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Casamento Élfico

Os Elfos se casavam apenas uma vez na vida e era por amor e de livre
vontade. Casamento era o curso natural de suas vidas e eles, em sua
maior parte, se casavam na juventude e normalmente antes de seus
quinquagésimos aniversários.
 
 
 
Com bastante frequência ele podiam escolher um ao
outro bastante cedo na juventudo, mesmo como crianças. Se eles eram
crianças [ou seja, não tinham atingido 50 anos] o noivado aguardava o
julgamento dos pais de ambos. Se eles já possuíam a idade apropriada, o
noivado era anunciado em um encontro das duas Casas interessadas e se
permitido os noivos trocavam alianças de prata entre si.

De
acordo com as leis dos Eldas este noivado mantido por pelo menos um ano
e durante este tempo ele poderia ser revogado por uma devolução pública
dos anéis; os anéis então seriam enterrados e nunca usados novamente
para um noivado.

Depois de pelo menos um ano ter se passado
desde a festa de noivado, era função dos noivos indicar a data de seu
casamento e a festa das duas Casas envolvidas. Ao final da festa os
noivos punham-se à frente e a mãe da noiva e o pai do noivo juntava as
mãos do casal e os abençoava.

A forma desta benção não é
conhecida pois nenhum mortal jamais a ouviu, mas os Eldar diziam que
Varda era nomeada como testemunha pela mãe e Manwë pelo pai e o nome de
Eru era mencionado também. Então os noivos devolviam suas alianças de
prata, mas em troca davam finos anéis de ouro usados no indicados da
mão direita.

Para os Noldor existia também um costume no qual
a mãe da noiva deveria dar ao noivo uma jóia em uma corrente ou colar e
o pai do noivo deveria dar um presente igual à noiva. Este presente
poderia ser dado antes da festa de casamento.

Estas cerimônias
não eram obrigatórias para o casamento; eram apenas um modo gracioso de
reconhecer a união das duas Casas. Era no ato da união corpórea que o
casamento era executado e após a qual a união estaria completa. Sempre
foi permitido a qualquer Eldar [se solteiro] casar-se sem cerimônia ou
testemunhas, exceto bençãos e menção de nomes, e em tempos de
problemas, em fugas ou em exílios e viagens, tais casamentos eram
frequentemente realizados.

Não existem registros de nenhum
Elfo que tenha pega a esposa de outro por força porque isto era contra
sua natureza. Alguém forçado a isso poderia rejeitar sua vida corpórea
e passar para Mandos. Isto dificilmente era possível, pois os Eldar
podiam ler na voz e nos olhos do outro quando este era casado ou não.

Segue abaixo a Lei de Ilúvatar sobre casamentos que foi pronunciada
devido aos dois casamentos de Finwë, o que conflita com o enunciado da
primeira linha que diz que os Elfos se casavam apenas uma vez durante a
vida. A Lei sobre casamento como Mandos a disse aos conselheiros dos
Eldar:

“Esta é a Lei de Ilúvatar para vocês, seus filhos, como
vocês sabem. Os Primogênitos deverão tomar uma esposa apenas e não ter
outra na vida enquando Arda perdurar. Contudo esta lei não leva em
consideração a Morte. Este destino é agora existente, pelo direito de
governo que Ilúvatar concedeu a Manwé, que se o espírito de um
parceiro, marido ou esposa, abandonar seu corpo deverá de qualquer
forma passar para a guarda de Mandos, então ao vivo será permitido
tomar outro parceiro. Mas isto apenas poderá ser se a antiga união for
dissolvida para sempre. Então aquele mantido sob a guarda de Mandos
deverá permanecer ali até o final de Arda, e não deverá despertar
novamente ou tomar forma corpórea. Pois ninguém entre os Quendi poderá
ter duas esposas de uma vez vivas e despertas. Mas uma vez que não pode
se rpensado que os vivos poderão, por sua vontade apenas, confinar o
espírito de outro a Mandos, esta desunião deverá ocorrer apenas com o
consentimento de ambos. E após a concessão do consentimento dez anos
dos Valar [9,82 Anos do Sol] deverão se passar antes que Mandos o
confirme. Dentro deste período qualquer parte poderá revogar este
consentimento, mas quando Mandos o confirmar, o o parceiro vivo casior
com outro, será irrevogável até o fim de Arda.”

[De: The History of Middle-Earth 10 – Morgoth`s Ring]

[tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]

Os Nomes dos Clãs Eldar

Em Quenya a forma dos nomes dos três grandes Clãs eram Vanyar, Noldor e Lindar. O mais antigo destes nomes era Lindar, o qual certamente remonta aos dias antes da Separação. Os outros dois provavelmente surgiram no mesmo período, mas um pouco mais tarde. Suas formas originais podem ser dadas em Élfico Primitivo como *wanja, *ngolodo e linda/glinda [1].

De acordo com a lenda, preservada de maneira quase idêntica tanto entre os Elfos de Aman quanto entre os Sindar, os Três Clãs eram derivados em princípio dos três Pais-Elfos: Imin, Tata e Enel (sc. Um, Dois, Três) e por aqueles a quem cada um escolheu seguir. Então, a princípio eles tinham simplesmente os nomes Minyar “Primeiros”, Tatyar “Segundos” e Nelyar “Terceiros”. Estes eram contados, dentre os 144 Elfos que primeiramente acordaram, 14, 56 e 74; e estas proporções foram aproximadamente mantidas até a Separação. [2]

É dito que do pequeno clã dos Minyar nenhum se tornou Avari. Os Tatyar foram divididos meio-a-meio. Os Nelyar eram os mais relutantes em deixar seus lares às margens do lago; mas eram bastante coesos e bastante conscientes da unidade separada de seu Clã (como continuaram a ser), portanto quando ficou claro que seus líderes Elwë e Olwë estavam resolvidos a partir e teriam muitos seguidores, muitos dentre os que originalmente tinham se unido aos Avari foram para junto dos Eldar ao invés de se separarem de seus parentes. Os Noldor, de fato, afirmaram que a maior parte dos “Teleri” eram Avari em seus corações, e que apenas os Eglain realmente lamentaram serem deixados em Beleriand.

De acordo com historiadores Noldorin as proporções, de 144, que quando começou a Marcha tornaram-se Eldar ou Avari foram aproximadamente:

Minyar 14: Avari 0 Eldar 14

Tatyar 56: Avari 28 Eldar 28

Nelyar 74: Avari 28 Eldar 46 > Amanyar Teleri 20; Sindar e Nandor 26

Por isso os Noldor eram o maior clã de Elfos em Aman; enquanto os Elfos que permaneciam na Terra-média (os Moriquendi no Quenya de Aman) ultrapassavam os Amanyar na proporção de 82 para 62. [3]

Por quanto tempo os nomes descritivos dos clãs *wanja, *ngolodo e *linda foram preservados entre os Avari não é sabido; mas a existência dos antigos clãs é lembrada e um parentesco especial entre aqueles do mesmo clã original, tenham eles partido ou permanecido, continua reconhecido. Os primeiros Avari que os Eldar encontraram em Beleriand parecem ter dito serem Tatyar, que reconheciam seu parentesco com os Exilados, embora não existam registros da utilização do nome Noldo em nenhuma forma Avarin reconhecível. Eles não eram amigáveis com os Noldor e invejosos de seus parentes mais exaltados, a quem acusavam de arrogância.

Este mal-estar surge em parte do amargor do Debate antes da marcha dos Eldar começa,r e sem dúvida aumentou através de maquinações de Morgoth; mas também lança alguma luz sobre o temperamento dos Noldo, em geral e de Fëanor em particular. De fato os Teleri a seu lado afirmavam que a maioria dos Noldor em Aman eram Avari de coração e retornaram à Terra-média quando descobriram seu erro; eles precisavam de espaço para habitar. Pois em contraste, os elementos Lindarin  nos Avari do oeste eram amigáveis com os Eldar e desejosos para aprender com eles, e tão próximo era o sentimento de parentesco entre os remanescentes dos Sindar, Nandor e Lindarin Avari que mais tarde em Eriador e no Vale do Anduin eles freqüentemente mesclaram-se.

Lindar (Teleri) [4]

Este era, como visto, o maior dos antigos clãs. O nome, mais tarde aparecendo na forma Quenya como Lindar (Lindai em Telerin), já é referenciado na lenda do “Acordar dos Quendi”, a qual sobre os Nelyar que “eles cantaram antes de poderem falar com palavras”. O nome *Linda é portanto claramente um derivativo da raiz primitiva *LIN (mostrando reforço do x médio e do -a adjetival). Esta raiz foi possivelmente uma das contribuições dos Nelyar ao Élfico Primitivo, por reflete suas predileções e associações, e produz mais derivativos nas línguas Lindarin do que em outras. Sua referência primária foi para um som melodioso ou agradável, mas também se refere (especialmente em Lindarin) à água, aos movimentos da qual os Lindar sempre associaram os sons vocais (élficos). Os reforços, tanto do médio -lind como dos iniciais glin-, glind- eram, contudo, quase somente utilizados em sons musicais, especialmente vocais, produzidos com o intuito de serem agradáveis. É, portanto, a este amor dos Nelyar pela música, pelos sons vocais com ou sem o uso de palavras articuladas, ao qual o nome Lindar originalmente de referia; mas também eles amavam a água, e antes da Separação nunca se mudaram para longe do lago e da cachoeira de Cuiviénen e aqueles que se mudaram para o leste se tornaram enamorados do Mar [5].

Em Quenya, ou seja, na língua dos Vanyar e Noldor, aqueles deste clã que se uniram à Marcha foram chamados de Teleri. Este nome era aplicado em particular àqueles que vieram finalmente e por último a Aman; mas mais tarde também foi aplicado aos Sindar. O nome Lindar não foi esquecido, mas nas histórias Noldorin era principalmente utilizado para descrever todo o Clã, incluindo os Avari entre eles. Teleri significa “aqueles no final da linha, os últimos” e foi, evidentemente, um apelido que surgiu durante a Marcha, quando os Teleri, os menos ansiosos a partir, freqüentemente ficavam bastante para trás [6].

Vanyar

Este nome provavelmente foi dado ao Primeiro Clã pelos Noldor. Eles o aceitaram, mas continuaram a chamar a si mesmos mais freqüentemente pelo velho nome numérico Minyar (uma vez que todo este clã uniu-se aos Eldar e alcançou Aman). O nome se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era considerada uma características bela pelos Noldor (que amavam o ouro), embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros. Devido ao intercasamento o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os Noldor: notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis dos Vanyar.

Vanyar portanto surgiu como um derivativo adjetival *wanja da raiz *WAN. Seu sentido primário parece ter sido bastante similar ao uso Inglês (moderno) de “belo” (“fair”) com referência ao cabelo e compleição; embora seu desenvolvimento tenha sido o oposto do Inglês: significa “pálido, de cores claras, não marrom ou escuro” e sua implicação de beleza era secundária. No Inglês o sentido “bonito” é primário. Da mesma raiz derivou-se o nome dado em Quenya à Valië Vána, esposa de Oromë.

Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era muito usado por eles para o Primeiro Clã. Os Amanyar Teleri tinham a forma Vaniai (sem dúvida tomada dos Noldor), mas o nome parece ter sido esquecido em Beleriand, onde o Primeiro Clã (em lendas e histórias apenas) era chamado de Miniel (Minil no plural).

Noldor

Este nome provavelmente é mais antigo do que Vanyar, e pode ter sido criado antes da Marcha. Foi dado ao Segundo Clã pelos outros. Foi aceito e era usado como nome regular e próprio por todos os membros Eldarin do clã em sua história posterior.

O nome significa “os Sábios”, ou seja, aqueles que tinham grande conhecimento e entendimento. Os Noldor de fato já cedo mostraram terem os maiores talentos entre todos os Elfos tanto para feitos intelectuais como para perícias técnicas.

