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The History of Middle-earth X – Morgoth’s Ring

Para quem já mergulhou fundo nos temas da mitologia tolkieniana mas sente falta de ouvir a voz do autor sobre os grandes personagens e acontecimentos de seu universo ficcional, “Morgoths Ring” (O Anel de Morgoth) é o livro indicado. O décimo livro da série é talvez o mais rico em saborosos ensaios, nos quais o autor amarra a história de Arda numa só visão criativa e analítica.
“Morgoths Ring” documenta uma (rara) fase de criatividade sem travas de Tolkien, logo depois que “O Senhor dos Anéis” foi finalmente completado e o velho Professor se sentiu livre para voltar às lendas dos Dias Antigos da Terra-média, abandonadas desde 1937 (doze anos antes, portanto).

Os textos começam seguindo uma ordem mais ou menos linear, a partir do Ainulindalë, o mito da criação de Arda, e seguindo pela história dos povos élficos até a fatídica rebelião de Fëanor. É nesse momento que “O Silmarillion” que nós conhecemos chega à sua forma quase definitiva (embora volta e meia Christopher Tolkien mostre onde ele precisou mexer para que o texto mantivesse sua coerência interna).

Dá para ver, por exemplo, que o texto final precisou misturar os Anais de Aman (um relato cronológico da história de Valinor) com o Quenta Silmarillion propriamente dito. É possível depreender o tempo que se passou entre o despertar dos Elfos e a chegada dos Noldor à Terra-média (uma bagatela de uns 4.200 anos), além de conferir algumas guloseimas que ficaram de fora do livro, como o Juramento de Fëanor em verso (acreditem, é um show) ou a bela descrição dos povos élficos:

“Os Vanyar são os Elfos Abençoados, e os Elfos da Lança, os Elfos do Ar, os amigos dos Deuses, os Elfos Sagrados e Imortais, e os Filhos de Ingwë; eles são o Belo Povo e o Alvo.

Os Noldor são os Sábios, e os Dourados, os Valentes, os Elfos da Espada, os Elfos da Terra, os Inimigos de Melkor, os de Mão Hábil, os Artífices de Jóias, os Companheiros dos Homens, os Seguidores de Finwë.”

Mas a coisa esquenta mesmo nas partes não-narrativas. Tolkien mergulha nos motivos das tragédias que determinaram a história de Arda e na cultura élfica. Exemplos disso são “Leis e Costumes entre os Eldar” (que pode ser lido aqui na Valinor), relatando a vida élfica do nascimento ao casamento; e “A História de Finwë e Míriel”.

Como cereja do bolo, temos o Athrabeth Finrod ah Andreth (o Diálogo de Finwë e Míriel, também disponível aqui na Valinor). Numa bela e apaixonada discussão filosófica, o rei élfico Finrod e a sábia humana Andreth, o destino final de Elfos e Homens em Arda é esmiuçado, revelando uma surpreendente ligação com a fé de Tolkien.

E não é só isso, como diriam as Organizações Tabajara: na seção Myths Transformed (Mitos Transformados), Tolkien revê os pressupostos básicos de sua mitologia (como a origem dos orcs e a Terra plana antes da Queda de Númenor) e chega a dizer que – pasmem – eles podem estar errados. Ainda bem que ele resistiu a mais essa revisão de seus textos…

 

Índice do Livro

 

Parte Um

Ainulindale

 

Parte Dois

Os Anais de Aman
Sexta Sessão
Parte Três
O Silmarillion tardio
A Primeira Fase
1 Dos Valar
2 De Valinor e das Duas Árvores
3 Do Despertar dos Elfos
4 De Thingol e Melian
5 De Eldanor e os Príncipes dos Eldalië
6 Das Silmarils e o Escurecer de Valinor
7 Da Fuga dos Noldor
8 Do Sol e Lua e o Ocultar de Valinor
Segunda Fase
O Valaquenta
A Mais Antiga Versão da História de Finwë e Míriel
De Fëanor e o Desacorrentar de Melkor
Das Silmarils e o Revolta dos Noldor
Do Escurecimento de Valinor
Do Abuso das Silmarils
Da Disputa de Ladrões
Parte Quatro
Parte Cinco

 

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O Conto de Adanel

[O “Conto de Adanel” era é uma versão da história da “Queda dos Homens” como contada na Terra-média entre os Edain da Primeira Era. Está contido no volume 10 da série The History of Middle-earth X, Morgoth’s Ring]

Então Andreth, encorajada por Finrod, disse por fim: “- Este é o conto que Adanel, da Casa de Hador, contou-me”.

