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Notícias Fãs de Naruto fazem 'caminhada ninja' pelas ruas da Cidade Tiradentes

Fúria da cidade

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Eles passam de cabeça erguida e manto preto, máscara e chapéu panamá em estilo oriental. Mantêm olhar firme e sério, e vez ou outra fazem acrobacias na rua, dignas dos ninjas mais bem treinados. Não, não é filme ou série japonesa: a cena rola pelo menos uma vez por semana em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo.

Inspirados pela série de mangá e anime "Naruto", adolescentes se caracterizam dos personagens da organização Akatsuki, espécie de clã de ninjas mercenários, presentes na trama japonesa. Perambulam pelo bairro cerca de duas horas. Os olhares reúnem espanto, risos, admiração e por vezes algumas ofensas dos que temem que o grupo faça parte de alguma seita.

O cosplay teve um início digno dos grandes roteiros de cinema. Tudo começou em maio. Victor Dias, 18, comprou um manto que fazia parte da caracterização de um dos personagens do anime. Sua ideia era usá-lo de forma despretensiosa pelo bairro. Mas, bem, na hora de usar, rolou aquela vergonha de andar com uma capa chamativa na rua. Até que, dias depois, Victor decidiu ir trabalhar com a peça — na época, era repositor de um supermercado. Olharam meio torto e acharam esquisito, mas, dali em diante, ele perdeu a vergonha de dar rolê vestido de Akatsuki.

Ninjas ocultos

Foi em uma de suas caminhadas matutinas que Victor encontrou o auxiliar de cozinha Gabriel Flores, 18. Rolou aquela identificação: ele também usava as roupas do clã ninja. Isso foi em julho.

A amizade foi espontânea, bateu de cara. A partir daí, a dupla passou a "caçar ninjas" escondidos pelo bairro. "Pedi para andarmos juntos. Ele aceitou e, no mesmo dia, à noite, encontrei outro rapaz que pediu para tirar foto e disse que também tinha a roupa", lembra Victor.

Quem também encontrou os ninjas foi o consultor de relações públicas Markus Snyder Jr., 30, que já tinha visto, naquele mesmo dia, postagens dos dois jovens fantasiados circulando pelas páginas no Facebook do bairro — a vizinhança não perdoa. Snyder, que é fã do anime, logo se juntou.

"Me sinto muito bem participando. Quase ninguém conhece a cultura pop japonesa por aqui. Acho que inspiramos a leitura de mangás e o contato com a língua japonesa por meio desses animes", comentou Snyder, que narra até uma experiência pessoal: como vê muito o desenho, acabou aprendendo algumas palavras básicas do japonês como bom dia, boa tarde e boa noite. "A gente também sabe diferenciar a língua chinesa da japonesa, por exemplo."

O crescimento do grupo foi orgânico: agora, 12 jovens circulam de vestes negras por Cidade Tiradentes. Nas redes sociais das páginas e grupos do bairro, as fotos viralizaram. "Algumas pessoas acham uma idiotice, outras encaram como uma distração, mas ninguém reclama da gente", afirma Victor.

Entre os que pedem para tirar fotos com os "ninjas" estão cabeleireiros, comerciantes e até policiais. "Achei que eles [policiais] iriam enquadrar a gente, mas foi totalmente o contrário. Estacionaram a viatura ao nosso lado e pediram para a gente posar para foto. Disseram que um amigo deles também gosta do anime e iriam mandar para ele", lembra Gabriel Flores, aos risos.
Para Victor Dias, a fama já foi alcançada.

O grupo desperta curiosidade de quem nunca assistiu ao desenho ou leu mangá. "Comecei a receber diversas mensagens no Whatsapp e na página do Facebook. As pessoas estavam curiosas para saber quem eram e porque estavam vestidos daquela forma", comenta Sérgio Sodré, 29, coordenador de telecomunicações que mantém uma das páginas com mais seguidores sobre o bairro.

Influencer de rua


O interesse dos comerciantes também começou a trazer pequenos retornos para o grupo. Ao passar em frente a uma loja de calçados, a proprietária pediu que o líder do grupo fizesse uma "propaganda" dos seus produtos. O "cachê" foi um chinelo.
Markus Snyder Jr. pensa em criar um evento de cosplay na região. "Muita gente do bairro gasta uma nota para ir em outras regiões participar. A gente quer fazer o nosso próprio evento", afirma.

A dificuldade de acessar o universo nerd e geek de quem mora nas periferias já foi percebida pelo grupo PerifaCon, que em 2019 levou a exposição de forma gratuita ao bairro do Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo.

Para Gabrielly Oliveira, uma das fundadoras, esse tipo de cultura já é comum na periferia. "Temos que romper a visão de que as coisas não chegam. O problema é que ainda são poucos os espaços gratuitos nas periferias em que as pessoas podem se reunir para celebrar o que lemos e assistimos nos quadrinhos, desenhos e filmes. Espaços como o PerifaCon ainda são raros", comenta Oliveira.

"As periferias têm se reinventado, produzem suas próprias formas de entretenimento, que vão desde filmes, videoclipes, música, peças de teatro, tecnologia, histórias em quadrinhos, jogos e suas próprias fantasias de cosplay. Todas essas produções existem, mas dificilmente são levadas para outros ambientes", afirma Luíze Tavares, produtora e também fundadora do PerifaCon.
O evento visitaria as terras da caminhada ninja em 2020, mas a pandemia fez adiar os planos.

Grupo que sai vestido dos personagens do anime 'Naruto' em Cidade Tiradentes - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

Grupo de jovens sai vestido dos personagens do anime 'Naruto' em Cidade Tiradentes Imagem: Arquivo Pessoal

'Roupa do demônio'


A auxiliar de cozinha Fabiana de Oliveira, 43, mãe de Beatriz, de 11, acompanha a filha nas caminhadas pelo bairro e também teve que encarar seus preconceitos para entender e permitir que a filha se fantasiasse dos personagens do anime. "Ela via esses eventos pela televisão e pedia para comprar a roupa. Até que o pai dela comprou. Tinha gente que a via fantasiada e falava que era roupa do demônio. Também achei estranho no começo, mas depois me acostumei", revela Fabiana, que passou a ver "Naruto" e percebeu que não há nada de mais na história.

"Tem muito preconceito de classe. Várias pessoas de quebrada juntam grana para fazer cosplay, mas são chamadas de 'cospobre'. No geral, isso vem de gente classista para zoar e diminuir os esforços da galera em produzir um cosplay com os elementos mais caros ou importados", comenta Gabrielly Oliveira, fundadora do PerifaCon.

Dias foi demitido do mercado em que trabalhava logo no início da quarentena. Hoje, ajuda um amigo que tem uma barraca de roupas em uma feira do bairro, aos finais de semana, e organiza as caminhadas e a "adesão" ao clube, entrevistando diletantes que querem se juntar ao grupo. "Só precisa ter a roupa, disponibilidade para caminhar e morar na região", explica Victor, que usa um grupo no Facebook para divulgar.

Fã de novelas, Victor também dedica parte do seu tempo à escrita de histórias, que segundo ele são enredos de uma novela que criou. "É como se fosse uma novela em livro. Já fiz 82 capítulos", conta.

 

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