As formas variantes do nome: (Quenya) Noldo, (Telerin) Goldo, (Sindarin) Golodh/Ngolodh, indicam um Élfico Primitivo *ngoldo. Este é um derivativo da raiz *NGOL “conhecimento, sabedoria”. Isto é visto no (Quenya) Role ´longo estudo (de qualquer assunto), ingole “conhecimento”, ingolmo “mestre do conhecimento”. Em (Telerin) gole, engole têm o mesmos sentidos que em Quenya mas são mais freqüentemente utilizados para o “conhecimento” especial possuído pelos Noldor. Em Sindarin a palavra gul (equivalente ao Quenya nole) possui associações menos laudatórias, sendo utilizada mais freqüentemente como significando conhecimento secreto, especialmente como aquele possuído pelos artífices que criavam coisas maravilhosas; e a palavra tornou-se ainda mais escurecida por seu freqüente uso no componente morgul “artes negras”, aplicada às artes delusórias ou perigosas e conhecimentos derivados de Morgoth. Aqueles dentre os Sindar que já não eram amigáveis aos Noldor atribuíam sua supremacia nas artes e nos conhecimentos aos seus aprendizados a partir de Melkor-Morgoth. Isto é falso, tendo vindo em última análise do próprio Morgoth, embora não seja sem alguma fundamentação (como as mentiras de Morgoth raramente o eram). Mas os grandes dons dos Noldor não vieram dos ensinamentos de Melkor. Fëanor o maior de todos eles nunca teve assuntos com Melkor em Aman e foi seu maior inimigo.

Sindar

A forma menos comum Sindel (plural Sindeldi) também é encontrada no Quenya dos Exilados. Este também é o nome dado pelos Exilados Noldor [7] à segunda maior divisão dos Eldar [8]. Ele se aplicava a todos os Elfos de origem telerin que os Noldor encontraram em Beleriand, embora mais tarde excluísse os Nandor, exceto aqueles que eram diretamente sujeitos a Elwë ou se mesclaram a seu povo. O nome significa “os Cinzentos” ou “os Elfos Cinzentos” e era derivado de *THIN, (Élfico Primitivo) *thindi “cinza, pálido ou cinza prateado”, (Quenya) pinde, (Noldorin) sinde.

Sobre a origem deste nome, ver [7]. Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência era feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma característica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de Elwë (como no caso de Círdan) [9]. Em geral os Sindar aparentemente pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e altos, ainda que ágeis. De fato eles dificilmente poderiam ser separados exceto por seus olhos; pois os olhos de todos os Elfos que habitaram Aman impressionavam àqueles da Terra-média por seu brilho penetrante. Por essa razão os Sindar freqüentemente os chamavam de Lachend (plural Lechind) “olhos de chamas”.

Nandor

Este nome foi feito ao tempo, nos dias tardios da Marcha, quando certos grupos de Teleri desistiram da Jornada; e é especialmente aplicado aos muitos seguidores de Lenwë [10] que recusaram a cruzar as Hithaeglir [11]. O nome era freqüentemente interpretado como “aqueles que voltaram”; mas de fato nenhum dos Nandor parecem ter retornado ou se reunido aos Avari. Muitos permaneceram nas terras que tinham alcançado, especialmente ao lado do Rio Anduin; alguns vagaram para o sul [12].

Existiu contudo, como visto, um pequeno movimento dos Moriquendi para o
oeste durante a prisão de Melkor, e eventualmente, grupos de Nandor, cruzando através do Paço entre as Hithaeglir e as Eryd Nimrais, espalharam-se amplamente em Eriador. Alguns desses ao final entraram em Beleriand, não muito depois do retorno de Morgoth [13]. Estes estavam sob a liderança de Denethor, filho de Denweg (ver [10]), que se tornou um aliado de Elwë nas primeiras batalhas contra as criaturas de Morgoth. O antigo nome Nandor era lembrado apenas pelos historiadores Noldorin em Aman; e eles não sabiam nada da•história posterior deste povo, lembrando apenas que o nome do líder dos que desistiram antes de cruzar as temíveis Hithaeglir era Lenwë (i.e. Denweg). Os Mestrs do Conhecimento Sindar lembravam dos Nandor como Danwaith ou, por confusão com o nome de seu líder, Denwaith.

Este nome eles aplicaram primeiramente aos Nandor que vieram para Beleriand Oriental; mas este povo chamava-se com o velho nome do clã *Lindai, que fora tomado da forma Lindi para sua própria língua. A região onde mais comumente se fixaram como um povo pequeno e independente eles chamaram de Lindon (<*Lindana): esta era a região a oeste das Montanhas Azuis (Eryd Luin), cortada pelos tributários do grande rio Gelion e previamente nomeada pelos Sindar como Ossiriand, a Terra dos Sete Rios. Os Sindar rapidamente reconheceram os Lindi como parentes de origem Lindarin (ou Glinnil em Sindarin), utilizando uma língua que, apesar das grandes diferenças, continuava sendo percebível como aparentada à sua própria; e eles adotaram os nomes Lindi e Lindon, dando-lhes as formas Lindil (sq. Lindel) ou Linedhil, e Lindon ou Dor Lindon. No Quenya dos Exilados as formas utilizadas (derivadas dos Sindar ou diretamente dos Noldor) eram Lindi e Lindon (ou Lindone). Os Exilados Noldor também usualmente se referiam às Eryd Luin como Eryd Lindon, uma vez que a parte mais alta de suas cordilheiras faziam a fronteira oriental da região de Lindon.

Estes nome foram, mais tarde, substituídos entre os Sindar pelo nome “Elfos verdes”, pelo menos no que se referia aos habitantes de Ossiriand; pois eles ocultaram a si mesmos e tomaram tão pouca parte nas lutas contra Morgoth quando podiam. Este nome, (Sindarin) Laegel (plural Laegil, plural de classe Laegrim ou Laegel(d)rim) foi dado tanto devido à verdejante terra de Lindon quanto ao fato de que os Laegrim vestiam-se de verde como um auxílio à sua secritude. Este termo os Noldor traduziram em Quenya como Laiquendi, mas não era muito utilizado.

Notas:

[1] (Nota de J.R.R. Tolkien) Embora este Nome de Clã tenha *glind- em Sindarin, o g- não aparece no Amanya telerin nem no Nandorin, então neste caso pode ter sido uma adição ao Sindarin, que favoreceu e aumentou em muito grupos iniciais deste tipo.

[2] (Nota do Tradutor) a Lenda do Despertar, ou Cuivienyarna, está traduzida para português neste link.

[3] (Nota de Christopher Tolkien) A história encontrada nos Anais de Aman sobre os grupos de Morwë e Nurwë, que recusaram os chamados dos Valar e se tornaram Avari (HoME 10), foi abandonada.

[4] (Nota de Christopher Tolkien) O nome Lindar “Cantores” para os Teleri aparece no “Glossário” para o Athrabeth Finrod ah Andreth (HoME 10) e foi por um longo tempo um nome para a Primeira Família, mais tarde Vanyar. (N.T. a Valinor possui uma versão traduzida para português do Athrabeth Finrod ah Andreth)

[5] (Nota de J.R.R. Tolkien) Por esta razão o mais utilizado dos “títulos” os nomes secundários dos Lindar era Nedilli “Amantes das Águas”.

[6] (Nota de J.R.R. Tolkien) Uma formação agental simples (como *abaro > *abar a partir de *ABA) da raiz *TELE, cujo sentido inicial parece ter sido “fechamento, fim, vindo ao final”: uma vez que em Quenya telda “último, final”; tele- verbo intransitivo “encerrar, terminar” ou “ser a última coisa ou pessoa em uma série ou sequência de eventos”; telya verbo transitivo “teminar, concluir”; telma “uma conclusão, qualquer coisa utilizada para encerrar um trabalho ou assunto”. Este é provavelmente distinto de *tel-u “telhar, por a coroa/topo em um prédio”, visto no Quenya telume “telhado, topo” (esta é provavelmente uma das mais antigas palavras Élficas para os céus, o firmamento, antes do aumento de seu conhecimento e d invenção da palavra Eldarin Menel. Telumehtar “guerreiro do céu”, um antigo nome para Menelmakil, Órion). A palavra telluma “domo, cúpula” é uma alteração de telume sob a influência do Valarin delgsima. Mas *telu pode ser simplesmente uma diferenciação de *TELE, uma vez que o telhado era a parte final de uma construção; telma, que freqüentemente era aplicada ao último item de uma estrutura, como a última rocha ou o pináculo mais alto.

[7] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lago Mithrim, significando originalmente “Lagos dos Mithrim”. Mithrim era o nome dado a eles pelos habitantes do sul, devido ao clima mais frio, aos céus cinzentos e às névoas do Norte. Provavelmente foi devido aos Noldor terem entrado primeiramente em contato com este ramo norte que deram em Quenya o nome Sindar ou Sindeldi “Elfos Cinzentos” a todos os habitantes Telerin das terras ocidentas que falavam a língua Sindarin.• Embora esse nome tenha mais tarde também se referido ao nome Thingol (“Manto Cinzento”) de Elwë, uma vez que ele era reconhecido como Alto Rei de todas as terras e seus povos. É dito que os povos do norte vestiam-se em cinza, especialmente após o retorno de Morgoth, quanto secritude tornou-se necessária; e os Mithrim tinha uma arte de vestirem-se com um uma vestimenta cinzenta que os fazia quase invisíveis em locais com sombras ou uma terra pedregosa. Esta arte foi mais tarde utilizada nas terras do sul quandos os perigos da Guerra aumentaram.

[8] (Nota de J.R.R. Tolkien) Ver acima. A proporção, por 144, dos Eldar remanescentes na Terra-Média era contada como 26, dos quais 8 eram Nandor.

[9] (Nota de Christopher Tolkien) Em outros textos posteriores Círdan é citado como sendo parente de Elwë, mas eu não encontrei nenhuma citação sobre a natureza do parentesco.

[10] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lenwë é a forma pela qual seu nome era lembrado em histórias Noldorin. Seu nome foi provavelmente *Denwego, Nandorin Denweg. Seus filho era o chefe Nandorin Denethor. Estes nomes provavelmente significavam “ágil-e-ativo” e “ágil-e-fino”, de *dene- “fino e forte, ágil”, e *thara- “alto (ou longo) e esbelto”.

[11] (Nota de Christopher Tolkien) Lenwë foi substituído pelo nome mais permanente Dan do pai de Denethor; deste texto ele foi adotado no Silmarillion.

[12] (Nota de J.R.R. Tolkien) O nome Nandor era um derivativo do elemento *dan, *ndan- indicando• o reverso de uma ação, desfazer ou anular seu efeito, como em “desfazer, voltar atrás (no mesmo caminho), desdizer, devolver (o mesmo presente e não outro em troca)”. A forma original *ndando, entretanto, implicava apenas em “alguém que volta atrás em sua palavra ou decisão”.

[13] (Nota de Christopher Tolkien) A afirmação de que os Nandor entraram em Beleriand “não muito depois do retorno de Morgoth” é outra contradição marcante aos Anais. Anteriormente é dito que eles vieram “antes do retorno de Morgoth”, o que sem dúvida implica no mesmo. Mas no Grey Annals existe uma maravilhosa evocação que “longos anos de paz se seguiram após a chegada de Denethor”, e foram longos de fato: de 1350 a 1495, 145 Anos dos Valar, ou 1389 Anos do Sol. Sou incapaz de explicar estas profundas mudanças na história interna.

[Nota do Tradutor: este é um texto clássico da série The History of Middle-earth, carinhosamente chamada de HoME, tanto em conteúdo quanto em formato. O texto é primariamente lingüístico e é mais voltado a fãs mais avançados em estudos dentro da obra de Tolkien. Perceba como os comentários, tanto de Tolkien pai como do filho, são algumas vezes maiores do que o próprio texto comentado, o que também é uma característica geral dos HoME. Christopher não mais edita profundamente os texto do pai, agora os comenta em detalhes, deixando bem claro que são seus comentários, deixando intocados todos os problemas, inconfruências e paradoxos do texto original. Em termos de conteúdo do texto, é um dos meus preferidos por tratar diretamente dos Clãs Élficos e suas proporções, além de nos fornecer informações únicas sobre cada um deles. Espero que vocês também o apreciem!]

