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[COLUNA] 90% honestos

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Morfindel Werwulf Rúnarmo, 29 Jun 2012.

  1. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Se há algo que sempre me surpreendeu e que nunca foi explicado muito bem por sociólogos e criminologistas é que a grande maioria das pessoas se comporta mais ou menos bem mesmo quando é baixo ou até nulo o risco de serem punidas pelos delitos que cometam. Um bom exemplo vem aqui mesmo do Brasil. Segundo a pesquisa Mapas da Violência 2011, de Julio Jacobo Weiselfisz, a polícia brasileira esclarece apenas 8% dos homicídios que investiga. A título de comparação, nos EUA e em países europeus, as taxas variam em torno dos 70% ou 80%. Basicamente, por aqui, num cálculo estritamente racional, pode valer a pena resolver uma disputa eliminando a pessoa que está criando dificuldades. As chances de jamais ser apanhado são bem maiores que as de sê-lo. Não obstante, a quase totalidade dos brasileiros jamais matou alguém e nem irá fazê-lo.

    Se não é o Código Penal que nos faz andar na linha, o que é? A lista de candidatos é grande. Vai de Deus e a religião ao imperativo categórico kantiano, passando por diversas explicações de cunho psicológico e até neurológico. Tirante Deus, que quase certamente não existe, acho que todos podem influir um pouco. E o problema aqui é justamente o "acho". É uma área onde abundam hipóteses, mas poucas delas estão calcadas em dados empíricos. Antes de tachar os sociólogos de incompetentes, é preciso lembrar que, em fenômenos complexos e multifatoriais como o crime, é sempre extremamente difícil quando não impossível isolar as variáveis.

    Análises estatísticas ajudam, mas não resolvem. Assim, a interpretação fica sempre ao gosto do cliente. Esquerdistas conseguem atribuir a delinquência a causas sociais, notadamente a desigualdade, enquanto a turma da lei e da ordem é capaz de atribuir os sucessos na redução da violência a uma ação mais enérgica da polícia e ao endurecimento da legislação. Até demógrafos sustentam, com razão, que movimentos como o envelhecimento da população desempenham um papel.

    Uma obra com pretensões de esgotar o assunto é "The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined" (os melhores anjos da nossa natureza: por que a violência diminuiu), de Steven Pinker, que já comentei numa coluna. Pinker não apenas lança luzes sobre a matéria como ainda mostra que, ao contrário do que sugerem nossas intuições e as manchetes dos jornais, a violência no planeta tem diminuído. E bastante. A grande virtude deste livro, que é a de estar calcado em sólidos dados históricos, paradoxalmente se torna um ponto fraco. Não contribui muito para isolar os fatores criminógenos, de modo que, nesse aspecto, continuamos tateando na penumbra.

    É nesse contexto que saúdo o recém-lançado "The (Honest) Truth About Dishonesty: How We Lie to Everyone --Especially Ourselves" (a honesta verdade sobre a desonestidade: como mentimos para todos --especialmente nós mesmos), do economista comportamental Dan Ariely. Em vez de buscar evidências na realidade, o autor se vale de um método muito mais abstrato, que é o de testar hipóteses com um bando de cobaias baratas como o são os estudantes universitários. Ariely não consegue, é claro, resolver a questão. Na verdade, sua obra tem menor alcance e menos fôlego que a de Pinker, mas ele abre uma avenida para novas investigações que, no futuro, poderão trazer as respostas que procuramos.

    De qualquer forma, mesmo sem conclusões definitivas, o texto de Ariely já traz elementos de sobra para nos fazer repensar boa parte do sistema de Justiça, como coloquei numa coluna para a edição impressa da Folha que hoje desenvolvo. O autor começa apontando os furos no paradigma clássico para a explicação de crimes, batizado de Smorc, acrônimo para Simple Model of Rational Crime (modelo clássico de crime racional). De acordo com essa teoria, formulada pelo Nobel em Economia Gary Becker, três fatores influem na decisão de cometer ou não um delito: benefício esperado, probabilidade de ser apanhado e pena cabível. Não por acaso, é nesse tripé que se assenta a alma do direito penal.