Alguns dizem que o Desastre aconteceu no início da história de nosso povo, antes que qualquer um houvesse morrido. A Voz falara a nós, e nós ouvíramos. A Voz disse: “- Vós sois meus filhos. Enviei-vos para aqui habitardes. No devido tempo herdareis toda esta Terra, mas primeiro deveis ser crianças e aprender. Pedi a mim e ouvirei, pois velo por vós”.

Compreendemos a Voz em nossos corações, embora ainda não possuíssemos palavras. Então o desejo pelas palavras despertou em nós, e começamos a criá-las. Mas éramos poucos, e o mundo era vasto e estranho. Embora muito desejássemos compreender, aprender era difícil, e a criação das palavras era lenta.

Naquele tempo com freqüência chamávamos e a Voz respondia. Mas ela raramente respondia nossas perguntas, dizendo apenas: “- Primeiro procurai encontrar a resposta por vós mesmos. Pois tereis alegria na descoberta, e assim saireis da infância e tornar-vos-eis sábios. Não procureis deixar a infância antes de vosso tempo”.

Mas tínhamos pressa, e desejávamos ordenar as coisas à nossa vontade; e as formas de muitas coisas que desejávamos criar despertaram em nossas mentes. Portanto, falávamos cada vez menos à Voz.

Então alguém apareceu entre nós em nossa própria forma visível, mas maior e mais belo, e ele disse que viera por piedade. “Vós não deveríeis ser deixados sozinhos e sem instrução” disse ele. “O mundo está repleto de riquezas maravilhosas que o conhecimento pode revelar. Vós poderíeis ter alimentos mais abundantes e mais deliciosos do que comeis agora. Vós poderíeis ter tranqüilas habitações, nas quais poderíeis manter a luz e afastar a noite. Poderíeis inclusive vestir-vos igual a mim.”

Então olhamos e vede, ele usava vestes que brilhavam como prata e ouro, e tinha uma coroa em sua cabeça e jóias em seu cabelo. “Se desejais ser como eu” disse ele “, ensinar-vos-ei”. Então aceitamo-lo como mestre.

Ele era menos rápido do que esperávamos a ensinar-nos como encontrar, ou criar por nós mesmos, as coisas que desejávamos, embora ele houvesse despertado muitos desejos em nossos corações. Mas se qualquer um duvidasse ou ficasse impaciente, ele trazia e colocava diante de nós tudo o que havíamos desejado. “Sou o Provedor de Presentes” disse ele “, e os presentes nunca faltarão enquanto vós confiardes em mim”.

Por conseguinte, reverenciamo-lo, e por ele fomos cativados, e dependíamos de seus presentes, temendo retornar a uma vida sem eles que agora parecia-nos pobre e dura. E acreditamos em tudo que ele ensinou. Pois estávamos ávidos para saber sobre o mundo e sua existência: sobre as feras e pássaros, e as plantas que cresciam na Terra; sobre nossa própria criação; e sobre as luzes do céu, sobre as estrelas incontáveis, e a Escuridão na qual elas estão.

Tudo o que ele ensinava parecia bom, pois ele possuía um grande conhecimento. Mas cada vez mais ele falava da Escuridão. “Maior de todas é a Escuridão” disse ele “, pois Ela não tem limites. Vim da Escuridão, mas sou Seu mestre. Pois eu criei a Luz. Criei o Sol e a Lua e as incontáveis estrelas. Proteger-vos-ei da Escuridão, que de outro modo devorar-vos-ia”.

Então falamos-lhe da Voz. Mas sua face tornou-se terrível, pois ele enfurecera-se. “Tolos!” disse ele. “Aquela era a Voz da Escuridão. Ela deseja afastar-vos de mim, pois Ela está faminta por vós”.

Ele então foi embora, e não o vimos por um longo tempo, e sem seus presentes éramos pobres. E então chegou um dia no qual a luz do Sol repentinamente começou a falhar, até que foi apagada, e uma grande sombra caiu sobre o mundo, e todas as feras e pássaros temeram. Então ele veio novamente, caminhando através da sombra como um fogo brilhante.

