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Punição

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Alisson P., 18 Nov 2008.

  1. Alisson P.

    Alisson P. Usuário

    Bem, o conto que segue é meio insólito... Talvez por isso tenha hesitado tanto em postá-lo por aqui. Mas resolvi dar uma chance a esse texto, e gostaria muito da opinião de vocês.XD
    Críticas são bem vindas... E, se alguém tiver uma sugestão melhor de título, pode postar.:uhum:
    Então, pessoal... Boa leitura!
    :dente:

    _______________________________________________________________________________

    Punição


    Esperou as outras irmãs se recolherem e andou cautelosamente até os aposentos daquela que lhe despertava desconfiança. Já era bem tarde, e os corredores do Juvenato Maria da Paz pareciam reproduzir o sombrio silêncio que havia lá fora. Segurando uma vela com uma das mãos, Madre Mirtes tirou do bolso de seu hábito uma velha chave de prata, já um pouco desgastada pelo tempo. Só ela sabia da existência daquele objeto, que abria todas as trancas do convento. Empurrou-a devagar contra a fechadura do quarto de Giovana, noviça cujo comportamento incomodara seriamente a Madre Superiora nos últimos meses. Abriu silenciosamente a porta da clausura. “Esse é o momento em que tudo será descoberto”, pensou, sorrindo com satisfação.

    A escuridão do quarto foi rompida pela luz oscilante proveniente do castiçal da freira. Percorreu o lugar com a vela e percebeu que o quarto estava vazio. Pareceu-lhe que suas piores hipóteses tinham se confirmado: a irmã Giovana havia fugido. A cama ainda estava arrumada, intacta, com o crucifixo de madeira pousado sobre os lençóis de linho. “Ela sequer se ajoelhou diante do leito para fazer sua oração noturna”. Pegou uma lanterna que estava largada no chão: achou, por algum motivo incerto, que precisaria dela naquela noite. Ligou-a e apagou a vela, deixando o castiçal em cima do criado-mudo. Olhou para o retrato de Jesus Cristo pendurado na parede e, em pensamento, culpou-se pelas atitudes da pupila. “Não estou conseguindo educar a irmã Giovana segundo as normas da Igreja”, resmungou para si, angustiada.

    A janela de madeira não havia sido fechada no ferrolho. Madre Mirtes abriu-a, procurando algum vestígio que a fugitiva pudesse ter deixado. Sentiu o vento gelado que vinha de fora acariciar seu rosto, e imaginou como a noviça poderia ter escapado... Subitamente, a idéia lhe ocorreu: em frente àquele quarto havia uma mangueira, cuja copa ficava ao nível da janela. Achou isso um absurdo, mas teve que admitir que não seria difícil para Giovana, que crescera em um sítio e fora acostumada a trepar em árvores quando criança, esgueirar-se por entre os galhos e saltar para o jardim do Juvenato. “Que palhaçada você me arrumou, hein, menina?!”, pensou a Madre Superiora, enchendo-se de raiva. “Mas hoje eu irei flagrá-la...”.

    Saiu do quarto, trancou a porta e atravessou os corredores em silêncio. Carregava agora uma expressão austera no rosto. Nunca aquilo havia acontecido com uma de suas noviças. Não deixaria que o Senhor a penalizasse por um erro de uma garota dissoluta. A freira estava determinada a encontrar Giovana, castigá-la e mandá-la de volta para as brenhas de onde tinha saído. Aquela garota podia possuir vocação para tudo, menos para servir a Deus.

    Quando fora apresentada a Giovana, há um ano, Mirtes espantara-se com sua beleza e entusiasmo. A jovem, de longos cabelos ruivos e olhos verdes, dizia que ser uma religiosa era o maior sonho de sua vida. Não obstante a aparência da moça, a Madre acreditou naquela conversa e acolheu a estranha como uma de suas alunas. Uma atitude impensada que gerara péssimas conseqüências...

