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Yoran, Gúrik e a eternidade

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por theflep, 21 Mar 2007.

  1. theflep

    theflep Usuário

    Mais um conto! Respeitem os direitos autoriais e arranjem-me um ilustrador. LOOL.

    Era uma vez um grande homem. Não um homem com uma grande alma ou de grandeza ímpar. Falo-vos, literalmente, de um grande homem. Gúrik Piuo tinha mais de dois metros de altura! Era bem mais alto que certos Elfos Superiores! E posso dizer-vos que era igualmente monstruoso quando falava. A sua voz grave e suja parecia vir de dentro da gruta de um Anão! Com tal qualidade daria um bom padre… Mas era mercenário! O que tinha a mais em tamanho faltava-lhe em cabeça. Não é que fosse pequena, mas tinha-a muito vazia… Talvez por isso a enchesse com um turbante branco que só deixava à espreita alguns cabelos castanhos e não filtrava nenhuma da sua a inferioridade intelectual. Era um homem respeitado pelo seu tamanho e pela sua grande moca de ferro pesado. Ou talvez fosse apenas a moca a zelar pelo respeito…
    Gúrik tinha um amigo de vida, também ele mercenário. Dava pelo nome de Yoran, o Rápido. Yoran era um jovem muito correcto e inteligente. Bem sei que é difícil aceitar um mercenário como sendo um bom homem, mas se não o era, estava muito perto disso. O seu corpo magro e a infância de brincadeiras de rua tornaram-no um dos mais rápidos e ágeis daquelas terras, por isso lhe chamavam o Rápido. Não tinha mãe nem pai, mas havia vivido e convivido muito com os anciãos daquela terra, ficando bastante culto e letrado, para um mercenário. No entanto, a ausência de família tinha-o tornado rebelde e irreverente, talvez mesmo um revoltado.
    Edsarien era conhecida como a Ilha dos Mercenários e era, de todo, verdade. Tratava-se de uma grande porção de terra rodeada por água e era habitada, quase totalmente, por mercenários. Sendo assim, e sem originalidade mas com muita coerência, os povos do continente chamavam-lhe Ilha dos Mercenários. Edsarien tinha apenas dois lugares: a cidade e a montanha. A montanha era habitada por Anões que forjavam armas e procuravam metais. Um golpe inteligente dos pequenos seres que tinham ali o melhor lugar de negócio da história. Afinal os mercenários só precisam de armas! E isso era o que os Anões tinham para dar e vender! Bom… na verdade só vendiam. Deveis estar a questionar-vos porque razão todos os mercenários se tinham instalado naquele lugar. Pois bem, dizem os velhos magos que, em tempos remotos, aquela ilha era usada como local de exílio para criminosos e pensadores demasiado pensantes. E foram-se juntando e juntando… até serem muitos ou, pelo menos, os suficientes para fundarem uma cidade: Edsarien, como já disse.
    O que é um facto é que agora, em vez de os quererem longe, os reis e outras gentes de posses pagavam pelos serviços dos melhores mercenários. O jovem Yoran, com apenas 23 anos já era o mais famoso dos mercenários. Não só pelos seus sucessos profissionais mas principalmente porque nunca passava pelo continente sem criar alvoroço.
    Certa manhã, ainda o moço dormia nos seus aposentos desarrumados quando bateram à porta. Não acordou mesmo com o som estridente do ferro. Toda a cidade era de metal retirado da montanha e comprado aos Anões. A grande maioria era ferro, mas as zonas mais ricas tinham grandes quantidades de cobre, prata e ouro. Voltaram a bater! Mas Yoran nem se moveu. Não era como os outros, que ficavam nas tabernas até muito tarde e depois mal dormiam ou nem sequer o faziam. O Rápido dormia até tarde porque gostava de o fazer. Bateram com mais força! Desta vez o moço moveu-se nos cobertores grossos. Edsarien era uma cidade sem luz. Imaginai uma grande cápsula de ferro. Um enorme esfera de ferro com um dos hemisférios enterrado no solo. Bem maior do que estais a pensar. Era realmente grande! Do tamanho de uma cidade de Homens!
    — ABRE A PORTA, YORAN!!! – desta vez o berro foi de tal forma intenso que o jovem saltou da cama! Encolhia-se no escuro, cheio de frio. Espreitou pelo vidro redondo da entrada e deparou-se com um rosto redondo e de barba semi aparada. Era Gúrik.
    — O que foi, mercenário? Isto são modos de me acordar? Demónios te levem, ó Grande! – Yoran sorria na cara sonolenta – Não sabes que gosto de dormir? O que te traz a esta hora? – o visitante demorou a responder. Parecia atrapalhado.
    — Que raio, Gúrik Piuo! Fala comigo! O que te trouxe tão cedo?
    — Hum… – que voz grave! – Era apenas uma razão, mas aconteceu outra coisa… Olha para a porta…
    — Raios, Piuo!!! Não era preciso amolgar o ferro!! Não queres começar a bater com a moca?! – respirou fundo – E qual é a segunda razão? Espero que compense! – o homem grande sorriu.
    — Compensa sim! Recebeste uma carta do Rei de um Reino dos Homens a pedir para te apresentares perante ele! Parece que quer os teus serviços!
    — Que bela notícia, Gúrik! Ah…! e os Reis são sempre de Reinos, não precisas de o dizer, meu aselha!
    E caminharam juntos pelos corredores escuros de Edsarien até alcançarem os portões da cidade. Eram gigantes e bem iluminados com tochas. Havia quatro guardas sempre a controlar quem circulava, era necessário ter a certeza que não vinha ninguém estranho. Na verdade havia quatro mas só um deles costumava estar sóbrio. A maior parte do seu tempo era passada a rir-se das bebedeiras dos colegas de posto.
    — Bom dia, meus senhores! – disse o único dos sóbrios. Os outros dormiam e um deles vomitava para o chão da entrada. Era uma das banalidades das manhãs daquela terra. Yoran respondeu com um acenar de cabeça e um sorriso. Gúrik soltou um som grave e imperceptível. Passaram os portões e caminharam para a estação.
    — Ainda não me disseste onde vamos, Piuo.
    — Vamos??? Mas foste tu o chamado pelo Rei!
    — Sim… se o dizes… Mas eu não trabalho sem te ter comigo. Por isso vens.
    Edsarien, a Ilha dos Mercenários, visto que tinha muitos dos grandes intelectuais e sábios daquele tempo estava bem mais avançada que as outras cidades em termos tecnológicos. Eram os únicos a ter algo que se parecia com um comboio, mas de rodas muito largas para o movimento ser mais rápido. Funcionavam com um mecanismo avançado de alavancas e rodas dentadas, que necessitava de dez homens para se movimentar. Não era luxuoso nem belo, mas era barato e rápido. Circulavam sobre carris que contornavam a montanha dos Anões e atravessavam a vegetação da ilha até chegar ao porto de Edsarien. Assim foi. A viagem durou poucas horas de solavancos, contando com as pausas para descansar os maquinistas. No final do dia estavam prontos para embarcar rumo ao continente de Valiënór. Era um dos maiores continentes daquele mundo e o nome estava na língua dos Elfos Superiores, dado que era considerada a língua mais nobre da Terra. Traduzido para a língua corrente, dos homens, Valiënór significa terra grandiosa, e era realmente um continente vasto em gentes e terras.
    Os dois amigos navegaram na noite e no dia e por mais uma noite. O céu não lhes fazia boas promessas, pois à chegada ao cais de Valiënór, na Baía de Veor, estava frio e as nuvens cobriam as terras com cinzentos carregados; carregadas de cinzento, de água e, na pior das hipóteses, raios rasgantes e trovões. Ficaram numa pensão barata onde fizeram tudo o que mercenários gostam de fazer numa pensão barata, onde há mulheres e bebida. Yoran ficava-se apenas pela primeira, pois não via prazer em beber.
    A manhã seguinte havia nascido sem o brilho que se deseja. O sol não aparecia e a Estação Fria adivinhava-se furiosa, como era costume. As nuvens continuavam carregadas com os mesmos ingredientes e aparentavam esperar por ordens para os descarregar. Acordaram depois da hora do Sol Alto, era assim que chamavam ao meio-dia. Yoran, como habitualmente, ficou na cama de palha até ser incomodado. Primeiro foram os raios de sol, depois uma sucessão de estrondos vindos do piso inferior. “Nunca se pode dormir!” pensou.
    — Gúrik… – disse com os olhos fechados e a vós trémula – Vai ver o que se passa lá em baixo. Está muito barulho. – esperou mas não obteve resposta – Por favor! Sabes como gosto de dormir… – e voltou a esperar resposta, mas em vão – Mas porque raio é que…! Gúrik?! Onde te meteste? – o seu amigo não estava na cama do lado oposto do pequeno quarto de madeira. E o barulho intensificava-se com gritos e vidros quebrando-se. “Não posso crer!”
    Correu pelas escadas até chegar à taberna e…
    — Não é possível…! O que se passou aqui Piuo? – estava tudo destruído. Minto, ainda restavam algumas garrafas que tinham a sorte de conter “vinho do bom” como o homem grande lhe chamava. O empregado pasmava tal aparato. E os clientes que haviam escapado pareciam ter visto um dragão. No chão encontravam-se dois corpos estendidos e com as roupas rasgadas e ensanguentadas.
    — Não tive culpa, Yoran. Eles roubaram-me um copo de vinho! – o mais jovem suspirou e começou à procura de algo nos bolsos.
    — E tu o que fizeste? (Se é que preciso de perguntar…)
    — Eu?! Nada! Só lhes dei uma lição!
    — Então porque partiste toda a sala? – tentava não sorrir. Apesar da gravidade da situação, Yoran estava acostumado àquele tipo de comportamentos no seu amigo.
    — Porque este senhor – apontou para o empregado – disse que eu sou um homem rude! – desta vez foi impossível conter o riso! Yoran soltou uma gargalhada como nunca vista num homem sóbrio, dentro daquela taberna. Depois o silêncio intensificou-se mais. E de seguida tirou um saco cheio de moedas de ouro, do seu bolso direito. Tentou não sorrir muito e disse:
    — Aqui tem suficiente para uma taberna nova. – e se a brutalidade de Piuo tinha causado alvoroço, o dinheiro do seu companheiro ainda o tornara maior! Ouviu-se um grande “Oooh” na sala. O espanto era geral! – Tenha um bom dia, senhor.

