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The History of Middle-earth X – Morgoth’s Ring

Para quem já mergulhou fundo nos temas da mitologia tolkieniana mas sente falta de ouvir a voz do autor sobre os grandes personagens e acontecimentos de seu universo ficcional, “Morgoths Ring” (O Anel de Morgoth) é o livro indicado. O décimo livro da série é talvez o mais rico em saborosos ensaios, nos quais o autor amarra a história de Arda numa só visão criativa e analítica.
“Morgoths Ring” documenta uma (rara) fase de criatividade sem travas de Tolkien, logo depois que “O Senhor dos Anéis” foi finalmente completado e o velho Professor se sentiu livre para voltar às lendas dos Dias Antigos da Terra-média, abandonadas desde 1937 (doze anos antes, portanto).

Os textos começam seguindo uma ordem mais ou menos linear, a partir do Ainulindalë, o mito da criação de Arda, e seguindo pela história dos povos élficos até a fatídica rebelião de Fëanor. É nesse momento que “O Silmarillion” que nós conhecemos chega à sua forma quase definitiva (embora volta e meia Christopher Tolkien mostre onde ele precisou mexer para que o texto mantivesse sua coerência interna).

Dá para ver, por exemplo, que o texto final precisou misturar os Anais de Aman (um relato cronológico da história de Valinor) com o Quenta Silmarillion propriamente dito. É possível depreender o tempo que se passou entre o despertar dos Elfos e a chegada dos Noldor à Terra-média (uma bagatela de uns 4.200 anos), além de conferir algumas guloseimas que ficaram de fora do livro, como o Juramento de Fëanor em verso (acreditem, é um show) ou a bela descrição dos povos élficos:

“Os Vanyar são os Elfos Abençoados, e os Elfos da Lança, os Elfos do Ar, os amigos dos Deuses, os Elfos Sagrados e Imortais, e os Filhos de Ingwë; eles são o Belo Povo e o Alvo.

Os Noldor são os Sábios, e os Dourados, os Valentes, os Elfos da Espada, os Elfos da Terra, os Inimigos de Melkor, os de Mão Hábil, os Artífices de Jóias, os Companheiros dos Homens, os Seguidores de Finwë.”

Mas a coisa esquenta mesmo nas partes não-narrativas. Tolkien mergulha nos motivos das tragédias que determinaram a história de Arda e na cultura élfica. Exemplos disso são “Leis e Costumes entre os Eldar” (que pode ser lido aqui na Valinor), relatando a vida élfica do nascimento ao casamento; e “A História de Finwë e Míriel”.

Como cereja do bolo, temos o Athrabeth Finrod ah Andreth (o Diálogo de Finwë e Míriel, também disponível aqui na Valinor). Numa bela e apaixonada discussão filosófica, o rei élfico Finrod e a sábia humana Andreth, o destino final de Elfos e Homens em Arda é esmiuçado, revelando uma surpreendente ligação com a fé de Tolkien.

E não é só isso, como diriam as Organizações Tabajara: na seção Myths Transformed (Mitos Transformados), Tolkien revê os pressupostos básicos de sua mitologia (como a origem dos orcs e a Terra plana antes da Queda de Númenor) e chega a dizer que – pasmem – eles podem estar errados. Ainda bem que ele resistiu a mais essa revisão de seus textos…

 

Índice do Livro

 

Parte Um

Ainulindale

 

Parte Dois

Os Anais de Aman
Sexta Sessão
Parte Três
O Silmarillion tardio
A Primeira Fase
1 Dos Valar
2 De Valinor e das Duas Árvores
3 Do Despertar dos Elfos
4 De Thingol e Melian
5 De Eldanor e os Príncipes dos Eldalië
6 Das Silmarils e o Escurecer de Valinor
7 Da Fuga dos Noldor
8 Do Sol e Lua e o Ocultar de Valinor
Segunda Fase
O Valaquenta
A Mais Antiga Versão da História de Finwë e Míriel
De Fëanor e o Desacorrentar de Melkor
Das Silmarils e o Revolta dos Noldor
Do Escurecimento de Valinor
Do Abuso das Silmarils
Da Disputa de Ladrões
Parte Quatro
Parte Cinco

 

Mitos Transformados – ARDA

O texto final, entitulado Aman, é um manuscrito claro, escrito com
pouca hesitação ou correção. Eu o tomei como um ensaio independente, e
em dúvida do melhor lugar para inseri-lo deixei-o para o final; mas
quando este livro já estava completo e preparado para publicação me dei
conta de que ele de fato tem um relacionamento muito próximo ao
manuscrito de Athrabeth Finrod ah Andreth
[Nota do Tradutor] O texto em itálico a seguir e
de Christopher Tolkien. O texto normal é de J.R.R. Tolkien. O livro a
que se refere C. Tolkien no parágrafo abaixo é o The History of Middle-earth 10 e o final a que ele se refere é o final da seção Myths Transformed.
O
manuscrito inicia com uma seção introdutória, começando com a afirmação
de que alguns homens acreditavam que seus hroar não tinham vida curta
por natureza, mas assim tornou-se pela malícia de Melkor. Eu não
percebi a relevância de algumas linhas no cabeçalho da primeira página
do Athrabeth, que meu pai riscou: estas linhas começam com as palavras
“o hroa, e ele poderia continuar a viver, um corpo sem mente, nem mesmo
uma besta mas sim um monstro”, e terminava “… a própria Morte, tanto
em agonia quanto em terror, entraria pessoalmente em Aman com os
Homens”. Esta passagem é virtualmente idêntica à conclusão do texto
atual, cuja última página começa precisamente no mesmo ponto.

Fica claro, portanto, que Aman originalmente ficava no Athrabeth, mas
meu pai o removeu para uma forma estanque e copiou a passagem final em
uma folha em separado. Ao mesmo tempo, presumivelmente, ele deu ao
restante (o Athrabeth e sua introdução) os títulos de “Da Morte e dos
Filhos de Eru, e da Desfiguraçãodos Homens e A Conversa de Finrod e
Andreth[1].
Seria preferível colocar Aman com o
Athrabeth na Parte Quatro, mas eu acredito que seja desnecessário em
tal estágio tardio iniciar uma mudança ampla na estrutura do livro, e
assim o deixei aqui em separado.

Aman
Em Aman as coisas eram bastante diferentes da Terra-média. Mas elas
lembravam o modo de vida dos Elfos, assim como os Elfos se pareciam
mais com os Valar e Maiar do que os Homens.Em Aman a duração
da unidade de “ano” era a mesma da dos Quendi. Mas por uma razão
diferente. Em Aman esta duração era estipulada pelos Valar para suas
próprias necessidades e era relacionada ao processo que pode ser
chamado de “Envelhecimento de Arda”. Pois Aman estava em Arda e
portanto no Tempo de Arda (o qual não era eterno, seja ArdaDesfigurada
ou não). Portanto Arda e todas as coisas nela precisam envelhecer,
embora lentamente, enquanto parte do início para o fim. Este
envelhecimento pode ser percebido pelos Valar aproximadamente naquele
período de tempo (proporcional à duração total de Arda) ao qual eles
chamaram Ano; mas não em menor período[2].Mas para os
próprios Valar e também para os Maiar em certo grau: eles poderiam
viver em qualquer velocidade de pensamento ou movimento que eles
escolhessem ou desejassem[3] *.

* Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento, e retornar tão rapidamente que para
aqueles que estavam em suas presenças eles não pareceriam ter se
movido. Tudo que era passado podia ser totalmente percebido; mas
existindo agora no Tempo, o futuro eles apenas poderiam perceber ou
explorar tanto quanto fora feito claro a eles na Música, ou, tanto
quanto cada um deles estava especialmente interessado nesta ou naquela
parte dos desígnios de Eru, sendo Seu agente ou Subcriador. Nesta forma
de percepção eles não podiam prever nenhum dos atos dos Filhos, Elfos e
Homens, em cuja concepção e introdução em Eä nenhum Valar tomou
qualquer parte; em relação aos Filhos eles apenas podiam deduzir
chances, da mesma forma que os próprios Filhos, embora com muito maior
conhecimento dos fatos e dos eventos contribuintes no passado, e com
muito mais inteligência e sabedoria. Mas mesmo assim sempre restava
alguma incerteza sobre as palavras e feitos dos Elfos e Homens no
Termpo ainda não realizado.

A unidade, ou Ano dos Valar, não
era, portanto, relacionado às taxas normais de “crescimento ” de
nenhuma pessoa ou coisas que ficava em Aman. O tempo em Aman era o
tempo real, não apenas um modo de percepção. Assim, digamos, 100 anos
se passavam na Terra-média como parte de Arda e também 100 anos se
passavam em Aman, como parte de Arda. Foi, contudo, devido ao fato de
que a velocidade de “crescimento” dos Elfos estava de acordo com a
unidade de tempo Valariana + que tornou possível para os Valar levarem
os Elfos a residirem em Aman.

(+ não pelos desígnios dos
Valar, mas sem dúvida não por acaso. Ou seja, pode ser que Eru, ao
criar a natureza dos Elfos e Homens e suas relaçoes uns com os outros e
com os Valar ordenou que o “crescimento” dos Elfos deveria se dar de
acordo com a percepção Valariana da progressão ou envelhecimento de
Arda, assim os Elfos seriam capazes de co-habitar com Valar e Maiar.
Uma vez que os Filhos apareceram na Música, e também na Visão, os Valar
conheciam ou intuiam muito da natureza dos Elfos e Homens antes deles
virem a existir. Eles certamente conheciam que os Elfos deveriam ser
“imortais” ou de vida muito longa, e os Homens de vida curta. Mas foi
provavelmente apenas durante a viagem de Oromë entre os pais dos Quendi
que os Valar descobriram precisamente qual era o mode de suas vidas com
relação ao passar do Tempo).

Em um Ano dos Valar os Eldar
morando em Aman cresciam e se desenvolviam de maneira muito parecida
com os mortais em um ano na Terra-média. Aos registrar os eventos em
Aman, portanto, nós podemos fazer como os Elfos e utilizar a unidade
Valariana[4], mas não devemos esquecer que dentro de tal “ano” os Eldar
experimentavam uma imensa série de delícias e realizações que mesmo o
mais hábil dos Homens não poderia alcançar em doze vezes doze anos
mortais[5]. De qualquer forma os Eldar “envelheciam” à mesma velocidade
em Aman do que em seu surgir na Terra-média.

Mas os Eldar não
eram nativos de Aman, a qual não fora feita, pelos Valar, para eles. Em
Aman, antes da chegada deles, moravam apenas os Valar e seus parentes
menores, os Maiar. Mas para ser prazer e uso existiam em Aman também
uma grande quantidade de criaturas, sem medo, de vários tipos: animais
ou criaturas que se moviam, plantas que eram estáticas. Lá,
acredita-se, existiam contra-partes de todas as criaturas que existiam
ou haviam existido na terra, e outras feitas apenas para Aman. E cada
tipo tinha, como na Terra, sua própria natureza e velocidade natural de
crescimento.

Uma vez que Aman foi feita para os Valar, para
que pudessem ter paz e prazer, a todas as criaturas que foram
transplantadas ou treinadas ou criadas ou trazidas a existir com o
propósito de habitar em Aman foi dada uma velocidade de crescimento tal
que um ano de vida natural de suas espécies na Terra deveria ser um Ano
dos Valar em Aman.

Para os Eldar esta era uma fonte de
prazer. Pois em Aman o mundo parecia a eles como a Terra parecia aos
Homens, mas sem a sombra da morteà espreita. E na Terra para ele todas
as coisas em comparação a eles mesmos estavam murchando, rapidamente
mudando e morrendo, em Aman elas permanceiam e não enganavam tão cedo o
amor com suas mortalidades. Na Terra enquanto uma criança élfica
simplesmente cresce para tornar-se um adulto, em uns 3000 anos,
forestas surgem e somem, e toda a aparência da terra pode mudar,
enquanto inumeráveis flores e pássaros poderiam nascer e morrer dia
após dia sob o sol.

E por isso tudo Aman é também chamada o
Reino Abençoado, e nisso encontra sua benção: na saúde e na felicidade.
Por em Aman nenhuma criatura sofre nenhuma doença ou desordem em suas
naturezas; nem existe nenhum decair ou envelhecer além do da própria
Arda. Então todas as coisas chegam à sua forma completa e virtualmente
permanecem nesse estado, alegremente, envelhecendo e cansando-se da
vida não mais rapidamente do que os próprios Valar. E esta benção
também foi garantida aos Eldar.

Na terra os Quendi não
sofriam de doenças e a saúde de seus corpos era mantida pela força de
seu fëar longevo. Mas seus corpos, sendo da matéria de Arda, não era
tão resistente quanto seus espíritos; pois a longevidade dos Quendi era
derivada primariamente de seus fëar, cuja natureza ou “destino” era
habitar Arda até seu fim. Portanto, após a vitalidade do hröa ter se
expandido e alcançado o crescimento pleno ele começava a enfraquecer ou
ficar cansado. Muito lentamente, de fato, mas perceptivelmente para
todos os Quendi. Por um tempo ele seria fortificado e mantido pelo seu
fëa incansável e então sua vitalidade começaria a decair e seu desejo
pela vida física e felicidade nela passam cada vez mais rápido. Então
um Elfo poderia começar (como eles dizem agora, pois estas coisas não
apareceram completamente nos Dias Antigos) a “esvair-se”, até que o fëa
consumisse o hroa até que permanecesse apenas no amor e na memória do
espírito que o habitara.

Mas em Aman, uma vez que suas
bençãos se derramavam sobre o hroar dos Eldar, como sobre todos os
corpos, os hroar envelheciam junto com os fear e os Eldar que
permaneciam no Reino Abençoado aproveitavam na maturidade plena em em
pleno poder de corpo e espírito unidos por eras além de nossa
compreensão mortal.