Prostramo-nos. “Há alguns entre vós que ainda estão dando ouvidos à Voz da Escuridão” disse ele “e, portanto, Ela aproxima-se. Escolhei agora! Podeis ter a Escuridão como Senhor, ou podeis ter a Mim. Mas a menos que tomeis a Mim por Senhor e jureis servir-Me, partirei e deixar-vos-ei, pois possuo outros reinos e moradias, e não preciso da Terra, nem vós”.

Então em medo falamos conforme ele ordenara, dizendo: “- Vós sois o Senhor. Apenas a Ti serviremos. À Voz renunciamos e não mais escuta-la-emos”.

“- Que assim seja!” disse ele. “Agora construí a Mim uma casa sobre um local elevado e chamai-na Casa do Senhor. Para lá irei quando desejar. Lá visitar-Me-eis e fazer-Me-eis vossas súplicas”.

E quando tínhamos construído uma grande casa, ele veio e colocou-se diante do alto assento, e a casa foi iluminada como que por fogo. “Agora” disse ele “apareça qualquer um que ainda dê ouvidos à Voz!”

Havia alguns, mas por medo eles permaneceram imóveis e nada disseram. “Então curvai-vos diante de Mim e reconhecei-Me!” disse ele. E todos curvavam-se ao solo diante dele, dizendo: “- Vós sois o Único Grande, e somos Vossos”.

Com isso, ele ergueu-se como em uma grande chama e fumaça, e fomos queimados pelo calor. Mas repentinamente ele partira, e estava mais escuro que a noite, e fugimos da Casa.

Posteriormente sempre íamos com um grande pavor da Escuridão, mas ele raramente aparecia novamente entre nós em uma forma bela, e trazia poucos presentes. Se em grande necessidade ousávamos ir à Casa e orar-lhe para que ajudasse-nos, escutávamos sua voz, e recebíamos suas ordens. Mas agora ele sempre ordenava-nos a executar alguma tarefa ou dar-lhe algum presente antes de ouvir a nossa prece; e as tarefas tornavam-se sempre piores, e mais difícil abrir mão dos presentes.

A primeira Voz nunca mais ouvimos, exceto uma vez. No silêncio da noite Ela falou, dizendo: “- Renunciastes a Mim, mas vós permaneceis Meus. Dei-vos a vida. Agora ela encurtar-se-á, e cada um de vós em pouco tempo virá a Mim, para aprender quem é vosso Senhor: aquele que idolatrais ou Eu que criei-o”.

Então nosso terror pela Escuridão aumento, pois acreditávamos que a Voz era da Escuridão por trés das estrelas. E alguns de nós começaram a morrer em horror e angústia, temendo sair para a Escuridão. Chamamos então por nosso Mestre para que salvasse-nos da morte, mas ele não respondeu. Mas quando fomos à Casa e todos lá curvaram-se, ele por fim veio, grande e majestoso, mas seu rosto era cruel e orgulhoso.

“- Agora sois Meus e deveis fazer Minha vontade” disse ele. “Não preocupo-me que alguns de vós morrais e vades para aplacar a fome da Escuridão, pois de outro modo logo haveria muitos de vós, rastejando como parasitas sobre a Terra. Mas se não fizerdes Minha vontade, sentireis Minha ira, e morrereis mais cedo, pois matar-vos-ei”.

Com isso fomos dolorosamente afligidos, pelo cansaço, fome e enfermidades; e a Terra e todas as coisas nela viraram-se contra nós. Fogo e água rebelaram-se contra nós. Os pássaros e feras evitavam-nos ou, se eram fortes, atacavam-nos. Plantas deram-nos veneno, e temíamos as sombras sob as árvores.

Então ansiamos pela nossa vida como fora antes que nosso Mestre chegasse; e nós o odiamos, mas o temíamos não menos que a Escuridão. E cumprimos sua ordem, e mais do que sua ordem; pois tudo que pensávamos que agradar-lhe-ia, embora maligno, fazíamo-lo, na esperança de que ele aliviaria nossas aflições e que ao menos não mataria-nos.