    Mais uma vez os dois amigos haviam deixado marca em terras nas quais eram forasteiros, mas cada vez menos desconhecidos. Caminharam durante sete dias e sete noites sob o céu de má profecia. O escuro das nuvens adensava-se até que ao sétimo dia, e depois de caminhos pedregosos, de noites ao frio e de ventos cortantes, eis que o céu não suportou mais o peso das águas e dos trovões, e decidiu descarregar tudo de uma vez, como se a terra algum mal tivesse feito. “Teremos de nos apressar” pensaram. E estugaram o passo pelas planícies do Sul onde, ao fundo, já se avistavam bandeiras escarlates, dos Reinos dos Homens. E a sua chegada deu-se sob o crepúsculo tempestuoso. Foram imediatamente recebidos por um soldado que os aguardava nos grandes portões de carvalho. Toda a cidade era protegida por muros altos e desabituados à guerra, onde arqueiros desatentos fingiam estar vigilantes. Mas não era necessário porque nada de mal acontecia naquele lugar desde as guerras territoriais do início dos tempos. Como não havia relevos naquelas terras, o palácio era contornado por uma fossa cheia de água, condimentada com seres menos amigáveis. Em redor erguia-se todo o resto da cidade, que não irei descrever, pois seria demoroso e não é isso que nos importa neste momento. Além disso, devido à tempestade, Yoran, o Rápido e Gúrik Piuo, o Grande, não tiveram nem interesse nem visibilidade para apreciar as casas altas e os locais de culto e de lazer. Na verdade, era uma cidade movimentada e quase sempre bem frequentada, mas o mau tempo obrigava as gentes a ficar nos seus lares ou nas tabernas, para os que delas gostava.
    Não tardou e estavam numa sala do palácio. As suas roupas foram secadas à lareira e as suas armas tiveram de ser guardadas por questões de desconfiança. De seguida, o mesmo guarda que os havia esperado, guiou-se pelos corredores vazios até chegarem a uma porta alta, larga e escarlate, contendo algumas inscrições douradas numa língua estranha para muitos.
    Yoran, mesmo sendo letrado, não tinha conhecimentos sobre as línguas arcaicas. Mas suspeitava de que aquelas inscrições fossem o nome do Reino. Do outro lado da porta alguém tocava flauta. Era possível ouvir-se algumas das notas mais agudas. Logo depois abriu-se a passagem para o salão Real. Não era longo nem colossal como era comum ver-se entre os palácios dos Homens. Era apenas espaçoso e requintado, com ornamentações em ouro aqui e ali e sem os habituais pilares graves e imponentes a suportarem o tecto. Na frente da porta, do outro lado da sala, estava um homem num trono com dois lugares. Certamente o segundo, que se encontrava vazio, estava destinado à sua mulher. Também isto era novo para os dois amigos.
    — Yoran, achas que nos enganámos? Isto não está a ser como é normal. Nem há Rei! – sussurou Piuo, se é que aquilo era sussurrar. Mas o outro manteve-se calado e de olhos no flautista. Ou talvez observasse o instrumento, que era digno de toda a atenção. A sala era má iluminada e apenas o tocador se encontrava dentro dela. Não era alta e dava a sensação de ser um semi-ovo gigante, se me for permitida esta descrição. Caminharam até junto do tocador. Ele parou a música e olhou-os com um falso sorriso nos lábios. Piuo sussurou:
    — Quinze passos! É a sala Real mais pequena que já visitámos!
    Depois o senhor do sorriso levantou-se e, pousando a linda flauta no assento vazio, cruzou os braços atrás das costas e falou, fixando-se em Gúrik:
    — Então sois vós Yoran, o Rápido…? Ajoelhai-vos!
    Gúrik pareceu atrapalhado mas não obedeceu. Nem ele nem o seu companheiro.
    — Senhor, eu não sou esse senhor. Yoran é este senhor que está aqui ao meu lado! – o seu amigo riu-se baixinho. E o flautista repetiu aborrecido.
    — Ajoelhai-vos! Sou o Rei destas terras! – o mais pequeno dos amigos não cedeu. E além disso falou com ousadia.
    — Não quero saber de onde és Rei e não estou aqui para cortesias. O que queres de nós? – o Grande ficou nervoso. Ficava sempre assim quando o seu amigo falava com soberanos.
    — Seu mercenário insolente! – talvez tenha pensado na necessidade que tinha nos serviços de Yoran e acalmou-se – Quem é esse outro?
    — O seu nome é Gúrik Piuo e é o meu parceiro de trabalho.
    — Só pago a um! – gritou.
    — Ouviu alguém a pedir? Aqui quem pede é o senhor. E já é tempo de o fazer.
    — Sois corajoso…! O que tendes a mais que todos os outros da tua laia?
    — Sou mais rápido, mais eficaz e mais caro. – a última palavra não agradou aos ouvidos do rei sem coroa. – e comprimindo a face, o rei disse uma palavra apenas:
    — Prova-o! – mas era mesmo isso que Yoran queria ouvir. Então retorquiu.
    — Diga ao seu guarda que me degole aqui mesmo e verá a minha eficácia. – o rei também não se mostrou surpreendido ou, pelo menos, não o deu a entender.
    — Assim seja. Guarda! Corta a garganta a estes dois mercenários.
    O guarda levou a mão tímida à bainha mas essa não tinha a respectiva arma! Então Yoran, com um sorriso e para espanto de todos os presentes, tira do bolso um punhal de tamanho médio e diz:
    — Sem isto julgo que será difícil para ele degolar-me a mim ou aqui a Gúrik cujo pescoço é um nadinha mais grosso ainda. – então, muito embaraçado, o guarda tenta chegar ao tornozelo direito, procurando algo. Mas Yoran continua.
    — Gúrik, sê um cavalheiro e dá a este homem a sua navalha suplente que escondi antes de entrarmos nesta sala...Está no teu bolso direito. – e com espanto o Grande tira do bolso uma faca reluzente.
    — Basta!!! – gritou o rei – És bastante bom no teu ofício, pelo que vejo. – e o Rápido interrompeu-o com ironia.
    — Será também preciso provar que este é Gúrik Piuo, o Grande? – e o seu amigo sentiu-se mais nervoso e sussurrou:
    — Mas eu não tenho maneira de provar isso, Yoran! – o outro riu-se discretamente enquanto o flautista prosseguiu.
    — Receberás quinhentas moedas de ouro pelo teu serviço. – mas o Rápido não se surpreendeu.
    — Eu disse que sou mais caro.
    — Mais caro e mais insolente! Mil moedas e não aumento mais.
    — Assim sendo, passe muito bem. Vamos, Gúrik. – e deram meia volta para sair do salão, até serem barrados pelo guarda desarmado que os acompanhara. Mas o rei falou.
    — Três mil moedas de ouro! – e balbuciou baixinho – Maldito sejas!
    Os mercenários voltaram.
    — Aceito! – gritou Piuo entusiasmado. O seu amigo mostrou-se realmente interessado.
    — O que iremos fazer?
    — Terão de matar alguém que vos será indicado.
    — Não mato mulheres nem crianças. E só matarei um homem se me deres razões para tal. São as minhas condições de sempre. – o flautista sorriu com o mesmo cinismo da primeira vez.
    — Para um assassínio pareces demasiado preocupado. Quero que mates um longo inimigo do reino. Tem sido difícil caçá-lo, pois é costume estar com protectores poderosos e mestres nas artes guerreiras. É um ladrão de flautas miserável. Rouba-as e vende-as aos ferreiros que as querem. – os dois amigos ficaram confusos. Porque queria alguém matar um ladrão de flautas?
    — Queres que mate um homem só porque rouba flautas? – o rei contraiu a face, zangado.
    — Só!? Dizeis “só”?! Sabeis o que significam as inscrições que, de certo, visteis na entrada?
    — Suponho que sim. Se se tratar do nome deste Reino as inscrições dizem-nos “Liëmpínar”.
    — E sabeis o que isso significa? De certo que não! “Povo das flautas!”, na antiga língua dos Elfos. Compreendeis agora? É como roubar o ouro dos Anões! – depois suspirou e voltou a sentar-se. Piuo mantivera-se calado todo o tempo.
    — Seja, então.
    A sala redonda estava escura, e depois das palavras de Yoran pareceu ainda mais escura e desanimada. Só as tochas se ouviam a estalar no silêncio. O rei acenou ao guarda e este cedeu a passagem. Os mercenários saíram sem cortesias nem despedidas, só tencionavam fazê-lo depois de receberem o pagamento. Foi-lhes entregue um papiro com as indicações necessárias para a missão. Apressaram-se para o exterior. A cidade parecia adormecida, mas ao ouvir o tilintar das moedas de Yoran, abria-se sempre uma porta ou uma janela disponíveis a negociar. Compraram mantimentos para vários dias, e ainda um cavalo negro e robusto. Montaram-no e, debaixo da tempestade e através da penumbra, trotaram para Ocidente em direcção às Montanhas Verdes, como indicava o papiro. Mas o caminho era longo e sabiam que, mesmo sendo um bom cavalo, esse não aguentaria todo o caminho. Por isso decidiram avançar junto ao rio para que o animal saciasse a sua sede sempre que quisesse.