Aman e os Homens Mortais[6]
Se
é assim em Aman, ou era antes da Mudança do Mundo, e nela os Eldar
tinham saúde e felicidade duradouras, o que podemos dizer dos Homens?
Nenhum homem jamais colocou os pés em Aman ou pelo menos nenhum
retornou após ter posto; pois os Valar proibiram. Por que? Para os
Numenorianos eles disseram que assim o fizeram porque Eru proibiu-os de
receber Homens no Reino Abençoado; edeclararam também que lá os Homens
não seriam abençoados(como imaginavam) mas amaldiçoados e poderiam ” se
apagar tão rapidamente como uma chama muito brilhante”.Além
dessas palavras não podemos ir a não ser em suposições. Mesmo assim
vamos considerar o assunto. Os Valar não foram apenas proibidos por Eru
de tentar, eles sequer podiam alterar a natureza ou “destino” de Eru,
de qualquer um dos Filhos, no qual estava inclusa a velocidade de seu
crescimento (relativamente ao total da vida de Arda) eà duração de suas
vidas. Mesmo os Eldar permaneceram imutáveis neste aspecto.Vamos
supor que os Valar também tivessem admitido em Aman alguns dos Atani, e
(assim podemos considerar toda a vida de um Homem em tal estado) que
crianças “mortais” lá nasceram, assim como os filhos dos Eldar. Então,
mesmo em Aman, uma criança mortal deveria crescer para sua maturidade
em cerca de vinte anos do Sol, e o período natural de sua vida, o
período de coesão de hroa e fea, não seria mais do que, digamos, 100
anos. Não muito mais, mesmo que seu corpo não sofresse de doenças ou
desordens em Aman, onde tais males não existiam (a menos que os Homens
levassem tais males consigo – por que não? Mesmo os Eldar levaram ao
Reino Abençoado alguma coisa da Sombra sobre Arda sob a qual eles
surgiram).

Mas em Aman tal criatura seria uma coisa
passageira, a de mais rápida passagem entre todas. Pois toda a sua vida
duraria pouco mais do que metade de um ano, e enquanto todas as outras
coisas vivas pareceriam a ela dificilmente mudar,permanecendo estáticas
em vida e felicidade com esperança não reduzida de anos infindos, ele
iria surgir e sumir – assim como na Terra a gramasurge na primavera e
murcha no inverno. Então ele se tornaria cheio de inveja, tomando-se
como vítima de uma injustiça, não tendo as graças concedidas a todos os
outros seres. Ele não daria valor ao que tem,sentindo que está entre a
menor e menos valorosa de todas as criaturas, cresceriam rapidamente
até se tornarem adultos, e odiariam àqueles mais bem dotados de
benções. Ele não poderia escapar do medo e tristeza de sua rápida
mortalidade que é seu quinhão sobre a Terra, na Arda Desfigurada, mas
seria assediado por eles até a perda de todo o prazer.

Mas
alguém poderia perguntar: porque a benção da longevidade não poderia
ser dada a ele, como a é para os Eldar? Isto deve ser respondido.
Porque isto traz felicidade aos Eldar, sendo sua natureza diferente da
dos Homens. A natureza de um fea Élfico é permanecer no mundo até seu
fim, e um hroa Élfico é também longevo por natureza; assim um fea
Élfico percebendo que seu hroa permanece com ele, também incansável e
permanecendo descansado em felicidade corporal, teria uma felicidade
maior e mais duradoura. De fato alguns dos Eldar duvidam que alguma
graça ou benção especial foi reservada a eles, além da entrada em Aman.
Pois eles afirmam que a falha de seus hroar em permanecerem em
incansável vitalidade tanto quanto seus fear – um processo não
observado até eras tardias – é devido ao Desfigurar de Arda, e veio com
a Sombra e a mancha de Melkor que toca toda a matéria (ou hroa)[7] de
Arda, se não toda Eä. Então tudo que aconteceria em Aman é que a
fraqueza do hroar Élfico não se desenvolveria à saúde de Aman e à Luz
das �?rvores.

Mas vamos supor que a “benção de Aman” também
fosse garantida aos Homens*. Então o que? Teria um grande bem sido
feito a eles? Seus corpos continuariam a atingir a maturidade
rapidamente. Na sétima parte de um ano um homem nasceria e se tornaria
adulto, tão rápido quanto um pássaro nasceria e voaria do ninho em
Aman. Mas então ele não iria enfraquecer ou envelhecer mas permaneceria
vigoroso e em felicidade de uma criatura corpórea. Mas e sobre o fea
desse Homem? Sua natureza ou “destino” não poderia ser mudada, nem pela
saúde de Aman nem pela vontade do próprio Manwë. Mesmo assim (como os
Eldar sustentam) é sua natureza e destino sob a vontade de Eru que ele
não permaneça em Arda por muito tempo, mas parta para algum outro
lugar, talvez retornando diretamente aEru para outro destino ou
propósito que está além do conhecimento ou suposição dos Eldar.

Muito
rapidamente então o fea e hroa de um Homem em Aman não mais estariam
unidos em paz, mas se oporiam, para grande dor de ambos. Sendo o hroa
pleno de vigor e felicidade da vida oprimiria o fea, uma vez que sua
partida traria a morte; e contra a morte ele se revoltaria como se
revoltaria uma grande besta cheia de vida contra o caçador ou partiria
selvagemente sobre ele. Mas a fea estaria como em uma prisão,
tornando-se mais e mais cansada de todos os prazeres do hroa, até
desgostar deles, desejando mais e mais ter partido, até que mesmo
aqueles assuntos de seu pensamento recebidos através do hroa e seus
sentidos se tornassem sem sentido. O Homem então não seria abençoado,
mas amaldiçoado; e ele amaldiçoaria os Valar e Aman e todas as coisas
de Arda. E ele não deixaria Aman de livre vontade, pois significaria
morte rápida, e com violência tentaria permancer. Mas se ele
permanecesse em Aman[8], o que ele se tornaria, até que Arda finalmente
se completasse e ele encontrasse alívio?

Ou o fea seria
completamente dominado pelo hroa e ele se tornaria mais como uma besta,
embora uma atormentada por dentro, ou, se seu fea fosse forte, ele
poderia deixar o hroa. Então uma de duas coisas ocorreria: ou isto
seria conseguido em ódio, através de violência, e o hroa, em plena
vida, seria rendido e morreria em súbita agonia; ou o fea desertaria o
hroa rapidamente e sem piedade, que continuaria a viver, um corpo sem
mente, nem mesmo uma besta e sim um monstro, um trabalho próprio de
Melkor no meio de Aman, que os os próprios Valar iriam destruir.

(*
Ou (como alguns homens sustentam) que seus hroar não eram naturalmente
de vida curta, mas assim se tornou através da malícia de Melkor sobre e
além da Desfiguração geral de Arda e esta ferida poderia ser curada e
desfeita em Aman).

Mas estas coisas não são nada além
suposições, e podem-ser; pois Eru e os Valar sob Ele não permitiram aos
Homens como eles são [9] que residissem em Aman. Pode ser que os Homens
em Aman não pudessem escapar das garras da morte, mas a teria em grau
maior e por longas eras. E além disso, parece provavel que a própria
morte, tanto em agonia e horror, poderia, com os Homens, adentrar a
própria Aman.