Para a maioria de nós isso foi em vão. Mas a alguns ele começara a favorecer: os mais fortes e mais cruéis, e aqueles que iam com maior freqüência à Casa. Deu-lhes presentes e conhecimentos que mantiveram em segredo; e eles tornaram-se poderosos e orgulhosos, e escravizaram-nos, de modo que não tínhamos descanso do nosso trabalho no meio de nossas aflições.

Então ergueram-se alguns dentre nós que diziam abertamente em seu desespero: “- Agora finalmente sabemos quem mentiu e quem desejava devorar-nos. não a primeira Voz. É o Mestre que tomamos a Escuridão; e ele não veio dela, como disse, mas nela habita. não mais servi-lo-emos! Ele é nosso Inimigo”.

Então com medo, para que ele não ouvisse-os e punisse a todos nós, matávamo-los se pudéssemos; e aqueles que fugiam nós caçávamos; e, se quaisquer eram pegos, nossos mestres, amigos dele, ordenavam que eles fossem levados à Casa e lá mandados para a morte pelo fogo. Isso agradava-lhe enormemente, seus amigos diziam; e, de fato, por um tempo parecia que nossas aflições foram aliviadas.

Mas conta-se que houve alguns que escaparam-nos, e partiram para países longínquos, fugindo da sombra. Ainda assim eles não escaparam da ira da Voz, pois eles haviam construído a Casa e curvaram-se nela. E por fim chegaram ao final da terra e às praias da água intransponível; e vede, o Inimigo estava lá diante deles.

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Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto "Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em "O
Silmarillion" publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para "A Queda de Doriath" e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo "O Silmarillion", que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem mais
cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
 
 
 
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo
que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no "Conto de Turambar" (HoME II.113-15) e
no "Conto do Nauglafring" (HoME II.221 e próximas), passando pelo
"Rascunho da Mitologia" (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o
"Quenta" (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que
pode ser visualizado no "O Conto dos Anos" e em algumas poucas
referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história
contada em "O Silmarillion" publicado percebe-se logo de início que
este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que em
certas características essenciais não existe referência alguma mesmo
nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se
ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria
alguma outra solução que não aquela no "Quenta" para a questão "Como o
tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?". Lá, a maldição que Mîm
pôs sobre o ouro à sua morte "caiu sobre os seus possuidores. Cada um
dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas
Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o
tesouro para as Mil Cavernas". Como é dito no HoME IV.188, "isto
arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o
ouro com o qual então ele foi humilhado". Parece para mim mais provável
(mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os
fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os
portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da
Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do "The Wanderings of
Hurin" Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil
e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamente de Thingol com relação aos Anões é
impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no
Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de
Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei
(ver HoME II.245-6). No "Rascunho da Mitologia" nada mais é dito sobre
o assunto além de que os Anões foram "expulsos sem pagamento", enquanto
no "Quenta" "Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida
recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles,
e houve uma batalha nos Salões de Thingol". Parece não haver dicas ou
pistas nos escritos posteriores (no "Conto dos Anos" a mesma frase é
utilizada em todas as versões "Thingol discutiu com os Anões"), exceto
uma encontrada nas palavras transcritas do "Sobre Galadriel e
Celeborn": Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a
parte de Morgoth "e os próprios erros de Thingol".

No "Conto dos Anos" meu pai parece não ter considerado o problema da
passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do
Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras "não pode" na versão D
ele mostrou que ele considerava a história que delineou como
impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma
possível solução: "De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi
atráido para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto
pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturação removido Doriath é
destruída pelos Anões".

Na história que aparece em "O Silmarillion" os fora-da-lei que vão a
Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o
único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui
supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de
Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como
finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com
Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir
já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que
mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de
Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem
proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada
novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de
meu pai, citada à página 353, onde os Ents "Pastores de �?rvores", são
introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado
de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho
Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o
escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um
estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra
"manipulação" dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na
história de "A Queda de Gondolin", para qual meu pai nunca retornou,
algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na
narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à
história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente
incompatíveis com "O Silmarillion" como projetado e que havia uma
escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar
a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as
inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido,
ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

 
[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]
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History of Middle-earth XII – The Peoples of Middle-earth

Pois é, tudo acaba, até as coisas que parecem inacabáveis – como a série History. Mas tudo bem, o final é em grande estilo. "The Peoples of Middle-earth" (Os Povos da Terra-média), por trás do título assumidamente genérico, traz mais testemunhos memoráveis do gênio criativo tolkieniano – a começar pela contracapa, com a reprodução de um belíssimo manuscrito, iluminado (ou seja, ilustrado) à maneira medieval pelo próprio autor.
 

