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Sobre o mito da destruição criadora, ou Porque Cartago deve ser destruída

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Paganus, 7 Jul 2014.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    De uma conversa entre amigos...

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    Sobre o mito da destruição criadora, ou: Porque Cartago deve ser destruída -- parte I

    [Delírios em meio a um mundo que se esvai, em plena véspera de um Natal, época de esperança e ingenuidades.]

    Duma conversa com um confrade para quem o Iluminismo possui uma lado positivo por representar uma rebelião contra o suposto engessamento do Espírito provocado pela, afirma ele, morte das religiões. Mais uma vez segundo ele, o Iluminismo libertou o homem das crenças coletivas, abrindo possibilidades para a consciência, isenta de amarras, mergulhar em suas próprias profundezas, preparando assim uma era de oiro. Neste sentido, a civilização iluminista seria um ''avanço'' em relação às anteriores formações sociais modeladas pelo ditame religioso.

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    Ser contrário ao conceito iluminista de liberdade não é ser contra a vera liberdade, pous o iluminismo não a representa, antes a distorce. No fundo, as liberdades individuais defendidas pelo iluminismo significam, a despeito de qualquer esforço retórico em contrário, o libre curso para que os homens doentes dêem asas às suas paixões. Não adianta dizer a um escravo de sua psique e corpo rebelados, um semi autômato e sonâmbulo que sequer pensa mas que é levado - sem saber fugir ou sem ter onde se agarrar - pelo fluxo mutável das imagens, desejos, sentimentos e pensamentos confusos que lhe tomam e afogam a mente, não adianta dizer-lhes, continuo, que são libres. Nem muito menos reforçar esta oratória de uma liberdade que é, no fim das contas, prisão sem muros, por documentos assinados e com títulos pomposos como o de ''direitos dos homens e do cidadão''. Cegos guiados por cegos caem no abismo, disse o Senhor. Aqueles que são escravos continuarão como escravos, como cocainômanos que agora terão libre acesso à droga, agora vendida por várias marcas, em diferentes graus de pureza, embalagens das mais pomposas, acompanhadas de campanhas publicitárias que fazem do prazer efêmero que ela produz o escopo de felicidade da vida humana, que deve ser alcançada por meio de jornadas múltiplas de trabalho. Eis o retrato acabado, o conteúdo indisfarçável da sociedade iluminista. Por isto que o amigo X, enquanto espera a explosão contemplativa que produzirá uma nova era, só consegue ver, DE FACTO, uma civilização cada vez mais perdida no materialismo, individualismo e no hedonismo. Ele não entende o porquê da 'demora' da percepção ''coletiva'' que elevará o homem à ''intuição dos Princípios Universais para além de qualquer crença''. Tudo o que ele vê é o cocainômano usando feliz doses cada vez mais altas de sua droga, ''libre'' para usufrui-la, e sofrendo cada vez mais os efectos de sua ''escolha consciente''.

    Seria isso uma etapa necessária ao ciclo? Sim, tanto quanto a queda de Adão ou a crucificação de Cristo. Mas o curso natural do ciclo não implica em adesão à sua maré. Pelo contrário, o curso da ascensão significa um esforço contínuo contra a queda das águas, ainda que estas tenham seu lugar no curso da manifestação. Dizer que a sociedade iluminista é uma fase necessária à era de oiro que virá é como dizer que o caos apocalíptico e o governo do anticristo são fases anteriores ao retorno glorioso de Cristo. Mas e daí que são? O confrade X, apegado a uma ingênua e optimista fé, nega o que está debaixo de seu nariz, e espera que a 'razão iluminista' gere fructos diversos destes dos úlptimos dous seculos, do mesmo modo que a esperançosa mãe espera que dessa vez [mais uma vez!] sua argumentação arguta e exemplos morais façam com que o filho viciado em crack se libre de sua dependência crescente sem que se submeta a tratamento rígido, ainda que por internação. Mas eis que ele continuará a dormir na rua e a dilapidar o patrimônio acumulado pela família para estupefação da pobre mãe, que reestudará seus argumentos em busca de falhas e colecionará novos exemplos para apresentar à sua cria.