The History of Middle-earth VI – The Return of the Shadow

The Return of the Shadow, sexto livro da série The History of Middle-earth, inicia uma nova fase no relato da evolução da mitologia tolkieniana. Até então, Christopher Tolkien havia apresentado os textos de seu pai que lidavam com as lendas dos Dias Antigos e da Segunda Era. Entretanto, como todos sabemos, a elaboração dessas lendas foi interrompida em 1937, quando Tolkien começou a escrever a "seqüência de O Hobbit", tão pedida por seus leitores e editores, e que iria se transformar em O Senhor dos Anéis.
 

Assim, The Return of the Shadow (A Volta da Sombra), título que chegou a ser cogitado para o primeiro volume de O Senhor dos Anéis, mostra os primeiros anos da composição da obra-prima de Tolkien, durante os quais o tom grandiloqüente e épico do livro ainda não se havia firmado, e Tolkien lutava para definir o escopo da obra.

Basta dizer que a própria natureza da missão de Frodo (no início chamado Bingo Baggins, e filho de Bilbo) ainda estava incerta, e Tolkien chegou a cogitar um ataque de dragões no Condado ou até mesmo uma viagem por Mar até o Antigo Oeste como aventuras para os hobbits. Mesmo depois que o anel mágico de Bilbo se tornou o Um Anel do Senhor do Escuro, as coisas ainda estavam longe de se definir. Um exemplo é que toda a história da Última Aliança de Gil-galad e Elendil não aparece a princípio, e é um elfo anônimo que se apodera do Um Anel e acaba morto pelos orcs no Grande Rio.

Personagens que iriam se tornar importantíssimos quando o livro alcançasse sua versão final aparecem sob as formas mais insuspeitas em The Return of the Shadow. Um exemplo é Trotter (o futuro Strider ou Passolargo), a princípio um hobbit de aparência estranha, rosto moreno e que usava sapatos de madeira! O Fazendeiro Magote é um sujeito intolerante e violento, que quase tinha matado Bingo (Frodo) por invadir sua fazenda, e o próprio Barbárvore é um gigante traiçoeiro e secretamente aliado a Sauron.

O livro cobre um período que vai mais ou menos de 1937 a 1939, quando a primeira das grandes "paradas" na narrativa aconteceu; nesse momento, a história já havia chegado a Moria e ao túmulo de Balin, mas a Companhia do Anel era formada por SETE membros, dos quais cinco eram hobbits (Bingo, Sam, Merry, Odo, o futuro Pippin, e Trotter) e os demais eram Gandalf e Boromir, então "filho do rei de Ond". O Senhor dos Anéis ainda iria passar por transformações radicais antes de que alcançar sua forma definitiva.

The Return of the Shadow também inclui reproduções de alguns dos primeiros manuscritos da obra-prima de Tolkien e do primeiro mapa do Condado a ser feito pelo Professor.

Conteúdo do Livro

The First Phase O começo do Senhor dos Anéis, até "Em Valfenda". Inclui alguns rascunhos da Estrada entre o Topo dos Ventos e Valfenda. dez 1937 – outuno 1938

The Second Phase Reescrita de "Uma Festa Há Muito Esperada" até "Tom Bombadil". Outono 1938.

The Third Phase Primeira aparição de "Sobre os Hobbits" daí vai de "Uma Festa Há Muito Esperada" até a festa em Valfenda. "News uncertainties and New Projects" contém planos, questões e vários fragmentos de textos. Inverno 1938/39 e outono 1939

The Story Continued Inicia em "Na Casa de Elrond" e segue até "As Minas de Moria". Poemas incluem "Elbereth Gilthoniel" em Élfico. O mais antigo mapa das terras do sul também é incluso. Final de 1939.

The History of Middle-earth III – The Lays of Beleriand

Os leitores mais atentos de O Silmarillion provavelmente se recordam dos belos fragmentos de poesia que aparecem no capítulo De Beren e Lúthien. No terceiro livro da série The History of Middle-earth, entitulado The Lays of Beleriand (As Baladas de Beleriand), temos a oportunidade de conhecer na íntegra a Balada de Leithian, texto do qual foram extraídos esses versos, bem como a Balada dos Filhos de Húrin, que reconta em forma de poema a história de Túrin Turambar.
 

Na verdade, nenhum dos dois poemas chegou a ser terminado por Tolkien: a Balada dos Filhos de Húrin, embora tenha 2000 versos, termina logo depois da chegada de Túrin a Nargothrond, enquanto a Balada de Leithian, com catorze cantos, foi interrompida no momento em que Carcharoth, o lobo de Angband, arranca a mão de Beren que segurava a Silmaril.

O estilo das duas baladas é bastante diferente: enquanto a Balada de Leithian é composta por versos octassílabos que rimam em pares (os chamados dísticos), a Balada dos Filhos de Húrin foi escrita em versos aliterativos, um tipo de rima utilizado na poesia medieval anglo-saxã, muito apreciada por Tolkien.

Os dois longos poemas foram escritos por Tolkien durante os anos 20 e começo dos anos 30, e representam uma fase importante para a evolução da mitologia tolkieniana. Para citar alguns exemplos, é neles que aparece pela primeira vez a fortaleza subterrânea de Nargothrond, personagens como Finrod (então chamado apenas Felagund) e o próprio Sauron (então chamado Thû). É impressionante perceber também que a Balada de Leithian praticamente definiu a história de Beren e Lúhien como a conhecemos hoje. Até trechos de poemas publicados em outros livros, como a história de Tinúviel contada por Aragorn aos hobbits em O Senhor dos Anéis, foram fortemente baseados na Balada de Leithian.

Além dos dois poemas principais, The Lays of Beleriand também contou fragmentos de outros poemas abandonados por Tolkien: The Flight of the Noldoli (A Fuga dos Noldor), The Lay of Earendel (A Balada de Earendel) e The Lay of the Fall of Gondolin (A Balada da Queda de Gondolin).

Conteúdo do Livro

The Lay of the Children of Húrin A história de Húrin e seus filhos, em versos aliterativos. Acaba com Túrin chegando em Nargothrond. 1920 – 1925

Poems early abandoned Poemas breves. Inclui "The Flight of the Noldoli", um fragmento aliterativo de "Lay of Eärendel" e "Lay of the Fall of Gondolin". 1920 – 1925

The Lay of Leithian História de Beren e Lúthien em cupletos octosilábicos. Termina com Carcharoth engolindo a mão de Beren. 1925 – 1931

The Lay of Leithian recommenced
Reescrita de "The Lay of Leithian", em parte extensivo. Termina no mesmo local. 1949 u 1950, revisado depois de 1955

The History of Middle-earth I – The Book of Lost Tales

Quem vê O Silmarillion em sua forma atual talvez não imagine o gigantesco trabalho de transformação e carpintaria literária necessário para que a mitologia dos Dias Antigos tomasse a forma que conhecemos hoje. The Book of Lost Tales I (O Livro dos Contos Perdidos I), o primeiro da série The History of Middle-earth, traz para os leitores as versões mais antigas do universo tolkieniano, algumas datando de 1916.

 

As histórias do livro são relatadas a partir do ponto de vista de Eriol, um marinheiro humano que, após muitas viagens pelos Mares Ocidentais, chega a Tol Eressëa, a Ilha Solitária onde vivem os elfos. Lá, Eriol torna-se amigo dos Eldar e se hospeda em Mar Vanwa Tyaliéva, o lar de Lindo e sua esposa Vairë. Os elfos de Eressëa, a pedido de Eriol, começam a contar toda a história de Valinor e das Terras Exteriores (o nome "Terra-média" ainda não havia sido incorporado à mitologia), desde a criação do Mundo.

Exceto a história da Canção dos Ainur, que essencialmente permaneceu com poucas mudanças até a versão "final" do Silmarillion, quase tudo é diferente do que conhecemos hoje. Ossë e Uinen, por exemplo, são Valar; o conceito dos Maiar ainda não havia sido criado. Os Valar têm filhos: Fionwë Úrion (que depois se tornaria o Maia Eonwë) é filho de Manwë e Varda, assim como Oromë – pasmem! – é filho de Yavanna.

O próprio Morgoth é um inimigo muito mais malicioso, com um senso de humor insolente e cruel, diferente do Senhor do Escuro posterior. A importância das Silmarils para a narrativa ainda não havia aparecido: Melko (assim mesmo, sem "r") rouba todas as jóias dos Noldoli (os futuros Noldor), entre elas as Silmarils. Aliás, o Fëanor que aparece aqui já é um grande artífice, mas não pertence à casa real dos Noldoli. O único filho do rei Finwë Nólemë é Turondo, o futuro Turgon de Gondolin.

A linguagem empregada também é muito mais arcaica e solene que a do atual Silmarillion (se é que isso é possível). E as próprias línguas élficas são bem diferentes, até em termos históricos: o quenya aqui já é o alto-élfico, mas a língua que depois se tornaria o sindarin é na verdade o noldorin ou gnômico (de gnomos, nome que designava os Noldor neste estágio da mitologia). A idéia era que os Noldor, durante seu exílio nas Terras Exteriores, teriam sua língua muito modificada em relação ao quenya.

Fica claro também, para quem lê o Lost Tales, a intenção de Tolkien: criar uma "mitologia para a Inglaterra". Isso aparece tanto na associação dos elfos com os fadas do folclore inglês – Eldamar é também chamada de Faëry ou "Terra das Fadas" – quanto na idéia de que Tol Eressëa, em tempos futuros, se tornaria a Grã-Bretanha. Seja como for, The Book of Lost Tales fornece inúmeras chaves para compreender o desenvolvimento do rico universo criativo de Tolkien.

Conteúdo do Livro

Contos – "The Cottage of Lost Play", "The Music of the Ainur", "The Coming of the Valar and the Building of Valinor", "The Chainin of Melko", "The Coming of the Elves and the Making of Kôr", "The Theft of Melko and the Darkening of Valinor", "The Flight of the Noldoli", "The Tale of Sun and Moon", "The Hiding of Valinor" e "Gilfanon´s Tale: The Travail of the Noldoli and the Coming of Mankind"
Poemas – "You and Me", "Kortirion", "Habannan", "Tinfang Warble", "Over Old Hills", "Kôr", "A Song of Aryador" e "Why the Man in the Moon came down too soon"
Mapas – "The earlist map" e "The World Ship"
Escritos datam de 1916 – 1918

Appendix – Names in the Lost Tales Part I:
Retirado dos primeiros "lexicons" das línguas Élficas e também inclui palavras em "Qenya" e "Goldogrin or Gnomish". Palavras etimologicamente conectadas são dadas tomando como base nomes importantes que as contém.
Escritos datam de 1915

Athrabeth Finrod ah Andreth

O famoso Diálogo de Finrod e Andreth, através do qual muito se sabe do relacionamento entre os Filhos de Eru, seus passados e futuros.

Da Morte e dos Filhos de Eru, e da Desfiguração dos Homens – O Diálogo [1] de Finrod e Andreth

Ora, os Eldar descobriram que, de acordo com a tradição dos Edain, os Homens acreditavam que seus hröar não eram por natureza justa de vida curta, mas haviam se tornado assim pela malícia de Melkor. Não estava claro para os Eldar o que os Homens queriam dizer: se pela desfiguração em geral de Arda [a qual eles próprios sustentavam ser a causa do desvanecimento de seus próprios hröar]; ou por alguma malícia especial contra os Homens enquanto Homens que havia sido perpetrada nas eras escuras antes que os Edain e os Eldar se encontrassem em Beleriand; ou por ambos. Mas aos Eldar parecia que, se a mortalidade dos Homens viera por malícia especial, a natureza dos Homens havia sido tristemente modificada em relação ao desígnio primeiro de Eru; e isto era matéria de assombro e terror para eles pois, se assim de fato era, então o poder de Melkor devia ser [ou deveria ter sido no princípio] muito maior do que até mesmo os Eldar haviam compreendido; enquanto a natureza original dos Homens devia ter sido de fato estranha, e diferente da de qualquer um dos outros habitantes de Arda.

