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[L][Skylink][Lenda feérica]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Skylink, 20 Set 2005.

  1. Skylink

    Skylink Squirrle!

    Há quem diga que existiu um flautista nos portões do amanhecer, num tempo remoto e perdido por entre os mantos da história. Há quem fale que as memórias são apenas lembranças confusas, e sonhos de criança eternizados. Eu acredito em mais do que isso:



    Um menino existia, no ponto de interlúdio em que se perde o tempo e se adentra na eternidade, e ele era mais do que um homem ou uma criança. Com seus olhos azuis fundidos do vórtice escuro dos rodamoinhos marinhos e da prata estelar que circunda as nuvens , com cabelos longos e loiros, brilhantes como o sol do meio-dia, ele era a face pura de um anjo diante da majestade da criação e da descoberta de um coração.

    E com efeito, ele era agora um querubim - um aprendiz de querubim. Até então, fora uma alma perdida pelas passagens da terra, sem poder ver, sem poder sentir ou mesmo ouvir o que se passava além de sua existência. Quando o resgataram, tremia de medo; e estava assustado não por apenas não saber o que acontecia, mas por ter contemplado com seu próprio espírito o vazio mais profundo que habitava a alma dos seres humanos.

    Isto o diferia dos demais anjos e arcanjos, forjados a partir de simples sentimentos e desejos ocasionais. E explicava a sua sede de conhecimento, o seu assombro e energia inesgotáveis diante das coisas mais banais que a eternidade produzia. Questionava praticamente a todos sobre os minuciosos aspectos da criação, desde o passado mais remoto do mais ínfimo grão de areia bordado no início dos tempos até o arranjo inesperado em que se ecoou o brilho das estrelas no universo.

    Porém, sua atenção se desprendeu parcialmente quando enfim lhe deram uma flauta e o iniciaram no curso de música para querubins hiper-ativos. Tornou-se excelente instrumentista em pouquíssimo tempo, tamanha era sua dedicação e seu talento assombroso, quase além do angelical. E logo voltou a passear pelos países do céu, como se os conhecesse com a palma da própria mão.

    Visitou galerias de quadros perfeccionistas em todos os termos angélicos, conhecendo um velho anjo de asas curvadas e de uma longuíssima barba desgrenhada; observou centros hiper-astrônomicos que vasculhavam pontos muito além da borda do universo, com cientistas e teóricos dos mais variados tipos, incluindo até uma pequena banquinha de anjos astrólogos e tarólogos ao lado; e vagou por labirintos milenares de escadarias sem nexo, as quais os anjos faziam apenas pela diversão do complexo.

    Quando por fim se formou anjo, já era conhecido por meio mundo celeste. Na sua cerimônia de ultrabatismo, quando tornou-se cupido de linha de frente, um milagre aconteceu e Deus pessoalmente veio até ele, conceder-lhe o dom das palavras e dos sentimentos humanos, além dos segredos de seu encanto. E assim ele caiu e despencou dos céus, perdendo suas antigas asas por entre prantos de dor e glória. Estava feliz enfim, e por mais que dele o temor se apoderasse, chegara por fim ao seu destino. Ao amor de uma fada. Arquejou enquanto as novas asas surgiam frondosas, e um estalo passava pela sua mente de forma aguda; mas logo pôs-se a moldar sua aljava de flechas e seu arco dourado a partir de sua imaginação esplendorosa.

    Seus primeiros trabalhos foram simples e bem sucedidos, uma vez que cavaleiros errantes e princesas sonhadoras existiam aos montes naquela época. No entanto, logo eles passaram a se estender a gente de toda forma, desde barões e duquesas até reis, plebéias e amantes de toda sorte; e as traições escorriam pelo ventre humano como o vinho na taça de um bárbaro...

    E pior! Até mesmo as princesas e cavaleiros que mais tarde formariam lendas - assim que se juntavam e desfrutavam de todo o amor que lhes havia sido concedido - não resistiam a mais do que cinco dias de pouquíssimos beijos e abraços. Tão logo esse tempo passava, estavam as princesas a chorar desconsoladas na cabeceira de suas mães, e os cavaleiros a se refestelar nas curvas insalubres das mórbidas matronas que encontravam pelo meio das tavernas.

