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Técnicos brasileiros no limite

Fúria da cidade

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No limite
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Casos de Cuca e Abel mostram que problemas de saúde são cada vez mais comuns em técnicos de futebol


Cuca assume de vez o comando do São Paulo amanhã (2). Na quarta-feira há expectativa pelo retorno de Abel Braga aos jogos do Flamengo. Além de títulos, passagens por grandes clubes e reconhecimento nacional, pelo menos outra realidade une esses dois treinadores: tiveram sérios problemas ao atingir seus limites físicos e mentais no trabalho. Viram-se obrigados a trocar a lateral do campo e a prancheta por ambulância, sondas e hospitais em um processo que vira e mexe se repete graças ao estresse inerente à função.

Os motivos são muitos. Sob constante julgamento, "cornetagem", cobrança por resultados, problemas para lidar com diferentes esferas do clube e (principalmente) sem cuidados com a própria saúde, os técnicos estão sucumbindo à pressão. No mês passado, em Minas Gerais, um treinador de 56 anos sofreu um infarto no vestiário logo depois do jogo. Ele ainda está se recuperando, sem previsão de alta, enquanto seu auxiliar vai dirigindo o time. O coração dos técnicos está em perigo.

"Os clubes não ligam para a saúde do treinador. Querem o resultado do domingo e da quarta e pronto", desabafa um técnico que teve princípio de AVC no intervalo de uma partida. Além dele, outros personagens ganham destaque ao longo deste especial de UOL Esporte. Inclusive um profissional tão preocupado com a saúde que chega a fazer mais exercícios que seus jogadores antes das partidas.

Síndrome de Burnout? Medo de repetir o caso de Telê Santana? Falta de preocupação dos clubes? Entre arritmias, infartos, derrames e picos de stress, uma aflição é recorrente: o futebol pode matar.

Mike Hewitt/Fifa


Thiago Ribeiro/Agif

Abel Braga já sofreu duas vezes com arritmia cardíaca


O técnico do Flamengo foi proibido de comparecer ao Maracanã ontem, para a final da Taça Rio. Há cinco dias, ele deixou o mesmo estádio em uma cadeira de rodas direto para a ambulância. A vista escureceu, ele ficou pálido e caiu em um profundo mal-estar que o fez deixar o gramado logo após o gol da vitória do Flamengo sobre o Fluminense, antes do apito final. Abel Braga, de 66 anos, sofreu arritmia cardíaca no trabalho.

A arritmia é um tipo de mau funcionamento do coração, uma mudança no ritmo das batidas geralmente ocasionada por ansiedade e estresse. No caso de Abel Braga, segundo o médico João Marcelo Castelpoggi, pela "emoção do jogo e a agitação". Não é a primeira vez que o treinador sofre deste mal. Em 2015, quando trabalhava no Al Jazira, dos Emirados Árabes, também foi hospitalizado com quadro de arritmia. Para tentar evitar que o problema volte a se manifestar ele foi submetido a uma ablação, procedimento não invasivo.

Abel Braga espera comandar o Flamengo na quarta-feira, às 21h30, contra o Peñarol, pela terceira rodada da fase de grupos da Copa Libertadores. Sem sustos.

Marco Galvão/FotoArena/Estadão Conteúdo


Cuca viu "a vida passar toda na cabeça", conta médico


Cuca dirigiu o Santos por quatro meses no ano passado. Ele assumiu em agosto, com o time na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro e às vésperas de decisões na Copa Libertadores e na Copa do Brasil. O Peixe ficou em décimo lugar, distante da ameaça da Série B, mas foi eliminado nas oitavas de final do torneio continental após um imbróglio jurídico com a Conmebol, batalha campal no Pacaembu e quartas de final da Copa do Brasil com direito a decisão por pênaltis após jogo de muita polêmica - o árbitro Rodolpho Toski encerrou o jogo contra o Cruzeiro no meio de um contra-ataque do Santos, antes de acabar o tempo dos acréscimos. Foi naquele dia que a saúde de Cuca gritou.