    Passados cinco dias o negro corcel estava exausto e ferido numa das patas. Não muito longe, avistava-se uma floresta densa, na qual o rio penetrava delicadamente. Então Yoran disse para o fiel cavalo:
    — Podes partir, amigo. A ajuda que nos deste foi de grande valor e estamos-te muito gratos por isso. Segue em paz… És livre! – e terminando tais palavras acariciou a face negra do animal, que parecia chorar em seus olhos profundos e brilhantes. Parecia querer responder, mas apenas se baixou cortesmente, pois homens e cavalos só comunicavam por movimentos, nestas terras.
    Mas, segundo o mapa, a caminhada levaria, pelo menos, mais dez ou quinze dias e os dois mercenários não estavam preparados para tanto. Eram terras desconhecidas aos seus corpos mas familiares aos seus ouvidos. O rio atravessava a Floresta de Tavárir onde se dizia existirem espíritos. Havia muito tempo que não conversavam, pois sabiam que todas as energias eram preciosas naquela jornada, mas Gúrik falou, porque sabia que se avizinhavam maus tempos.
    — Yoran… o tempo melhorou provisoriamente, mas resta-nos pouca comida e temos ainda vários dias de caminho. Talvez o preço deste serviço não seja alto que baste para arriscarmos as nossas vidas. – terão sido as palavras mais sensatas alguma vez proferidas pelo Grande. Mas o Rápido agarrou bem no saco e nas armas e caminhou para Ocidente, como estava no papiro.
    — No fim tudo estará bem e o dinheiro estará nos nossos bolsos. E eu tenho-te para me protegeres! Que mal me pode acontecer? – e riram-se com força e uma alegria que durou até voltarem a olhar para o caminho.