A respeito dessas coisas está registrado na antiga tradição dos Eldar que certa vez Finrod Felagund e Andreth, a mulher-sábia, debateram em Beleriand há muito tempo. Essa história, que os Eldar chamam de Athrabeth Finrod ah Andreth, é aqui dada numa das formas em que foi preservada.

Finrod [filho de Finarfin, filho de Finwë] era o mais sábio dos Noldor exilados, estando mais preocupado que todos os outros com assuntos do pensamento [ao invés de com a criação ou a habilidade das mãos]; e ele era ávido, além disso, por descobrir tudo o que pudesse a respeito da raça humana. Foi ele o primeiro a encontrar os Homens em Beleriand e travar amizade com eles; e por essa razão era muitas vezes chamado pelos Eldar Edennil, “o Amigo dos Homens”. Seu maior amor era dado ao povo de Bëor, o Velho, pois foram estes os que ele primeiro encontrou nos bosques de Beleriand Oriental.

Andreth era uma mulher da Casa de Bëor, a irmã de Bregor, pai de Barahir [cujo filho foi Beren Uma-mão, o renomado]. Ela era sábia em pensamento, e versada nas tradições dos Homens e em suas histórias; razão pela qual os Eldar a chamavam Saelind, “Coração-sábio”.

Entre os Sábios alguns eram mulheres, e elas eram grandemente estimadas entre os Homens, especialmente por seu conhecimento das lendas dos dias antigos. Outra mulher-sábia era Adanel, irmã de Hador Lórindol, em certa época Senhor do Povo de Marach, cujos conhecimentos e tradições, e também cuja língua, eram diferentes dos do Povo de Bëor. Mas Adanel era casada com um parente de Andreth, Belemir da Casa de Bëor: ele era avô de Emeldir, mãe de Beren. Em sua juventude Andreth habitara por longo tempo na casa de Belemir, e assim aprendera de Adanel muito da tradição do Povo de Marach, além da tradição de seu próprio povo.

Nos anos de paz antes que Melkor quebrasse o Cerco de Angband, Finrod visitava freqüentemente Andreth, a quem amava em grande amizade, pois ele a achava mais pronta a compartilhar seu conhecimento com ele do que a maioria dos Sábios entre os Homens. Uma sombra parecia jazer sobre eles, e havia uma escuridão atrás deles, sobre a qual eram avessos a falar mesmo entre eles próprios. E eles se intimidavam com a majestade dos Eldar, e não revelariam facilmente a estes seu pensamento ou suas lendas. De fato, os Sábios entre os Homens [que eram poucos] em sua maioria mantinham sua sabedoria secreta, e a revelavam apenas àqueles a quem escolhiam.

Ora, aconteceu que num tempo de primavera [2] Finrod era hóspede na casa de Belemir; e ele passou a conversar com Andreth, a mulher-sábia, sobre os Homens e seus destinos. Pois naquele tempo Boron, Senhor do Povo de Bëor, tinha acabado de morrer logo depois de Yule, e Finrod estava entristecido.

“Triste para mim, Andreth”, ele disse, “é a passagem rápida de vosso povo. Pois agora Boron, pai de vosso pai [3], partiu; e embora ele fosse velho, como dizeis, conforme são as idades entre os Homens [4], eu o conheci, contudo, brevemente demais. De fato, me parece ter sido há pouco tempo que vi [5] Bëor no leste desta terra, e contudo agora ele se foi, e seus filhos, e também o filho de seu filho.”

“Agora já faz mais de cem anos”, disse Andreth, “desde que viemos do outro lado das Montanhas; e Bëor e Baran e Boron viveram cada um além de seu nonagésimo ano. Nossa passagem era mais rápida antes que encontrássemos esta terra.”

“Então estais contentes aqui?”, disse Finrod.

“Contentes?”, disse Andreth. “Nenhum coração dos Homens está contente. Toda passagem e morte é uma dor para ele; mas, se o murchar não acontece tão cedo, então isso é alguma melhora, uma pequena suspensão da Sombra”.

“O que quereis dizer com isso?”, disse Finrod.

“Certamente o sabeis bem!”, disse Andreth. “A Escuridão que está agora confinada no Norte, mas que uma vez”; e aqui ela parou e seus olhos se escureceram, como se sua mente tivesse voltado para anos negros que estariam melhor esquecidos. “Mas que uma vez jazeu sobre toda a Terra-média, enquanto vivíeis em vosso contentamento”.

“Não foi acerca da Sombra que perguntei”, disse Finrod. “O que quereis dizer, eu pergunto, com a suspensão dela? Ou como o destino rápido dos Homens está ligado a ela? Vós também, sustentamos [sendo instruídos pelos Grandes que sabem], sois Filhos de Eru, e vosso destino e natureza vêm Dele”.

“Vejo”, disse Andreth, “que nisto vós dos Altos-elfos não sois diferentes de vossos parentes inferiores que encontramos no mundo, embora eles não tenham vivido na Luz. Todos vós, os Elfos, acreditais que morremos rapidamente por nossa verdadeira natureza. Que somos frágeis e breves, e vós sois fortes e duradouros. Podemos ser “Filhos de Eru”, como dizeis em vossa tradição; mas somos filhos e crianças também para vós: para ser amados um pouco, talvez, e contudo criaturas de menor valor, para as quais podeis olhar do alto do vosso poder e do vosso conhecimento, com um sorriso, ou com pena, ou com um sacudir de cabeças”.

“Ah, o que dizeis está perto da verdade”, disse Finrod. “Pelo menos para muitos de meu povo; mas não para todos, e certamente não para mim. Mas considerai bem isto, Andreth: quando vos chamamos “Filhos de Eru” não falamos levianamente; pois tal nome nós jamais pronunciamos por troça ou sem plena intenção. Quando assim falamos, falamos por conhecimento, e não por mera tradição élfica; e proclamamos que sois nossos parentes, num parentesco muito mais próximo [tanto de hröa como de fëa] do que o que une todas as outras criaturas de Arda, e nós a elas.

Outras criaturas na Terra-média nós também amamos em sua medida e espécie: os animais e pássaros que são nossos amigos, as árvores, e mesmo as belas flores que passam mais rapidamente que os Homens. A passagem delas nós lamentamos; mas acreditamos que ela seja uma parte de sua natureza, tanto quanto são suas formas e cores.

Mas por vós, que sois nossos parentes mais próximos, nosso lamento é muito maior. Porém, se considerarmos a brevidade da vida em toda a Terra-média, não devemos acreditar que vossa brevidade é também parte de vossa natureza? Vosso próprio povo não acredita nisso também? E contudo, de vossas palavras e da amargura nelas depreendo que achais que erramos”.

“Acho que errais, e todos os que assim pensam”, disse Andreth; “e que esse mesmo erro vem da Sombra. Mas para falar dos Homens. Alguns dirão isto e outros aquilo; mas a maioria, pouco pensando, irá sempre sustentar que seu breve tempo no mundo sempre foi assim, e assim sempre há de permanecer, gostem ou não. Mas há alguns que pensam de outra forma; os Homens chamam a esses de “Sábios”, mas pouco lhes dão ouvidos. Pois eles não falam com certeza ou em uma voz, não tendo conhecimento certo como o de que vos vangloriais, mas por força dependendo de “tradição”, na qual a verdade [se puder ser encontrada] deve ser vislumbrada. E em cada vislumbre há joio com o trigo que é escolhido, e sem dúvida também trigo com o joio que é rejeitado.

Contudo, entre meu povo, de Sábio para Sábio desde a escuridão, vem a voz dizendo que os Homens não são agora como eram, nem como era sua verdadeira natureza no princípio. E mais claramente ainda isso é dito pelos Sábios do Povo de Marach, que preservaram na memória um nome para Ele que vós chamais Eru, embora no meu povo ele tenha sido quase esquecido. Assim eu aprendi com Adanel. Eles dizem claramente que os Homens não são por natureza de vida curta, mas assim se tornaram pela malícia do Senhor da Escuridão que eles não nomeiam”.

“Nisso eu bem posso acreditar”, disse Finrod: “que vossos corpos sofrem em alguma medida a malícia de Melkor. Pois viveis em Arda Desfigurada, como nós vivemos, e toda a matéria de Arda foi maculada por ele, antes que vós ou nós viéssemos e retirássemos nossos hröar e nosso sustento dela; toda Arda salvo, talvez, apenas Aman antes que ele fosse para lá. Pois sabei que não é de outra forma com os próprios Quendi: a saúde e a estatura deles está diminuída. Já aqueles de nós que habitam a Terra-média, e mesmo nós que retornamos a ela, descobrem que a mudança de seus corpos é mais rápida do que no início. E isso, julgo eu, deve pressagiar que eles provar-se-ão ser menos fortes para durar do que foram designados a ser, embora isto possa não ser revelado claramente por muitos e longos anos.

E da mesma maneira com os hröar dos Homens, eles são mais fracos do que deveriam ser. Assim vem a acontecer que aqui no Oeste, para onde o poder dele antigamente pouco se estendia, eles têm mais saúde, como dizeis”.

“Não, não!” disse Andreth. “Não compreendeis minhas palavras. Pois sois sempre de uma só opinião, meu senhor: os Elfos são os Elfos, e os Homens são Homens, e embora tenham um Inimigo comum, por quem ambos são feridos, ainda assim o intervalo ordenado permanece entre os senhores e os humildes, os primogênitos nobres e duradouros, e os seguidores simples e de breve serviço.

Essa não é a voz que os Sábios escutam desde a escuridão e de além dela. Não, senhor, os Sábios entre os Homens dizem: “Não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer. A morte foi imposta sobre nós”. E eis que o medo dela está conosco sempre, e fugimos dela para sempre como o cervo do caçador. Mas, quanto a mim, creio que não podemos escapar dela dentro deste mundo, não, nem se pudéssemos chegar à Luz além do Mar, ou àquela Aman da qual falais. Nessa esperança nós partimos, e viajamos durante muitas vidas de Homens; mas a esperança era vã. Assim dizem os Sábios, mas isso não parou a marcha pois, como eu disse, eles são pouco ouvidos. E eis que fugimos da Sombra até as últimas costas da Terra-média, para descobrir apenas que ela está aqui diante de nós!”

Então Finrod ficou em silêncio; mas depois de algum tempo ele disse: “Essas palavras são estranhas e terríveis. E vós falais com a amargura de alguém cujo orgulho foi humilhado, e procura então ferir aqueles com quem fala. Se todos os Sábios entre os Homens falam assim, então bem posso acreditar que sofrestes alguma grande ferida. Mas não pelas mãos de meu povo, Andreth, nem por nenhum dos Quendi. Se nós somos como somos, e vós sois como vos encontramos, isso não é por nenhuma ação nossa, nem por nosso desejo; e vossa tristeza não nos regozija nem alimenta nosso orgulho. Só um diria o contrário: aquele Inimigo que vós não nomeais.

Cuidado com o joio entre vosso trigo, Andreth! Pois pode ser mortal: mentiras do Inimigo que da inveja irão gerar ódio. Nem todas as vozes que vêm da escuridão dizem a verdade para aquelas mentes que escutam estranhas novas.

Mas quem vos fez essa ferida? Quem impôs a morte sobre vós? Melkor, parece claro que diríeis, ou qualquer que seja o nome que tendes para ele em segredo. Pois falais da morte e da sombra dele, como se fossem a mesma e uma só coisa; e como se escapar da Sombra fosse também escapar da Morte.