    X usa o concepto bastante interessante de ''mentalidade geral'' quando fala do suposto projecto de extirpar a ideia libertária da dita cuja. Interessante e vero concepto. Todo homem é formado em meio a uma ''mentalidade'' específica, moldada por sua sociedade e cultura, reproduzida por sua formação social, e que lhe constitui enquanto ser sócio-político e histórico. Negar isso é como negar a esfericidade da terra. O homem iluminista possui determinada ''mentalidade geral'' formada pela civilização das ''luzes''. Nesta mentalidade está incrustada a falsa noção de liberdade que analisei acima, bem como valores hedonistas, individualistas, restrições fundamentadas no seu modus existencial e na ontologia que é propagandeada pelos mitos de legitimação social e instituições sob as quais vivem. [Assim, por exemplo, o mito do progresso [''evolução'], o cientificismo, o naturalismo, o racionalismo, o sensualismo, o subjectivismo etc. formam partem do phronema do homem moderno.] Estas são as CRENÇAS E MITOS de nossa época, é necessário dizê-lo, admiti-lo, encará-lo.

    Dito isto, sejamos claros: é necessário extirpar esta mentalidade, pous ela é uma prisão que mantém o cocainômano deludido sem possibilidades de se librar dos vícios que o destroem física, psíquica, moral e espiritualmente. Esta mentalidade é uma crosta fétida de fezes acumuladas ao redor dos olhos de um homem que, assim, se torna cego a compreender qualquer signal do espírito. Ele não compreende a ascese, pous é ensinado que o consumo está no cerne da vera caridade [como lhes ensina autores liberais como Ayn Rand, e, no Brasil, Rodrigo Constantino]; ele não entende o significado real da renúncia, pous é ensinado que não há nada mais importante do que o ''eu individual'', que é tornado sinônimo de pessoa; ele não entende o real sentido sequer de ser humano, já que sua antropologia é mutilada; não entende o significado do conhecimento, pous pensa que o mesmo é uma atividade que visa a gerar conforto material; não entende o que é uma epistemologia, pous deifica a razão instrumental e é sensualista; não pode pensar anagogicamente, pous seu universo deixou de ser simbólico para ser tornar meramente um representação e abstração matemática voltada para fins tecnológicos; não entende a imortalidade pous pensa que ela pode ser atingida por uns aninhos a mais na terra, de modo a poder consumir mais drogas e alcançar novos estados passageiros de prazeres. Eu poderia continuar até amanhã, escreber libros inteiros, descrevendo o estado lamentável do homem moderno, este homem iluminista, gerado pela civilização das ''luzes'', reproduzido em linhas de produção desta civilização de máquinas.

    Como eu dizia, toda esta mentalidade tem de ser extirpada e substituída por outra, que possua elementos e CRENÇAS COLETIVAS capazes de tornar o indivíduo apto a ascender por cima de sua própria mentalidade e intuir o sagrado. O homem moderno precisa daquilo que os Padres chamavam de METANOIA, que não tem a ver com o ''arrependimento cheio de culpa'' entendido pelo homem ocidental, e sim com o redirecionamento da consciência e de sua mente para Deus, de modo que seu ser individual naquilo que tem de interior E EXTERIOR seja moldado por esta e nesta retidão. Uma mentalidade que lhe permita entender a necessidade e se submeter a uma DISCIPLINA espiritual que abarque todas as fibras de seu ser. O cocainômano precisa de tratamento e não de incentivos ou de tapinhas nas costas de quem lhe diz que ''no fim, tudo ficará bién''. Eis os homens gerados pela sociedade ''iluminista'', que o confrade X gostaria de identificar como ''um perfeito passo evolutivo para a verdadeira apreensão dos princípios superiores na posse do influxo originário delas'':
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    Caricatura? Apenas em parte. O que importa ali são os valores, as ''crenças coletivas'' e a ''mentalidade geral'' que se esconde por trás do discurso destes jovens. É necessário ter olhos para ver a doença que os acomete. Eis aí as ''almas libres'', libertadas pela razão instrumental. Agora deixe-me tomar um exemplo de ''uma edificação dogmática ou ritualista que serviu sempre para confinar o homem na exterioridade do Ser, infantilizar sua espiritualidade e finalmente fanatizar algumas sociedades'':
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    Eis aí um estilo de vida que propõe uma via e disciplina espiritual.

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    Deste estilo de vida, de homens e mulheres com este modus existencial, mentalidade etc. saem santos. Não é preciso ensiná-los ''metafísica'' [que o confrade Felix confunde, no cristianismo, com ''escolástica''], eles vivenciam a religião no dia a dia, com todos os seus princípios cosmológicos, mentais, sociais e individuais que apontam para todo um mundo interior a ser conquistado, conquista esta que tem por escopo de felicidade da vida, e que foi realizada por heróis presentes em suas vidas, e aos quais seguem os ensinamentos, e que tem por ideal:

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    Mas isto é um mundo que o actual NÃO CONSEGUE mais compreender. para isso é necessária uma destruição que torne possível o renascimento.