    Chegado o crepúsculo, o rio havia descido por entre as rochas das montanhas que se avizinhavam e a Floresta estava ultrapassada sem dificuldades, pois a orla Oriental era desabitada pelas criaturas que falavam. Em boa verdade, Tavárir significa espíritos na antiga língua nobre dos Elfos, mas não havia qualquer espírito naquelas terras que não fosse o espírito da própria Terra. O que acontecia era que certas criaturas, outrora escravas dos Homens, haviam estabelecido uma morada secreta na sombra das folhagens, onde falavam e se aplicavam em espantar os visitantes, nunca sendo vistas! E criou-se o mito tolo de que a floresta era assombrada! Mas as criaturas só circulavam na parte Ocidental da orla (a qual os dois amigos não haviam pisado) para estarem longe dos Homens e de outras criaturas malignas.
    Porém, os perigos não tinham passado porque perto do sopé dos Montes Verdes, havia uma toca de Lurtok! Os Lurtok eram seres indesejáveis e temíveis, mesmo pelos mais valentes. Eram bestas do tamanho de ursos, bípedes, de garras longas como facas e com um apetite insaciável. Passavam os dias a caçar e a dormir. No Verão refrescavam-se no rio e na Estação Fria ficavam nas suas tocas quentes e imundas pelo cheiro dos cadáveres coleccionados ao longo do ano. Eram também conhecidos como Bestas Corcundas, pois os seus dorsos possuíam uma saliência grave que se erguia mais alto que a face. E os seus rostos eram feios e selvagens, vertendo constantemente um suco negro que dizem ser venenoso. Não tinham a audição apurada mas o olfacto era melhor do que o focinho de qualquer cão de caça. Como era Inverno, a grande maioria descansava e comia na toca. Mas nunca fiando…