Os textos voltam a "O Senhor dos Anéis", com a relato de como se desenvolveram os Apêndices da saga. Há coisas como a única genealogia conhecida dos príncipes de Dol Amroth (incluindo os filhos de Imrahil) e até uma raridade: o prefácio de "O Senhor dos Anéis" que existia na primeira edição, com um tom muito mais pessoal que o conhecido por nós (sempre reservado, Tolkien achou que devia alterar isso).

Há também uma série de interessantes ensaios filológicos e históricos. Um deles revela detalhes inéditos sobre a história dos Anões, inclusive os nomes de suas sete casas, além de uma grande aliança entre eles e os antepassados dos Rohirrim durante a Segunda Era. Outro mostra como uma simples desavença sobre a pronúncia das palavras aumentou ainda mais a rixa entre os partidários de Fëanor e os demais Noldor.

Mas as coisas mais legais são provavelmente dois textos curtos e inacabados, que deixam um terrível gostinho de "quero mais". São "The New Shadow" (A Nova Sombra, disponível na Valinor), com a continuação nunca terminada de "O Senhor dos Anéis", e "Tal-Elmar", com um raríssimo relato da chegada dos numenorianos à Terra-média vista pelos olhos dos Homens Selvagens.

Luthiens_Lament_Before_Mandos

A Segunda Profecia de Mandos

Luthiens_Lament_Before_MandosExiste uma referência no Contos Inacabados, na seção Os Istari, que diz o seguinte: “Manwë não descerá da Montanha até a Dagor Dagorath, e a Chegada do Fim, quando Melkor retornará“. Christopher Tolkien fez um comentário no pé da página, ao leitor: “Esta é uma referência à Segunda Profecia de Mandos, que não aparece no Silmarillion; sua elucidação não pode ser tentada aqui, uma vez que necessita de algum explicação da história da mitologia em relação à versão publicada”.

Unfinished Tales foi publicado em 1980, e, afortunadamente, com a publicação, em 1986 do quarto volume da The History of Middle-earth, entitulado The Shaping of Middle-earth, pode-se ententer mais sobre a Segunda  Profecia de Mandos. Elas aparecem neste volume de duas formas, no primeiro Silmarillion, o Sketch of the Mythology como escrito para o primeiro professor de Tolkien, R. W. Reynolds por volta de 1926, e também no Quenta Silmarillion propriamente escrito por volta de 1930. Para a versão do primeiro Silmarillion, veja section 19, pp. 40-1 de The Shaping of Middle-earth. A segunda versão, da qual alguns trechos abaixo foram retirados, encontra-se em section 19 , pp. 163-5 do mesmo volume:”Após o triunfo dos Deuses, Earendel continuou a navegar nos mares do céu, mas o Sol o queimava e a Lua o caçava no céu… Então os Valar desceram de seu navio branco, Wingelot, para a terra de Valinor, e o enxeram com brilho e o consagraram, e o lançaram através da Porta da Noite. E por muito tempo Earendel navegou na vastidão sem estrelas, Elwing a seu lado, a Silmaril à sua fronte, navegando o Escuro atrás do mundo, uma brilhante e fugitiva estrela. E algumas vezes ele retornava e brilhava atrás dos cursos do Sol e da Lua sob a proteção dos Deuses, mais brilhante que todas as outras estrelas, o marinheiro do céu, mantendo guarda a Morgoth até os confins do mundo. Dessa forma deverá navegar até que veja a Última Batalha sendo lutada nas planícies de Valinor.

Dessa forma falou a profecia de Mandos, que ele declarou em Valmar durante o julgamento dos Deuses, e rumores dele são sussurrados por todos os Elfos do Oeste: quando o mundo estiver velho e os Poderes cansarem-se, então Morgoth deverá retornar através da Porta para fora da Noite Eterna; e ele deverá destruir o Sol e a Lua, mas Earendel virá até ele como uma chama branca e o derrubará dos ares. Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwe e à sua esquerda estará Turin Turambar, filho de Hurin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Turin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então as Crianças de Hurin e todos os homens estarão vingados.

