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Carlos Drummond de Andrade

Tópico em 'Autores Nacionais' iniciado por Ogden, 1 Nov 2002.

  1. ricardo campos

    ricardo campos Debochado!

    Fodástico, o poeta itabirano :yep:


    Esse poema Sete Faces de Drummond deu vida a muita coisa. Uma versão do Torquato Neto.

    LET'S PLAY THAT
    Torquato Neto (musicado por Jards Macalé)

    Quando eu nasci
    um anjo louco muito louco
    veio ler a minha mão
    não era um anjo barroco
    era um anjo muito louco, torto
    com asas de avião

    eis que esse anjo me disse
    apertando minha mão
    com um sorriso entre dentes
    vai bicho desafinar
    o coro dos contentes
    vai bicho desafinar
    o coro dos contentes

    Let's play that
    Do CD Torquato Neto - Todo Dia É Dia D
    Vários Artistas, Dubas Música, 2002
     
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  2. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    À pedidos da Ceinwyn, que é daquele tipo de ordem que a gente faz de muito bom grado, vou postar aqui um poema do Drummond do livro Claro Enigma, que é meu livro dele preferido:

    Lembro-me que o povo do Meia tava reclamando que não passava da primeira estrofe quando lia poesia, e aí eu sugeri que eles tentassem ler o poema de trás pra frente, pois isso funcionava com alguns, como os sonetos (visto que eles seguem um silogismo).

    Esse poema do Drummond é consideravelmente difícil, mas, se você lê-lo de trás pra frente, ele fica bem mais fácil: assim, o poeta diz logo de cara que, no profundo instinto de existir (algo meio animalesco), ele quer anular a criatura. A próxima estrofe, que na leitura normal seria a penúltima, dá uma ideia disso: sentir o espetáculo do mundo que é feito de mar ausente e abstrata serra: e aí basta o leitor imaginar uma paisagem sem mar e sem serra. Em outras palavras, você não bem anulou a criatura, mas anulou os meios dessa criatura existir (isto é, o espaço).

    A próxima estrofe nessa leitura inversa fala da música que é breve e a noite que é longa. Ou seja, a música é insuficiente para a noite, e essa noite talvez seja a noite do Nada advinda do mar ausente e da abstrata serra. Mas, logo depois, Drummond fala num alfanje (numa espada) que ceifa o sono e o sonho (onde sono+sonho=noite), e os ceifa devagar, como se esse alfange atrapalhasse a noite, como se ele atrapalhasse o mais profundo instinto de existir. Mas esse alfanje mal se desenha, fino (afiado, talvez), ante a falange das nuvens esquecidas de passar: e isso pois, segundo nossa leitura, o espaço se dissociou.

    E essa clima de nada é o que nos confrange, conforme diz a última (a primeira) estrofe. A luz crepuscular é a luz que percorre o livro Claro Enigma inteiro e que se dissocia apenas no último poema do livro. O não saber quem toca o sino é uma forma de alienação que nos massacra mas que, ao mesmo tempo, não corresponde ao nosso profundo instinto de anular a criatura, pois a simples busca por saber quem tange esse sino em meio ao nada é uma espécie de luta contra a não-existência, pois buscar saber o espaço que nos cerca é também uma forma de conhecimento.

    Essa contradição parece ser a tônica do poema analisado separadamente; se fôssemos analisar ele no contexto do livro, aí já teríamos que considerar o amor como uma forma de anulação da criatura etc (e, de modo geral, a descoberta do amor como solução ao tom crepuscular do poema que seria explicitada no poema MARAVILHOSO "Campo de Flores").

    O título dá uma ideia disso também: fraga e sombra, rocha e sombra. Ou, em outras palavras, espaço e indivíduo, essa contraposição fundamental que Drummond desenha de forma magnífica (reiterando o que disse anteriormente, o termo "fraga", para além do "sombra" a que me referi, também tem conotações ao longo do poema. Mesmo porque, de resto, fraga remete ao "Uma pedra no meio do caminho").
     
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  3. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Última edição por um moderador: 6 Out 2013
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  4. Sejong

    Sejong Óculos Torto

    Eu não gosto de Drummond, tem apenas poucos poemas dele que eu aprecio um pouco.
     
    • Bobo Bobo x 2
  5. Amy Fowler

    Amy Fowler Visitante

    Drummond também deixou uma mensagem de ano novo:

    Receita de Ano Novo

    Para você ganhar belíssimo Ano Novo
    cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
    Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
    (mal vivido talvez ou sem sentido)
    para você ganhar um ano
    não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
    mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
    novo
    até no coração das coisas menos percebidas
    (a começar pelo seu interior)
    novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
    mas com ele se come, se passeia,
    se ama, se compreende, se trabalha,
    você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
    não precisa expedir nem receber mensagens
    (planta recebe mensagens?
    passa telegramas?)

