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Carta 131 de Tolkien

Vi essa tradução de uma das cartas de tolkien e me disseram ser importante para entender O silmarillion. Mas cheguei nesse trecho,e ja reli muitas vezes mas nao consigo entender oque o mestre tolkien queria dizer nestes 2 paragrafos.Alguem saberia me dizer??? e quero saber tambem se vcs me recomendam ler esta carta antes ou depois de o silmarillion

Desagrada-me a Alegoria – a alegoria consciente e intencional – e no entanto qualquer tentativa de explicar o sentido dos mitos ou dos contos de fadas deve empregar uma linguagem alegórica. (E, é claro, quanto mais "vida" uma história contém, mais prontamente ela será suscetível a interpretações alegóricas: enquanto que, quanto mais bem feita uma alegoria deliberada, mais depressa será aceitável como simples história.) Seja como for, todo este material <c> ocupa-se principalmente da Queda, da Mortalidade e da Máquina. Inevitavelmente com a Queda, e esse motivo ocorre em diversos modos. Com a Mortalidade, especialmente na medida em que esta afeta a arte e o desejo criativo (ou, como eu diria, subcriativo) que parece não ter função biológica, e ser algo distinto das satisfações da simples e ordinária vida biológica, com que de fato costuma competir em nosso mundo. Esse desejo está ao mesmo tempo associado com um amor apaixonado pelo mundo real e primário, e portanto repleto do senso de mortalidade, e no entanto insatisfeito por ele. Possui diversas oportunidades para "Queda". Pode tornar-se possessivo, agarrando-se às coisas feitas como sendo "suas próprias", o subcriador deseja ser o Senhor e Deus de sua criação particular. Rebela-se contra as leis do Criador – em especial contra a mortalidade. Essas duas coisas (isoladas ou juntas) conduzem ao desejo do Poder, para mais depressa tornar a vontade eficaz – e desse modo à Máquina (ou Magia). Com este último termo quero expressar todos os usos de planos ou estratagemas (aparelhos) externos ao invés do desenvolvimento dos poderes ou talentos interiores inerentes – ou mesmo do uso de tais poderes com o motivo corrupto da dominação: atropelar o mundo real ou constranger outras vontades. A Máquina é nossa forma moderna mais óbvia, apesar de estar relacionada mais intimamente com a Magia do que se costuma reconhecer.

Não usei "magia" consistentemente, e de fato a rainha élfica Galadriel é obrigada a censurar os hobbits pelo seu uso confuso dessa palavra, tanto para os estratagemas e as operações do Inimigo quanto para aqueles dos elfos. Não usei aquele termo porque não existe palavra para estas últimas (visto que todas as histórias humanas sofreram a mesma confusão). Mas os elfos existem (em meus contos) para demonstrar a diferença. A "magia" deles é Arte, purificada de muitas das suas limitações humanas: com menos esforço, mais rápida, mais completa (produto e visão em correspondência sem vício). E seu objeto é Arte, não Poder; subcriação, não dominação e reforma tirânica da Criação. Os "elfos" são "imortais", pelo menos na medida deste mundo: e portanto ocupam-se mais dos pesares e fardos da imortalidade no tempo e na mudança do que da morte. O Inimigo, em formas sucessivas, sempre se ocupa "naturalmente" da mera Dominação, sendo o Senhor da magia e das máquinas; mas o problema de que esse terrível mal pode surgir, e surge, de uma raiz aparentemente boa, do desejo de fazer o bem ao mundo e aos demais <d> — rapidamente e de acordo com os planos do próprio benfeitor – é um motivo recorrente.
 
A) Sobre o uso do Termo Alegoria em relação a construção de seu Legendarium: eu vejo no sentido de Tolkien ter-se utilizado de fontes "atemporais" para compor seu Legendarium. Fontes relacionadas a arquétipos, mitos Celtas, Finlandeses, Germânicos, etc. Experiências que ele teve na Primeira Guerra Mundial, crenças e teologia cristã também.

Essa atemporalidade da Terra-média ultrapassa os "preconceitos", contextos e os limites vindos da alegoria. Por isso, ver ou analisar a mitologia de Tolkien numa ótica alegórica é um reducionismo que quebra (IMHO) a intenção original do Autor.

Exemplo: a Série Anéis de Poder reduziu a discussão teológica, moral e atemporal de Númenor. Da Atlântida de Tolkien, e um debate sobre vida vs morte vs imortalidade vs natureza humana (elementos atemporais) para uma discussão de "elfos/imigrantes ilegais estão roubando os empregos de Númenorianos". Ou seja, a Série reduziu, o que até então era um tema amplo, atemporal e teológico, para um debate alegórico sobre uma política divisiva/polarizadora (da imigração) dos nossos tempos.