    Giovana revelara-se uma mulher inconstante, rebelde e misteriosa... Desde o início de sua estadia no Juvenato, demonstrava ser um pouco excêntrica, mas não ao ponto de deixar a Madre desconfiada. Porém, depois de seu aniversário de dezoito anos (que passara na casa dos pais), a noviça começou a despertar a preocupação de suas companheiras e da diretora do convento. Freqüentemente, tinha ataques de histeria e enclausurava-se cedo demais. Pelo menos uma vez por semana, chegava atrasada no café da manhã e permanecia calada o dia inteiro.

    Madre Mirtes tinha certeza de que a jovem estava apaixonada. Para ela, estava claro que Giovana, toda semana, escapava do convento para encontrar-se com algum amante, e isso devia estar deixando a aspirante a freira perturbada... “Mas essa história está prestes a acabar”, pensou, descendo as escadas que levavam ao térreo do Juvenato. “Nenhuma noviça aqui viola o voto da castidade sem sofrer severa punição...”.

    O belo jardim, que pela manhã era colorido e alegre, àquele horário parecia refletir a obscuridade que tingia o céu noturno. Não era mulher dada a superstições, mas Madre Mirtes estremeceu ao ver os contornos das árvores e imaginar criaturas perversas prestes a atacá-la... “Meu Deus... Esses problemas estão me fazendo enlouquecer...”, concluiu, agarrando com força o rosário que carregava no pescoço. Pressentia que algo ruim estava por vir...

    O Juvenato Maria da Paz ficava no pé de uma colina afastada do centro do município de Ararinhas, perto da qual só existiam casas de humildes camponeses e pequenos agricultores. Fora construída em frente a uma estrada de terra ladeada por um cercado que a separava de um matagal fechado, onde os moleques gostavam de brincar, para o desespero dos pais. Embora não aceitasse isto, Madre Mirtes era uma mulher intuitiva, e algo lhe dizia que Giovana estava por ali... Sentiu uma pontada de ódio ao imaginar a irmã trocando carícias com seu amante, ambos nus e escondidos no meio do mato... Isso precisava ser corrigido! Ela, no papel de Superiora, tinha que zelar pela integridade de suas meninas.

    Reunindo a pouca coragem que tinha, levantou o hábito e atravessou o buraco existente no cercado, por onde as crianças passavam para adentrar o matagal. O arame farpado arranhou-lhe dolorosamente, salpicando de púrpura sua pele pálida. A fraca luminosidade que vinha de sua lanterna permitia-lhe ver muito pouco entre as inúmeras árvores ao redor.

    Desnorteada, tropeçou e sentiu o rosto colidir contra os pedregulhos no chão... Dor. Levantou-se, limpando suas vestes. Sua lanterna, caída, apontava para algo à sua direita. Seu estômago revirou... Abaixou-se e pegou aquele monte de pano que estava largado à luz da lanterna. Eram roupas. Uma longa saia cinza, sapatos e uma blusa marfim. Os trajes que as noviças do Maria da Paz usavam. Tateou ao redor e encontrou um rosário largado no chão, junto com algumas peças íntimas...

    - Giovana, sua pervertida! – gritou, com ferocidade. - Apareça já, junto com esse seu namorado nojento... Eu sei que você está por aqui!

    A freira parou no momento em que ruídos estranhos invadiram seus ouvidos. Sentiu o coração gelar ao escutar cascos galoparem em sua direção. Um relincho alto e estridente se espalhou pela noite, rasgando o silêncio que havia no matagal... Terror. Sua visão embaçou, mas Mirtes conseguiu distinguir um ponto de luz que se aproximava à sua frente. O rincho ecoou novamente, mas parecia agora mais forte.

