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Sobre pássaros que não se vêem e cachorros que fedem

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_Wilson, 9 Mar 2009.

  1. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    [align=center]SOBRE PÁSSAROS QUE NÃO SE VÊEM E CACHORROS QUE FEDEM[/align]


    Deitavam-se na grama e contavam sapos voadores.

    “Eu contei cinco”, dizia a menina.

    “Aquele não conta”, respondia o menino. “Asas de morcego.”

    “Mas ele voa.”

    “Mas não é um pássaro.” Passou-se o silêncio, ele continuou: “é um roedor”.

    As asas de penas multicoloridas brilhavam vividamente sob a luz do sol. Como vários arco-íris em espiral, brincando com a luz do sol em espectros improváveis e alucinantes. O menino e a menina, deitados na grama, a contarem sapos voadores.

    O problema era que sapo não cantava como pássaro. O canto dos sapos voadores causava náusea e ânsia de vômito se escutado por muito tempo, a visão caleidoscópica de suas asas em constante movimento fazia seus olhos arderem. Não havia tempo para fazer uma recontagem. Era preciso tampar os ouvidos e sair correndo dali depois de algum tempo.

    Os pais sempre acharam que os dois tinham um estômago fraco. Ao menos três vezes na semana, não era raro o casal Whitflower, ou Brimwitz, encontrar sua filha, ou filho, a vomitar o almoço recém ingerido. Cada uma das crianças ia ao médico pelo menos uma vez ao mês para exames. Nunca ninguém diagnosticou nada; receitavam qualquer coisa que acreditassem ser inofensiva para disfarçar a incapacidade de descobrir o que havia de errado com aquelas crianças. No começo os dois sentiam muita dor de cabeça por causa dos comprimidos. Com o passar do tempo, nem percebiam mais. Para fingir o efeito do remédio, com medo de serem pegos na mentira, diminuíam a freqüência do seu jogo em algumas épocas. Fingiam surtos em outras. Começaram com um comprimido por dia. Com o passar do tempo, eram de 4 a 6.

    Por que eles não diziam a verdade? Provavelmente ninguém acreditaria, já que só eles conseguiam enxergar os sapos voadores (e outras coisas mais). Em pouco tempo eles descobriram isso. Ninguém mais via as coisas que eles viam. Depois de umas poucas tentativas fracassadas, resolveram que seria mais fácil manter o segredo. Desistiram das explicações ignoradas e aceitaram guardar aquilo só para eles. Contar sapos voadores era divertido demais para deixar um pouco de vômito atrapalhar.

    E não apenas contavam sapos voadores. Só eles viam também os gatos flamejantes, tanto os azuis quanto os verdes. Apareciam no alto de algumas das pequenas colinas que rodeavam a cidade. Apareciam no instante exato em que a tarde dava lugar à noite. Eles sempre apareciam, um em cada colina, de pêlos arrepiados em chamas. Labaredas azuis (ou verdes) que brilhavam como fantasmas na penumbra. Eles miavam bem alto, arreganhavam os dentes, os encaravam de modo amedrontador por alguns instantes, e depois sumiam. E então, só no outro dia os veriam novamente. Eles gostavam da sensação, do susto provocado quando os gatos apareciam, e, principalmente, dos breves momentos de puro terror que experimentavam. E gostavam depois de comentar um com o outro.

    Havia ainda uma terceira coisa. A favorita. A única que só acontecia nos fins-de-semana. Aos sábados e domingos, eles viam os pássaros invisíveis, o que pode parecer um paradoxo, mas na verdade fazia sentido.

    "É como um pássaro, tem a forma de um pássaro, mas não é feito de nada."

    "Tem que ser feito de alguma coisa", o menino se remoia.

    "Eu acho que é a alma de um pássaro", dizia a menina, apertando os olhos contra o sol.

    "Mas tem que ter alguma coisa para colocar a alma dentro, se não ela, ela...", aqui o menino parou e pensou em qual seria sua próxima palavra, "espalha", continuou, abrindo os braços no ar para enfatizar.