- B) Sobre a citação a Queda vs Máquina vs Mortalidade. São Temáticas utilizadas por Tolkien no seu worldbuilding e são conteúdos trazidos nas Grandes Eras (1ª, 2ª e 3ª eras) da Terra-média.

Exemplo: Na Segunda Era, tem-se a Queda dos Elfos (os joalheiros e Celebrimbor) que sucumbem à máquina (os anéis de poder e o conhecimento oculto de Sauron) para domarem/lidarem com a mortalidade (o desgaste feito pelo Tempo na estrutura física do Mundo).

- C) A "magia maligna" citada por Tolkien em contraste com a "magia artística": A "magia" harmônica com o mundo subcriado (o termo referencia que tudo que é "elaborado/criado" é baseado em algo criado anteriormente, ou seja, é um subproduto da Criação divina de Deus) é algo bom e natural.

Exemplo: o Frasco que Galadriel concedeu à Frodo em sua jornada, é o uso da Água de Ulmo e a luz (analógica) do Espírito Santo que tá na Silmarill de Earendil. Isso é uma criação não-tirânica de Galadriel em relação ao Mundo. Em contraste, o Um Anel de Sauron é uma "magia maligna", pois é uma joia que manipula o "Elemento Morgoth" (termo utilizado por Tolkien para referenciar o motivo da matéria física ser "carnal" e manipulável para o Mal - exemplo: Pq o Ouro gera tanta cobiça e até guerras?) para gerar a Tentação/domínio sobre mentes e vontades de indivíduos que possuem livre arbítrio. Uma magia tirânica e maligna que atenta contra uma estrutura natural do mundo (livre arbítrio).
 
Última edição:
A) Sobre o uso do Termo Alegoria em relação a construção de seu mundo: eu vejo no sentido de Tolkien ter-se utilizado de fontes "atemporais" para compor seu Legendarium. Fontes relacionadas a arquétipos, mitos Celtas, Finlandeses, Germânicos, etc. Experiências que ele teve na Primeira Guerra Mundial, crenças e teologia cristã também.

Essa atemporalidade da Terra-média ultrapassa os "preconceitos", contextos e os limites vindos da alegoria. Por isso, ver ou analisar a mitologia de Tolkien numa ótica alegórica é um reducionismo que quebra a (IMHO) intenção original do Autor.

Exemplo: a Série Anéis de Poder reduziu a discussão teológica, moral e atemporal de Númenor. Da Atlântida de Tolkien e um debate sobre vida vs morte vs imortalidade (elementos atemporais) para uma discussão simplista de "elfos/imigrantes ilegais estão roubando os empregos de Númenorianos". Ou seja, a Série reduziu, o que até então era um tema amplo, atemporal e teológico, para um debate alegórico sobre uma política divisiva/polarizadora (da imigração) dos nossos tempos.

- B) Sobre a citação a Queda vs Máquina vs Mortalidade. São Temáticas utilizadas por Tolkien no seu worldbuilding e são conteúdos trazidos nas Grandes Eras (1ª, 2ª e 3ª eras) da Terra-média.

Exemplo: Na Segunda Era, têm-se a Queda dos Elfos (os joalheiros e Celebrimbor) que sucumbem à máquina (os anéis de poder e o conhecimento oculto de Sauron) para domarem/lideram com a mortalidade (o desgaste feito pelo Tempo na estrutura física do Mundo).

- C) A "magia maligna" citada por Tolkien em contraste com a "magia artística": A "magia" harmônica com o mundo subcriado (o termo referencia que tudo que é "elaborado/criado" é baseado em algo criado anteriormente, ou seja, é um subproduto) é algo bom e natural.

Exemplo: o Frasco, que Galadriel concedeu à Frodo em sua jornada, é o uso da Água de Ulmo e a luz (analógica) do Espírito Santo que tá na Silmarill de Earendil. Isso é uma criação não-tirânica de Galadriel em relação ao Mundo. Em contraste, o Um Anel de Sauron é uma "magia maligna", pois é uma joia que manipula o "Elemento Morgoth" (termo utilizado por Tolkien para referenciar o motivo da matéria física ser "carnal" e manipulável para o Mal - exemplo: Pq o Ouro gera tanta cobiça e até guerras?) para gerar a Tentação/domínio sobre mentes e vontades de indivíduos que possuem livre arbítrio. Uma magia titânica e maligna que atenta contra uma estrutura natural do mundo (livre arbítrio).
vlw meu mano, esclareceu bastante. Queria por ultimo so saber sua opniao sobre se devo ler esta carta por completo antes ou depois de ler o silmarillion. ela parece bem chatinha de ler
 

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