    Sobre o mito da destruição criadora, ou: Porque Cartago deve ser destruída -- parte II

    [Sorrisos irônicos e teleológicos diante de uma meta-narrativa histórica.]

    Continuação da conversa anterior. O confrade citado tem a civilização iluminista como um estado superior às formações sociais às quais declarou guerra. Dedico este post aos anti-duginistas. Beijos nos corações. Encontraremo-nos naquela cidade, úlptima antes do pôr do sol. Joguem minhas cinzas n'algum cemitério público, nunca privado.

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    O confrade leva o julgamento sobre o Iluminismo para as razões de seu advento. Segundo ele, ''O homem apenas descobriu-se entregue a si mesmo, a seus horizontes intransponíveis diante da fossilização de uma ascese. Instaurou a partir de aí uma relação direta entre si e a Verdade, uma busca de acesso da consciência que principia na liberdade do iluminismo e se conduz pelo idealismo.'' Ou seja, a sociedade iluminista, apesar de todas as suas falhas, possui um caráter positivo -- digamos assim -- por ter sido fructo de uma rebeldia contra um modelo engessado e que não permitia ao homem o acesso ao Espírito. Este modelo engessado estava permeado pela escolástica, que sendo uma doutrina ontológica construída a partir da razão natural, não ofereceria ao homem as bases necessárias a uma vera ascese. Essa visão permeia toda a avaliação do confrade sobre o Iluminismo. É uma porcaria, mas como teria nos librado de uma porcaria ainda maior, entonces é também, nesse ponto, um bién e uma evolução, um estado melhor de cousas que prepara a cereja do bolo. Esta cereja do bolo, por sua vez, não pode ser alcançada por meio de articulações políticas, algo que o Olavo de Carvalho acentua -- por motivos semelhantes -- ao acometer contra a ''mentalidade revolucionária'' e seu objectivo anti-tradicional de construir uma paródia de paraíso na terra por meio d'alguma utopia e reengenharia social. O confrade X também associa Julius Evola e Dugin a este úlptimo objectivo, mais uma vez em consonância com o philosopho conservador brasileiro que se encontra no momento na Virgínia. Para finalizar sua análise, o amigo traz à tona sua própria experiência pessoal, mostrando que a) nem siempre uma mentalidade iluminista, tal como a defini, impede que alguém se incline ao esoterismo e b) que uma vez que esta inclinação esteja presente, não poderia ser satisfeita nem pelo iluminismo nem por qualquer ''sistema de crenças'', por mais que estivessem de acordo com a realidade, mas tão somente pela Verdade.

    Até que ponto se pode concordar com esta narrativa acima do advento do Iluminismo? Sabemos que este conjunto de ideias e mentalidade não nasceu em todo o mundo, mas num ponto específico do tempo e do espaço, a Europa setecentista. Não era, no entanto, o homem europeu que se tornara ''iluminista'', mas uma parcela pequena de sua elite intelectual. O homem europeu comum, majoritariamente, esmagadoramente, vivia como nos vídeos e photos que postei noutra thread, e, portanto, ''não se descobriu entregue a si mesmo'' por causa de uma ''fossilização de uma ascese''. Se isto fosse verdade -- o que discutirei logo adiante -- não poderia ser dito senão de parte minúscula dessa sociedade europeia. Esta parte minúscula, aliás, sequer pretendia, de início, contar com esse homem comum ordinário, que vivia mergulhado numa cosmologia sagrada. Voltaire e os seus escrebiam para a nobreza, a burguesia enriquecida e, principalmente, para os reis, visando formar ''déspotas esclarecidos''. Seus sucessores, por sua vez, eram revolucionários que se uniam em grupos de articulação que foram o preâmbulo da vanguarda revolucionária leninista. NENHUM regime liberal nasceu sem esse tipo de articulação, sem conteúdo elitista, sem banho de sangue e sem se voltar contra o próprio povo, que, em grande parte das vezes, se voltava contra aqueles que supostamente visavam libertar.

