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Conexão entre clima e biodiversidade, artigo de Izabella Teixeira e Caroline Spelman

Tópico em 'Ciência & Tecnologia' iniciado por Elessar Hyarmen, 2 Nov 2010.

  1. Elessar Hyarmen

    Elessar Hyarmen Senhor de Bri

    "As soluções não serão simples nem fáceis, mas podemos e devemos procurá-las e colocá-las em prática"

    Izabella Teixeira é ministra do Meio Ambiente do Brasil. Caroline Spelman é ministra de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido. Artigo publicado em "O Globo":

    Ecossistemas saudáveis e um clima estável são críticos para o bem-estar e o desenvolvimento humano, mas ambos estão severamente ameaçados.

    Ao passo que florestas, savanas e campos foram convertidos em cidades e fazendas, que rios foram represados para irrigar campos, e que novas tecnologias forneceram energia para produzir e consumir coisas que gerações anteriores mal podiam ter imaginado, melhoramos a vida de bilhões de pessoas. No entanto, essas mudanças recentes nos sistemas naturais custaram muito aos complexos sistemas de apoio à vida no nosso frágil mundo.

    Embora muitos se sintam distantes da natureza, a perda de biodiversidade é uma ameaça imediata à saúde, à subsistência e à nossa economia. Nossa pesca depende de um oceano saudável.

    Nossa agricultura depende do material genético que alimenta sementes e animais, dos micro-organismos que fornecem um solo fértil e da água que irriga colheitas. Mesmo com a invenção de materiais sintéticos, árvores nos fornecem madeira e papel, fibras vegetais e animais nos dão roupas para vestir, e incontáveis organismos, muitas vezes irreconhecíveis à primeira vista, provêem-nos com medicamentos. A biodiversidade é a base de nossa riqueza e a raiz de nossa cultura. É o sistema de apoio à vida da Terra.

    A biodiversidade também é vital para o nosso clima. Florestas e savanas são fundamentais para a manutenção dos padrões de clima estável com o qual estamos acostumados, armazenando vastas quantidades de carbono e gerando chuva para nossos cultivos.

    Mangues e pântanos tornam-nos mais resistentes a eventos extremos, reduzindo a erosão costeira e as inundações e mantendo o fluxo e a qualidade da água. É a rica variedade de vida vegetal e animal, terrestre e aquática, que ajudará a adaptarmo-nos ao clima incerto do futuro. Em sentido oposto, uma maior degradação dos sistemas naturais pode acelerar o aquecimento global, que, por sua vez, vai colocar em risco o que estamos tentando proteger.

    Juntas, as alterações climáticas e a degradação ambiental estão reduzindo a resiliência dos ecossistemas e diminuindo a variedade de espécies e sua capacidade de adaptação.

    Um clima estável e ecossistemas saudáveis são componentes vitais para o desenvolvimento. Se não entendermos a interdependência entre clima e biodiversidade, e se não desenvolvermos meios de trabalhar de maneira integrada nessas questões, pode tornar-se muito mais difícil atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e livrar o mundo da fome, da pobreza extrema e de doenças que poderiam ser prevenidas, bem como evitar mudanças abruptas nos sistemas de apoio à vida do planeta, que não discriminam em função de renda.

    Proteger e melhorar o bem-estar e o desenvolvimento futuros requer uma reavaliação sobre como usamos, valoramos e protegemos nosso capital natural e sobre como estruturamos nossas economias. Reconhecer o verdadeiro valor da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, e levá-lo em consideração quando de nossas decisões econômicas, poderia ajudar a orientar governos, empresas e a sociedade no sentido de um crescimento mais verde.

    As soluções não serão simples nem fáceis, mas podemos e devemos procurá-las e colocá-las em prática.

    Um mecanismo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) poderia ser uma solução. Cuidadosamente projetado, o REDD tem o potencial para reduzir as emissões, e salvaguardar a biodiversidade de nossas florestas e de nossas savanas e as condições de vida das pessoas que delas dependem. O estudo Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (TEEB) estima que a perda de ecossistemas causada pelo desmatamento global equivale entre dois e cinco trilhões de dólares por ano.

    Para empresas, diminuir o uso de água e energia ou reciclar resíduos pode trazer benefícios de longo prazo em seus balanços de custos e de lucros, e à sociedade como um todo. Empresas preparadas para abrir caminho a novas tecnologias estão prontas para antecipar mudanças nas políticas públicas e para aproveitar novas oportunidades.

    Em última análise, todos nós - governo, empresas e sociedade civil - temos interesse em reconstruir o estoque de capital natural: ele está no cerne do modelo de negócios.

    Esta semana, 192 países estão reunidos na 10ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica em Nagoia, Japão, para discutir algumas dessas questões. Acreditamos decididamente que, ao identificar e agir sobre as relações entre o clima e a biodiversidade, poderemos proteger nosso precioso capital natural, ao mesmo tempo em que promovemos ações de adaptação e mitigação à ameaça das mudanças climáticas. Esperamos poder começar um debate importante sobre essas questões neste ano.


    (O Globo, 28/10)
     

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