    Não precisa
    fazer lista de boas intenções
    para arquivá-las na gaveta.
    Não precisa chorar arrependido
    pelas besteiras consumadas
    nem parvamente acreditar
    que por decreto de esperança
    a partir de janeiro as coisas mudem
    e seja tudo claridade, recompensa,
    justiça entre os homens e as nações,
    liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
    direitos respeitados, começando
    pelo direito augusto de viver.

    Para ganhar um Ano Novo
    que mereça este nome,
    você, meu caro, tem de merecê-lo,
    tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
    mas tente, experimente, consciente.
    É dentro de você que o Ano Novo
    cochila e espera desde sempre.

    Discurso de primavera e algumas sombras. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979, p. 115.
     
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  6. matheuslol

    matheuslol Usuário

    Vou ressuscitar o tópico porque queria uma opinião dos apreciadores de Drummond, qual livro vcs acham que seria o ideal pra começar a ler ele? Manjo pouco de poesia (não queria começar por antologia poética por ser caro haha)
     
  7. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Mas é que a
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    é realmente o melhor custo-benefício!

    Outra opção seria você procurar pelos volumes da Poesia Reunida do Drummond. Se não se importar com livros velhos, recomendo a edição de 70, com uma capa horrorosa mas a meu ver a melhor entre todas que foram lançadas: digo isso em especial pelo fato de você ter o arco de 10 livros do Drummond, até o Lição de Coisas, que são meio que a parte mais importante da sua poesia (os outros livros possuem uma notória queda de qualidade), e pois você tem uma introdução do Antonio Houaiss que já é meio clássica. (Essa edição de 70 é só um livro; nas outras eles foram colocando em mais de uma edição.) É esse aqui:

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    Se quiser uma edição mais recente do Poesia Reunida, aí é comprar os livrinhos da BestBolso:

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    Agora se quiser comprar ou ler um livro em específico, recomendo pra você o A Rosa do Povo. Acho ele mais acessível, e, em muitos sentidos, é um dos melhores do Drummond e dos melhores da poesia brasileira, em especial por unir com grande felicidade uma poesia participante e social a uma poesia esteticamente bem realizada.
     
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  8. matheuslol

    matheuslol Usuário

    valeu pelas sugestões @Mavericco . Mas sobre a "antologia poética", tenho uma dúvida, não faria mais sentido pegar um dos livros "normais" dele? Tipo, até onde eu saiba, um livro de antologia poética funciona mais ou menos como um "greatest hits", pra um leitor iniciante não seria melhor pegar um livro com poemas de assuntos interligados? (como é o caso da "rosa do povo" ou "sentimento do mundo"?

    não sei se deu pra entender direito a dúvida haha
     
  9. Mavericco

    Mavericco I am fire and air. Usuário Premium

    Sim, geralmente o funcionamento das antologias é esse. Mas essa antologia do Drummond foi feita pelo próprio Drummond, seguindo algumas linhas de força que ele enxerga na própria poesia (e a divisão dele é bem acurada). Então os poemas que ele seleciona, e da maneira que seleciona, permitem uma espécie de fio da meada -- ou isso que você disse de assuntos interligados -- tranquilamente!
     
  10. Kainof

    Kainof Sr. Raposo

    "A Rosa do Povo" tem vários dos melhores poemas do Drummond, na minha opinião. E é o meu livro preferido dele. Se quiser começar por esse também é um bom caminho.
     
  11. Taefel

    Taefel Hobbit grande

    Sou conterrânea de Drummond, achei lindo quando ví esse tópico. :coxinha:

    Vou postar uma poesia que é meio clichê mas que como todo itabirano sinto muito orgulho em compartilhar e estranhamente eu realmente me identifico com o "ser itabirano" orgulhoso, de ferro que Drummond sabiamente observava naquelas ruas de pedras que ainda estão lá:

    Confidência do Itabirano

    Alguns anos vivi em Itabira.
    Principalmente nasci em Itabira.
    Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
    Noventa por cento de ferro nas calçadas.
    Oitenta por cento de ferro nas almas.
    E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

    A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
    vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

    E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
    é doce herança itabirana.

    De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
    esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
    este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
    este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
    este orgulho, esta cabeça baixa...

    Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
    Hoje sou funcionário público.
    Itabira é apenas uma fotografia na parede.
    Mas como dói!

    :(
     
    • Mandar Coração Mandar Coração x 1
  12. Fúria da cidade

    Fúria da cidade ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ

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    Carlos Drummond de Andrade tinha 22 anos quando, em 1925, escreveu o artigo "Sobre a Tradição em Literatura", publicado n'A Revista, de Belo Horizonte. Com a arrogância típica dos jovens, apontou a caneta contra Machado de Assis. Arremessando pedra e relativizando a importância dos clássicos, acusou o autor de "Dom Casmurro" de ser um romancista "tão curioso e, ao cabo, tão monótono", dono de uma obra clássica, "porém sem nenhum classicismo autêntico".

