perchès”, lembro. Ela adora gatos e eles a adoram. Quando está com Kittie, sua gata, Amanda conversa com ela pelos olhos, até em voz alta como Alice; recebe carinho, dá o colo para a soneca felina e recebe a confiança depositada em sete vidas não gastas. Ela permanece fixa ao ver os gatos, move apenas a ponta do nariz, como se evitasse chorar ver tanta beleza em apenas uma peça. “Salut, ma chérie”, falo com a voz calma para não assustá-la, “Servus, lieber Freund.”, sempre que pode, ela responde em alemão. E não existe nada mais bonito em uma mulher do que dominar este idioma. Ela sabe disso e me sorri de volta. Não sei se sou eu, minha visão embriagada por seu sorriso ou se é o ar que trouxe de fora no peito, mas ela estava inominável, inefável, inebriante e inquieta. Amanda era impessoal e isso que despertava meu interesse por ela, seu estado de estar fora dos padrões ou intrinsecamente ser uma pessoa que o mundo não merecia; um felino que ao andar chama a atenção, mas querendo sempre estar no seu canto, no colo de alguém, deixando o tempo levar suas vontades. Amanda era aquele sonho que não lembramos na manhã seguinte, mas temos certeza de que foi bonito.

    Ao sair do museu, nada mais apropriado: um vinho, um pequeno espaço a beira do Sena e Amanda. Ela deita no meu ombro e chora sem falar nada. O movimento é incógnito. E para ser sincero, não espero motivos, acasos e verdades, espero apenas que ela possa confiar suas lágrimas no meu casaco emprestado. Confio minha mão com a dela. Já acomodada ao meu silêncio, ela ronrona, esfrega o cabelo e quando me abraça é como se quebrasse minha espinha. O paraíso está longe. E eu não sei como eu poderia esquecer o que ela é para mim. O que representa não apenas fisicamente, quando faz minhas pernas tremerem, mas espiritualmente quando faz eu me sentir em paz. Quando me faz sentir que uma vida é o suficiente para estar com ela. O vento leva suas lágrimas.

    E era bem quando a noite estava encontrando o dia e a Lua, nosso satélite, deixava o céu, que Amanda repousou sua cabeça no meu colo. Aconchegando-se levemente, sem fazer muito esforço. Ela aperta mais forte minha mão e se entrega ao sono em meio à música que ainda tocava em sua cabeça. “Ne me quitte pás/ Je t'inventerai/ Des mots insensés/ Que tu comprendras”, ela canta em um tom inaudível. Consegui contemplar sua respiração e seu sorriso que demonstrava que estava em um sono profundo e sossegado como há tempos precisava; sonhou com o que devia sonhar e nisso eu não interferiria.

    “Não ouse esquecer de mim”, sussurrei em seu ouvido passando a mão pela maçã rosada do rosto. Ela respirou fundo: “Nie...”, foi a resposta que recebi. Essa foi a última vez que ela sonhou comigo, se é que era comigo. Adormeci também. Quando acordei, ela havia sumido.

    Era dia em Paris novamente, voltei para o metrô.

    Entrei no vagão, sentei e olhei um velho senhor tocar Sinatra em uma sanfona. O assento perto da janela está vago. Um gato branco de pêlos longos pulou do banco de trás para o que estava ao meu lado. Meu espanto roubou as palavras. Ele permanecia estático como se observasse a paisagem subterrânea. “Um gato branco”, disse antes que ele pulasse no meu colo e me encarasse como se há anos estivesse me procurando. Serei um gato empoleirado na próxima vida, ronronando a preguiça.
     

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