"Foi um jogo muito tenso. A gente saiu perdendo, 50 mil pessoas no Mineirão e o Cuca tem uma história muito grande no Estado. Então, a gente virou o placar, teve a questão da revolta e aquela tensão de ter perdido nos pênaltis. Depois do jogo, a gente voltou para o hotel e ele parecia bem. Mas, no dia seguinte, sentiu um desconforto muito forte e optamos por ir ao hospital fazer exames. Naquele momento de hospital, solitário, a vida toda passa na cabeça. Aí ele tomou a decisão", conta Jorge Merouço, ex-médico do Santos que acompanhou Cuca ao hospital em Belo Horizonte.

A decisão a que ele se refere é uma pausa na carreira de técnico. Cuca tinha um entupimento arterial que poderia evoluir e causar complicações cardiovasculares. A solução foi ficar só no descanso desde novembro. Mas amanhã volta o stress: é o dia marcado para ele assumir o comando do São Paulo, time com que fechou contrato em 18 de fevereiro e que tem sido dirigido interinamente por Vagner Mancini. Saúde, Cuca.

Pico de estresse não é medido pela aparência, e sim pelo que você é submetido e como reage a isso. O Cuca é tranquilo, ponderado, equilibrado, mas o estresse do trabalho diário, durante um jogo que define tudo, é incomensurável. Esse acúmulo junto com os fatos do jogo, que mudam a cada movimento, leva a um estresse muito grande


Jorge Merouço, Médico do Santos por 23 anos

Os treinadores 'top', em determinados momentos, precisam de um tempo sabático para desenvolver os seus hobbies. É a escada de emergência, o extintor de incêndio. Senão a cabeça explode. Chega uma hora em que transborda, é uma tensão muito grande para uma pessoa só, a pessoa que é o gestor disso tudo, o maestro

Sobre a "pausa" da carreira de Cuca

Reprodução/Facebook

Técnico infartou no Campeonato Mineiro

No último dia 17, logo após uma vitória por 3 a 0 no estádio Parque do Sabiá, pelo Módulo II (equivalente à segunda divisão) do Campeonato Mineiro, o técnico do Uberlândia Esporte Clube passou mal e precisou ser hospitalizado. Aos 56 anos, Ademir Fonseca, campeão paulista de 2002 pelo Ituano, infartou no vestiário.

Seu estado de saúde chegou a ser considerado grave. Mas ele passou por cateterismo e angioplastia e colocou stents (pequenas próteses inseridas nas artérias) para restabelecer o fluxo sanguíneo do coração. Ele tinha histórico de hipertensão arterial e seu estado ainda inspira cuidados, apesar do risco de morte ter sido afastado. Em razão de uma insuficiência renal, uma nova cirurgia está programada para esta semana. Já são quinze dias de internação, sem previsão de alta. Enquanto isso, seu filho Winnicius é quem dirige o time interinamente.

Pelas redes sociais, Ademir Fonseca tem publicado textos de desabafo e reflexão: "Nossa vida é um sopro. Cada vez mais, valorizo a vida, porque temos direito de ter uma só. Então, amigos, tentei ser melhor todos os dias, principalmente com as pessoas, para tentar fazer diferença na vida de alguém. Não espere acontecer algo de terrível para você tentar mudar, talvez você não tenha tempo."

SOS técnico: outros casos


  • Telê Santana
    Comandante da seleção brasileira nas Copas de 1982 e 86 e bicampeão mundial pelo São Paulo em 92 e 93, o treinador estava à frente do Tricolor em janeiro de 96, quando começaram os problemas de saúde. Ele deixou o clube e voltou a Belo Horizonte para se cuidar. Sofreu uma isquemia cerebral. Em 97, chegou a aceitar convite do Palmeiras, mas não assumiu. E a partir de então os problemas se agravaram. O calvário terminou em 19 de abril de 2006, quando Telê morreu aos 74.

    Imagem: David Cannon/Getty Images

  • Muricy Ramalho
    Antigo auxiliar de Telê, Muricy teve brilhante carreira como treinador até 17 de maio de 2016, quando se sentiu mal, foi internado e teve diagnosticado quadro de fibrilação arterial, um tipo de arritmia cardíaca motivado pelo estresse. Ele já havia passado por uma internação em UTI em 2014, pelo mesmo problema do coração enquanto trabalhava no São Paulo. Ainda sofreu com pedras no rim, diverticulite e hérnia de disco. Decidiu parar de trabalhar no Flamengo e hoje é comentarista do Grupo Globo.