A este ponto Aman, como originalmente
escrito continuava com a aspalavras “Alguns Homens defendiam que seus
hroar não tinham por natureza, vida curta…” que são o começo da
passagem introdutória do Athrabeth.

Notas de Christopher Tolkien

[1] O número III e título adicional “O Desfigurar dos Homens” (os
outros títulos permaneceram) foi dado à segunda parte, enquanto Aman
foi numerada II. Nenhum escrito numerado I foi encontrado.

[2] Será visto que, como consequência da transformação do “mito
cosmogônico”, uma concepção inteiramente nova do “Ano Valariano”
surgiu. A elaborada computação do Tempo no Annals of Aman foi
baseada no “ciclo” ou “as Duas Árvores que cessaram de existir em
relação ao moviumento diruno do Sol que tinha surgido – surgiu um “novo
calendário”. Mas o “Anos dos Valar” é agora, como parece, uma “unidade
de percepção” da passagem do Tempo de Arda, derivada da capacidade dos
Valar perceberem tais intervalos do processo do envelhecer de Arda, do
seu começo ao seu fim. Ver nota 5.

[3] Meu pai escreveu a seguinte passagem (“Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento…”) no corpo do manuscrito a este
ponto, mas em uma pequena letra itálica, e eu preservei esta forma no
texto impresso; similarmente à passagem que interrompe o texto
principal às palavras “unidade de tempo Valariana”.

[4] “Nós podemos… utilizar a unidade Valariana”: em outras palavras,
presumivelmente, a antiga estrutura de datas na crônica de Aman poderia
ser mantida, mas o significado daquelas datas em termos de Terra-média
seriam radicalmente diferentes. Ver nota 5.

[5] Existe agora uma vasta discrepância entre os Anos dos Valar e os
“anos mortais”; ver também “toda a sua vida duraria pouco mais do que
metade de um ano” e “na sétima parte de um ano um homem nasceria e se
tornaria adulto”. Em notas não dadas neste livro, nas quais meu pai
estava calculando tendo como base o Despertar dos Homens, ele expressa
que 144 Anos do Sol = 1 Ano dos Valar (em conexão a isto ver Apêndice D
dO Senhor dos Anéis: “Parece claro que os Eldar na Terra-média…
contavam longos períodos, e apalavra Quenya yen… realmente
significava 144 de nossos anos”) colocando o evento “após ou à mesma
época do saque a Utumno, Ano dos Valar 1100”, um gigantesco intervalo
de tempo poderia ser visto agora entre o “surgir” dos Homens e sua
primeira aparição em Beleriand.

[6] O subtítulo Aman e Homens Mortais foi uma adição posterior.

[7] Com este uso da palavra hroa ver “o hroa, a “carne” ou matéria física, de Arda” (texto VIII do Mitos Transformados).

[8] Esta passagem, a partir de “E ele não deixaria Aman de livre vontade…” foi uma adição posterior. Quando o texto foi escrito ele continuava de “todas as coisas de Arda” para “o que ele se tornaria”

[9] As palavras “como eles são” são uma adição posterior, ao mesmo tempo que aquele da nota 6 e 8.

Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto "Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em "O
Silmarillion" publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para "A Queda de Doriath" e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo "O Silmarillion", que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem mais
cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
 
 
 
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo
que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no "Conto de Turambar" (HoME II.113-15) e
no "Conto do Nauglafring" (HoME II.221 e próximas), passando pelo
"Rascunho da Mitologia" (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o
"Quenta" (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que
pode ser visualizado no "O Conto dos Anos" e em algumas poucas
referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história
contada em "O Silmarillion" publicado percebe-se logo de início que
este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que em
certas características essenciais não existe referência alguma mesmo
nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se
ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria
alguma outra solução que não aquela no "Quenta" para a questão "Como o
tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?". Lá, a maldição que Mîm
pôs sobre o ouro à sua morte "caiu sobre os seus possuidores. Cada um
dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas
Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o
tesouro para as Mil Cavernas". Como é dito no HoME IV.188, "isto
arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o
ouro com o qual então ele foi humilhado". Parece para mim mais provável
(mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os
fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os
portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da
Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do "The Wanderings of
Hurin" Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil
e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamente de Thingol com relação aos Anões é
impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no
Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de
Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei
(ver HoME II.245-6). No "Rascunho da Mitologia" nada mais é dito sobre
o assunto além de que os Anões foram "expulsos sem pagamento", enquanto
no "Quenta" "Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida
recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles,
e houve uma batalha nos Salões de Thingol". Parece não haver dicas ou
pistas nos escritos posteriores (no "Conto dos Anos" a mesma frase é
utilizada em todas as versões "Thingol discutiu com os Anões"), exceto
uma encontrada nas palavras transcritas do "Sobre Galadriel e
Celeborn": Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a
parte de Morgoth "e os próprios erros de Thingol".

No "Conto dos Anos" meu pai parece não ter considerado o problema da
passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do
Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras "não pode" na versão D
ele mostrou que ele considerava a história que delineou como
impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma
possível solução: "De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi
atráido para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto
pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturação removido Doriath é
destruída pelos Anões".

Na história que aparece em "O Silmarillion" os fora-da-lei que vão a
Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o
único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui
supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de
Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como
finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com
Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir
já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que
mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de
Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem
proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada
novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de
meu pai, citada à página 353, onde os Ents "Pastores de �?rvores", são
introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado
de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho
Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o
escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um
estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra
"manipulação" dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na
história de "A Queda de Gondolin", para qual meu pai nunca retornou,
algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na
narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à
história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente
incompatíveis com "O Silmarillion" como projetado e que havia uma
escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar
a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as
inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido,
ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

 
[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]

History of Middle-earth XII – The Peoples of Middle-earth

Pois é, tudo acaba, até as coisas que parecem inacabáveis – como a série History. Mas tudo bem, o final é em grande estilo. "The Peoples of Middle-earth" (Os Povos da Terra-média), por trás do título assumidamente genérico, traz mais testemunhos memoráveis do gênio criativo tolkieniano – a começar pela contracapa, com a reprodução de um belíssimo manuscrito, iluminado (ou seja, ilustrado) à maneira medieval pelo próprio autor.
 

Os textos voltam a "O Senhor dos Anéis", com a relato de como se desenvolveram os Apêndices da saga. Há coisas como a única genealogia conhecida dos príncipes de Dol Amroth (incluindo os filhos de Imrahil) e até uma raridade: o prefácio de "O Senhor dos Anéis" que existia na primeira edição, com um tom muito mais pessoal que o conhecido por nós (sempre reservado, Tolkien achou que devia alterar isso).

Há também uma série de interessantes ensaios filológicos e históricos. Um deles revela detalhes inéditos sobre a história dos Anões, inclusive os nomes de suas sete casas, além de uma grande aliança entre eles e os antepassados dos Rohirrim durante a Segunda Era. Outro mostra como uma simples desavença sobre a pronúncia das palavras aumentou ainda mais a rixa entre os partidários de Fëanor e os demais Noldor.