    Como cupido, ele ficou extremamente triste por conta disso. Mas então lentamente passou a compreender melhor o ponto de que não semeava um ser universal e absoluto, mas apenas uma semente. E era o cuidado desta, pelas próprias pessoas, que a partir daquele instante fazia com que o amor ultrapassasse as histórias e o mundo, tornando-se divino e absoluto - e sendo tema de um estudo intrigado de uma vertente de anjos alternativos.

    Porém, em momento algum ele imaginava que essas sementes não precisavam ser lançadas, que elas simplesmente existiam no coração de todos os seres, e que o que ele fazia era nada mais do que lutar brevemente contra a teimosia abissal que permeia a individualidade sacramentada de cada um. Muito menos pensava na possibilidade de um dia testar em si mesmo as suas estimadas flechas - pois depois de tudo o que vira, ele definitivamente tinha medo.

    Entretanto, os acasos do mundo são estranhos. Certo dia, após uma visita a um senhor inglês extremamente divertido que curiosamente o compreendia, e com quem ele discutia toda forma de paixão e situação ao som das risadas nostálgicas do idoso, deu-se que ele estava num lindo bosque colorido. Um bosque repleto de freixos avermelhados, velhos carvalhos idosos e todo tipo de árvores e plantas sábias ou belas que existiam; um bosque que lhe atiçava a imaginação e inspirava paixão, um bosque que lhe fazia ter vontade de voar e sonhar.

    No entanto, ele não podia no momento; ainda tinha compromissos a cumprir. Contentou-se então em esticar suas asas enquanto caminhava e puxar das costas sua flauta mágica, tirando-a lentamente do estojo carmim que trazia pendurado ao corpo. E eis que então uma melodia suave, porém poderosa e muito além dos conhecimentos da eternidade e do próprio tempo, calmamente inundou o vale, que logo se tornou uma densa floresta.

    O som da água permaneceu se dirigindo ao infinito ciclo de sua existência, pelo pequeno córrego que corria logo a sua frente. O bater das mínimas correntes nas rochas e cristais marcava o ritmo da música, e uma confusão de matizes roxas, vermelhas e verdes se confundia enquanto as árvores continuavam a crescer até encobrir o céu. Somente quando a sua mente se distanciou do transe encantado que a música lhe produzia, e os seus ouvidos captaram o som de risadinhas abafadas, foi que o anjo enfim percebeu que estava preso.

    Sem sucesso, tentou encontrar caminho por entre as plantas completamente fechadas. Encontrou três longos cordões esverdeados, porém eles estavam completamente amarrados em suas misteriosas passagens, a ponto de formarem-se três densas paredes de canos verdes e cintilantes. Resolveu rogar a seu pai para que este o ajudasse, mas foi interrompido por uma voz delicada, que o informava de que o mesmo compactuava com aquela situação.

    Sem ação, ele não soube o que pensar ou falar enquanto se virava. E por fim contemplou a doce fada que o havia prendido, pensando ser ele um demônio enganoso ou um humano trapaceiro. Ela levantou seus olhos de amêndoas lentamente para ele, enquanto torcia o nariz e fazia uma careta estranha; mas logo sua face se desanuviou, e ela foi saltitante até ele, batendo suas multicoloridas e enormes asas de borboleta.

    Era um anjo, afinal. Mas ela ficou abismada ao perceber que ele baixava o olhar e evitava encara-la, como se alguma idéia de perigo continuasse a ronda-lo. Ainda assim, isso era absurdo, e, até onde ela sabia, anjos nunca ficavam tímidos; no máximo permaneciam um pouco desconcertados quando percebiam que havia na terra alguns seres que atingiam um encanto bastante próximo ao deles.

    Intrigada com aquele ser estranho, que não se encaixava em nenhum dos padrões que até então conhecia, ela lhe pediu que tocasse novamente a melodia que a atraíra. Aquilo certamente não era obra de mãos humanas, e ela se perguntara então como um instrumento sagrado havia despencado e aterrissado justo ali, e que tipo de magia havia que despertava as emoções mais profundas dos seres que ouviam aquela música.