    Já não havia água por perto, pois o rio tinha fugido por entre as rochas e entrado num fosso profundo e afunilado, para dar de beber aos Montes Verdes. Por isso Yoran e Piuo tinham de começar a gastar as reservas compradas em Liëmpínar. Decidiram passar a noite junto ao sopé da montanha e acenderam uma fogueira. Sabiam que não era seguro fazê-lo no meio do falso vazio da penumbra, mas a floresta estava a alguns metros e as criaturas que lá vivem não estão habituadas a de lá sair. Por isso confiaram na sorte. E mal tiveram tempo de enganar a fome e a sede quando ouviram um rugido seguido de mais dois ou três, ainda mais graves que a vós de Gúrik! E passos céleres e pesados se aproximavam! O Grande ergueu-se com um pedaço de pão na boca, saltou por cima do fogo e num gesto robusto arrancou Yoran da terra e prendeu-o em cima do ombro direito.
    — Bestas Corcundas! Não chegaremos vivos à manhã seguinte! – e correu o mais que as suas pernas permitiram e quando se achava bastante longe largou o Rápido e esse correu veloz pelos Montes Verdes procurando abrigo. Mas os rugidos tornaram-se ferozes e numerosos, e a noite silenciosa tinha-se tornado gravemente agitada.
    — Aqui, Gúrik! Havemos de tornar a ver o sol! – e o luar mostrava que não muito longe se aproximava uma das Bestas. Mas o Grande saltou para o meio da densa vegetação onde já se deitava Yoran. E cobriram-se com o manto com que dormiam e se abrigavam da noite, do frio, da chuva e, agora, dos Lurtok. Mas esses seres eram persistentes e incansáveis, e em pouco tempo o tremor dos seus passos intensificou-se até chegar muito perto dos dois amigos, que se estendiam no chão molhados, cobertos pelo manto e pelo medo. E sabiam que àquela distância seriam descobertos, por isso Gúrik, saindo do esconderijo, rebolou até aos inimigos e num golpe certeiro rachou o crânio da Besta mais próxima. Mas esse acto de loucura teria sido o seu fim, não fosse a aparição de um vulto negro na escuridão! E o luar revelou que o vulto era o cavalo negro que os havia acompanhado quase todo o caminho! Bravo e imponente se exibia, e inundado em cólera, ergueu-se gritando sobre os Lurtok e quase os fez sentir terror! E de entre as silvas saltou o Rápido, encorajado pelo corcel, desembainhando a sua espada longa e habilidosa. Os Lurtok, que eram dois, hesitaram e recuaram. Foram trocados olhares durante longos e penosos segundos, até as Bestas perceberem que três presas juntas e fortes eram demasiado difíceis de caçar e voltarem para o escuro das suas tocas no sopé dos montes, não muito longe dali.
    O cavalo acabara de salvar os mercenários. E Yoran, sempre o mais justo que a um mercenário se pode exigir, agradeceu cortesmente.
    — Esta foi a noite em que a nossa amizade se eternizou, amigo. Muito obrigado! Chamar-te-ei Naroy, o Escuro, se não te importares. – e não se importou ou nada mostrou tal. Ditas tais palavras, Yoran caiu no chão, desamparado, exausto e sem sentidos.

    A viagem prosseguiu, sem Naroy, mas com Yoran levado no robusto ombro direito de Gúrik, que também começava a sentir a fadiga a apoderar-se das suas pernas. As Montanhas Verdes eram um lugar seguro, comparando-o com quase todos os lugares de Valiënór, por isso o Grande decidiu descansar na berma do carreiro folhado, junto a uma velha árvore de raízes salientes e confortáveis para o efeito. Os pássaros cantavam e a brisa penteava a folhagem da orla verde e clara da floresta, produzindo um som suave e confortante. Não tardou e adormeceram, apesar do frio que ali se encontrava devido à altitude.