    Imagem: Reprodução/Instagram

  • Renato Gaúcho
    Técnico campeão da Libertadores pelo Grêmio em 2017 passou por uma cirurgia no coração para corrigir quadro de arritmia em janeiro deste ano. O quadro não apresentava risco de morte, mas poderia trazer problemas futuros e fazê-lo passar mal outras vezes. Em operação de quatro horas, houve a cauterização de algumas regiões do coração. O procedimento ocorreu num sábado, ele passou 24 horas na UTI em observação, e na terça-feira já apareceu para comandar treino no clube.

    Imagem: Daniel Vorley/AGIF

  • Ricardo Gomes
    Por volta dos 20 minutos do segundo tempo de um jogo entre Flamengo e Vasco, em 28 de agosto de 2011, Ricardo Gomes foi atendido por médicos do Vasco e em seguida carregado até a ambulância, porque não conseguia ficar de pé. O técnico do Vasco teve um AVC hemorrágico e seu quadro foi considerado grave - no ano anterior, já tinha passado por uma vasculite, um pequeno AVC. Foi operado por três horas e sobreviveu. Segue trabalhando. Até fevereiro, foi gerente do Bordeaux (FRA).

    Imagem: Jean Catuffe/Getty Images
Fernando Maia/UOL

Anderson/Almirante Barroso

"Meu auxiliar me ligou e não consegui atender"

Renê Marques hoje é diretor-executivo do Almirante Barroso, time que disputa a segunda divisão do Campeonato Catarinense. Ele é ex-goleiro, com passagens de destaque por Grêmio Barueri e Bahia. Virou técnico depois da aposentadoria das chuteiras e viveu um drama em 2016, quando comandava o Naviraiense, do Mato Grosso do Sul.

"Eu acordei bem, normal, sem sentir nada, só a adrenalina do jogo mesmo. Desci para o intervalo e meu auxiliar me ligou. Fui atender e não consegui atender com a mão esquerda. Não levei a sério, pensei que tinha adormecido. Levei o celular pro lado direito. Aí fui pegar uma água na mureta com o braço esquerdo e não consegui. Peguei com a direita e o celular apoiei com o ombro, não me toquei. Mas aí começou a formigar meu rosto, minha perna, o lado esquerdo todo, até eu começar a falar torto. Nosso fisioterapeuta me acalmou, mas já chamou a ambulância. Quando percebi, estava deitado na maca, com médicos em cima de mim. Tive um princípio de AVC", conta.

Renê ficou em observação e repouso, mas se recuperou. Ele tem pressão alta e tentou começar a se cuidar depois do problema: "Nos dois primeiros meses você fica chato, não come nada errado. Depois volta a viver normal. Mas, às vezes, eu me alerto e dou uma segurada. Estou mais consciente." Ele até voltou às funções de técnico após o episódio, mas migrou para a gestão.

Os clubes não ligam para a saúde do treinador. Querem o resultado do domingo e da quarta e pronto. Não querem saber se você passa por uma pressão psicológica gigante, se precisa de apoio, se tem estrutura. O mesmo cuidado que os clubes têm com atletas deveriam ter com o treinador, porque a pressão é muito maior nele do que em outros envolvidos


Renê Marques, Ex-goleiro e técnico

Eu fui bem atendido em Naviraí, difícil é a família. Minhas filhas [Maria Eduarda e Maria Fernanda] ficaram sabendo pela internet. Entraram no site para ver o resultado do jogo do pai e se depararam com aquilo, fotos horríveis minhas na maca. Já pensaram o pior, se desesperaram. Eu fiquei um tempo incomunicável ainda. Mas no fim deu certo

Sobre como a família soube do AVC

4 cuidados que um técnico de futebol deveria ter com a saúde
Segundo Páblius Staduto Braga, médico gestor do Centro de Medicina Especializada do Hospital Nove de Julho-SP

Getty Images


Conhecimento


"Saber de suas capacidades e fraquezas físicas ajuda a determinar limites para o envolvimento com a equipe. Sem perder a responsabilidade e mostrando o mesmo talento. Completas avaliações médica, comportamental e psicológica podem ajudar na preservação da saúde e no tratamento"