    Os contornos de uma criatura negra, eqüina, começavam a aparecer diante dela. Era uma mula, acéfala, e de seu pescoço saía um fogo crepitante. A religiosa, ao ver o bicho saltar em sua direção, fez o sinal da cruz. Esse foi seu último gesto. E aquelas chamas, de um tom ardente como os cabelos de Giovana, formaram a última imagem que seus olhos captaram antes de se fecharem eternamente.
     
  2. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Puts!
    Jovem, demorei quase a tarde toda para ler, porque o serviço aqui ta pesado, mas valeu cada minutos a leitura. Muito bom mesmo. Você conseguiu dar uma cara nova e nada regionalista a um personagem dos nossos mitos regionais mais antigos. Preciso nem falar mais nada! Carinha tu é um gênio, já é o segundo conto seu que eu leio e posso dizer que você daqui do fórum é quem mais tem futuro para o oficio de escritor.
     
  3. Alisson P.

    Alisson P. Usuário

    [size=x-small]<----- seachando[/size]
    :rofl:
    Nossa, Breno, muito obrigado!
    Eu tô com essa bola toda, é? :dente: ...rs

    Valeuzão pelo comentário!
    Hugs
     
  4. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Ta sim carinha!
    O texto ficou muito bom, quem me dera escrever tão bem.
     
  5. imported_Cleo

    imported_Cleo Usuário

    Faço minhas as palavras do Breno.
    Narrativa na medida certa, sem ser mantida a base apenas de ações, mas sem aquela excesso enfadonho de descrições.
    Sem contar que, como o Breno disse, é muito original. Você conseguiu fazer eu ler amarrada à própria história, mas já pensando no que viria ao final. E, uma coisa garanto, das várias visões que tive do desfecho do conto essa nem passou pela minha mente.
     
  6. Alisson P.

    Alisson P. Usuário

    Gente, muito obrigado mesmo!
    Às vezes quando escrevo, me pergunto se inseri descrições suficientes para o leitor embarcar na história, se os personagens estão bem construídos etc. Me preocupo em tentar fazer com que o texto não fique enfadonho e a história corra em um ritmo legal. Com os comentários de vocês, pude ver que dessa vez não pequei nesse ponto! Vocês não têm noção de que como é importante a opinião de quem lê...:sim:
    Por isso, agradeço de novo... E fico lisonjeado com os elogios!
     
  7. Breno C.

    Breno C. Usuário

    Cara! Agente faz questão é que você sempre coloque por aqui os seus textos, é a melhor forma de conhecermos talentos como o seu. E sim eu sei como é importante a opinião de quem lê, nem por aquelas paradas bobas de ego, mas sim para o que vem no futuro, para as novas obras, não é verdade?
     
  8. Angélica

    Angélica Visitante

    Alisson, creio eu que você tem o dom da escrita. Poucas pessoas são capazes de escrever pouco e dizer muito, você se encontra entre estas. Lembre-se de levar em conta que eu não escrevo e não entendo de literatura, todavia, esses dois contos que escreveu e que tive o prazer de ler aqui no meia palavra, apesar de termos nos conhecido antes de aqui nos registrarmos, agradaram completamente esta leitora que vos fala (óia ocê num acha que eu falei chiqui, inté ieu tô surpresa cum ieu mema, mai ocê meRece, ceRto?). Brincadeirinhas à parte, você recebeu aqui elogios de pessoas que escrevem, então sinta-se duplamente orgulhoso.

    E, por favor, continue "se achando", você pode :sim: Parabéns darling e, hããã, qdo mesmo que você irá nos brindar com outro conto? ;) bj da :lily:

     
  9. Alisson P.

    Alisson P. Usuário

    Thanks! :timido:
    Bem, Angel, há um em curso... Mas ainda não sei quando ficará pronto.
    Se sair algo bom, pode ter certeza que posto por aqui.
    :lendo:
     
  10. Excluído01

    Excluído01 Banned

    Realmente , Alisson , você merece todos esses comentários positivos !






    :tchauzim:
     

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