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Inspirações da obra de Tolkien - II: a origem dos Hobbits

Tópico em 'J.R.R. Tolkien e suas Obras (Diga Amigo e Entre!)' iniciado por N'liärien, 26 Dez 2005.

  1. N'liärien

    N'liärien Banned

    Inspirações da obra de Tolkien - II: a origem dos Hobbits.

    Praticamente todos os leitores atentos de o Senhor dos Anéis sabem que seu artífice, o magnífico espírito de J. Ronald R. Tolkien, tinha horror à alegoria; isto afirmado pelo próprio Tolkien, na introdução da obra supra referida.
    E em 1971, J. R. R. Tolkien concedeu à rádio BBC de Londres uma entrevista (que hoje é histórica); a entrevista concedida pelo professor Tolkien foi ao programa Now Read On..., da BBC rádio 4 e o entrevistador foi Dennis Gerrolt, que, a certa altura, questionou do mestre literato:
    Gerrolt: “O livro deve ser considerado como uma alegoria?”
    Tolkien: “Não! Eu repugno a alegoria sempre que lhe sinto o cheiro.”
    Contudo, há diferença de essência entre fazer alegoria e inspirar-se em experiências pessoais; não é uma assertiva de difícil compreensão. Assim, embora Sauron e o Anel não sejam - e muitos disseram o contrário - alegorias de Hitler nem da bomba atômica, muitas situações da vida de Tolkien foram por ele utilizadas como summa ratio ou mesmo como limitada (do ponto de vista da influência sobre o total da obra) inspiração para determinados cenários e/ou personagens.
    No presente artigo, desenvolvo a série (que iniciei com o artigo A Viagem de Bilbo), com a qual pretendo apontar em que se inspirou o mestre literário quase incomparável - ou talvez verdadeiramente inigualável, em sua área de criação (creio que ele diria de sub-criação) -, com relação a importantes tópicos de sua monumental produção literária.
    Como disse no primeiro artigo, não estou tirando minhas ilações apenas de mim mesmo, mas buscando a fonte: Tolkien, com ênfase para o que ele deixou registrado em suas cartas (e todos aguardamos, incomensuravelmente ansiosos, o lançamento, no Brasil e em nossa língua, de The Letters of J. R. R. Tolkien - por Humphrey Carpenter e Christopher Tolkien -, previsto para este nascente 2006; o livro é composto por uma coletânea - com cerca de 500 cartas escritas por Tolkien ao longo dos anos em que estava criando a trilogia do Senhor dos Anéis. Muitas das informações que estão nestas cartas são raríssimas).
    Ao desiderato precípuo, então.
    ー・A origem dos Hobbits
    Os hobbits têm primazia na obra de Tolkien e foram criados para tê-lo. É inquestionável e noutro artigo (Inspirações na obra de Tolkien - III: a santificação dos humildes) isto está devidamente provado e analisado.
    Aqui, o que importa é demonstrar que, mais uma vez, as experiências pessoais de Tolkien foram as fontes primeiras para muito do substrato de sua criação literária.
    E quanto à origem dos hobbits, diz o autor, numa entrevista concedida em 15 de janeiro de 1967, para o jornal "The Sunday Times" de Londres. O entrevistador e jornalista responsável foi Philip Norman. O título da matéria ao ser impressa foi: "A Prevalência dos Hobbits". Nesta curiosa reportagem, Tolkien faz algumas declarações realmente surpreendentes sobre suas intenções e sentimentos ao escrever "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit"; vejamo-las:"Hobbits adoram tabaco e fogos de artifício". (...) Eu corro para a janela - confessa - toda vez que ouço um whoosh.”
    Assim, o gosto hobbitiano por fogos vem do gosto do próprio Tolkien. Prossigamos, para ver que, na entrevista:
    "Tolkien começou a discorrer sobre sua infância, passada em grande parte nas midlands, as zonas rurais inglesas: ‘Sarehole - comenta suspirando - há muito foi devorado por prédios, mas era muito bonito na época’. Tolkien era um garoto tímido mas simpático, amigo das crianças da vila e ele conhecia uma senhora desdentada, que vendia doces. Ele modelou seus hobbits nas pessoas de Sarehole, o que indicava serem eles gente simpática, não muito dada a aventuras, mas sim a sua comida e bebida. Tolkien gostava de comida caseira e cerveja; ‘nada desta comida sofisticada’. Cerveja, queijo, manteiga e massas; e um ocasional cálice de Burgundy.”