 

Então as Silmarilli serão recuperadas do mar, da terra e do céu; pois Eärendil descerá e dará aquela chama a qual mantinha posse. Então Feanor utilizará as Três e com seu fogo reacenderá as Duas Árvores, e uma grande luz surgirá; a as Montanhas de Valinor serão rebaixadas, para que a luz possa atingir todo o mundo. Naquela luz os Deuses novamente sentir-se jovens, e os Elfos despertão e todos os mortos levantarão, e o propósito de Ilúvatar estará completo em relação a eles. Mas dos Homens naquele dia a profecia não fala, com excessão de  Turin apenas, e a ele o nomeia entre os Deuses.

Gil-galad portando Aeglos

Os Nomes dos Clãs Eldar

Em Quenya a forma dos nomes dos três grandes Clãs eram Vanyar, Noldor e Lindar. O mais antigo destes nomes era Lindar, o qual certamente remonta aos dias antes da Separação. Os outros dois provavelmente surgiram no mesmo período, mas um pouco mais tarde. Suas formas originais podem ser dadas em Élfico Primitivo como *wanja, *ngolodo e linda/glinda [1].

De acordo com a lenda, preservada de maneira quase idêntica tanto entre os Elfos de Aman quanto entre os Sindar, os Três Clãs eram derivados em princípio dos três Pais-Elfos: Imin, Tata e Enel (sc. Um, Dois, Três) e por aqueles a quem cada um escolheu seguir. Então, a princípio eles tinham simplesmente os nomes Minyar “Primeiros”, Tatyar “Segundos” e Nelyar “Terceiros”. Estes eram contados, dentre os 144 Elfos que primeiramente acordaram, 14, 56 e 74; e estas proporções foram aproximadamente mantidas até a Separação. [2]

É dito que do pequeno clã dos Minyar nenhum se tornou Avari. Os Tatyar foram divididos meio-a-meio. Os Nelyar eram os mais relutantes em deixar seus lares às margens do lago; mas eram bastante coesos e bastante conscientes da unidade separada de seu Clã (como continuaram a ser), portanto quando ficou claro que seus líderes Elwë e Olwë estavam resolvidos a partir e teriam muitos seguidores, muitos dentre os que originalmente tinham se unido aos Avari foram para junto dos Eldar ao invés de se separarem de seus parentes. Os Noldor, de fato, afirmaram que a maior parte dos “Teleri” eram Avari em seus corações, e que apenas os Eglain realmente lamentaram serem deixados em Beleriand.

De acordo com historiadores Noldorin as proporções, de 144, que quando começou a Marcha tornaram-se Eldar ou Avari foram aproximadamente:

Minyar 14: Avari 0 Eldar 14

Tatyar 56: Avari 28 Eldar 28

Nelyar 74: Avari 28 Eldar 46 > Amanyar Teleri 20; Sindar e Nandor 26

Por isso os Noldor eram o maior clã de Elfos em Aman; enquanto os Elfos que permaneciam na Terra-média (os Moriquendi no Quenya de Aman) ultrapassavam os Amanyar na proporção de 82 para 62. [3]

Por quanto tempo os nomes descritivos dos clãs *wanja, *ngolodo e *linda foram preservados entre os Avari não é sabido; mas a existência dos antigos clãs é lembrada e um parentesco especial entre aqueles do mesmo clã original, tenham eles partido ou permanecido, continua reconhecido. Os primeiros Avari que os Eldar encontraram em Beleriand parecem ter dito serem Tatyar, que reconheciam seu parentesco com os Exilados, embora não existam registros da utilização do nome Noldo em nenhuma forma Avarin reconhecível. Eles não eram amigáveis com os Noldor e invejosos de seus parentes mais exaltados, a quem acusavam de arrogância.