    De manhã, quando os primeiros raios dourados de sol romperam por entre as copas largas e o vento ainda soprava brando, Gúrik já estava preparado para continuar, mas algo lhe dizia que Yoran iria acordar em breve. E assim foi, acordou, trocaram os bons dias e nada mais. Toda a força era preciosa e só os “bons dias” eram essenciais. Partiram em direcção às Terras de Úquen, que na língua dos Homens significa Terras de Ninguém. O provisório céu azul tornou-se menos azul e menos limpo à medida que caminhavam. E passaram-se vários dias e várias noites até que, quando já desciam as colinas se começou a avistar um vasto descampado de terra seca e vazia, onde só a poeira parecia ter vida. Estavam demasiado perto, segundo as informações do papiro, mas nunca era demasiado para o Rápido e o Grande. Por isso procuraram abrigo nas árvores e nas rochas até que no sopé das Montanhas Verdes encontraram o lugar ideal: uma fenda larga que se abria num grande penedo. No seu interior quente e escondido havia espaço para tudo o que levavam ou, pelo menos, era isso que o eco dava a entender, já que a escuridão não lhes permitia ver nem um Lurtok a dois passos de distância, se lá houvesse algum. Desejaram que não! Esperaram pelo crepúsculo para avançar. O escuro era a melhor protecção que tinham antes das suas próprias armas. Não usavam elmos nem malhas de ferro ou armaduras. Até os escudos eram pouco usados pelos mercenários. A lua trouxe consigo o frio e os sons e os bichos da escuridão, mas nada a que não estivessem acostumados. O pior era o frio que lhes dificultava os movimentos. Foi então que a terra estremeceu para os lados do Norte, com um grande temporal que se aproximava. Ali apenas caíam poucas gotas falsamente inocentes, às quais o vento se juntou numa brincadeira da Natureza, que parecia aguardar a chegada da tempestade. Yoran e Gúrik Piuo avançaram sob o luar e as estrelas douradas que começavam a ser interrompidas por nuvens cinzentas. Piuo mantinha a moca de ferro presa no cinto grosso enquanto que Yoran avançava sorrateiramente com uma longa lâmina forjada por Anões, na sua mão direita. A noite já cheirava a morte… chegaram a um aglomerado de cabanas, nas Terras de Úquen, dispostas em torno de uma fogueira que, por sua vez, aquecia um grupo de homens que se sentavam à sua volta, enquanto riam e bebiam. Escondidos no mato, Yoran e Gúrik preparavam a ofensiva.
    — O papiro diz que é um homem de longos e negros cabelos e de corpo pequeno, do tamanho de um Anão, talvez. Como não está nenhum cá fora terei de investigar nas cabanas. Primeiro esconder-lhes-ei as armas e depois matarei o alvo, assim que o encontre.
    — E o que faço eu, Yoran?
    — Irás distrai-los depois de esperares 3 momentos. Mas não sejas rude! Finge-te amigável. Tentarei chegar antes de teres que actuar.
    “Um momento”, para os dois amigos, era o tempo que levava contar até cem de uma forma regular e com um ritmo já interiorizado. Tinham de o saber fazer para serem bem sucedidos nos trabalhos, pois o único relógio daquele mundo era o Sol e no caso, era noite. Além disso o Sol não é exacto quando se trata de contar pequenas fracções de tempo. Por isso haviam criado o momento como unidade de contagem, para aquelas ocasiões.
    Yoran saiu sorrateiro e deslizou veloz sob o pó que dançava no descampado, até se esconder novamente por entre uns barris que se amontoavam nas traseiras de uma das cabanas. A sua lâmina estava ansiosa. Decidiu espreitar por entre as fendas. O escuro não deixava ver muito, mas devia ser apenas armas. Não arriscou em ir buscá-las, pois teria de penetrar pela entrada que estava virada para o lume. Seria perigoso demais. Na outra extremidade estava uma tenda iluminada e que revelava uma silhueta de um homem aparentemente pequeno. Foi então que Yoran se deitou e, confiando na noite e na sua agilidade, rastejou para onde a luz do fogo não alumiava. Quando se achou invisível e suficientemente longe para que não fosse sentido nem ouvido, levantou-se e desapareceu na penumbra.
    Gúrik contava como um relógio, “cento e noventa e dois, cento e noventa e três…” Desde o final do primeiro momento que tinha perdido de vista o companheiro.
    Poucos segundos e o Rápido já se encontrava muito perto da cabana iluminada. Mas seria um golpe difícil entrar nela sem chamar a atenção. Teria de fazer uso do seu nome e fugir rapidamente. Colou-se de pé em frente do pano acinzentado e ergueu a lâmina faminta. Em menos de nada desferiu um golpe cortante que lhe deu possibilidade de rolar e desferiu um segundo golpe, desta vez fatal e saneador para a sua espada, antes do qual apenas deu tempo à vítima para o ver, pois uma das suas regras era não matar sem que o vissem. Lá fora ouviram-se perguntas desconfiadas e os risos foram interrompidos e substituídos por perturbação. Um dos homens correu para a silhueta estendida no solo e desviou o pano da tenda violada. Yoran já não estava presente e tinham-lhe sido concedidos segundos preciosos.
    — Assassino!!! Mataram-no!!! Correu para o bosque! Há um assassino por perto!
    Gúrik que acabara de dizer “trezentos” e se aproximava para as cabanas sentiu uma mão no seu ombro que lhe foi familiar.
    — Sou eu, amigo! Temos de fugir para a gruta onde guardámos os mantimentos. Eles estão à nossa procura.
    O Grande não falou e movimentou-se para a gruta, tentado estar coberto pela vegetação ou pelo escuro. Nem sequer questionou o sucesso do seu amigo porque sabia que ele jamais falharia. Tochas foram acesas e espadas foram apressadamente afiadas. Era a caça ao homem!
    Após cerca de uma hora chegaram ao esconderijo mas não lhes seria possível fugir. Isto porque o fogo dos perseguidores destacava-se não muito longe. Ficaram e confiaram na sorte. E a lâmina de Yoran voltou a ficar ansiosa quando se ouviu um grito que disse “Procurem nas pedras! Procurem fendas! Eles têm de estar perto!”. E o Grande pegou na moca enferrujada e colocou-a no ombro. Esperou de pé mergulhado na penumbra da caverna. O Rápido colocou a espada faminta na bainha e pegou num arco largo talvez tão forte como os arcos dos Elfos. E juntou-se a Gúrik, de coração inundado em medo e com uma réstia de esperança que se afogava.
    Os homens fortes e de aspecto guerreiro e experiente encontravam-se à boca da fenda! Mas antes que qualquer tocha perturbasse a escuridão que se adensava no seu interior, uma flecha assobiou contra a garganta do mais ousado, que ia na frente. Caiu morto, todos os outros ficaram alerta e começou o ataque! E antes que o segundo entrasse assobiou nova flecha mortal! E a moca de Gúrik esmagou o peito do primeiro que se aproximou! O Rápido desembainhou a espada e ainda o som dessa ecoava quando caiu nova vítima. Mas a luta era desigual e a penumbra havia sido destruída pelas tochas, o que revelava os mercenários. Foi uma batalha feroz e longa. A confusão instalou-se e as armas batiam e cortavam e espetavam! Havia gritos e gemidos! A luta durou poucos momentos, mas suficientemente longos e intensos para causar a morte a todos os que ousaram perseguir o Grande e o Rápido. Esses, banhados em sangue e seriamente feridos, caíram na rocha fria, agora aquecida pelos cadáveres.