Mas essas duas coisas não são a mesma, Andreth. Assim julgo, ou a morte não seria encontrada em absoluto neste mundo que ele não concebeu, mas Outro. Não, morte é apenas o nome que damos a algo que ele maculou, e portanto nos parece mau; mas imaculado o seu nome seria bom”.

“O que sabeis da morte? Não a temeis porque não a conheceis”, disse Andreth.

“Nós a vimos, e a tememos”, respondeu Finrod. “Também nós podemos morrer, Andreth; e temos morrido. O pai de meu pai foi cruelmente assassinado, e muitos o seguiram, exilados na noite, no gelo cruel, no mar insaciável. E na Terra-média temos morrido, por fogo e por fumaça, por veneno e pelas cruéis lâminas da batalha. Fëanor está morto, e Fingolfin foi pisoteado [6] sob os pés do Morgoth [7].

Para que fim? Para derrotar a Sombra ou, se isso não puder ser, para impedi-la de espalhar-se uma vez mais por toda a Terra-média – para defender os Filhos de Eru, Andreth, todos os Filhos, e não apenas os orgulhosos Eldar!”

“Eu tinha ouvido”, disse Andreth, “que era para recuperar vosso tesouro, que vosso Inimigo roubara; mas talvez a Casa de Finarfin não pense como os Filhos de Fëanor. Mesmo assim, apesar de todo o vosso valor, digo outra vez: “O que sabeis da morte?”. Para vós ela pode ser em dores, pode ser amarga e uma perda – mas apenas por algum tempo, um pequeno revés na abundância, a menos que me tenham dito uma inverdade. Pois sabeis que, morrendo, não deixais o mundo, e que podeis retornar à vida.

De outra forma é conosco: morrendo nós morremos, e partimos para não voltar. A morte é um fim último, uma perda irremediável. E é abominável; pois também é uma injustiça que é feita contra nós”.

“Tal diferença eu percebo”, disse Finrod. “Diríeis que há duas mortes: uma que é uma ferida e uma perda mas não um fim, e outra que é um fim sem retorno; e os Quendi sofrem apenas a primeira?”

“Sim, mas há outra diferença também “, disse Andreth. “Uma é apenas um ferimento nos acasos do mundo, que os bravos, os fortes ou os afortunados podem esperar evitar. A outra é morte inelutável; e a morte o caçador que no fim não pode ser eludido. Seja um homem forte, ou rápido, ou ousado; seja sábio ou um tolo; seja ele mau, ou seja em todos os atos de sua vida justo e misericordioso, ame ele o mundo ou o abomine, deve morrer e deixá-lo – e se tornar carniça, que os Homens com prazer queimam ou escondem”.

“E, sendo assim perseguidos, os Homens não têm nenhuma esperança?”, disse Finrod.

“Eles não têm nenhuma certeza e nenhum conhecimento, apenas medos, ou sonhos no escuro”, respondeu Andreth. “Mas esperança? Esperança, isso é outro assunto, do qual mesmo os Sábios raramente falam”. A voz dela então se tornou mais suave. “Entretanto, Senhor Finrod da Casa de Finarfin, dos nobres e altivos Elfos, talvez possamos falar dela neste momento, vós e eu”.

“Podemos”, disse Finrod, “mas por enquanto caminhamos nas sombras do medo. Até agora, então, percebo que a grande diferença entre Elfos e Homens está na velocidade do fim. Nisso apenas. Pois se julgais que para os Quendi não há morte inelutável, errais.

Ora, nenhum de nós sabe, embora os Valar possam saber, o futuro de Arda, ou quanto tempo ela foi prescrita para durar. Mas não durará para sempre. Foi feita por Eru, mas Ele não está nela. Apenas o Único não tem limites. Arda, e mesmo Eä, devem portanto ser limitadas. Vós nos vedes, aos Quendi, ainda nas primeiras eras de nosso ser, e o fim está distante. Como talvez entre vós a morte possa parecer a um jovem em seu vigor; salvo que nós temos já longas eras de vida e pensamento atrás de nós. Mas o fim virá. Isso nós todos sabemos. E então deveremos morrer; deveremos perecer completamente, parece, pois pertencemos a Arda [em hröa e em fëa]. E para além disso o quê? “A partida para não retornar”, como dizeis, “o fim último, a perda irremediável”?

Nosso caçador é de pés lentos, mas nunca perde a trilha. Além do dia em que ele soprar sua trombeta, não temos nenhuma certeza, nenhum conhecimento. E ninguém nos fala de esperança.”

“Eu não sabia disso”, disse Andreth, “e contudo…”

“E contudo ao menos o nosso caçador é de pés lentos, diríeis?”, disse Finrod. “É verdade. Mas não está claro que um fado pressagiado e por muito tempo adiado seja de todas as maneiras um peso mais leve do que um que vem logo. Mas se entendi vossas palavras até aqui, não acreditais que essa diferença foi assim concebida no início. Não éreis no princípio condenados à morte rápida.

Muito poderia ser dito acerca dessa crença [seja ela uma suposição verdadeira ou não]. Mas primeiro eu desejaria perguntar: como dizeis que isso veio a acontecer? Pela malícia de Melkor, eu supus, e vós não o negastes. Mas vejo agora que não falais da diminuição que todos em Arda Desfigurada sofrem; mas de algum golpe especial de inimizade contra vosso povo, contra os Homens enquanto Homens. É assim?”

“De fato é”, respondeu Andreth.

“Então isso é matéria de horror”, disse Finrod. “Conhecemos Melkor, o Morgoth, e o sabemos ser poderoso. Sim, eu o vi, e ouvi sua voz; e estive cego na noite que está no coração de sua sombra, da qual vós, Andreth, nada sabeis salvo por ouvir dizer e pela memória de vosso povo. Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos; então todo o valor dos Noldor é apenas presunção e insensatez – não, Valinor e as montanhas dos Pelóri estão construídas sobre a areia”.

“Vede!”, disse Andreth. “Eu não disse que não conheceis a morte? Eis que quando sois forçados a encará-la em pensamento apenas, como a conhecemos em ato e em pensamento todas as nossas vidas, logo caís em desespero. Nós sabemos, se vós não o sabeis, que o Inominável é o Senhor deste Mundo, e que o vosso valor, e também o nosso, é insensatez; ou pelo menos é infrutífero”.

“Cuidado!”, disse Finrod. “Cuidado para que não digais o impronunciável, conscientemente ou em ignorância, confundindo Eru com o Inimigo, que comprazer-se-ia em ver-vos fazer isso. O Senhor deste Mundo não é ele, mas o Único que o fez, e seu Vice-regente é Manwë, o Rei Mais Velho de Arda que é abençoado.

Não, Andreth, a mente obscurecida e em confusão; curvar-se e contudo abominar; fugir e contudo não rejeitar; amar o corpo e contudo desprezá-lo, o asco do carniceiro: tais coisas podem vir do Morgoth, de fato. Mas condenar os imortais à morte, de pai para filho, e ainda deixar-lhes a memória de uma herança roubada, e o desejo pelo que foi perdido: poderia o Morgoth fazer isso? Não, eu digo. E por essa razão eu disse que, se vossa história é verdadeira, então tudo em Arda é vão, do pináculo de Oiolossë até o mais recôndito abismo. Pois não acredito em vossa história. Ninguém poderia ter feito isso além do Único.

Portanto eu vos digo, Andreth, o que fizestes, vós, os Homens, há muito tempo atrás na escuridão? Como enraivecestes Eru? Pois do contrário todas as vossas histórias são apenas sonhos escuros numa Mente Escura. Direis o que sabeis ou escutastes?”

“Não o farei”, disse Andreth. “Não falamos disso para aqueles de outra raça. Mas na verdade os Sábios são incertos e falam com vozes contrárias; pois o que quer que tenha acontecido há muito tempo, nós fugimos; temos tentado esquecer, e tão longamente tentamos que agora não conseguimos recordar nenhum tempo em que não fôssemos como agora somos – exceto apenas lendas de dias em que a morte vinha menos rapidamente e nosso tempo era muito maior, mas já havia morte”.

“Não conseguis recordar?”, disse Finrod. “Não há histórias de vossos dias antes da morte, ainda que não as desejeis contar a estranhos?”

“Talvez”, disse Andreth. “Se não entre meu povo, então quiçá entre o povo de Adanel”. Ela ficou em silêncio, e fitou o fogo.

“Achais que ninguém sabe exceto vós próprios?”, disse Finrod enfim. “Os Valar não sabem?”

Andreth olhou para cima e seus olhos escureceram. “Os Valar?”, ela disse. “Como deveria eu saber, ou qualquer homem? Vossos Valar não nos importunam com cuidado ou com instrução. Não mandaram nenhuma convocação para nós”.

“O que sabeis deles?”, disse Finrod. “Eu os vi, e habitei no meio deles, e na presença de Manwë e Varda estive na Luz. Não faleis deles assim, nem de nada que está muito acima de vós. Tais palavras vieram primeiro da Boca Mentirosa.

Nunca entrou em vosso pensamento, Andreth, que lá fora em eras há muito passadas podeis ter colocado a vós próprios fora do cuidado dos Valar, e além do alcance de sua ajuda? Ou mesmo que vós, os Filhos dos Homens, não eram um assunto que eles pudessem governar? Pois éreis grandes demais. Sim, é isso que quero dizer, e não apenas lisonjeio vosso orgulho: grandes demais. Os únicos mestres de vós próprios dentro de Arda, sob a mão do Único. Cuidado então com a maneira como falais! Se não desejais falar com outros de vosso ferimento ou de como o sofrestes, prestai atenção antes que [como médicos inábeis] julgueis erradamente a ferida, ou em orgulho coloqueis a culpa em lugar errado.

Mas voltemo-nos agora para outros assuntos, já que não desejais falar mais disso. Gostaria de considerar vosso primeiro estado antes do ferimento. Pois o que dizeis disso é também para mim um assombro, e difícil de entender. Dizeis: “não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer”. O que quereis dizer: que éreis como nós somos, ou de outra maneira?”

“Esta tradição não vos leva em conta”, disse Andreth, “pois nada sabíamos dos Eldar. Considerávamos apenas morrer e não morrer. De vida tão longa quanto a do mundo, mas não mais longa, não tínhamos ouvido; de fato, até agora tal coisa não havia entrado em minha mente”.

“Para falar com franqueza”, disse Finrod, “eu havia pensado que essa vossa crença de que vós também não fostes feitos para a morte era apenas um sonho de vosso orgulho, gerado em inveja dos Quendi, para igualá-los ou superá-los. Não é assim, dizeis. Contudo, muito antes de chegardes a esta terra, encontrastes outros povos dos Quendi, e recebestes a amizade de alguns. Já não éreis então mortais? E nunca falastes com eles acerca da vida e da morte? Embora sem quaisquer palavras eles logo descobririam vossa mortalidade, e antes de muito tempo perceberíeis que eles não morriam”.

“Não é assim, digo em verdade”, respondeu Andreth. “Podemos ter sido mortais quando encontramos os Elfos pela primeira vez longe daqui, ou talvez não o fôssemos; nossa tradição não o diz, ao menos a tradição que aprendi. Mas já tínhamos nossa tradição, e não precisávamos de nenhuma vinda dos Elfos: sabíamos que em nosso princípio havíamos nascido para nunca morrer. E com isso, meu senhor, queríamos dizer: nascidos para a vida eterna, sem qualquer sombra de qualquer fim”.

“Então os Sábios entre vós já consideraram como é estranha a natureza que eles atribuem aos Atani?”, disse Finrod.

“É assim tão estranho?”, perguntou Andreth. “Muitos dos Sábios sustentam que em sua verdadeira natureza nenhuma das coisas vivas morreria”.

“Nisso os Eldar diriam que eles erram”, disse Finrod. “Para nós vossa afirmação sobre os Homens é estranha, e de fato difícil de aceitar, por duas razões. Afirmais, se entendeis completamente vossas próprias palavras, que tivestes corpos imperecíveis, não restringidos pelos limites de Arda, e mesmo assim derivados de sua matéria e sustentados por ela. E afirmais também [embora isto possais não ter percebido] que tivestes hröar e fëar que estavam desde o princípio em desarmonia. Contudo, a harmonia de hröa e fëa é, acreditamos, essencial para a natureza verdadeira e incorrupta de todos os Encarnados: os Mirröanwi, como chamamos os Filhos de Eru”.