    Não satisfeito, Drummond disparou uma profecia pra lá de furada: "O escritor mais fino do Brasil será o menos representativo de todos. Nossa alma em contínua efervescência não está em comunhão com sua alma hipercivilizada. Uma barreira infinita nos separa do criador de Brás Cubas. Respeitamos a sua probidade intelectual, mas desdenhamos a sua falsa lição. E é inútil acrescentar que temos razão: a razão está sempre com a mocidade".

    Machado monótono? Machado como escritor menos representativo de todos? Razão sempre com a mocidade? É bom saber que um intelectual do quilate do mineiro de Itabira também já escreveu bobagens colossais. Em todo caso, é curioso notar que, durante o achincalhamento, Drummond dá indícios de sua admiração pelo próprio bruxo do Cosme Velho (apesar de conter certa ironia, apontá-lo como "escritor mais fino do Brasil" deixa transparecer esse reconhecimento).

    Essa rusga do autor de "A Rosa do Povo", "Sentimento do Mundo" e "Claro Enigma" com o colega carioca ainda duraria algum tempo, mas com o tempo se transformaria em admiração. É isso que mostram os artigos e notas reunidos pelo Hélio de Seixas Guimarães, pesquisador e professor livre-docente na USP, no cativante "Amor Nenhum Dispensa uma Gota de Ácido – Escritos de Carlos Drummond de Andrade Sobre Machado de Assis" (Três Estrelas).

    Antes do amor, o ácido em mais algumas estocadas contra os clássicos. Em "T'aí!", também de 1925, Drummond defende que o modernismo brasileiro deveria deixar de respeitar o peso da tradição. "Não posso negar o passado: um enforcado não pode negar a corda que lhe aperte o pescoço. Mas tenho o direito de declarar que a corda está apertando demais, puxa! E que o melhor é cortá-la duma vez. A boa gente do passadismo não deixa a tradição descansar… É tradição pr'aqui, tradição pr'acolá…", argumenta, para depois alegar que nomes como Shakespeare, Dante e Goethe só se tornaram gênios justamente porque "desrespeitaram a tradição, tiveram a coragem bonita de espirrar com o próprio nariz!". Na sequência, ainda chama de "hipócrita" o leitor que enumera nomes como esses para arquitetar uma defesa do tradicional.

    Brigando pela liberdade criativa dos pares de sua época, que não deveriam se preocupar demais em seguir linhagens literárias já estabelecidas, Drummond debate-se contra a tradição e, por extensão, contra a visão a respeito do próprio Machado. No entanto, mais maduro, muda o tom com relação ao bruxo e passa a reconhecê-lo como "nossa figura máxima". Num elogio que evidencia essa conflituosa relação que nutre, escreve em artigo de 1950:

    "O autor de 'Quincas Borba' peca por esse vício inicial de escrever bem, bem demais, excessivamente bem. Não é recomendável que se institua um modelo dessa ordem, num país ainda novo, que deve cultivar sobretudo as suas forças primitivas e cósmicas". Exemplo máximo da reverência escancarada, não mais conflituosa, está em "A Um Bruxo, Com Amor", publicado no Correio da Manhã de 1958, poema no qual o Drummond apoia-se em escritos do próprio Machado. Nele, o mineiro enaltece o mestre: "Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro". E continua: "Onde o diabo joga dama com o destino,/ estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,/ que revolves em mim tantos enigmas".

    Ao longo dos escritos reunidos no volume organizado por Guimarães, Drummond ainda demonstra um particular interesse pela carreira de burocrata do colega – o poeta mineiro também foi um burocrata, não custa lembrar – e encampa a briga contra a transferência do corpo de Machado e Carolina, sua esposa, do cemitério onde tinham sido enterrados para a sede da Academia Brasileira de Letras (ABL). Nesses momentos, transparece um discurso que soa oportuno ainda hoje. "E o que faria d. Carolina de Assis nesse panteão privativo de acadêmicos, ela que nunca pertenceu à Academia, a qual por sua vez jamais admitiu mulheres em suas poltronas?", questiona em artigo de 1958. Ainda sobre a companheira de Machado e a ABL, volta ao tema em no ano seguinte, quando lembra que Carolina "não foi acadêmica, nem podia sê-lo, pois a corporação é misógina".

    Drummond morreu em agosto de 1987. Já no final da vida, em um breve fragmento de 1986 no qual comenta a sua formação de leitor, aproveitou para admitir as rusgas de outrora com o autor que tanto admirou: "Cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez ou outra lhe tenha feito umas má-criações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido. É mesmo o sinal menos que prova, pela insignificância e transitoriedade, a grandeza do sinal mais. Se me derem Machado na tal ilha deserta, estou satisfeito: o resto que se dane, embora o resto seja tanta coisa amorável".
     
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  13. Loveless

    Loveless Usuário

    O Modernismo é realmente intrigante: ao mesmo tempo em que prega pela renovação máxima e pela jovialidade, não ironicamente é, em certos aspectos, bastante careta.
     
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