Mas as coisas mais legais são provavelmente dois textos curtos e inacabados, que deixam um terrível gostinho de "quero mais". São "The New Shadow" (A Nova Sombra, disponível na Valinor), com a continuação nunca terminada de "O Senhor dos Anéis", e "Tal-Elmar", com um raríssimo relato da chegada dos numenorianos à Terra-média vista pelos olhos dos Homens Selvagens.

Casamento Élfico

Os Elfos se casavam apenas uma vez na vida e era por amor e de livre
vontade. Casamento era o curso natural de suas vidas e eles, em sua
maior parte, se casavam na juventude e normalmente antes de seus
quinquagésimos aniversários.
 
 
 
Com bastante frequência ele podiam escolher um ao
outro bastante cedo na juventudo, mesmo como crianças. Se eles eram
crianças [ou seja, não tinham atingido 50 anos] o noivado aguardava o
julgamento dos pais de ambos. Se eles já possuíam a idade apropriada, o
noivado era anunciado em um encontro das duas Casas interessadas e se
permitido os noivos trocavam alianças de prata entre si.

De
acordo com as leis dos Eldas este noivado mantido por pelo menos um ano
e durante este tempo ele poderia ser revogado por uma devolução pública
dos anéis; os anéis então seriam enterrados e nunca usados novamente
para um noivado.

Depois de pelo menos um ano ter se passado
desde a festa de noivado, era função dos noivos indicar a data de seu
casamento e a festa das duas Casas envolvidas. Ao final da festa os
noivos punham-se à frente e a mãe da noiva e o pai do noivo juntava as
mãos do casal e os abençoava.

A forma desta benção não é
conhecida pois nenhum mortal jamais a ouviu, mas os Eldar diziam que
Varda era nomeada como testemunha pela mãe e Manwë pelo pai e o nome de
Eru era mencionado também. Então os noivos devolviam suas alianças de
prata, mas em troca davam finos anéis de ouro usados no indicados da
mão direita.

Para os Noldor existia também um costume no qual
a mãe da noiva deveria dar ao noivo uma jóia em uma corrente ou colar e
o pai do noivo deveria dar um presente igual à noiva. Este presente
poderia ser dado antes da festa de casamento.

Estas cerimônias
não eram obrigatórias para o casamento; eram apenas um modo gracioso de
reconhecer a união das duas Casas. Era no ato da união corpórea que o
casamento era executado e após a qual a união estaria completa. Sempre
foi permitido a qualquer Eldar [se solteiro] casar-se sem cerimônia ou
testemunhas, exceto bençãos e menção de nomes, e em tempos de
problemas, em fugas ou em exílios e viagens, tais casamentos eram
frequentemente realizados.

Não existem registros de nenhum
Elfo que tenha pega a esposa de outro por força porque isto era contra
sua natureza. Alguém forçado a isso poderia rejeitar sua vida corpórea
e passar para Mandos. Isto dificilmente era possível, pois os Eldar
podiam ler na voz e nos olhos do outro quando este era casado ou não.

Segue abaixo a Lei de Ilúvatar sobre casamentos que foi pronunciada
devido aos dois casamentos de Finwë, o que conflita com o enunciado da
primeira linha que diz que os Elfos se casavam apenas uma vez durante a
vida. A Lei sobre casamento como Mandos a disse aos conselheiros dos
Eldar:

“Esta é a Lei de Ilúvatar para vocês, seus filhos, como
vocês sabem. Os Primogênitos deverão tomar uma esposa apenas e não ter
outra na vida enquando Arda perdurar. Contudo esta lei não leva em
consideração a Morte. Este destino é agora existente, pelo direito de
governo que Ilúvatar concedeu a Manwé, que se o espírito de um
parceiro, marido ou esposa, abandonar seu corpo deverá de qualquer
forma passar para a guarda de Mandos, então ao vivo será permitido
tomar outro parceiro. Mas isto apenas poderá ser se a antiga união for
dissolvida para sempre. Então aquele mantido sob a guarda de Mandos
deverá permanecer ali até o final de Arda, e não deverá despertar
novamente ou tomar forma corpórea. Pois ninguém entre os Quendi poderá
ter duas esposas de uma vez vivas e despertas. Mas uma vez que não pode
se rpensado que os vivos poderão, por sua vontade apenas, confinar o
espírito de outro a Mandos, esta desunião deverá ocorrer apenas com o
consentimento de ambos. E após a concessão do consentimento dez anos
dos Valar [9,82 Anos do Sol] deverão se passar antes que Mandos o
confirme. Dentro deste período qualquer parte poderá revogar este
consentimento, mas quando Mandos o confirmar, o o parceiro vivo casior
com outro, será irrevogável até o fim de Arda.”

[De: The History of Middle-Earth 10 – Morgoth`s Ring]

[tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]

Os Nomes dos Clãs Eldar

Em Quenya a forma dos nomes dos três grandes Clãs eram Vanyar, Noldor e Lindar. O mais antigo destes nomes era Lindar, o qual certamente remonta aos dias antes da Separação. Os outros dois provavelmente surgiram no mesmo período, mas um pouco mais tarde. Suas formas originais podem ser dadas em Élfico Primitivo como *wanja, *ngolodo e linda/glinda [1].

De acordo com a lenda, preservada de maneira quase idêntica tanto entre os Elfos de Aman quanto entre os Sindar, os Três Clãs eram derivados em princípio dos três Pais-Elfos: Imin, Tata e Enel (sc. Um, Dois, Três) e por aqueles a quem cada um escolheu seguir. Então, a princípio eles tinham simplesmente os nomes Minyar “Primeiros”, Tatyar “Segundos” e Nelyar “Terceiros”. Estes eram contados, dentre os 144 Elfos que primeiramente acordaram, 14, 56 e 74; e estas proporções foram aproximadamente mantidas até a Separação. [2]

É dito que do pequeno clã dos Minyar nenhum se tornou Avari. Os Tatyar foram divididos meio-a-meio. Os Nelyar eram os mais relutantes em deixar seus lares às margens do lago; mas eram bastante coesos e bastante conscientes da unidade separada de seu Clã (como continuaram a ser), portanto quando ficou claro que seus líderes Elwë e Olwë estavam resolvidos a partir e teriam muitos seguidores, muitos dentre os que originalmente tinham se unido aos Avari foram para junto dos Eldar ao invés de se separarem de seus parentes. Os Noldor, de fato, afirmaram que a maior parte dos “Teleri” eram Avari em seus corações, e que apenas os Eglain realmente lamentaram serem deixados em Beleriand.

De acordo com historiadores Noldorin as proporções, de 144, que quando começou a Marcha tornaram-se Eldar ou Avari foram aproximadamente:

Minyar 14: Avari 0 Eldar 14

Tatyar 56: Avari 28 Eldar 28

Nelyar 74: Avari 28 Eldar 46 > Amanyar Teleri 20; Sindar e Nandor 26

Por isso os Noldor eram o maior clã de Elfos em Aman; enquanto os Elfos que permaneciam na Terra-média (os Moriquendi no Quenya de Aman) ultrapassavam os Amanyar na proporção de 82 para 62. [3]

Por quanto tempo os nomes descritivos dos clãs *wanja, *ngolodo e *linda foram preservados entre os Avari não é sabido; mas a existência dos antigos clãs é lembrada e um parentesco especial entre aqueles do mesmo clã original, tenham eles partido ou permanecido, continua reconhecido. Os primeiros Avari que os Eldar encontraram em Beleriand parecem ter dito serem Tatyar, que reconheciam seu parentesco com os Exilados, embora não existam registros da utilização do nome Noldo em nenhuma forma Avarin reconhecível. Eles não eram amigáveis com os Noldor e invejosos de seus parentes mais exaltados, a quem acusavam de arrogância.

