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[Sellenium] A Canção dos Bárbaros [L]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Sellenium, 27 Set 2013.

  1. Sellenium

    Sellenium Usuário

    Capítulo 1

    Ao contrário da véspera, o salão comunal desta noite estava afogado num silêncio trêmulo, vagamente preenchido por ecos, vindos de homens que murmuravam temendo quebrar a tensão decrépita. Na noite anterior, a mesa comprida, que ia das portas para o maior dos corredores, aos grandes e robustos portões da saída, estaria coberta por uma comemoração distraída, havendo foco somente para comer e gritar obscenidades, vez ou outra interrompido para que as vozes grossas cantassem algo em harmonia.

    Gostavam de cantar. Os Verésticos eram famosos por cantarem durante batalhas. Havia muitas lendas acerca de tais cantigas, muitos inimigos diziam que invocavam demônios para lhes dar força, outros ainda blasfemavam piores injúrias, mas todos hoje estariam dobrados sobre seus estandartes, pois foram canções verésticas que unificaram o reino.

    Mas não havia canção. Não. Era incontável a quantidade de regozijos que faltavam no salão. Faltava o grande Bérult Monterg arrotar suas obscenidades, implicar com outros homens, badernar pelos acentos da mesa cambaleando de bêbado. Era sempre o primeiro a embriagar-se, mas os homens o preferiam assim. Bérult era um incômodo bem vindo. Também não estava ali Arindulf Farentel, como sendo o senhor da gula, rindo enquanto movia os pratos da mesa, a fim de alcançar a carne de porco recheada com batatas. Arindulf era irreconhecível quando não estava comendo. Hoje, não parecia ser ele. De início devorou seu primeiro prato, mas parou no segundo, sem nem ao menos terminá-lo. Viram os outros que seu estômago enorme ansiava por mais comida, mas não conseguia comer. Não era um sentimento distinto entre os que estavam perante a mesa. Era, pelo contrário, uma emoção partilhada.

    Faltava alegria. Mas acima de tudo, a maior falta era a de Éringuer Levót, deixando em seu lugar o remorso, que por sua vez sustentava esse silêncio persistente. Seu trono permanecia ali, intocado, a brisa fria da noite que implicava com o fogo crepitante das dez lareiras soprava pelos panos de couro, os quais juntamente com adornos dourados, decoravam o acento três vezes maior e mais alto do que os outros abaixo de si. Era o único lugar à cabeceira da mesa, e estava vazio.

    Ainda assim, o silêncio era trêmulo. Era oco, mas não era de todo vazio. Subliminar ao falido burburinho da noite perdurava ainda uma orquestra composta magistralmente por talheres ruidosos, que raspavam entre si e entre seus pratos, o mastigar alheio de bocas abertas.

    Abaixo do trono, de cabeça baixa, fitando seu prato e somente seu prato, não diferente de todos os outros, comia melancolicamente Hérin Levót, o filho do Fenjorn, o herdeiro. Era para estar em sua companhia Haerund Levót, seu irmão, mas não lhe houve estômago para comparecer à tal reunião de mágoas discretas. Hérin sentia-se só numa mesa com mais de vinte homens de cada lado, em sua maioria vassalos de seu pai, poderosos de respeito.

    Esperava ele pela tragédia premeditada, quando Sedéria entraria ofegante pelo salão, com estrondo, finalmente algo para romper o silêncio que a muito tornara-se infortúnio.

    E não tardou para que acontecesse. Conforme imaginou o ato, repetidas vezes em pensamento, Sedéria irrompeu no salão, empurrando com mais dois guardas as robustas portas douradas que davam para o corredor. Caminhou ligeira até o acento de Hérin, cochichou aos seus ouvidos.

    — Éringuer deseja vê-lo – ela disse.

    Sua voz era, em circunstancias menos funestas, doce como as que se ouvem nas tabernas infestadas por harpistas, mas estava agora trêmula, seu encanto repleto de cores vivas tornou-se cinzento, como cinza era a noite lá fora, mesmo na neve chorada pelos céus.

    Hérin levantou-se, limpando a boca com as costas da mão. Procurou não fazer barulho, mas já todos olhavam em sua direção, como teriam feito com Sedéria ao causar tanto barulho repentino em meio ao silêncio mortal que a esta altura, já teria reconquistado seu espaço na mesa. Juntamente com ele levantou-se Bérult, falhando em repetir os movimentos calmos, pois teria tombado a cadeira e alguns pratos da mesa, uma vez que havia amarrado o lenço que forrava o mogno em sua própria gola. Andou até Hérin, que não o esperou, pois já se adiantava ao corredor. Alcançou o herdeiro somente quando passou pelas portas e finalmente puxou-lhe um dos braços, sem intenção de força, somente para fazê-lo virar-se.