    Ele a fitou profundamente por um momento, e enquanto tomava distância, suas asas estenderam-se completamente. Suas mãos, ágeis pelos séculos de prática, principiaram a música mais bela que conhecia; porém, assim que viu o brilho nos olhos da fada iluminar-se cada vez mais, suas mãos perderam o controle. Seus dedos escaparam de sua concentração, e a música foi fluindo então por acordes inesperado, simplesmente inspirados naquele momento único e mágico.

    Os cabelos ruivos da fada escaparam-lhe do rosto, enquanto ela sorria da forma mais magnífica que ele já vira na vida. Sua face era então a perfeição que ele sempre sonhara, desde quando ainda não havia aprendido a pensar. Seu jeito, sua risada e seus lábios rosados eram tudo o que permanecia no universo consciente daquele anjo, que encaminhava as últimas notas de sua singela melodia, que já então havia se transformado numa fantástica declaração.

    A voz dela se ergueu durante esse momento, e eles formaram o dueto mais completo que Deus até então havia concebido, pois tanto um quanto ou outro conheciam completamente a alma humana. E a semente secreta do anjo então se manifestava de forma aparente, enquanto sua mente não mais se atinha a considerar algo tão elementar quanto o surgimento das flores na primavera.

    A fada, apesar de nunca ter concebido um destino como este, não resistiu ao amor que também florescia em seu coração. E permaneceu lá ao lado dele, enquanto este se deitava em seu colo, exaurido de todas as forças e com os sentimentos transbordando, e ela lhe acariciava os longos cabelos dourados; parecia que a realidade então se confundia com seus próprios sonhos e desejos secretos.

    O fogo e ouro então se fundiram num só, numa iniciativa mútua que impulsionava a qualquer ser nas mesmas condições. E que no entanto foi o primeiro beijo verdadeiro provado por ambos, o primeiro em que seus espíritos tremiam de agonia e de felicidade, e suas almas imploravam por algo além da eternidade. Foi uma benção que superou a imaginação, e se igualava em perfeição somente à essência de toda a criação.

    A partir desse ponto, eles passaram a ser símbolos da felicidade viva que se perdia por entre as marés do mundo, e que se acabava em guerras inúteis ao longo dos reinos humanos. E no céu os anjos andavam preocupados, assim como Deus também o estava, enquanto avaliava novamente como seriam as escolhas de seus mais poderosos filhos.

    Ocorreu então que uma nova dissidência celeste surgiu, motivada por um tarólogo embriagado de cerveja fermentada em nuvens eletrizadas. E embora há muito a sociedade angélica estivesse enveredando para os vícios humanos, estes ainda não eram conhecidos como pecados ou erros, e dessa ingenuidade talvez tenha decorrido a mais terrível e feroz de todas as guerras que surgiram até então. Um sofrimento milhares de vezes maior só foi evitado graças aos esforços dos anjos alternativos, que curiosamente conheciam perfeitamente os sentimentos da maioria de seus inimigos.

    Eles sabiam que os outros anjos haviam sido motivados pelas mesquinharias e histórias que surgiram no mundo dos humanos, e que novamente insuflavam a aura dos de coração fraco. E toldavam a alma dos ingênuos, enquanto arrastavam-lhes para o cumprimento de seus pérfidos desígnios. Seu irmão exilado ria do outro mundo, porém não se atrevia a interferir na contenda; seu campo de ação sempre foi limitado única e exclusivamente à terra, e somente por vontade dos próprios humanos.

    Deus não evitou de se sentir triste, nem de derramar suas próprias lágrimas pelas atrocidades que eram cometidas. Mas sabia que elas seriam necessárias cedo ou tarde, que o conhecimento do bem e do mal era mais do que primordial; ele era um caminho de definição, através do qual cada ser encontraria sua própria razão e desenvolveria o seu próprio universo.

    Os anjos já haviam há muito protelado a sua escolha, e muitos preferiram ficar com os olhos fechados em outros tempos. Porém, o término do período de reclusão e bem aventurança havia chegado ao fim para todos, desde querubins até arcanjos; e a felicidade ou vaidade ingênuas que sentiam não era mais suportadas pela grandeza que assumiam os seus sentimentos.