    Não é verdade que o iluminismo tenha nascido de um desconforto deste homem europeu contra a percepção de um ''ocaso religioso''. Ele nasceu do desconforto de uma minoria revolucionária que visava construir uma utopia social a partir do domínio e reengenharia do Estado. O homem europeu, pelo contrário, continuava a acreditar no Deus de seus pais, com toda a ontologia e simbologia que era inerente a esta crença, e assim permaneceu até DEPOUS que os regimes liberais já estavam no poder e passaram a divulgar e estabelecer como oficiais as crenças e mentalidade dessa elite revolucionária. Assim, o confrade X, que afirma que não se pode confundir a vinda do Espírito com articulações políticas -- um erro que supostamente identificaria em Evola e Dugin -- se vê apoiando, em determinado grau e com certos objectivos, um movimento que é o exemplo acabado da mentalidade revolucionária que repudia. Ou o confrade condena ambas as tentativas pela aplicação do mesmo critério, ou absolve a ambas como tentativas nascidas pela confrontação de certas elites intelectuais desconfortáveis com o contexto na qual vivem.

    A verdade portada por este grupo revolucionário iluminista conduzia a um estado de cousas melhor do que o anterior sob um ponto de vicsta tradicional? [claro que não vou perder tempo cá debatendo a ideia de que a nossa sociedade é superior por causa de sua maior técnica, conforto material, impressão de libros e outros parâmetros que fogem a uma linha tradicional.] Mesmo se eu concordar com a crítica à escolástica -- os pontos de X contra este movimento da cristandade ocidental, e que se iniciou pelos séculos IX e X, é repetida ipsi litteris no mundo ortodoxo e por seus santos -- ela era pior do que o retrato de mundo trazido por esta elite revolucionária, baseada no mecanicismo, no cartesianismo, no naturalismo, no positivismo, no cientismo etc.? A resposta é um rotundo 'não'. Por mais que a escolástica apresentasse problemas, a ontologia construída por meio desse discurso é mui superior e menos restricta do que aquela construída pelo discurso portado por Voltaire e assemelhados. Pelo contrário, estes úlptimos primam por uma ingenuidade filosófica ímpar, por uma incompreensão psicológica, antropológica e ontológica que o próprio confrade X bsuca ''combater'' nos grupos de debates dos quais faz parte. ''Pelos fructos os conhecereis''. E os fructos do iluminismo, no campo intelectual mesmo, são justamente os adversários que o confrade escolheu para si em sua práctica de debate filosófico. Mas o campo intelectual, como observei acima, é mui restricto. Filósofos criticando filósofos é um recorte muito pequeno de todas as consequências e dimensões nas quais se dá a influência iluminista, e, a bem da verdade, não passam da versão dessacralizada da disputatio escolástica. A verdade sobre o iluminismo não pode ser contemplada na obra de Schelling -- com a qual, diga-se de passagem, ninguém alcançará transcendência alguma, neste ponto exacto tendo os mesmos e nulos efeitos das obras tomistas --, e sim nos vídeos da juventude hedonista, subjetivista e sensualista que postei. É aquela a sociedade gerada pelo iluminismo, muito distante de qualquer ''despertar coletivo'' ou da pura piedade de camponeses e artesãos de sociedades tradicionais. A verdade é que o iluminismo não abriu as portas da transcendência e ainda espalhou uma mentalidade que a obstaculiza e gera doenças como aquelas.

    Bom, para terminar o meu comentário, que se iniciou com a alegação de que os iluministas eram uma elite revolucionária que não representava o homem europeu setecentista, e que eram portadores de um ideário mais restricto do que o escolástico, além de produzirem uma sociedade hedonista, individualista, sem vivência do sagrado em sua cosmologia e cotidiano, termino falando do ponto pessoal trazido pelo confrade. O impulso para o alto é natural ao homem, ainda que em diferentes graus. É por isso que enquanto existir homem existirá espiritualidade, ainda que degradada. É por isso também que em qualquer época, mesmo nestes dias, existirão aqueles qualificados para uma vivência mais profunda e que sentirão esse chamado de modo ainda mais forte do que o ordinário. Assim, a experiência do amigo não ameniza as críticas que fiz à civilização em que vivemos. Pois a função úlptima destas, como ensinou Tomás de Aquino, e para não dizer que só falei mal da escolástica, é justamente a de facilitar esse impulso natural do homem, tornando-o reto frente à Realidade, como também o de promover o melhor ambiente -- inclusive social, econômico e político -- que facilite a aspiração e realização daqueles que sentem um chamado mais profundo. Estas condições não são preenchidas pela sociedade iluminista, que serve de peso extra, de obstáculo, de adversário a todos os homens, seja em que âmbito estejam qualificados para realizarem suas vocações. Nem o devoto tem a vida facilitada nem muito menos o gnóstico, pous a ambos são negados as bases que facilitariam sua ascensão frente ao divino.