    Vejamos, por partes: temos Tolkien crescendo na zona rural, em localidade tranqüila, absolutamente pacata, onde mesmo os automóveis eram raríssimos. Por isto, ele “modelou seus hobbits nas pessoas de Sarehole”.
    Mas notemos, ainda com mais precisão, esta afirmativa de Tolkien, sobre a “mudança dos ares” em sua terra natal: “Sarehole - comenta suspirando - há muito foi devorado por prédios, mas era muito bonito na época”. O que você, caro leitor, diz desta frase e de sua importância nas inspirações de Tolkien, quando lê “O Expurgo do Condado”, no final de “O Retorno do Rei”!?... Pense um pouco...
    Continuando a entrevista:
    "Hobbits - ele diz - tem o que se pode chamar de moral universal. Eu diria que eles são exemplos da filosofia natural e religião natural. Eles certamente são capazes de bravura e humanidade; e o fato de viverem em tocas, seu criador declara, não implica que isso tenha algo a haver com excentricidade animal.
    "Pessoas ainda gostam de casinhas de sapê; eles dizem que é porque é mais fresquinho no verão e quente no inverno, e pagam até mesmo um pouco mais de seguro. (...) E você já foi ao pub inglês mais antigo, o Trip to Jerusalém? É esculpido diretamente de rocha sólida de Nottingham Castle. Eu fui a Nottingham uma vez para uma conferência, temo que fomos ao Trip to Jerusalém e deixamos a conferência se virar por conta própria".
    É engraçado que Tolkien nunca gostou mesmo desta mania dos leitores - desavisados (e todos nós o somos, em alguma medida) -, de chamar os hobbits apenas de pessoas pequenas e nada mais; ele protesta:
    “Eu não gosto de criaturas pequenas. Hobbits tem de três a quatro pés de altura. Você pode ver pessoas desta estatura andando por aí.”E ele prossegue, no mesmo parágrafo, protestando até contra as criações de Shakespeare:
    “Se há alguma coisa que eu detestava era essas coisas do Drayton; horrível. Toda essa coisa de se esconder em campina, Shakespeare usou isso porque estava na moda, mas não mexia com a imaginação dele. Ele produziu alguns nomes simpáticos, engraçadinhos como Cobweb (teia de aranha), Peaseblossom (botão de paz) e por aí vai; e umas coisas poéticas sobre Titania, mas ele nunca sequer repara nela. Ela faz amor com um burro”.
    E na já relatada (em outros artigos) entrevista ao Sr. Gerrot, Tolkien responde e confessa:
    Gerrolt: “Você tem então um afeto particular pelos Hobbits?
    Tolkien: “Isso é por me sinto com eles como em casa... O Distrito é muito como o tipo de mundo no qual eu me dei conta primeiro de coisas que eram talvez as mais importantes para mim. Eu não nasci aqui, nasci em Bloomsdale na África do Sul, e era muito jovem quando voltei. Se sua primeira árvore de Natal é um eucalipto murchando e se você normalmente está procurando por calor e abrigo - então, é só ter à idade certa da imaginação se desdobrando e de repente se achar em uma silenciosa aldeia de Warwickshire, eu penso que isso gera um amor particular pelo que você poderia chamar Midlands (zona rural inglesa), baseado em água boa, pedras e olmo, subir em árvores, rios quietos e pequenos... e assim por diante.”
    E temos mais, na mesma entrevista:
    “Hobbits são pessoas inglesas rústicas feitas pequenas em tamanho porque reflete (em geral) o alcance pequeno da sua imaginação - não o alcance pequeno da coragem ou poder oculto.”
    É muito importante notar esta crítica à falta (ou à estreiteza) de imaginação dos ingleses. E não só Tolkien, mas seus colegas de Inklings, como C. S. Lewis (de As Crônicas de Nárnia), lamentavam e lutavam contra esta “dominação da razão”, contra a leveza humilde do potencial imaginativo. De certa forma, suas obras são um brado contra isto e uma tentativa de mudar isto, principalmente quanto ás novas gerações.
    Está aí: a origem dos hobbits.
    Fortaleza/CE, sábado, 24 de dezembro de 2005, 20:02 hs.
    J. Inácio de Freitas Filho.
     

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