“A primeira dificuldade eu percebo”, disse Andreth, “e para ela nossos Sábios têm sua própria resposta. A segunda, como adivinhastes, eu não percebo”.

“Não?”, disse Finrod. “Então não vedes a vós próprios claramente. Mas pode acontecer com freqüência que amigos e parentes vejam com clareza algumas coisas que estão ocultas de seu próprio amigo.

Ora, os Eldar somos vossos parentes, e vossos amigos também [se puderdes crê-lo], e já vos observamos por três vidas de Homens com amor e preocupação, e muito pensamento. Disto então estamos certos sem debate, ou do contrário toda a nossa sabedoria é vã: os fëar dos Homens, embora de fato estreitamente aparentados aos fëar dos Quendi, não são contudo iguais. Pois, embora o consideremos estranho, vemos claramente que os fëar dos Homens não estão, como os nossos, confinados em Arda, nem Arda é seu lar.

Podeis negar isso? Nós, os Eldar, não negamos que amais Arda e tudo que está nela [na medida em que estejais livres da Sombra] talvez tão grandemente quanto nós. Mas de outra maneira. Cada uma de nossas famílias percebe Arda diferentemente, e se regozija em suas belezas em modo e grau diversos. Como dizê-lo? Para mim a diferença é como a que existe entre aquele que visita um país estranho, e lá habita por algum tempo [mas não precisa fazê-lo], e aquele que sempre viveu nessa terra e precisa viver ali]. Para o primeiro todas as coisas que vê são novas e estranhas, e nesse grau adoráveis. Para o outro todas as coisas lhe são familiares, as únicas coisas que existem, suas, e nesse grau preciosas”.

“Se quereis dizer que os Homens são os Estrangeiros”, disse Andreth.

“Dissestes a palavra”, disse Finrod, “esse nome o demos a vós”.

“Altivamente, como sempre”, disse Andreth. “Mas se somos apenas estrangeiros numa terra em que tudo é vosso, meus senhores, como afirmais, dizei-me: que outra terra ou coisas conhecemos?”

“Não, dizei-me!”, disse Finrod. “Pois se não o sabeis, como podemos sabê-lo? Mas sabeis que os Eldar dizem dos Homens que estes não olham para coisa alguma pelo que ela é; que se eles a estudam, é para descobrir algo mais; que se eles a amam, é somente [assim parece] por que ela lhes lembra de outra coisa mais cara? Mas com o que fazem tal comparação? Onde estão essas outras coisas?

Todos, Elfos e Homens, estamos em Arda e dela somos; e qualquer conhecimento que os Homens possuam é derivado de Arda [ou assim pareceria]. De onde então vem essa memória que tendes convosco, mesmo antes que comeceis a aprender?

Não vem de outras regiões em Arda das quais viestes. Nós também viemos de longe. Mas se vós e eu fôssemos até vossos antigos lares no leste, eu reconheceria as coisas lá como parte de meu lar, mas veria em vossos olhos a mesma admiração e comparação que vejo nos olhos dos Homens em Beleriand, que nasceram aqui”.

“Falais palavras estranhas, Finrod”, disse Andreth, “que eu não ouvi antes. Contudo, meu coração se comove como se por alguma verdade que ele reconhece, mesmo que não a entenda. Mas passageira é essa memória, e parte antes que possa ser agarrada; e então nos tornamos cegos. E aqueles dentre nós que conheceram os Eldar, e talvez os tenham amado, dizem por nossa vez: “Não há cansaço nos olhos dos Elfos”. E descobrimos que eles não compreendem o ditado que existe entre os Homens: o que é visto demais não é mais visto. E eles se admiram muito de que nas línguas dos Homens a mesma palavra possa significar tanto “velho conhecido” quanto “apodrecido”.

Pensamos que era assim apenas porque os Elfos têm vida duradoura e vigor inquebrantável. “Crianças crescidas” nós, os estrangeiros, às vezes vos chamamos, meu senhor. E contudo – e contudo, se para nós nada em Arda mantém seu sabor por muito tempo, e todas as coisas belas se tornam remotas, o que isso significa? Isso não vem da Sombra sobre nossos corações? Ou dizeis que não é assim, mas que essa era nossa verdadeira natureza, mesmo antes do ferimento?”

“Digo que é assim, de fato”, respondeu Finrod. “A Sombra pode ter escurecido vossa inquietação, trazendo cansaço mais célere e logo o transformando em desdém, mas a inquietação sempre esteve lá, creio. E se isso é assim, não podeis agora perceber a desarmonia de que falei? Se de fato vossa Sabedoria tivesse uma tradição como a nossa, ensinando que os Mirröanwi são feitos de uma união de corpo e mente, de hröa e fëa, ou como dizemos em imagem a Casa e o Habitante.

Pois o que é a “morte” que lamentais se não a separação desses dois? E o que é a “imortalidade” que perdestes se não o fato de que os dois deveriam permanecer unidos para sempre?

Mas o que então deveríamos pensar da união no Homem: de um Habitante, que é apenas um estrangeiro aqui em Arda e não está em seu lar aqui, com uma Casa que é feita da matéria de Arda e deve portanto [suporíamos] aqui permanecer?

Ao menos não esperar-se-ia para essa Casa uma vida maior que a de Arda, da qual ela é parte. Contudo, afirmais que a Casa também era imortal, não? Eu preferiria acreditar que tal fëa, por sua própria natureza, iria em algum momento de livre vontade abandonar a casa de sua habitação aqui, ainda que a habitação pudesse ter sido mais longa do que é agora permitido. Então a “morte” [como eu disse] soaria de maneira diversa para vós: como uma libertação, ou um retorno – não, como ir para casa! Mas nisso não acreditais, parece?”

“Não, não acredito nisso”, disse Andreth. “Pois isso seria desprezo pelo corpo, e é um pensamento da Escuridão não-natural em qualquer dos Encarnados, cuja vida incorrupta é uma união de amor mútuo. Mas o corpo não é uma estalagem que mantém um viajante aquecido por uma noite, antes que ele siga seu caminho, e depois recebe outro. É uma casa feita para um habitante apenas, e de fato não apenas casa mas também vestimenta; e não está claro para mim se deveríamos neste caso dizer que a vestimenta é adequada ao usuário e não que o usuário é adequado à vestimenta.

Sustento então que não se deve pensar que a separação destes dois poderia ser de acordo com a verdadeira natureza dos Homens. Pois se fosse “natural” para o corpo ser abandonado e morrer, mas “natural” para o fëa continuar a viver, então de fato haveria uma desarmonia no Homem, e suas partes não estariam unidas por amor. Seu corpo seria na melhor das hipóteses um impedimento, ou uma cadeia. De fato uma imposição, e não uma dádiva. Mas há alguém que impõe, e que concebe cadeias, e se tal fosse a nossa natureza no princípio, então deveríamos derivá-la dele – mas isto, dizeis, não se deve ser falado.

Ai de nós! Lá fora na escuridão os homens o dizem mesmo assim, mas não os Atani como os conheceis, não agora. Sustento que nisto somos como vós sois, verdadeiramente Encarnados, e que não vivemos em nosso ser correto e em sua plenitude salvo numa união de amor e paz entre a Casa e o Habitante. De onde a morte, que os divide, é um desastre para ambos”.

“Cada vez mais assombrais meu pensamento, Andreth”, disse Finrod. “Pois se vossa afirmação é verdadeira, então eis que um fëa que aqui é apenas um viajante está casado indissoluvelmente com um hröa de Arda; dividi-los é um ferimento doloroso, e contudo cada um precisa cumprir sua justa natureza sem tirania do outro. Então a conseqüência deve ser certamente esta: o fëa, quando parte, deve levar consigo o hröa. E o que pode isso significar a não ser que o fëa deverá ter o poder de reerguer o hröa, como seu eterno esposo e companheiro, numa existência [8] eterna além de Eä, e além do Tempo? Assim Arda, ou parte dela, seria curada não apenas da mácula de Melkor, mas libertada até dos limites impostos a ela na “Visão de Eru” da qual os Valar falam.

Portanto eu digo que se é possível crer nisso, então realmente poderosos sob Eru foram os Homens criados em seu princípio; e terrível além de todas as calamidades foi a mudança em seu estado.

É então com uma visão daquilo que fora designado a existir quando Arda estivesse completa – das coisas vivas e mesmo das próprias terras e mares de Arda feitos eternos e indestrutíveis, para sempre belos e novos – que os fëar dos Homens comparam o que vêem aqui? Ou existe em algum outro lugar um mundo do qual todas as coisas que vemos, todas as coisas que tanto Elfos quanto Homens conhecem, são apenas sinais ou lembranças?”

“Se existe, isso reside na mente de Eru, julgo eu”, disse Andreth. “Para tais perguntas como podemos achar as respostas, aqui nas névoas de Arda Desfigurada? De outra forma poderia ter sido, se não tivéssemos sido mudados; mas sendo como somos, mesmo os Sábios entre nós dedicaram pouco pensamento à própria Arda, ou a outras coisas que aqui habitam. Temos pensado principalmente sobre nós mesmos: sobre como nossos hröar e fëar deveriam ter habitado juntos para sempre em júbilo, e sobre a escuridão impenetrável que agora nos espera”.

“Então não apenas os nobres Eldar se esquecem de seus parentes!”, disse Finrod. “Mas isso é estranho para mim, e mesmo como vosso coração o fez quando falei de vossa inquietação, assim agora o meu salta como ao ouvir de boas novas.

Esta então, proponho, era a missão dos Homens, não os seguidores, mas os herdeiros e completadores de tudo: curar a Desfiguração de Arda, já pressagiada antes da concepção deles; e fazer mais, como agentes da magnificência de Eru: alargar a Música e ultrapassar a Visão do Mundo!

Pois essa Arda Curada não será Arda Não-desfigurada, mas uma terceira e maior coisa, e contudo a mesma. Eu conversei com os Valar que estavam presentes no criar da Música antes que o ser do mundo começasse. E agora me pergunto: eles ouviram o fim da Música? Não havia algo dentro dos acordes finais de Eru ou além deles que, estando arrebatados pela Música, eles não perceberam?

Ou novamente, uma vez que Eru é livre para sempre, talvez ele não tenha feito nenhuma Música nem mostrado nenhuma visão além de um certo ponto. Além desse ponto não podemos ver ou saber, até que por nossas próprias estradas cheguemos até lá, Valar ou Eldar ou Homens.

Como um mestre no contar de histórias pode manter oculto o mais grandioso momento até que ele venha no tempo devido. Tal momento pode ser de fato imaginado, em alguma medida, por aqueles que ouviram com coração e mente plenos; mas assim o contador o desejaria. De forma alguma a surpresa e o assombro de sua arte são assim diminuídos, pois dessa maneira nós como que partilhamos de sua autoria. Mas não seria assim, se tudo nos fosse contado num prefácio antes que entrássemos!”

“Qual então diríeis que é o momento supremo que Eru reservou?”, perguntou  Andreth.

“Ah, dama sábia!”, disse Finrod. “Sou um Elda, e novamente estava pensando em meu próprio povo. Mas não, em todos os Filhos de Eru. Eu estava pensando que através dos Sucessores nós poderíamos ter sido libertados da morte. Pois durante todo o tempo em que faláveis da morte como sendo uma divisão dos que estão unidos, pensei em meu coração numa morte que não é assim, mas o fim de ambos juntos. Pois é isso que jaz diante de nós, até onde nossa razão pode ver: o completar de Arda e seu fim, e portanto também o fim de nós, filhos de Arda; o fim quando todas as longas vidas dos Elfos estarão totalmente no passado.