    Sob si próprios, os Montes Verdes guardaram o sangue e foram consumindo os corpos naquele buraco. A morte chegaria para os mercenários numa questão de tempo. Mas após uma noite Gúrik abriu os olhos que nada viram porque a luz do luar era incapaz de penetrar na fenda estreita e protegida da caverna. “Estarei morto? Conseguimos? Estarei cego?” Tentou levantar-se mas sentiu uma forte picada nas costas que o fez gemer de dor (coisa muito rara nesse homem). Não sabia como tinha acabado a batalha sangrenta, mas sentia no ar a putrefacção dos corpos. Rastejou ainda com dúvidas sobre se estava na Terra ou no mundo dos mortos, até tocar num cadáver que fedia. E continuou a procura por Yoran, em vão. Rastejou o mais que conseguiu e durante demasiado tempo, o que começou a causar-lhe estranheza. Talvez até começasse a acreditar que estava mesmo morto. Porém, após minutos ou talvez horas, avistou uma luz azul muito vaga, que vinha do fundo do túnel. Rastejou o mais depressa que as forças lhe permitiram sem se importar com as dores que sentia em todo o corpo. E ao chegar ficou momentaneamente cego, pois os seus olhos já estavam desabituados à luz, mesmo sendo de fraca intensidade, como aquela. Teve a impressão de ouvir vozes ou murmúrios vindos da penumbra. Sombras moveram-se do seu lado oriental. Mas, sem forças, apenas moveu os olhos procurando algo, com certezas de que morreria se se tratasse de uma sombra inimiga. Ou talvez fosse apenas uma cobra ou um rato… Gúrik procurou a fonte da luz, mas não estava ao alcance do seu corpo, nem sequer do seu olhar. E de súbito, quando tentava mais uma vez forçar o seu corpo a mover-se, sentiu algo por baixo de si. Com o braço direito, talvez a parte do seu corpo menos ferida, encontrou um pedaço de pão que lhe restara da noite fatal. Comeu-o e, sentindo-se melhor, continuou a rastejar dolorosa e lentamente pela pedra dura e rugosa da caverna. Não havia avistado a fonte luminosa anteriormente porque esta se encontrava numa cavidade lateral do fim do túnel. Mas agora que estava mais perto, Gúrik Piuo era capaz de ver de onde vinham os raios azuis que o haviam motivado a continuar rastejando.
    Estendido no beco do túnel, deparava-se com uma fabulosa escultura de pedra branca, do seu lado ocidental. Uma figura feminina erguia-se imponente, envolta num vasto manto de capuz bicudo e longo que revelava um rosto estranhamente belo. De olhos grandes e largos e pestanas longamente encurvadas e de lábios grossos e, permitam-me, muito sensuais. Os cabelos não eram longos nem curtos e faziam ondas regulares e detalhadamente esculpidas, que ocultavam parte da face, mas não a perturbava. Parecia sorrir e o olhar fitava o vazio do escuro. No seu braço direito erguia um bastão fino e alto que na sua extremidade superior, suportava um gume azul e brilhante do qual a luz era irradiada. O braço esquerdo segurava o manto, no ombro oposto. As pernas curtas e bem torneadas terminavam em pés descalços e de quatro dedos grossos. Não era uma figura de elevada estatura, nem parecia Homem, Anão ou Elfo. Era, por isso, estranha e desconhecida aos olhos do Grande. Na base alta da estátua, encontrava-se uma rocha que a suportava e continha inscrições na língua dos Elfos Superiores. As runas douradas sobre a rocha eram donas de um brilho que dava a sensação de ter vida e movimento. Gúrik observou-as mas não as compreendeu.
    Foi então que se sentiu inundado de paz e os seus olhos voltaram a fechar-se num sono profundo que jamais algo ou alguém saberá quanto durou.