    "Hummm”, ela fez, coçando o queixo e franzindo a testa.

    Os pássaros não podiam ser vistos. Mas podiam ser ouvidos, e o seu canto era quente e doce. E se você prestasse atenção em seu som e tentasse segui-los, por puro instinto e intuição, em algum momento um deles passaria na posição correta entre você e o sol, e a luz iria incidir no ângulo preciso em sua penugem invisível, e você veria um grande e belo pássaro de luz.

    Caso tivesse sorte e conseguisse passar a mão por algum deles (sim, podiam ser atravessados), ou até fazer com que um deles passasse por você, nos dias quentes era como uma brisa gelada de final de primavera, nos dias frios, era como um abraço quente de mãe.

    Horas passavam admirando e brincando com esses estranhos e deslumbrantes seres fantásticos que apenas eles viam.

    Tinham certeza de que eram reais. Nunca duvidaram disso. Aquele mundo existia e era só para eles. Todas as outras pessoas o desconheciam e continuavam a viver em seus mundos normais, sem jamais descobrir essas maravilhas. Primeiro eles não souberam o que fazer com isso. Com o passar do tempo, era só o que lhes interessava.

    No outro mundo os gatos não pegavam fogo, os sapos não voavam, e era impossível de se avistar os pássaros invisíveis. Não havia nada que se comparasse em beleza e vida àquilo que eles experimentavam. E continuaram suas vidas fechadas nas miragens. Tudo o mais era uma tarefa enfadonha. O menino já não se importava com o resto do mundo. Amigos, pais, escola, nada era real. Não tão real quanto o mosaico alucinógeno dos sapos voadores, ou o deslumbre terrível dos gatos em chama, ou o canto intangível dos pássaros de luz. O menino tornou-se obcecado. Mais que visões, ele acreditava que aqueles seres estranhos guardavam algum tipo de verdade maior sobre o mundo, as pessoas e sobre si mesmo. Era só o que ele fazia: os estudava, os admirava, tinha longos debates com a menina, e, mais tarde, consigo mesmo. Os enjôos tornaram-se mais freqüentes. Seus pais aumentaram a dosagem das pílulas. O menino continuava esquivando-se das refeições para contar os sapos voadores. Ninguém mais o via nos fins-de-semana: estava caçando pássaros invisíveis.

    Ele nem percebeu a primeira vez que a menina bocejou.

    "Eu, honestamente, não sei se devemos manter a regra da asa de morcego", resmungou o menino sentado na grama. "Ele voa do mesmo jeito."

    Deitada ao seu lado, a menina abriu a boca largamente e a tampou com a mão.

    Os dias passaram.

    "A gente tem que ver os gatos de novo?", ela indagou. "A gente podia tomar sorvete, tá calor."

    "Eu acredito sinceramente que os miados não são apenas miados", ele retrucou sem nem ter dado atenção à pergunta. "Eles estão querendo dizer alguma coisa."

    Mais dias se passaram. A menina não brincava mais com ele.

    Por muito tempo ele não ligou. Continuava mais interessado em seus animais proféticos. Até aquela fatídica tarde de outono. Dispensou o almoço e foi deitar-se no gramado. Passaram-se horas e nenhum sapo apareceu. Foi atrás dos pássaros invisíveis no bosque, mas eles não estavam lá. À noite, nenhum gato flamejante subiu nas colinas. Voltou no dia seguinte, e nada. E no outro dia, e mais nada. E assim, ele nunca mais viu nenhum deles. Com o tempo, entristeceu. Depois, adoeceu.

    Passava os dias em casa sem vontade de fazer nada. Ignorava a escola, os amigos, os pais. Sentia-se deprimido. Não via mais graça em nada, não ria, não falava. A alegria dos pais pela interrupção dos enjôos constantes foi logo substituída pela preocupação com a febre que o assolava. Nesse ínterim, o menino descobriu do que realmente sentia falta: da menina. Sentia falta de suas conversas, de suas piadas, sentia falta de quando ela segurava sua mão toda vez que viam um gato, flamejante ou não. O menino passava dias inteiros em sua cama, sem forças para fazer qualquer coisa que não fosse ficar deitado, perguntando-se para onde foram os pássaros de luz, por que a menina não o visitava mais.