Este mal-estar surge em parte do amargor do Debate antes da marcha dos Eldar começa,r e sem dúvida aumentou através de maquinações de Morgoth; mas também lança alguma luz sobre o temperamento dos Noldo, em geral e de Fëanor em particular. De fato os Teleri a seu lado afirmavam que a maioria dos Noldor em Aman eram Avari de coração e retornaram à Terra-média quando descobriram seu erro; eles precisavam de espaço para habitar. Pois em contraste, os elementos Lindarin  nos Avari do oeste eram amigáveis com os Eldar e desejosos para aprender com eles, e tão próximo era o sentimento de parentesco entre os remanescentes dos Sindar, Nandor e Lindarin Avari que mais tarde em Eriador e no Vale do Anduin eles freqüentemente mesclaram-se.

Lindar (Teleri) [4]

Este era, como visto, o maior dos antigos clãs. O nome, mais tarde aparecendo na forma Quenya como Lindar (Lindai em Telerin), já é referenciado na lenda do “Acordar dos Quendi”, a qual sobre os Nelyar que “eles cantaram antes de poderem falar com palavras”. O nome *Linda é portanto claramente um derivativo da raiz primitiva *LIN (mostrando reforço do x médio e do -a adjetival). Esta raiz foi possivelmente uma das contribuições dos Nelyar ao Élfico Primitivo, por reflete suas predileções e associações, e produz mais derivativos nas línguas Lindarin do que em outras. Sua referência primária foi para um som melodioso ou agradável, mas também se refere (especialmente em Lindarin) à água, aos movimentos da qual os Lindar sempre associaram os sons vocais (élficos). Os reforços, tanto do médio -lind como dos iniciais glin-, glind- eram, contudo, quase somente utilizados em sons musicais, especialmente vocais, produzidos com o intuito de serem agradáveis. É, portanto, a este amor dos Nelyar pela música, pelos sons vocais com ou sem o uso de palavras articuladas, ao qual o nome Lindar originalmente de referia; mas também eles amavam a água, e antes da Separação nunca se mudaram para longe do lago e da cachoeira de Cuiviénen e aqueles que se mudaram para o leste se tornaram enamorados do Mar [5].

Em Quenya, ou seja, na língua dos Vanyar e Noldor, aqueles deste clã que se uniram à Marcha foram chamados de Teleri. Este nome era aplicado em particular àqueles que vieram finalmente e por último a Aman; mas mais tarde também foi aplicado aos Sindar. O nome Lindar não foi esquecido, mas nas histórias Noldorin era principalmente utilizado para descrever todo o Clã, incluindo os Avari entre eles. Teleri significa “aqueles no final da linha, os últimos” e foi, evidentemente, um apelido que surgiu durante a Marcha, quando os Teleri, os menos ansiosos a partir, freqüentemente ficavam bastante para trás [6].

Vanyar

Este nome provavelmente foi dado ao Primeiro Clã pelos Noldor. Eles o aceitaram, mas continuaram a chamar a si mesmos mais freqüentemente pelo velho nome numérico Minyar (uma vez que todo este clã uniu-se aos Eldar e alcançou Aman). O nome se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era considerada uma características bela pelos Noldor (que amavam o ouro), embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros. Devido ao intercasamento o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os Noldor: notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis dos Vanyar.

Vanyar portanto surgiu como um derivativo adjetival *wanja da raiz *WAN. Seu sentido primário parece ter sido bastante similar ao uso Inglês (moderno) de “belo” (“fair”) com referência ao cabelo e compleição; embora seu desenvolvimento tenha sido o oposto do Inglês: significa “pálido, de cores claras, não marrom ou escuro” e sua implicação de beleza era secundária. No Inglês o sentido “bonito” é primário. Da mesma raiz derivou-se o nome dado em Quenya à Valië Vána, esposa de Oromë.

Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era muito usado por eles para o Primeiro Clã. Os Amanyar Teleri tinham a forma Vaniai (sem dúvida tomada dos Noldor), mas o nome parece ter sido esquecido em Beleriand, onde o Primeiro Clã (em lendas e histórias apenas) era chamado de Miniel (Minil no plural).

Noldor

Este nome provavelmente é mais antigo do que Vanyar, e pode ter sido criado antes da Marcha. Foi dado ao Segundo Clã pelos outros. Foi aceito e era usado como nome regular e próprio por todos os membros Eldarin do clã em sua história posterior.

O nome significa “os Sábios”, ou seja, aqueles que tinham grande conhecimento e entendimento. Os Noldor de fato já cedo mostraram terem os maiores talentos entre todos os Elfos tanto para feitos intelectuais como para perícias técnicas.