    A venda foi retirada de súbito, e então todos puderam enfim enxergar o paraíso celeste dos nefelibatos completamente destroçado. Desde os humanos que pararam seus exércitos e suas guerras inúteis para contemplar o céu, esperando o fim do mundo, até as plantas, os animais e as estrelas, que sempre tiveram vida própria, embora ninguém além de Deus soubesse disso até ali.

    As altas torres de nuvens estavam arrasadas, corroídas pelo fogo dos mais variados encantamentos de destruição que silenciosamente passaram de boca em boca e brotaram num instante como um furacão de chamas, varrendo todas as coisas a sua frente. Cometas caiam de um lado para o outro, e diz-se que os homens gravaram em seus espíritos todas aquelas cenas terríveis, e que mais tarde abandonaram as espadas para reconstituir toda aquele caos que um dia contemplaram.

    Os anjos, porém, não largaram suas espadas em momento algum. Eféstelos, o líder das tropas arcanas com maior poder de defesa organizou uma barreira sobre a torre de cristal que permanecia no pilar do infinito. Cerdios, o tarólogo embriagado, logo foi decapitado por Nosferdius, o arcanjo que adquirira o maior poder daqueles tempos ao sugar a força de todos os adversários que derrotara em sua escalada.

    A espada de Nosferdius era negra para além da noite, com um vazio ecoante mais profundo do que a morte; os ecos eram gritos de agonia que se amplificavam sobre os mil pontos de sua alma estraçalhada. Sob sua ordem havia uma legião de anjos e arcanjos, que logo atacaria uma indefesa torre, protegida em sua maior parte por querubins completamente assustados e despreparados.

    Eféstelos, porém, ainda comandava um último batalhão de arcanjos, tidos como os melhores em exercícios de armas e coragem por todo o céu. Sua bravura espontânea se havia endurecido com a guerra, e embora eles agora não passassem impressão maior do que a de máquinas de matar, ainda existia um pingo de ternura em seus corações. No entanto, estavam conformados com seu destino: morreriam junto aos outros, mesmo que derrotassem seus inimigos; para eles não havia outra vida ou um novo recomeço; esse seria seu sacrifício final, em prol da fé e dos que lhes sucederiam e herdariam o paraíso.

    Mas os segredos e artimanhas de Deus ainda existiam, e quando tudo sem encaminhava para um último toque abafado e sangrento, todos os anjos pararam de súbito. Um toque de flauta varreu as paisagens celestes, e abriu todas as janelas e portas que se mantinham fechadas. Um exército de demônios se reunia acima e ao redor do domo encantado, onde outrora havia disputas e esportes, e agora só refugiados persistiam.

    Nosferdius e sua tropa acabaram com eles em um único instante, antes de, cegos pela raiva, perceberem que os malignos e assustadores seres não passavam de uma ilusão reflexiva. O clarão acentuado que os acometeu deu tempo para Eféstelo lançar suas tropas e começar a grande batalha, que já havia sido marcada pelos dados dos destinos, que se haviam encravado nos corações e decisões de cada muito tempo antes, e desabrochavam tristemente naquele instante.

    Foi um confronto horrendo, o qual todos os que sobreviveram acabaram por varrer espontaneamente de suas mentes. E somente a alguns poucos escolhidos Deus preservou os detalhes, para que um desastre do tipo nunca mais voltasse a ocorrer enquanto estes novos arcanjos, líderes supremos de toda as ordens de anjos, mantivessem o equilíbrio entre paz, a felicidade, e o conhecimento dos sentimentos, aos quais os anjos agora também tinham direito.

    Mas eu ainda lembro que nesse meio tempo, quando o dia ainda amanhecia e a vida parecia que ia continuar além do buraco negro de solidão que se anunciava, a flauta continuava a ecoar o seu clamor suave e poderoso. E uma fada, mais bela do que qualquer anjo ou ser do universo, voava ao lado de um cupido que tocava alucinadamente a maravilhosa ária, e entre as pausas disparava zilhões de flechas para além das ordens do próprio universo.

    E assim eu os vi, há muito tempo atrás, subirem além do céu, além das imagens, ilusões e corações. E se tornarem enfim a imagem mais completa da esperança que temos desde então, e que se mostra sempre sob a forma de duas crianças eternamente encantadas e apaixonadas.
     

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