Este mal-estar surge em parte do amargor do Debate antes da marcha dos Eldar começa,r e sem dúvida aumentou através de maquinações de Morgoth; mas também lança alguma luz sobre o temperamento dos Noldo, em geral e de Fëanor em particular. De fato os Teleri a seu lado afirmavam que a maioria dos Noldor em Aman eram Avari de coração e retornaram à Terra-média quando descobriram seu erro; eles precisavam de espaço para habitar. Pois em contraste, os elementos Lindarin  nos Avari do oeste eram amigáveis com os Eldar e desejosos para aprender com eles, e tão próximo era o sentimento de parentesco entre os remanescentes dos Sindar, Nandor e Lindarin Avari que mais tarde em Eriador e no Vale do Anduin eles freqüentemente mesclaram-se.

Lindar (Teleri) [4]

Este era, como visto, o maior dos antigos clãs. O nome, mais tarde aparecendo na forma Quenya como Lindar (Lindai em Telerin), já é referenciado na lenda do “Acordar dos Quendi”, a qual sobre os Nelyar que “eles cantaram antes de poderem falar com palavras”. O nome *Linda é portanto claramente um derivativo da raiz primitiva *LIN (mostrando reforço do x médio e do -a adjetival). Esta raiz foi possivelmente uma das contribuições dos Nelyar ao Élfico Primitivo, por reflete suas predileções e associações, e produz mais derivativos nas línguas Lindarin do que em outras. Sua referência primária foi para um som melodioso ou agradável, mas também se refere (especialmente em Lindarin) à água, aos movimentos da qual os Lindar sempre associaram os sons vocais (élficos). Os reforços, tanto do médio -lind como dos iniciais glin-, glind- eram, contudo, quase somente utilizados em sons musicais, especialmente vocais, produzidos com o intuito de serem agradáveis. É, portanto, a este amor dos Nelyar pela música, pelos sons vocais com ou sem o uso de palavras articuladas, ao qual o nome Lindar originalmente de referia; mas também eles amavam a água, e antes da Separação nunca se mudaram para longe do lago e da cachoeira de Cuiviénen e aqueles que se mudaram para o leste se tornaram enamorados do Mar [5].

Em Quenya, ou seja, na língua dos Vanyar e Noldor, aqueles deste clã que se uniram à Marcha foram chamados de Teleri. Este nome era aplicado em particular àqueles que vieram finalmente e por último a Aman; mas mais tarde também foi aplicado aos Sindar. O nome Lindar não foi esquecido, mas nas histórias Noldorin era principalmente utilizado para descrever todo o Clã, incluindo os Avari entre eles. Teleri significa “aqueles no final da linha, os últimos” e foi, evidentemente, um apelido que surgiu durante a Marcha, quando os Teleri, os menos ansiosos a partir, freqüentemente ficavam bastante para trás [6].

Vanyar

Este nome provavelmente foi dado ao Primeiro Clã pelos Noldor. Eles o aceitaram, mas continuaram a chamar a si mesmos mais freqüentemente pelo velho nome numérico Minyar (uma vez que todo este clã uniu-se aos Eldar e alcançou Aman). O nome se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era considerada uma características bela pelos Noldor (que amavam o ouro), embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros. Devido ao intercasamento o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os Noldor: notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis dos Vanyar.

Vanyar portanto surgiu como um derivativo adjetival *wanja da raiz *WAN. Seu sentido primário parece ter sido bastante similar ao uso Inglês (moderno) de “belo” (“fair”) com referência ao cabelo e compleição; embora seu desenvolvimento tenha sido o oposto do Inglês: significa “pálido, de cores claras, não marrom ou escuro” e sua implicação de beleza era secundária. No Inglês o sentido “bonito” é primário. Da mesma raiz derivou-se o nome dado em Quenya à Valië Vána, esposa de Oromë.

Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era muito usado por eles para o Primeiro Clã. Os Amanyar Teleri tinham a forma Vaniai (sem dúvida tomada dos Noldor), mas o nome parece ter sido esquecido em Beleriand, onde o Primeiro Clã (em lendas e histórias apenas) era chamado de Miniel (Minil no plural).

Noldor

Este nome provavelmente é mais antigo do que Vanyar, e pode ter sido criado antes da Marcha. Foi dado ao Segundo Clã pelos outros. Foi aceito e era usado como nome regular e próprio por todos os membros Eldarin do clã em sua história posterior.

O nome significa “os Sábios”, ou seja, aqueles que tinham grande conhecimento e entendimento. Os Noldor de fato já cedo mostraram terem os maiores talentos entre todos os Elfos tanto para feitos intelectuais como para perícias técnicas.

As formas variantes do nome: (Quenya) Noldo, (Telerin) Goldo, (Sindarin) Golodh/Ngolodh, indicam um Élfico Primitivo *ngoldo. Este é um derivativo da raiz *NGOL “conhecimento, sabedoria”. Isto é visto no (Quenya) Role ´longo estudo (de qualquer assunto), ingole “conhecimento”, ingolmo “mestre do conhecimento”. Em (Telerin) gole, engole têm o mesmos sentidos que em Quenya mas são mais freqüentemente utilizados para o “conhecimento” especial possuído pelos Noldor. Em Sindarin a palavra gul (equivalente ao Quenya nole) possui associações menos laudatórias, sendo utilizada mais freqüentemente como significando conhecimento secreto, especialmente como aquele possuído pelos artífices que criavam coisas maravilhosas; e a palavra tornou-se ainda mais escurecida por seu freqüente uso no componente morgul “artes negras”, aplicada às artes delusórias ou perigosas e conhecimentos derivados de Morgoth. Aqueles dentre os Sindar que já não eram amigáveis aos Noldor atribuíam sua supremacia nas artes e nos conhecimentos aos seus aprendizados a partir de Melkor-Morgoth. Isto é falso, tendo vindo em última análise do próprio Morgoth, embora não seja sem alguma fundamentação (como as mentiras de Morgoth raramente o eram). Mas os grandes dons dos Noldor não vieram dos ensinamentos de Melkor. Fëanor o maior de todos eles nunca teve assuntos com Melkor em Aman e foi seu maior inimigo.

Sindar

A forma menos comum Sindel (plural Sindeldi) também é encontrada no Quenya dos Exilados. Este também é o nome dado pelos Exilados Noldor [7] à segunda maior divisão dos Eldar [8]. Ele se aplicava a todos os Elfos de origem telerin que os Noldor encontraram em Beleriand, embora mais tarde excluísse os Nandor, exceto aqueles que eram diretamente sujeitos a Elwë ou se mesclaram a seu povo. O nome significa “os Cinzentos” ou “os Elfos Cinzentos” e era derivado de *THIN, (Élfico Primitivo) *thindi “cinza, pálido ou cinza prateado”, (Quenya) pinde, (Noldorin) sinde.

