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[L] [Largo Cavafundo][Seis Minutos]

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Largo Cavafundo, 27 Set 2003.

  1. Largo Cavafundo

    Largo Cavafundo Usuário

    [Largo Cavafundo][Seis Minutos]

    Oba! Mais um conto meu!!!

    Esse é um que me deu muito orgulho quando eu terminei... espero que vocês gostem...

    Boa leitura!


    "
    Seis Minutos

    Seis palavras podem começar uma história:
    - Qual o andar do doutor Shnaider?
    Era o nono, é claro, ela já sabia. Tinha visto na sua agenda antes de deixar sua casa, só queria checar. Nem teve de aguardar o elevador, este já se encontrava no térreo, como ela descobriu quando apertou o botãozinho branco e ouviu o barulhinho de sino, que sempre odiara. Sobe, dizia a luz verde-clara em formato de flecha. A porta metálica deslizou para a direita, revelando – no interior da caixa prateada – um homem, baixo como estava baixa a sua cabeça. O uniforme cinza-claro e o esfregão denunciavam sua posição de faxineiro no prédio.
    - Bom dia – ela sempre se orgulhara de sua disposição para conversar com qualquer um, mesmo um faxineiro. Seu sorriso abria-se, um pouco amarelado (não por não ser espontâneo, mas por falta de pasta de dentes), enquanto ela entrava no elevador, assistindo alguém idêntico a ela fazendo o mesmo, logo ali, depois do espelho.
    A porta nem havia começado a fechar quando uma voz chegou até seus ouvidos, vindo de algum lugar fora do elevador. A mulher pôs a mão na frente da porta, novamente orgulhosa, desta vez por ter ajudado um semelhante. Até agora estava se saindo muito bem, digna de ser chamada “humana”.
    Anita adora sair de casa.

    * * *

    A moça entrou, veio o doutor.
    Corria, não como um corredor, mas como um sedentário que precisava alcançar o elevador, na tentativa de aborrecer o mínimo possível aquela que havia entrado no elevador agorinha mesmo. Aborrecer Jairo não era problema, ele era empregado, não cliente.
    Não se deve entender isso, porém, como uma reclamação do faxineiro, e muito menos como uma demonstração do aborrecimento que o doutor tentara, certamente, evitar. Os dois tinham uma relação amigável desde que o jovem dentista instalara seu consultório no prédio que Jairo limpava há vinte e sete anos (vinte e oito em maio!)
    - Bom dia, doutor, parece que está um tanto atrasado hoje. Não devia chegar às oito horas?
    - Esperar quinze minutos não há de fazer mal a ninguém, Jairo.
    - Dezesseis, doutor, dezesseis!

    * * *

    O botão do nono estava solto.
    O dentista, ou melhor, ortodontista (como ele preferia ser chamado) girou-o até que o “6” voltasse a ser um “9”. Perguntou à desconhecida qual andar era o seu destino; nono também. A porta deslizou e fechou-se. O doutor sentiu o movimento vagaroso do elevador, com o qual ele já estava acostumado. É claro que seria melhor um mais novo, que o levasse ao andar de número nove em menos tempo, mas este haveria de servir, era o único. Mas a vontade de ter um mais rápido apenas se intensificou quando a máquina arcaica (que devia ter uns cinco anos, tal era a velhice!) resolveu parar entre o terceiro e o quarto andares.
    - Deve voltar a funcionar em alguns instantes, não se preocupe, isso sempre acontece. – Daniel respondeu à expressão de desespero da mulher que lá se encontrava, em seguida assistindo-a correr até a porta do elevador (ignorando o dentista), não sem antes pisar no pé do coitado do jovem. De sua boca, coberta de batom, não saiu uma palavra de desculpas, mesmo depois do gemido de dor. Ela batia na porta e gritava por ajuda.
    - Senhora... – começou o velho Jairo, tentando ser o mais delicado possível, como ele sempre fizera. Sua voz baixa e sua timidez só inutilizaram a tentativa, fazendo com que Daniel tiv esse de usar suas próprias palavras para que a mulher se calasse.
    - Com licença, gritar não vai adiantar nada, e ficar correndo pelo elevador menos ainda, principalmente porque esse espaço não é tão grande. Já te disse que isso acontece sempre, já já estaremos subindo novamente, é só o tempo de perceberem que paramos. Agora fique calma antes que machuque mais alguém.
    O silêncio foi imediato, mas durou só alguns segundos. Quem o interrompeu não foi a mulher, mas o faxineiro, perguntando se o doutor estava bem e aconselhando-o a tirar o sapato, era desnecessário ficar apertando o que já estava machucado.

    * * *

    - Seis dedos, meu Deus, seis dedos!
    É certo que uma aberração como aquela não deveria ter permissão para andar por aí, pela rua, em meio a gente normal e decente. Anita tinha todo o direito de não dividir o elevador com alguém assim. E ela com certeza não se importava com o fato de ter exclamado as seis palavras já transcritas em voz alta, quase berrando, aliás. A mulher apertou-se contra a parede contrária ao doutor, quando lembrou que não era só dividir um elevador com uma criatura como aquela que ela tinha de fazer, mas dividir um elevador parado com a criatura e seus vinte e dois dedos. Mesmo com a parede sólida (e mais fria do que ela gostaria) atrás de si, suas pernas continuavam a mover-se, ainda que ela não desse uma ordem para que elas o fizessem.
    - Minha senhora, - começou o faxineiro – não há motivo para escândalos, são só dois dedos! E do pé, o que faz com que estejam escondidos a maior parte do tempo. E são tão pequeninos, olhe só, mal dá pra notar! – ele realmente parecia não notar os nojentos pedaços de carne, osso, pele e unhas entre os dois dedões e os dedos que deveriam ser os seguintes. Aquele pé não tinha a harmonia divina que todas as criaturas normais têm. Aquilo simplesmente não era natural, não importa o que o empregado do prédio dissesse.
    - Com licença, dona...
    E ainda ousava falar com ela! Como ele podia pensar que poderia se aproximar dela? Pensar em ‘aproximação’ fez a mulher imaginar os doze dedos no ar, chegando cada vez mais próximos do rosto aterrorizado da dona-de-casa, seis toquinhos e mais seis toquinhos ondulando, dançando, provocando-a com o prazer terrível das pessoas e coisas más. Chegando cada vez mais perto, tentando tocá-la, possui-la, mergulhá-la num mar do pior dos pecados capitais, a luxúria, penetrá-la e consumir sua alma até que esta estivesse perdida. Nas mãos do diabo, seja ele concreto ou metafórico. A voz veio de fora do elevador:
    - Só mais uns cinco minutos!