E de repente contemplei como numa visão Arda Refeita; e lá os Eldar completos mas não terminados poderiam habitar no presente para sempre, e lá caminhar, talvez, com os Filhos dos Homens, seus libertadores, e cantar para eles canções tais que, mesmo na Alegria além da alegria, fariam os vales verdes ressoarem e os topos eternos das montanhas reverberarem como harpas”.

Andreth então olhou para Finrod por baixo de suas sobrancelhas: “E o que, quando não estivésseis cantando, diríeis a nós?”, perguntou.

Finrod riu. “Só posso tentar adivinhar”, disse. “Ora, dama sábia, acho que vos contaríamos histórias do Passado e da Arda que fora antes, dos perigos e grandes feitos e da criação das Silmarils! Nós éramos os altivos então! Mas vós, vós estaríeis então em casa, olhando para todas as coisas atentamente, como vossas próprias. Vós seríeis os altivos. “Os olhos dos Elfos estão sempre pensando em alguma outra coisa”, diríeis. Mas vós então saberíeis do que éramos lembrados: dos dias em que primeiro nos encontramos, e nossas mãos se tocaram no escuro. Além do Fim do Mundo nós não mudaremos; pois na memória está o nosso maior talento, como será visto cada vez mais claramente conforme as eras desta Arda passarem: um fardo pesado a ser, temo eu; mas nos Dias dos quais ora falamos uma grande riqueza”. E então ele parou, pois viu que Andreth estava chorando baixinho.

“Ai de nós, senhor!”, disse Andreth. “O que então se pode fazer agora? Pois falamos como se essas coisas o fossem, ou como se certamente fossem ser. Mas os Homens foram diminuídos e seu poder retirado. Não esperamos por nenhuma Arda Refeita: a escuridão jaz diante de nós, e dentro dela fitamos em vão. Se por nossa ajuda vossas mansões eternas devem ser preparadas, elas não serão construídas agora”.

“Não tendes então esperança alguma?”, disse Finrod.

“O que é esperança?”, ela disse. “Uma expectativa do bem, que embora incerta tem algum fundamento no que é conhecido? Então não temos nenhuma”.

“Essa é a coisa que os Homens chamam de “esperança””, disse Finrod. “Amdir nós a chamamos, “olhar para o alto”. Mas existe outra, que é fundada mais solidamente. Estel nós a chamamos, que é “confiança”. Ela não é derrotada pelos caminhos do mundo, pois não vem da experiência, mas de nossa natureza e primeiro ser. Se somos de fato os Eruhin, os Filhos do Único, então Ele não permitir-Se-á ser privado do que é Seu, nem por Inimigo algum, nem mesmo por nós próprios. Este é o último fundamento de Estel, que mantemos mesmo quando contemplamos o Fim: de todos os Seus desígnios o objetivo deve ser para a alegria de Seus Filhos. Amdir não tendes, dizeis. Será que Estel não sobrevive enfim?”

“Talvez”, ela disse. “Mas não! Não percebeis que é parte de nosso ferimento que Estel falhe e suas fundações sejam sacudidas? Somos os Filhos do Único? Não estamos finalmente derrotados? Ou o fomos alguma vez? Não é o Inominável o Senhor do Mundo?”

“Não o digais mesmo em pergunta!”, disse Finrod.

“Isso não pode ser desdito”, disse Andreth, “se desejais entender o desespero no qual caminhamos. Ou no qual a maioria dos Homens caminha. Entre os Atani, como nos chamais, ou os Viajantes [9], como dizemos – os que deixaram as terras do desespero e dos Homens da escuridão e rumaram para o oeste em esperança vã – acredita-se que a cura ainda possa ser encontrada, ou que haja algum caminho de fuga. Mas será isso de fato Estel? Não será, ao contrário, Amdir, mas sem razão; mera fuga num sonho daquilo que despertos eles sabem: que não há escapatória da escuridão e da morte?”

“Mera fuga num sonho, dizeis”, respondeu Finrod. “Nos sonhos muitos desejos são revelados; e o desejo pode ser o último bruxulear de Estel. Mas não quereis dizer sonho, Andreth. Confundis sonho e despertar com esperança e crença, de maneira a fazer um mais duvidoso e o outro mais certo. Será que estão adormecidos os que falam de fuga e cura?”

“Adormecidos ou despertos, eles nada falam claramente”, respondeu Andreth. “Como ou quando a cura virá? Em que forma de ser serão refeitos os que virem esse tempo? E quanto a nós, que antes disso partiremos para a escuridão sem ser curados? Para tais questões apenas os da “Antiga Esperança” [como eles chamam a si próprios] têm alguma idéia de resposta”.

“Os da Antiga Esperança?”, disse Finrod. “Quem são eles?”

“Uns poucos”, disse ela, “mas seu número tem crescido desde que viemos para esta terra, e eles vêem que o Inominável pode [como pensam] ser desafiado. Contudo, essa não é uma boa razão. Desafiá-lo não desfaz sua obra de outrora. E se o valor dos Eldar falhar aqui, então o desespero deles será mais profundo. Pois não era no poder dos Homens, nem no de nenhum dos povos de Arda, que a antiga esperança estava fundada”.

“O que então era essa esperança, se o sabeis?”, Finrod perguntou.

“Eles dizem”, respondeu Andreth, “eles dizem que o próprio Único entrará em Arda, e curará os Homens e toda a Desfiguração do princípio até o fim. Isso, eles dizem também, ou fingem, é um rumor que veio através de anos incontáveis, mesmo dos dias de nosso ferimento”.

“Dizem, fingem?”, disse Finrod. “Não sois então um deles?”

“Como posso sê-lo, senhor? Toda sabedoria está contra eles. Quem é o Único, a quem chamais Eru? Se colocarmos de lado os Homens que servem o Inominável, como muitos o fazem na Terra-média, ainda assim muitos Homens percebem o mundo apenas como uma guerra entre a Luz e a Escuridão equipotentes. Mas direis: não, isso é Melkor e Manwë; Eru está acima deles. É então Eru somente o maior dos Valar, um grande deus entre deuses, como a maioria dos Homens dirá, mesmo entre os Atani: um rei que vive longe de seu reino e deixa que príncipes menores façam lá o que lhes aprouver? Novamente dizeis: não, Eru é Único, sozinho e sem-par, e ele fez Eä, e está além dela; e os Valar são maiores que nós, e contudo não mais próximos de Sua majestade. Não é assim?”

“Sim”, disse Finrod, “dizemos isso, e os Valar nós conhecemos, e eles dizem o mesmo, todos exceto um. Mas qual destes, pensais, é mais passível de mentir: aqueles que se humilham, ou aquele que se exalta?”

“Não tenho dúvidas”, disse Andreth. “E por essa razão o dizer da Esperança ultrapassa meu entendimento. Como Eru poderia entrar na coisa que Ele fez, e da qual Ele é imesuravelmente maior? O cantor é capaz de entrar em sua história ou o desenhista em sua figura?”

“Ele já está dentro dela, assim como está fora”, disse Finrod. “Mas em verdade o “habitar-dentro” e o “viver-fora” não estão no mesmo modo”.

“Realmente”, disse Andreth. “Assim Eru pode, nesse modo, estar presente em Eä, que procedeu dele. Mas eles falam do próprio Eru entrando em Arda, e essa é uma coisa completamente diferente. Como Ele, o maior, poderia fazê-lo? Isso não estraçalharia Arda, ou de fato toda Eä?”

“Não me pergunteis”, disse Finrod. “Essas coisas estão além do alcance da sabedoria dos Eldar, ou talvez da dos Valar. Mas desconfio que nossas palavras podem nos confundir, e que quando dizeis “maior” pensais nas dimensões de Arda, na qual o recipiente maior não pode ser contido no menor.

Mas tais palavras não podem ser usadas a respeito do Imensurável. Se Eru desejasse fazer isso, não duvido que Ele encontraria uma maneira, embora eu não possa prevê-la. Pois, como me parece, ainda que Ele próprio tenha que entrar, Ele deve também permanecer como é: o Autor fora. E contudo, Andreth, para falar com humildade, não consigo conceber de que outra maneira essa cura pudesse ser realizada. Uma vez que Eru certamente não permitirá que Melkor dirija o mundo para sua própria vontade e triunfe no fim. Contudo, não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru. Portanto Eru, se não desejar entregar sua obra a Melkor, que do contrário chegaria à vitória, deve entrar para derrotá-lo.

E mais: mesmo se Melkor [ou o Morgoth no qual se tornou] pudesse de alguma forma ser sobrepujado ou lançado fora de Arda, sua Sombra ainda permaneceria, e o mal que ele perpetrou e plantou como uma semente cresceria e multiplicar-se-ia. E se algum remédio para isso deve ser encontrado, antes que tudo esteja terminado, alguma luz nova para se opor à sombra, ou algum lenitivo para os ferimentos, então ele deve, julgo eu, vir de fora”.

“Então, senhor”, disse Andreth, e ela ergueu seu olhar em assombro, “credes  nessa Esperança?”

“Não me pergunteis ainda”, ele respondeu. “Pois ela ainda é para mim como uma estranha nova que vem de longe. Nenhuma esperança como essa foi jamais dita aos Quendi. Para vós apenas ela foi mandada. E contudo através de vós nos podemos ouvi-la e levantar nossos corações”. Ele parou por um momento e então, olhando gravemente para Andreth, disse: “Sim, mulher-sábia, talvez tenha sido ordenado que nós, os Quendi, e vós, os Atani, antes que o mundo envelheça, nós encontrássemos e trouxéssemos novas uns para os outros, e assim soubéssemos da Esperança através de vós: ordenado, de fato, que tu [10] e eu, Andreth, sentássemos aqui e conversássemos, através do golfo que divide nossas gentes, para que enquanto a Sombra ainda paira no Norte nós não estivéssemos de todo amedrontados”.

“Através do golfo que divide nossas gentes!”, disse Andreth. “Não há ponte alguma além de palavras?”. E então ela chorou outra vez.

“Talvez haja. Para alguns. Eu não sei”, ele disse. “O golfo, talvez, está mais entre nossos destinos, pois de resto somos parentes próximos, mais próximos do que quaisquer outras criaturas no mundo. Contudo, perigoso é cruzar um golfo imposto pelo destino; e os que se arriscassem a fazê-lo não encontrariam alegria do outro lado, mas a tristeza para ambos. Assim julgo eu.

Mas por que dizes “meras palavras”? Palavras não ultrapassam o golfo entre uma vida e outra? Entre ti e mim certamente passou mais do que som vazio? Não nos aproximamos de forma alguma? Mas isso é, creio, pouco conforto para ti”.

“Não pedi conforto”, disse Andreth. “Por que preciso dele?”

“Pelo destino dos Homens que te tocou como mulher”, disse Finrod. “Pensas que não sei? Não é ele meu irmão muito amado? Aegnor: Aikanár, a Chama Afiada, célere e sôfrego. E não faz muitos anos desde que vos encontrastes pela primeira vez, e vossas mãos se tocaram neste escuro. Contudo, eras então apenas uma donzela, valente e sôfrega, na manhã sobre os altos montes de Dorthonion”.

“Continuai!”, disse Andreth. “Continuai: e és agora apenas uma mulher-sábia, sozinha, e a idade que não o tocará já pôs o cinza do inverno em teu cabelo! Mas não digais tu para mim, pois assim ele uma vez o fez!”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “É esta a amargura, amada adaneth, mulher dos Homens, não é? que perpassou todas as tuas palavras. Se eu tentasse dar-te algum conforto, julgá-lo-ias arrogante vindo de alguém do meu lado do destino que nos separa. Mas o que posso dizer, salvo lembrar-te da Esperança que tu mesma revelaste?”

“Eu não disse que alguma vez ela fora a minha esperança”, respondeu Andreth. “E mesmo que assim fosse, ainda assim eu gritaria: por que esse ferimento deveria vir aqui e agora? Por que deveríamos amar-vos, e por que vós deveríeis amar-nos [se é que nos amais] e ainda assim colocar o golfo entre nós?”