    Os comprimidos deixaram de ser brancos e tornaram-se azuis, vermelhos, verdes... Um pequeno arco-íris em seu criado-mudo. Lembravam pequenas balas, mas eram amargas, e lhe faziam mal. Agora ficava enjoado o tempo todo, tinha diarréias e parecia um pequeno esqueleto de oito anos de idade. Não conseguia comer nem dormir. Seus olhos deram lugar a duas cavidades profundas e escuras. Sua mãe chorava constantemente. Seus dedos se tornaram tão frágeis quanto gravetos. Seu pai não entrava mais no quarto. Pensavam em interná-lo, mas não tinham coragem. O menino, quando acordado, miava o tempo inteiro.

    A menina soube. Curiosa com a ausência do menino na escola, resolveu investigar. Foi correndo à sua casa. Quando o viu na cama, não conteve o susto. Custava a acreditar que aquele corpo quase cadavérico era o mesmo que corria com ela pelos bosques e praças, o mesmo que, quando abraçava, parecia ser uma extensão do seu. Com os pés juntos, a passos curtos, aproximou-se da cama, mirando o amigo com os olhos esbugalhados e úmidos.

    "Sua mãe disse que você não pode ir mais para a escola."

    O garoto não respondeu, continuava encarando o teto e nem parecia perceber a presença da menina.

    "Eu queria falar com você mas não te achei."

    Silêncio.

    "Eu vi um cachorro amarelo ontem, tinha cabeça de duende e falava que nem peixe."

    O menino suspirou e disse finalmente: "eu não vejo mais nada”.
    "Eu posso te mostrar."

    "Eu não quero ver o cachorro amarelo."

    A menina parou, e continuou: "ele é bem feio na verdade, e fede."

    O menino riu, e ela riu também, e logo os dois riam juntos. Uma risada infantil e sem razão, da que se ri apenas por rir.

    Não demorou muito para que o menino melhorasse. Aos poucos foi ganhando cor e sustância. Aos poucos recuperou o brilho dos olhos. A menina o visitava todos os dias. Conversavam e brincavam de adivinhação. Depois que o médico deu sua permissão, ela passou a levar sorvete para ele. Aqueles foram os dias mais felizes de suas vidas.

    Não demorou muito para que o menino morresse.

    A menina nunca mais viu os sapos voadores, ou os gatos flamejantes, ou os pássaros invisíveis, mas, durante o resto de sua vida, foi seguida pelo cachorro amarelo, que tinha cabeça de duende, falava que nem peixe, e fedia.
     
  2. Vail Martins

    Vail Martins Usuário

    Posso me repetir um pouco? Queria que minha opinião constasse aqui do seu tópico...

    Incrivel como Wilson, o autor de "Sobre pássaros que não se vêem e cachorros que fedem" conseguiu criar um clima realmente Infantil bem convincente no seu texto.
    Deu até para lembrar de quando caçava vagalumes.
    A mentalidade das crianças realmente é forte e criativa desse jeito mesmo.
    E o que foi mais interressante é que como na realidade esses faz-de-conta são verdade mesmo paras as crianças, também o foi no texto. Tanto que o autor não fez questão de deixar claro, pra nós, se era tudo verdade dentro do nosso faz-de-conta ou se existia mesmo (ambiguo?) a ão ser no moment em que diz que o cachorro amarelo seguiu a menina pra sempre. Isso me deixou com a pulga atrás da orelha...
    Foi um texto quase palpável e bem colorido, mesmo na hora triste que o menino percebia a mudança no seu estado de saúde pela mudança nas cores das pilulas.
    Gostei...
     
  3. imported_Wilson

    imported_Wilson Please understand...

    Valeu Vail (sem o "u")!
    Obrigado pelo comentário. Na verdade, eu tava com medo que não ficasse com esse clima infantil o texto, que ficasse mto pesado, principalmente pelo final, e que as falas das crianças não parecessem fala de criança.
     

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