Reprodução/VisitaLesund.com


Escape


"O profissional do futebol tem em suas veias uma personalidade competitiva intensa. Mas, quando não está em campo, não consegue dar vazão para tanta energia gerada. Portanto ele deve aproveitar o tempo livre para soltar esta energia praticando esportes ou atividades que deem prazer físico importante"

Foto: Divulgação/ Seres


Descanso


"Ter tempo para descansar e renovar energias. Como a atividade é mentalmente intensa, normalmente faltará tempo para relaxar e reciclar aquela energia vivida. Um bom descanso e atividades de lazer que o façam desligar da atividade profissional podem ser de extrema importância para manter a saúde"

iStock


Alimentação


"Não se trata de fazer dietas restritivas, mas de dosar os nutrientes que vai ingerir. Um bom plano alimentar com nutricionista vai dar este alento para o profissional evitando exageros, dietas sem efetividade e restrições alimentares que podem ser perigosas no momento que precisar de mais energia"


Reprodução

Burnout: o técnico do seu time vai ter

"Vários elementos compõem e levam à Síndrome de Burnout, gerando um sofrimento emocional intenso. É um quadro que tem sido cada vez mais visto na Psiquiatria e está diretamente relacionado à exposição constante a ambientes de muito estresse. É um esgotamento, uma sensação de exaustão causada pelo ambiente, geralmente o de trabalho. Um técnico de futebol precisa ser inteligente, ter liderança, conhecimento técnico, resiliência e desenvolvimento emocional, precisa ser uma grande pessoa para lidar com o nível de estresse exigido. É muito fora dos padrões, pois há cobrança de torcida, imprensa, dirigentes, atletas e de si mesmos pelas carreiras. Qualquer um de nós se sente desconfortável quando é criticado. Ficamos tensos, nervosos, angustiados. Imagine quem é chamado de burro por um estádio inteiro. Por isso é que os técnicos estão, sim, muito mais expostos à Síndrome de Burnout."

Henrique Bottura, mestre em Psicologia do Esporte pela UNESP e psiquiatra da Clínica de Psiquiatria Paulista e do Hospital das Clínicas de São Paulo

Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Tem treinador que se cuida


Nem todos os técnicos de futebol são largados em relação à saúde. Quem frequenta a praia de Santos já cansou de ver o argentino Jorge Sampaoli jogando futevôlei ou andando de bicicleta pelas redondezas. Alberto Valentim, treinador do Vasco, está em plena forma e costuma ganhar elogios por causa do corpo esbelto. Também há um profissional hoje sem clube que tem essa parte física como preocupação. É Jair Ventura, ex-Botafogo, Santos e Corinthians. Muita gente diz que ele treina na academia mais que os jogadores dos times que dirige.

"Eu sou professor de Educação Física e ex-atleta, então sempre tive na minha vida a rotina de atividades físicas. Não é porque virei treinador que vou deixar de ter minha rotina. É uma manutenção", conta o treinador de 40 anos. "Eu sempre faço minhas atividades físicas, se possível todos os dias. Quando é jogo em casa, no dia anterior acaba o treino e vou para a academia no próprio clube, e quando é jogo fora eu sempre tomo meu café e passo na academia antes do almoço. Você acha que não, mas está sempre pensando no jogo, e acaba tendo aquela forma de relaxar ao fazer sua atividade. É uma coisa que faz bem. Eu preciso fazer atividade física, quando não faço é muito pior para mim, sinto muita falta, muita necessidade. Por isso faço com regularidade."

O dia em que Jair Ventura sentiu mais a pressão da profissão foi num Botafogo x Estudiantes pela Libertadores de 2017, na semana de seu aniversário: "É um peso muito grande trabalhar assim, em jogo de Libertadores e tendo que vencer em casa. Mas depois foi uma situação bacana, porque vencemos e as comemorações dos gols foram para mim. Quando tudo terminou e deu certo foi bacana."

Jair diz que hoje vive um "momento de descanso", pois trabalhou ininterruptamente entre 2015 e 2018 e agora quer curtir a filha de sete meses para voltar "revigorado, com energia cheia".

Rafael Ribeiro / Flickr do Vasco
 

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