“Porque assim fomos feitos, parentes próximos”, disse Finrod.
“Mas não fizemos a nós mesmos, Andreth, e portanto nós, os Eldar, não colocamos esse golfo. Não, adaneth, não somos altivos nisto, mas cheios de compaixão. Tal palavra pode desagradar-te. Contudo, a compaixão é de dois tipos: uma vem do parentesco reconhecido, e é próxima do amor; a outra vem da diferença de sorte percebida, e é próxima do orgulho. Falo da primeira”.

“Não faleis de nenhuma para mim!”, disse Andreth. “Não desejo nenhuma. Eu era jovem e olhei para a chama dele, e agora estou velha e perdida. Ele era jovem, e sua chama saltou na minha direção, mas ele se afastou, e é jovem ainda. Velas se compadecem de mariposas?”

“Ou mariposas de velas, quando o vento as apaga?”, disse Finrod. “Adaneth, eu te digo, Aikanár, a Chama Afiada, te amava. Por tua causa ele jamais tomará a mão de qualquer noiva de sua própria gente, mas viverá sozinho até o fim, lembrando-se da manhã nos montes de Dorthonion. Mas cedo demais no Vento Norte a chama dele apagar-se-á! Previsão é dada aos Eldar em muitas coisas que não estão distantes, embora raramente de alegria, e digo a ti que viverás muito na medida de tua gente, e ele sairá diante de ti e não desejará retornar”.

Então Andreth se levantou e esticou suas mãos na direção do fogo. “Por que então ele se afastou? Por que deixar-me se eu ainda tinha alguns bons anos para gastar?”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “Temo que a verdade não te irá satisfazer. Os Eldar são de uma maneira, e vós de outra; e cada um julga os outros por si mesmo – até que aprenda, o que poucos fazem. Este é um tempo de guerra, Andreth, e em tais dias os Elfos não se casam nem concebem criança, mas preparam-se para a morte – ou para a fuga. Aegnor não tem confiança alguma [nem eu tenho] que este cerco de Angband dure muito; e então o que será desta terra? Se seu coração o governasse, ele teria desejado tomar-te consigo e fugir para longe, para o leste ou o sul, abandonando sua gente, e a tua. Amor e lealdade o prendem à gente dele. E quanto a ti à tua? Tu mesma disseste que não há escapatória por fuga dentro dos limites do mundo”.

“Por um ano, um dia da chama, eu teria dado tudo: parentesco, juventude e a própria esperança; adaneth eu sou”, disse Andreth.

“Isso ele sabia”, disse Finrod; “e ele se retirou e não tomou aquilo que estava diante de sua mão: elda ele é. Pois tais barganhas são pagas em angústia que não pode ser imaginada até que venha, e em ignorância, e não em coragem, os Elfos crêem que elas são feitas”.

Não, adaneth, se algum casamento pode acontecer entre nossa gente e a tua, então será por algum alto propósito do Destino. Breve será e duro no fim. Sim, o fado menos cruel que poderia suceder-lhe seria que a morte logo o encerrasse”.

“Mas o fim é sempre cruel – para os Homens”, disse Andreth. “Eu não o teria importunado, quando minha curta juventude estivesse esgotada. Eu não teria me arrastado como um fardo atrás de seus pés brilhantes, quando eu não mais pudesse correr ao lado dele!”

“Talvez não”, disse Finrod. “Assim o sentes agora. Mas pensas nele? Ele não teria corrido diante de ti. Ele teria ficado a teu lado para te levantar. Então compaixão terias a toda hora, compaixão inescapável. Ele não consentiria em ver-te humilhada.

Andreth adaneth, a vida e o amor dos Eldar repousa muito na memória; e nós [se não vós] preferimos antes ter uma memória que é bela mas inacabada do que uma que continua até um fim triste. Agora ele sempre lembrar-se-á de ti no sol da manhã, e daquela última noite perto da água do Aeluin, na qual ele viu teu rosto espelhado com uma estrela presa entre teus cabelos – sempre, até que o Vento Norte traga a noite de sua chama. Sim, e depois disso, sentar-se na Casa de Mandos nos Salões da Espera até o fim de Arda”.

“E do que me lembrarei?”, disse ela. “E quando eu partir, para que salões irei? Para uma escuridão na qual mesmo a memória da chama afiada será apagada? Mesmo a memória da rejeição. Pelo menos essa”.

Finrod suspirou e se levantou. “Os Eldar não têm palavras de cura para tais pensamentos, adaneth”, disse. “Mas desejarias que Elfos e Homens jamais tivessem se encontrado? A luz da chama, que de outra forma nunca terias visto, não tem valor mesmo agora? Tu te acreditas desprezada? Afasta de ti ao menos esse pensamento, que vem da Escuridão, e então nossa conversa juntos não terá sido totalmente em vão. Adeus!”

A escuridão caiu sobre o aposento. Ele tomou a mão dela na luz do fogo. “Para onde ides?”, ela disse.

“Para o Norte”, ele disse: “para as espadas, e o cerco, e os muros de defesa – para que por ainda algum tempo em Beleriand os rios possam correr limpos, as folhas possam brotar e os pássaros possam construir seus ninhos, antes que a Noite venha.

“Ele estará lá, brilhante e alto, e o vento em seu cabelo? Dizei-lhe. Dizei-lhe para não ser descuidado. Para não buscar o perigo sem necessidade!”

“Direi isso a ele”, disse Finrod. “Mas poderia também dizer-te para não chorar. Ele é um guerreiro, Andreth, e um espírito de ira. Em cada golpe que dá ele vê o Inimigo que há muito te fez este ferimento.

Mas vós não sois de Arda. Para onde fordes, que possais encontrar luz. Espera por nós lá, a meu irmão – e a mim”.

Notas

[1] O sindarin athrabeth [athra = através, peth = palavra] corresponde exatamente ao grego diálogos; por isso optei pelo título “O Diálogo de Finrod e Andreth”. [N. do T.]

[2] Isto seria por volta do ano 409 da Longa Paz [260-455]. Nesse época Belemir e Adanel eram idosos na medida dos Homens, tendo cerca de 70 anos de idade; mas Andreth estava na plenitude do vigor, ainda não tendo 50 [48]. Ela era solteira, como não era incomum entre as sábias humanas. [N. do A.]

[3] No texto do Athrabeth, Tolkien faz a distinção [arcaica no inglês] entre o pronome de tratamento formal singular you e o pronome de tratamento familiar singular thou. Como essa distinção é relevante para o texto, optei por reproduzi-la utilizando respectivamente vós e tu em português, ainda que a princípio isso possa causar certa confusão com o pronome inglês ye [vós, plural]. [N. do T.]

[4] Ele tinha 93 anos. [N. do A.]

[5] No ano 310, cerca de 90 anos antes destes fatos. [N. do A.]

[6] Erro de cronologia. Fingolfin só viria a morrer durante a Dagor Bragollach, quase cinqüenta anos depois desta conversa. [N. do T.]

[7] É interessante o uso que Finrod faz do termo “o Morgoth”, colocando o artigo definido. Aparentemente isso é feito para salientar que Morgoth, “Inimigo Escuro”, é só o epíteto de Melkor, e não seu nome verdadeiro. [N. do T.]

[8] O texto original tem endurance, “resistência”. Não me foi possível encontrar uma solução satisfatória que mantivesse o equivalente do original. [N. do T.]

[9] Seekers, no original. Mais uma vez a tradução literal não funcionaria. [N. do T.]

[10] Aqui Finrod muda para o pronome familiar ou afetivo tu [no original, thou]. O uso do tu e vós no texto em inglês é um tanto inconsistente, mas decidi mantê-lo até o final da narrativa. [N. do T.]

The History of Middle-earth V – The Lost Road and Other Writings

O leitor que deseja conhecer a fundo as origens da lenda de Númenor e de todas as histórias da Segunda Era da Terra-média terá uma fonte das mais importantes em The Lost Road and other writings (A Estrada Perdida e outros escritos), o quinto livro da série The History of Middle-earth.
 

A Estrada Perdida, texto que dá nome ao livro, é uma das obras mais originais de Tolkien, embora infelizmente incompleta. A idéia do livro surgiu das discussões literárias entre Tolkien e seu grande amigo C.S. Lewis, também professor em Oxford. Os dois combinaram que Lewis iria escrever uma história de viagem espacial, enquanto Tolkien escreveria um história de viagem no tempo.

No fim das contas, apenas Lewis conseguiu terminar e publicar seu livro, com o título Out of the Silent Planet, em 1937. É uma pena que Tolkien não tenha conseguido fazer o mesmo com A Estrada Perdida: a história, cheia de fortes elementos autobiográficos, tem como personagem principal Alboin Errol, um professor universitário com uma paixão pelas línguas do norte da Europa e que, em estranhos sonhos, ouvia fragmentos de idiomas desconhecidos: o eressëano (quenya) e o beleriândico (sindarin). Alboin e seu filho Audoin acabam transportados para Númenor, na pele de Elendil e seu filho Herendil (Isildur e Anárion ainda não haviam surgido), e têm que enfrentar a ameaça de Sauron.

The Lost Road traz também as mais antigas versões das histórias da Segunda Era, como o relato do surgimento e queda de Númenor e da fundação dos reinos numenoreanos na Terra-média. Para citar apenas uma das diferenças nessas versões antigas, Gil-galad era a princípio descendente de Fëanor!

Para os interessados na evolução das línguas élficas, The Lost Road encerra dois tesouros. Em primeiro lugar, as Etimologias, uma lista com centenas de raízes élficas primitivas, seus significados e as palavras derivadas delas existentes em quenya, noldorin (o ancestral do sindarin) e outros línguas élficas. Em segundo lugar, o Lhammas ou "Relato das Línguas", em que as características e parentesco das línguas élficas, como eram imaginadas nesse momento (por volta de 1937), eram concebidas.

Finalmente, The Lost Road também apresenta o Quenta Silmarillion de 1937, novas versões dos Anais de Valinor, Anais de Beleriand e do Ainulindalë, bem como o mapa de Beleriand que serviu de base para os mapas publicados em O Silmarillion.

Conteúdo do Livro

The Fall of Númenor O início do conto de Númenor em várias versões. 1936 – 1937

The Lost Road Um novela viagem no tempo com capítulos sobre Númenor, Scyld e AElfwine. Fragmentado e nunca concluído. Poemas incluem "Ilu Ilúvatar", "King Sheave", "The Nameless Land" e "The Song of Aelfwine". 1936 – 1937

The Later Annals of Valinor Anais de Valinor e outro local desde o início das coisas até o nascimento do Sol. Não muda muito de "The Earliest Annals of Valinor". Meados/final de 1930

The Later Annals of Beleriand Anais dos eventos em Beleriand até a Grande Batalha e a destruição de Beleriand. Muito mais completo e terminado que "The Earliest Annals of Beleriand". Meados/final de 1930

Ainulindalë O mito cosmológico. Segue o "The Lost Tales", mas foi completamente reescrito. Meados/final de 1930

The Lhammas Um texto sobre as línguas Élficas (e algumas outras) e seus inter-ralacionamentos.

Quenta Silmarillion Termina com Turin virando um fora-da-lei, mas inclui o final da chegada de Eärendel em Valinor e a Grande Batalha. Depois deste foi escrito o "History of the Elder Days" que permaneceu esquecido por muito tempo. Final de 1930, revisado em 1937-1938.

The Etymologies Um dicionário etimológico do Élfico. Meados de 1930, grandes revisões em 1938

The Genealogies Árvores genealógicas dos príncipes Élficos e das três casas dos Pais dos Homens e uma tabela de divisões do Quendi. Início de 1930.

The List of Names Origens e definições dos nomes encontrados no "Annals of Beleriand" e "Genealogies". 1930

The Second Silmarillion Map Mapa final de Beleriand, no qual o mapa publicado foi baseado. Impresso como originalmente foi desenhado e escrito.