Sobre a origem deste nome, ver [7]. Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência era feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma característica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de Elwë (como no caso de Círdan) [9]. Em geral os Sindar aparentemente pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e altos, ainda que ágeis. De fato eles dificilmente poderiam ser separados exceto por seus olhos; pois os olhos de todos os Elfos que habitaram Aman impressionavam àqueles da Terra-média por seu brilho penetrante. Por essa razão os Sindar freqüentemente os chamavam de Lachend (plural Lechind) “olhos de chamas”.

Nandor

Este nome foi feito ao tempo, nos dias tardios da Marcha, quando certos grupos de Teleri desistiram da Jornada; e é especialmente aplicado aos muitos seguidores de Lenwë [10] que recusaram a cruzar as Hithaeglir [11]. O nome era freqüentemente interpretado como “aqueles que voltaram”; mas de fato nenhum dos Nandor parecem ter retornado ou se reunido aos Avari. Muitos permaneceram nas terras que tinham alcançado, especialmente ao lado do Rio Anduin; alguns vagaram para o sul [12].

Existiu contudo, como visto, um pequeno movimento dos Moriquendi para o
oeste durante a prisão de Melkor, e eventualmente, grupos de Nandor, cruzando através do Paço entre as Hithaeglir e as Eryd Nimrais, espalharam-se amplamente em Eriador. Alguns desses ao final entraram em Beleriand, não muito depois do retorno de Morgoth [13]. Estes estavam sob a liderança de Denethor, filho de Denweg (ver [10]), que se tornou um aliado de Elwë nas primeiras batalhas contra as criaturas de Morgoth. O antigo nome Nandor era lembrado apenas pelos historiadores Noldorin em Aman; e eles não sabiam nada da•história posterior deste povo, lembrando apenas que o nome do líder dos que desistiram antes de cruzar as temíveis Hithaeglir era Lenwë (i.e. Denweg). Os Mestrs do Conhecimento Sindar lembravam dos Nandor como Danwaith ou, por confusão com o nome de seu líder, Denwaith.

Este nome eles aplicaram primeiramente aos Nandor que vieram para Beleriand Oriental; mas este povo chamava-se com o velho nome do clã *Lindai, que fora tomado da forma Lindi para sua própria língua. A região onde mais comumente se fixaram como um povo pequeno e independente eles chamaram de Lindon (<*Lindana): esta era a região a oeste das Montanhas Azuis (Eryd Luin), cortada pelos tributários do grande rio Gelion e previamente nomeada pelos Sindar como Ossiriand, a Terra dos Sete Rios. Os Sindar rapidamente reconheceram os Lindi como parentes de origem Lindarin (ou Glinnil em Sindarin), utilizando uma língua que, apesar das grandes diferenças, continuava sendo percebível como aparentada à sua própria; e eles adotaram os nomes Lindi e Lindon, dando-lhes as formas Lindil (sq. Lindel) ou Linedhil, e Lindon ou Dor Lindon. No Quenya dos Exilados as formas utilizadas (derivadas dos Sindar ou diretamente dos Noldor) eram Lindi e Lindon (ou Lindone). Os Exilados Noldor também usualmente se referiam às Eryd Luin como Eryd Lindon, uma vez que a parte mais alta de suas cordilheiras faziam a fronteira oriental da região de Lindon.

Estes nome foram, mais tarde, substituídos entre os Sindar pelo nome “Elfos verdes”, pelo menos no que se referia aos habitantes de Ossiriand; pois eles ocultaram a si mesmos e tomaram tão pouca parte nas lutas contra Morgoth quando podiam. Este nome, (Sindarin) Laegel (plural Laegil, plural de classe Laegrim ou Laegel(d)rim) foi dado tanto devido à verdejante terra de Lindon quanto ao fato de que os Laegrim vestiam-se de verde como um auxílio à sua secritude. Este termo os Noldor traduziram em Quenya como Laiquendi, mas não era muito utilizado.

Notas:

[1] (Nota de J.R.R. Tolkien) Embora este Nome de Clã tenha *glind- em Sindarin, o g- não aparece no Amanya telerin nem no Nandorin, então neste caso pode ter sido uma adição ao Sindarin, que favoreceu e aumentou em muito grupos iniciais deste tipo.

[2] (Nota do Tradutor) a Lenda do Despertar, ou Cuivienyarna, está traduzida para português neste link.

[3] (Nota de Christopher Tolkien) A história encontrada nos Anais de Aman sobre os grupos de Morwë e Nurwë, que recusaram os chamados dos Valar e se tornaram Avari (HoME 10), foi abandonada.

[4] (Nota de Christopher Tolkien) O nome Lindar “Cantores” para os Teleri aparece no “Glossário” para o Athrabeth Finrod ah Andreth (HoME 10) e foi por um longo tempo um nome para a Primeira Família, mais tarde Vanyar. (N.T. a Valinor possui uma versão traduzida para português do Athrabeth Finrod ah Andreth)

[5] (Nota de J.R.R. Tolkien) Por esta razão o mais utilizado dos “títulos” os nomes secundários dos Lindar era Nedilli “Amantes das Águas”.

[6] (Nota de J.R.R. Tolkien) Uma formação agental simples (como *abaro > *abar a partir de *ABA) da raiz *TELE, cujo sentido inicial parece ter sido “fechamento, fim, vindo ao final”: uma vez que em Quenya telda “último, final”; tele- verbo intransitivo “encerrar, terminar” ou “ser a última coisa ou pessoa em uma série ou sequência de eventos”; telya verbo transitivo “teminar, concluir”; telma “uma conclusão, qualquer coisa utilizada para encerrar um trabalho ou assunto”. Este é provavelmente distinto de *tel-u “telhar, por a coroa/topo em um prédio”, visto no Quenya telume “telhado, topo” (esta é provavelmente uma das mais antigas palavras Élficas para os céus, o firmamento, antes do aumento de seu conhecimento e d invenção da palavra Eldarin Menel. Telumehtar “guerreiro do céu”, um antigo nome para Menelmakil, Órion). A palavra telluma “domo, cúpula” é uma alteração de telume sob a influência do Valarin delgsima. Mas *telu pode ser simplesmente uma diferenciação de *TELE, uma vez que o telhado era a parte final de uma construção; telma, que freqüentemente era aplicada ao último item de uma estrutura, como a última rocha ou o pináculo mais alto.