    — Meu senhor, também anseio por ver meu soberano – sua voz era o som próprio da ansiedade, da preocupação. Hérin, justamente por isso quase teria se apiedado dele, mas acabou sendo firme ao pensar em seu pai.

    — Você o verá, Bérult, mas agora creio que meu pai está contando com a minha presença somente.
    Bérult pós as mãos nos joelhos, curvando o corpo em sinal de decepção, mas vendo que teria Hérin prosseguido com seu percurso até o aposento do Fenjorn, apenas virou-se e a passos curtos e trêmulos voltou para seu acento, evitando olhares tão cabisbaixos quanto os dele próprio.

    Dois guardas postavam-se rígidos, machados de dois gumes às costas, para cuidar da única entrada para o quarto do Fenjorn. Não era seu quarto habitual, o grande cômodo cuja sacada teria vista para todo o seu reino lá embaixo, mas sim um aposento menor, que teria escolhido por achar mais aconchegante.

    — Meu filho – disse ele quando ouviu Hérin entrar com Sedéria – Aproxime-se.

    Esforçando-se para manter a compostura e demonstrar força perante seu pai, Hérin procurou dar passos lentos, evitar movimentos bruscos, respirar fundo quando queria sentir-se ofegante.

    — Estou aqui, meu senhor – ele disse ao se ajoelhar ao lado da cama, em reverência. Estava lá Éringuer Levót, o Senhor dos Verésticos, o Fenjorn da Ven Cëa Luna, moribundo num quarto escuro, pois teria dispensado os archotes e preferiu que acendessem velas. Alegou que a luz espetava seus olhos.

    — Hoje, Hérin, sou mais seu pai do que seu senhor – fez uma pausa, para retomar a respiração dificultosa – Filho, não viverei. A noite me levará e antes da alvorada estarei em paz nos banquetes fartos de Derevel e Orvellum.

    Sedéria chorava em silêncio, ouvindo tudo encolhida em um canto do quarto, os braços cruzados em lamento.

    — Não é do seu espanto, bem sei – disse o Fenjorn – ainda assim, não repreenda as mágoas da vida. Homens são bárbaros, bárbaros são homens.

    Hérin passou as mãos pelos seus cabelos, e correu-as pelo seu rosto, magro e velho como jamais teria visto, e fervia além de tudo, fervia em uma febre horrenda, que sugava-lhe a vida como abelhas sugam néctar. Desatou a chorar, como sua mãe. Seu pai, seu senhor, parecia mais confortável agora. Talvez estivesse precisando ver o pesar do filho.

    — Tens meu machado, Morudon, mas tomarás para si também meu elmo. A coroa passa para você.

    — Não será a coroa que me fará rei, pai. O reino já não quer mais obedecer à um soberano somente. A unificação morrerá com o senhor. Por que, com todos os grandes mestres da guerra, ajoelharão eles perante a mim?

    Éringuer fez sinal para que Sedéria saísse. Suas lágrimas já o teriam começado a infortunar. Ela fez a reverência e retirou-se frustrada. O Fenjorn, em seguida, fitou novamente os olhos do filho.

    — Meu respeito, filho, é hereditário. Quando estiver de volta ao salão onde jantam os homens, já serás rei, e ajoelharão perante a você.

    — Mas ainda há os Ulferos.

    — Ulferos são teimosos e orgulhosos, mas um dia se dobraram, e aquele que se dobra tende a se dobrar novamente. Não fuja desta incumbência, pois sempre esteve fadado a ela, bem sabe, nunca a escondi de você. Poderia ter nomeado seu irmão, mas Haerund é imaturo e selvagem, não daria jamais um bom líder, mesmo sendo um grande guerreiro.

    Parou para respirar. De quando em quando, precisava interromper suas falas para resistir a um acesso de tosse, e a cada vez que tossia, Hérin percebia que a boca de seu pai enchia-se de sangue, a língua às vezes expulsava alguma gota sangrenta enquanto falava. Já era impossível conter as lágrimas.

    — Estará com Derevel, pai. Verá minha luta.

    — Verei – ele afirmou – em morte já sinto orgulho. Quero senti-lo também na imortalidade que me sucede.

    Após isso, sentiu-se cansado, virou o rosto, e dormiu após meio minuto de silêncio. Hérin temeu que estivesse partindo para o reino de Orvellum ali agora, mas ainda respirava, mesmo que sua dificuldade se mantivesse a mesma.

    Ainda não era hora. A hora só viria durante os primeiros raios da aurora.
     
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