    Diversas vezes falei ao confrade de como a sociedade normal -- ou seja, a tradicional, a que reflete em suas estruturas uma conformidade com os princípios universais mencionados por X, as que refletem ordenadamente e organicamente a cabeça, o tronco, os membros, os pés do Purusha -- existe justamente como especulum no meio social dos elementos e características necessárias e condizentes com a ascese. Mas há um âmbito mais profundo no qual uma sociedade normal é benéfica e uma sociedade como a iluminista diabólica ['adversária', 'obstaculizadora', 'refratária' ao Espírito], e que envolve a noção de renascimento presente nas doctrinas arianas. Quando um conservador diz que o fim do casamento ou dos bons costumes tem efeito deletério sobre a sociedade, está apenas reproduzindo em um terreno moral e de modo algo tosco, uma noção tradicional, e que parte da percepção de que toda a vida, e todos os entes, estão inter-relacionados numa cadeia de causalidade. Todos nós partilhamos não apenas uma linguagem, hábitos e outros elementos sócio-culturais, como também as energias que se expressam na dimensão corporal, mental e psíquica da vida. Quando uma grávida fuma, não afecta apenas o filho que carrega no ventre, mas todo o seu redor. Por trás de ideias como a da Queda de Adão e corrupção crescente da natureza do mundo e do homem está esta noção da interação somática e psíquica de todos os seres, que seriam como células abertas de um grande organismo em desenvolvimento. Se o organismo está com câncer, doente, corrompido, todos são afectados. E a corrupção aumenta como uma bola de neve, se espraiando energeticamente por todos os setores do corpo adâmico. Quando lemos o Jataka budista -- e para além de noções reencarnacionistas, sobre as quais não temos concordância -- vemos antes de tudo um processo causal e kármico que tornou possível a geração naquele corpo [social? comunitário? coletivo?] de um indivíduo que possuía, no âmbito humano, as qualificações necessárias à realização espiritual. Quando lemos a genealogia de Cristo nos Evangelhos dos Bem Aventurados São Mateus e São Lucas, não estamos apenas diante de uma justificação para a ascendência real e davídica de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, mas parte da cadeia de causalidade [tanto em termos corporais quanto psíquicos] que, em sua purificação constante, tornou Israel apto à geração de sua maior flor, a Toda Pura e Sempre Virgem Maria, guerreira e asceta capaz de, pela própria Vontade, dizer sim ao Espírito Sancto, e gerar a partir de sua própria carne e sangue o Redentor. Eis aí a função da varnashrama, como a chamam os hindús, ser uma mãe fértil, preparada e capacitada a gerar boddhisattvas, santos, sábios. Mas a sociedade iluminista não é nada disso, ela é uma, digamos, mulher rodada, envelhecida, viciada em crack e heroína, gerando rebentos que, ainda que sintam impulso para o alto, e ainda que -- apesar dela -- qualificados para mergulhos em águas ainda mais profundas, tem de se haver com uma série de limitações herdadas cultural, social, politica, economica -- e também somática e psiquicamente. No âmbito em que estamos conversando, caro X, a nossa mãe, a nossa civilização, não fornece a matéria pura do corpo glorioso do novo Cristo. Ela é uma versão degradada, distorcida, corrompida e invertida de um dos significados do sagrado símbolo. Ela não é uma nova Eva, como Theotokos, mas a Eva de Gênesis:
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    Portanto, termino conclamando: Delenda est Carthago. Cartago deve ser destruída. Cartago tornada cá no meu grito como símbolo da civilização, da Eva, da paródia de varnashrama que é a sociedade iluminista, tão bem definida por Dugin no terreno geopolítico como atlantista, talassocrática -- ou seja, ligada à homogeneidade e instabilidade do grande mar, que no ãmbito econômico se manifesta pelo domínio das trocas comerciais, dos valores do vaysha; no terreno político pelo mundialismo; no terreno antropológico pela homogeneidade atomizada do individualismo. Ceterum censeo Carthaginem delendam esse. Precisamos de telurocracia, da estabilidade e poder oculto na TERRA -- que se expressa em diferentes terrenos pelos valores da aristocracia guerreira, pela preeminência da forma, do macho, da Eurásia. Queremos sentir o chão tremer sob nossos pés, rasgado pelo vulcão que esconde e que deve ser despertado.

    André Luiz dos Reis - formado em História, Direito e Filosofia, professor de Ensino Médio, carioca, flamenguista, evoliano, cristão ortodoxo e um amigo admirável
     

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