    * * *

    Cinco minutos para manter a paz.
    Com a mulher debatendo-se daquele jeito, Jairo não achava que teria uma tarefa fácil. Como seis dedos podiam ser algo tão ruim? Está certo que, depois que o faxineiro notara a anormalidade, ele passou a er o antigo colega com outros olhos. Aliás, ele começou a ver mais o doutor, ou pelo menos seu pé. Era impossível não virar os olhos para o ponto no chão onde os dois pés descansavam, como era impossível para um polo sul de um ímã não ser atraído pelo polo norte de outro. Afinal, não é algo que se vê todo dia. Mas não!, a atitude da mulher não era correta.
    Pelo canto dos olhos, enquanto ele observava os estranhos mas contraditoriamente normais pés, viu a moça ajoelhar-se. Virando a cabeça, notou que ela tinha os olhos forçosamente cerrados e as mãos juntas, enquanto seus lábios se moviam sutil mas rapidamente. Por debaixo de suas pálpebras escapavam lágrimas que desciam por suas bochechas sem cor e atravessavam o canto de seus lábios coloridos demais, para chegarem a um queixo liso que subia e descia conforme as palavras de oração eram ditas.
    - Ora, mulher, não seja tola! – Jairo deixou escapar, indignado. Não se preocuparia com a educação exigida pelo chefe enquanto assistia o doutor Daniel sendo ofendido daquela maneira. – Deixe disso que o doutor não é demônio nenhum, e você sabe! Vamos, e peça desculpas, porque é você que tem algumas coisas a confesar ao padre, e não um homem de bem como o doutor.
    A mulher acabou a reza e abriu os olhos aguados. Embora não falasse uma palavra, seus pábios se mexiam num tremer louco. Lentamente, ela levantou-se, olhando o faxineiro nos olhos, como se agora ele fosse o inimigo, e Jairo pensou que era provável que fosse, mesmo. Ela pôs a mão dentro de sua bolsa, e pareceu procurar algo por lá. Retirou-a, mostrando ao faxineiro e ao dentista uma tesoura, daquelas de costura, mas mais afiada do que tesouras de costura costumavam ser. Segurava-a como se segura uma adaga.
    Cinco minutos nunca passam rápido o bastante.

    * * *

    A mulher era louca, com certeza.
    Com um pulo, ela tentou atacar o odontologista, que com o utro escapou. Louca, só pode ser. Gritando palavras desconexas, algumas frases, algo sobre consertar as deformações do Reino de Deus, preservar a pureza, o Bem. É, com certeza aquela mulher era uma perfeita representante do Bem. Daniel só achava que seria mais fácil acreditar nisto se ela não estivesse tentando atacá-lo com um objeto cortante.
    Com certeza o socorro não estava demorando mais que o tempo de sempre, mas os poucos minutos se alongavam de maneira horrenda. O doutor e a mulher davam voltas no elevador, como duas crianças brincando de pega-pega, em volta de Jairo, que tentava segurar a mulher, sem conseguir por causa da tesoura. O dentista gritava dentro de sua mente para que o faxineiro se apressasse. Finalmente, ele saltou para frente, segurou a mulher e soltou a tesoura de sua mão, jogando-a no chão e chutando-a para um canto do elevador.
    Logo depois da tesoura, a moça caiu também. Agachou-se no chão, cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar escandalosamente. Daniel pegou seus sapatos e calçou-os. Esquecera da dor com toda essa confusão, e agora ela voltava para incomodá-lo. Louca, uma louca. O elevador se moveu, um tranco. Estava subindo.
    Jairo estava ajoelhado ao lado da mulher, acalmando-a. Esse era Jairo, sempre educado e humano, mesmo com as pessoas que não o eram também. A mulher parou de chorar. O dentista pegou sua pasta no chão. A mulher levantou-se e arrumou a bolsa no ombro. O faxineiro pegou o esfregão, O velho som do sino. Nono andar.
    Daniel e Anita entraram no consultório, o homem primeiro. Se cumprimentaram, a mulher deitou-se na cadeira inclinada, e o odontologista limpou seus dentes amarelados como se nada tivesse acontecido.
    "
     
  2. Inho

    Inho Usuário

    Caramba, Largo! Adorei! Muito bom!
    Que tipo de prazer é esse que você demonstra ter dissecando cada instante, enriquecendo o conto com análises psicológicas nem profundas nem superficiais demais - apenas o suficiente para o desenrolar da história em seu ritmo? Bem, seja qual for o tipo de prazer, eu o sinto também.

    Em muitos casos essas investigações psicológicas, quando muito detalhistas, acabam por atrapalhar a trama e, muito mais frequentemente, o gosto pela leitura. É importante medir bem essa poderosa ferramenta, e você o faz.

    E uma bela ironia para finalizar...o conto termina, but life goes on! Parabéns!
     

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