    A dificuldade com esse modelo, sustenta Ariely, é que ele não funciona. O pesquisador e seus colaboradores tentam mostrar isso através de uma série de experimentos em que as cobaias baratas, isto é, seus alunos, têm a missão de resolver no menor tempo possível o maior número de problemas matemáticos. Quem acertar mais ganha mais dinheiro. Só que os sádicos cientistas manipulam uma série de variáveis que descortinam a alma humana. Para começar, eles criaram um ambiente em que era perfeitamente possível roubar, ou seja, mentir sobre o número de acertos, sem medo de punições. Para isso, utilizaram um picador de papel, que destruía as provas do crime. Numa variante, os estudantes tiravam eles próprios de um pote o dinheiro a que declaravam ter direito. Em outra, viam um sujeito trapacear muito e escancaradamente e ser recompensado por isso.

    A conclusão mais básica a que Ariely e seus colaboradores chegaram é que quase todo mundo tapeia. Também descobriram que aumentar o valor do prêmio e alterar outros fatores do Smorc não muda em quase nada o desempenho alegado dos universitários. Elementos que se mostraram mais relevantes para elevar o nível de burla foram ver uma pessoa roubando e se dando bem (há algo de contagioso no crime) e atuar em grupo (a formação de quadrilha precisa ser evitada). Surpreendentemente, verificaram também que até detalhes aparentemente banais como utilizar uma peça de vestuário falsificada --uma bolsa de grife produzida no Paraguai, por exemplo-- têm efeito significativo sobre a fraude. A exaustão da força de vontade é outro insuspeito inimigo da lei. É o efeito "what the hell!" (mas que m...!).

    A hipótese de Ariely para seus achados é a de que nossa desonestidade é o resultado de uma contínua negociação entre dois elementos. De um lado, gostamos de obter vantagens (para nós, nossos próximos e, surpreendentemente, também para desconhecidos). De outro, precisamos manter para nós mesmos a imagem de que somos razoavelmente honestos, como convém a toda pessoa digna. O cérebro resolve essa contradição de uma maneira quase infantil: roubamos só um pouquinho. Na média, as pessoas se sentem confortáveis trapaceando em algo entre 10% e 15%. Desde que não extrapolemos nos cambalachos, nossa incrível capacidade de racionalizar faz com que nos beneficiemos do logro e ainda consigamos nos ver no espelho como seres humanos maravilhosos. Não é uma coincidência que o autor tenha detectado que pessoas mais criativas tendem a ser mais pródigas no logro. Elas teriam maior capacidade de engambelar a si mesmas.

    Seria precipitado, contudo, generalizar essas conclusões. Para começar, esse tipo de pesquisa tem sérias limitações. Trabalha com uma população muito homogênea e específica de jovens relativamente ricos e com índices de QI superiores à média da população. Ela também ocorre, como o autor bem aponta, num contexto totalmente artificial e desprovido de significação social. Não sabemos se, elevando substancialmente os valores envolvidos, de US$ 10 por acerto para algo como US$ 100 mil, os resultados seriam os mesmos. Também não sabemos o que ocorreria caso a família do estudante estivesse passando necessidades nem se as consequências de ser apanhado fossem muito mais severas do que olhares de desaprovação. Enfim, os experimentos são tão destacados do mundo real que não seria prudente interpretá-los como mais do que pistas que merecem investigações mais detalhadas.

    Apesar de ter chegado muito perto de dizer que todo mundo rouba pelo menos 10% (estou aqui exagerando as coisas em algo como 15%), Ariely evita terminar o livro com um tom excessivamente pessimista. Para ele, é bom constatar que não rapinamos nossos semelhantes em 100% quando temos certeza de que escaparemos à punição, como prevê o modelo puramente racional. Basicamente, as pessoas não trapaceiam o bastante.

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