[7] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lago Mithrim, significando originalmente “Lagos dos Mithrim”. Mithrim era o nome dado a eles pelos habitantes do sul, devido ao clima mais frio, aos céus cinzentos e às névoas do Norte. Provavelmente foi devido aos Noldor terem entrado primeiramente em contato com este ramo norte que deram em Quenya o nome Sindar ou Sindeldi “Elfos Cinzentos” a todos os habitantes Telerin das terras ocidentas que falavam a língua Sindarin.• Embora esse nome tenha mais tarde também se referido ao nome Thingol (“Manto Cinzento”) de Elwë, uma vez que ele era reconhecido como Alto Rei de todas as terras e seus povos. É dito que os povos do norte vestiam-se em cinza, especialmente após o retorno de Morgoth, quanto secritude tornou-se necessária; e os Mithrim tinha uma arte de vestirem-se com um uma vestimenta cinzenta que os fazia quase invisíveis em locais com sombras ou uma terra pedregosa. Esta arte foi mais tarde utilizada nas terras do sul quandos os perigos da Guerra aumentaram.

[8] (Nota de J.R.R. Tolkien) Ver acima. A proporção, por 144, dos Eldar remanescentes na Terra-Média era contada como 26, dos quais 8 eram Nandor.

[9] (Nota de Christopher Tolkien) Em outros textos posteriores Círdan é citado como sendo parente de Elwë, mas eu não encontrei nenhuma citação sobre a natureza do parentesco.

[10] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lenwë é a forma pela qual seu nome era lembrado em histórias Noldorin. Seu nome foi provavelmente *Denwego, Nandorin Denweg. Seus filho era o chefe Nandorin Denethor. Estes nomes provavelmente significavam “ágil-e-ativo” e “ágil-e-fino”, de *dene- “fino e forte, ágil”, e *thara- “alto (ou longo) e esbelto”.

[11] (Nota de Christopher Tolkien) Lenwë foi substituído pelo nome mais permanente Dan do pai de Denethor; deste texto ele foi adotado no Silmarillion.

[12] (Nota de J.R.R. Tolkien) O nome Nandor era um derivativo do elemento *dan, *ndan- indicando• o reverso de uma ação, desfazer ou anular seu efeito, como em “desfazer, voltar atrás (no mesmo caminho), desdizer, devolver (o mesmo presente e não outro em troca)”. A forma original *ndando, entretanto, implicava apenas em “alguém que volta atrás em sua palavra ou decisão”.

[13] (Nota de Christopher Tolkien) A afirmação de que os Nandor entraram em Beleriand “não muito depois do retorno de Morgoth” é outra contradição marcante aos Anais. Anteriormente é dito que eles vieram “antes do retorno de Morgoth”, o que sem dúvida implica no mesmo. Mas no Grey Annals existe uma maravilhosa evocação que “longos anos de paz se seguiram após a chegada de Denethor”, e foram longos de fato: de 1350 a 1495, 145 Anos dos Valar, ou 1389 Anos do Sol. Sou incapaz de explicar estas profundas mudanças na história interna.

[Nota do Tradutor: este é um texto clássico da série The History of Middle-earth, carinhosamente chamada de HoME, tanto em conteúdo quanto em formato. O texto é primariamente lingüístico e é mais voltado a fãs mais avançados em estudos dentro da obra de Tolkien. Perceba como os comentários, tanto de Tolkien pai como do filho, são algumas vezes maiores do que o próprio texto comentado, o que também é uma característica geral dos HoME. Christopher não mais edita profundamente os texto do pai, agora os comenta em detalhes, deixando bem claro que são seus comentários, deixando intocados todos os problemas, inconfruências e paradoxos do texto original. Em termos de conteúdo do texto, é um dos meus preferidos por tratar diretamente dos Clãs Élficos e suas proporções, além de nos fornecer informações únicas sobre cada um deles. Espero que vocês também o apreciem!]

The History of Middle-earth VI – The Return of the Shadow

The Return of the Shadow, sexto livro da série The History of Middle-earth, inicia uma nova fase no relato da evolução da mitologia tolkieniana. Até então, Christopher Tolkien havia apresentado os textos de seu pai que lidavam com as lendas dos Dias Antigos e da Segunda Era. Entretanto, como todos sabemos, a elaboração dessas lendas foi interrompida em 1937, quando Tolkien começou a escrever a "seqüência de O Hobbit", tão pedida por seus leitores e editores, e que iria se transformar em O Senhor dos Anéis.
 

Assim, The Return of the Shadow (A Volta da Sombra), título que chegou a ser cogitado para o primeiro volume de O Senhor dos Anéis, mostra os primeiros anos da composição da obra-prima de Tolkien, durante os quais o tom grandiloqüente e épico do livro ainda não se havia firmado, e Tolkien lutava para definir o escopo da obra.

Basta dizer que a própria natureza da missão de Frodo (no início chamado Bingo Baggins, e filho de Bilbo) ainda estava incerta, e Tolkien chegou a cogitar um ataque de dragões no Condado ou até mesmo uma viagem por Mar até o Antigo Oeste como aventuras para os hobbits. Mesmo depois que o anel mágico de Bilbo se tornou o Um Anel do Senhor do Escuro, as coisas ainda estavam longe de se definir. Um exemplo é que toda a história da Última Aliança de Gil-galad e Elendil não aparece a princípio, e é um elfo anônimo que se apodera do Um Anel e acaba morto pelos orcs no Grande Rio.

Personagens que iriam se tornar importantíssimos quando o livro alcançasse sua versão final aparecem sob as formas mais insuspeitas em The Return of the Shadow. Um exemplo é Trotter (o futuro Strider ou Passolargo), a princípio um hobbit de aparência estranha, rosto moreno e que usava sapatos de madeira! O Fazendeiro Magote é um sujeito intolerante e violento, que quase tinha matado Bingo (Frodo) por invadir sua fazenda, e o próprio Barbárvore é um gigante traiçoeiro e secretamente aliado a Sauron.

O livro cobre um período que vai mais ou menos de 1937 a 1939, quando a primeira das grandes "paradas" na narrativa aconteceu; nesse momento, a história já havia chegado a Moria e ao túmulo de Balin, mas a Companhia do Anel era formada por SETE membros, dos quais cinco eram hobbits (Bingo, Sam, Merry, Odo, o futuro Pippin, e Trotter) e os demais eram Gandalf e Boromir, então "filho do rei de Ond". O Senhor dos Anéis ainda iria passar por transformações radicais antes de que alcançar sua forma definitiva.

The Return of the Shadow também inclui reproduções de alguns dos primeiros manuscritos da obra-prima de Tolkien e do primeiro mapa do Condado a ser feito pelo Professor.

Conteúdo do Livro

The First Phase O começo do Senhor dos Anéis, até "Em Valfenda". Inclui alguns rascunhos da Estrada entre o Topo dos Ventos e Valfenda. dez 1937 – outuno 1938

The Second Phase Reescrita de "Uma Festa Há Muito Esperada" até "Tom Bombadil". Outono 1938.

The Third Phase Primeira aparição de "Sobre os Hobbits" daí vai de "Uma Festa Há Muito Esperada" até a festa em Valfenda. "News uncertainties and New Projects" contém planos, questões e vários fragmentos de textos. Inverno 1938/39 e outono 1939

The Story Continued Inicia em "Na Casa de Elrond" e segue até "As Minas de Moria". Poemas incluem "Elbereth Gilthoniel" em Élfico. O mais antigo mapa das terras do sul também é incluso. Final de 1939.