    — Gúrik! Gúrik! Acorda ó Grande! – foi então que voltou a acordar depois do longo sono em que caiu. Abriu os olhos pesados vagarosamente e, apesar de ofuscado, reconheceu o rosto de Yoran, que o chamava.
    — Yoran! Pensei que tínhamos morrido os dois. – disse com a voz arrastada que ecoou pelo escuro. Yoran empunhava uma tocha que ardia e iluminava uma pequena parte da gruta.
    — Ora essa, amigo Grande! Já devias saber que somos invencíveis. Temos de sair daqui Gúrik. E tu estás em melhor estado que eu, pelo que vejo. – o Rápido tinha o braço esquerdo ao peito, preso por um pedaço de pano. Além disso os seus dedos apresentavam um aspecto arrepiante dado que se encontravam deformados e ensanguentados. O resto do seu corpo possuía inúmeras feridas e cortes profundos. Apercebendo-se, Piuo ficou pasmado.
    — Yoran!!! Como suportas as dores desse teu braço? – e de súbito levantou-se e ergue-se de pé, mas nem se apercebeu de tal.
    — Não suporto! Porque nem o sinto! Deve estar despedaçado por dentro… Nada que um médico de Edsarien não cure com a ajuda do tempo. – e fez uma pausa, retomando mais sério – Gúrik… como é possível o teu corpo estar limpo e inteiro, sem grandes feridas nem cortes graves? – ao que Gúrik Piuo não soube responder. Mas depois viu-se de pé e olhou para o seu corpo, confirmando as palavras do Rápido. Como poderia ser? E as picadas nas costas? E as dores intensas? Até que algo se passou na sua mente.
    — Foi magia, Yoran!!! Foi magia!!! – e os seus gritos toscos e graves acordaram todos os seres que pudessem haver sob as Montanhas Verdes.
    — De que falas, tolo? – respondeu Yoran.
    — É esta bela deusa de pedra branca que aqui está!!! Não percebes? Ela curou-me! Tenho a certeza! – arrancou a tocha das mãos do seu amigo e espetou-a no chão, mesmo diante da figura esculpida. “É realmente estranho…” pensou o Rápido. E Piuo prosseguiu.
    — Quem me dera eternizar o fogo desta tocha como homenagem à estranha Deusa. – e depois suspirou – Quem me dera…
    — Pareces preocupado, homem grande. – e os dois mercenários tremeram de medo como nunca o haviam feito, pois aquela voz não era a de nenhum deles. Era rouca, gelada e arrepiante. No lado oposto à figura de pedra revelava-se um vulto armado com um pequeno punhal. Possuía vestes pobres e gastas a sua face era de um tom cinzento ou verde, não se percebia. Talvez uma mistura dos dois. Na parte inferior dos olhos haviam marcas escuras de forma alongada e que se estendiam das orelhas pequenas até muito perto do nariz. Os lábios eram grossos! Tinha muitas semelhanças ao ser de pedra.
    — Homem grande, apenas a magia dos Elfos ou de Magos poderosos tem o poder de eternizar algo… – e Gúrik percebeu que não viria perigo daquela criatura e o seu medo desapareceu.
    — Mas eu quero que a chama seja eterna! Desejarei para sempre que a chama ilumine esta sala na qual fui salvo pela Deusa! – Yoran mantinha-se atento e silencioso, pois sabia mais do que todos pensavam que ele sabia. A criatura falou novamente.
    — Desejas para sempre?! – sorriu – Tens a certeza que sim? E se os outros que vos perseguiam retomassem contra vós agora mesmo? Querias luz aqui? Desejas para sempre, homem ousado? Nem sequer é uma Deusa que aí está, em boa verdade. É uma Bogdúk, do Povo Escondido! Chama-se Ändu e mais não vos direi, se é que já não disse demasiado. I mánu I Ändu esta símen. O espírito de Ändu repousa aqui. Desejas para sempre…? E poderás afirmá-lo com sensatez? – voltou-se, desaparecendo na escuridão como um fantasma. Então o Rápido quebrou o silêncio.
    — Vamos, Gúrik. – o outro parecia desalentado. Pondo a mão no ombro do seu amigo, Yoran disse – Temos um prémio para receber.
    E, caminhando lado a lado pela noite, retomaram o trajecto de volta que agora aparentava ser mais curto e mais fácil e, certamente, os seus pensamentos pairaram sobre a estátua de pedra branca e sobre lição do Bogdúk…
    Desta vez tinham comida e medicamentos, pois tinham-nos ido roubar ao acampamento dos homens que os haviam perseguido.

    O regresso foi alegre e menos cauteloso e Yoran cantava e falava muitas vezes. Mas algo estranho atormentava o Grande. Foi então que o Rápido cantou os versos predilectos do seu companheiro.

    Oh! Oh! Venham, venham tolos!
    Pois ficareis sem pele e cabelos!
    Porque a moca e espada irão saciar
    A sua sede de tolos partir e rachar!

    Oh! Oh! Morram, morram tolos!
    As entranhas as carnes e os ossos,
    Quando a moca pesada vos alcançar,
    Não haverá tolo que fique para contar!

    Oh! Oh! Os que vierem tolos serão!
    E se não fugirem como cobardes,
    Ouvindo as rezas dos gordos abades
    Acabarão, estendidos dentro dum caixão!

    E Yoran riu-se! Riu-se bem alto e descuidado esperando o riso do seu amigo. Mas esse apenas sorriu para não ser desagradável.
    — Conta-me, amigo. – disse o Rápido – Estás estranho. Esta música faz-te gargalhar como um bêbado! Porque não te ris como era costume? O que te atormenta? – Gúrik cessou os passos largos e parou.
    — É que… eu queria mesmo agradecer à estátua.
    — Não te moas por isso, ó Grande! Pensa nas três mil moedas de ouro que receberemos do Rei! E sei que foi estranho e que pareceu magia. Mas se tiveres de agradecer algo, o tempo acabará por fazer justiça, como é seu costume, e dar-te-à oportunidade de mostrares gratidão convenientemente. – mas ele não se alegrou.
    — Não é só isso, Yoran. – fez uma pausa – é que não percebi as palavras daquele ser estranho que nos falou no escuro. Pareceu sábio, mas não o entendi… – O Rápido sorriu e pondo a mão sobre o ombro alto de Gúrik, disse:
    — Não entendes, Piuo? Não podemos afirmar a eternidade de um desejo. E caminharam lado a lado em passa lento e, ouvindo os murmúrios do bosque, sonharam com mil forças de gastar a merecida recompensa Real…
     
    Última edição: 21 Mar 2007

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