As formas variantes do nome: (Quenya) Noldo, (Telerin) Goldo, (Sindarin) Golodh/Ngolodh, indicam um Élfico Primitivo *ngoldo. Este é um derivativo da raiz *NGOL “conhecimento, sabedoria”. Isto é visto no (Quenya) Role ´longo estudo (de qualquer assunto), ingole “conhecimento”, ingolmo “mestre do conhecimento”. Em (Telerin) gole, engole têm o mesmos sentidos que em Quenya mas são mais freqüentemente utilizados para o “conhecimento” especial possuído pelos Noldor. Em Sindarin a palavra gul (equivalente ao Quenya nole) possui associações menos laudatórias, sendo utilizada mais freqüentemente como significando conhecimento secreto, especialmente como aquele possuído pelos artífices que criavam coisas maravilhosas; e a palavra tornou-se ainda mais escurecida por seu freqüente uso no componente morgul “artes negras”, aplicada às artes delusórias ou perigosas e conhecimentos derivados de Morgoth. Aqueles dentre os Sindar que já não eram amigáveis aos Noldor atribuíam sua supremacia nas artes e nos conhecimentos aos seus aprendizados a partir de Melkor-Morgoth. Isto é falso, tendo vindo em última análise do próprio Morgoth, embora não seja sem alguma fundamentação (como as mentiras de Morgoth raramente o eram). Mas os grandes dons dos Noldor não vieram dos ensinamentos de Melkor. Fëanor o maior de todos eles nunca teve assuntos com Melkor em Aman e foi seu maior inimigo.

Sindar

A forma menos comum Sindel (plural Sindeldi) também é encontrada no Quenya dos Exilados. Este também é o nome dado pelos Exilados Noldor [7] à segunda maior divisão dos Eldar [8]. Ele se aplicava a todos os Elfos de origem telerin que os Noldor encontraram em Beleriand, embora mais tarde excluísse os Nandor, exceto aqueles que eram diretamente sujeitos a Elwë ou se mesclaram a seu povo. O nome significa “os Cinzentos” ou “os Elfos Cinzentos” e era derivado de *THIN, (Élfico Primitivo) *thindi “cinza, pálido ou cinza prateado”, (Quenya) pinde, (Noldorin) sinde.

Sobre a origem deste nome, ver [7]. Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência era feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma característica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de Elwë (como no caso de Círdan) [9]. Em geral os Sindar aparentemente pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e altos, ainda que ágeis. De fato eles dificilmente poderiam ser separados exceto por seus olhos; pois os olhos de todos os Elfos que habitaram Aman impressionavam àqueles da Terra-média por seu brilho penetrante. Por essa razão os Sindar freqüentemente os chamavam de Lachend (plural Lechind) “olhos de chamas”.

Nandor

Este nome foi feito ao tempo, nos dias tardios da Marcha, quando certos grupos de Teleri desistiram da Jornada; e é especialmente aplicado aos muitos seguidores de Lenwë [10] que recusaram a cruzar as Hithaeglir [11]. O nome era freqüentemente interpretado como “aqueles que voltaram”; mas de fato nenhum dos Nandor parecem ter retornado ou se reunido aos Avari. Muitos permaneceram nas terras que tinham alcançado, especialmente ao lado do Rio Anduin; alguns vagaram para o sul [12].

Existiu contudo, como visto, um pequeno movimento dos Moriquendi para o
oeste durante a prisão de Melkor, e eventualmente, grupos de Nandor, cruzando através do Paço entre as Hithaeglir e as Eryd Nimrais, espalharam-se amplamente em Eriador. Alguns desses ao final entraram em Beleriand, não muito depois do retorno de Morgoth [13]. Estes estavam sob a liderança de Denethor, filho de Denweg (ver [10]), que se tornou um aliado de Elwë nas primeiras batalhas contra as criaturas de Morgoth. O antigo nome Nandor era lembrado apenas pelos historiadores Noldorin em Aman; e eles não sabiam nada da•história posterior deste povo, lembrando apenas que o nome do líder dos que desistiram antes de cruzar as temíveis Hithaeglir era Lenwë (i.e. Denweg). Os Mestrs do Conhecimento Sindar lembravam dos Nandor como Danwaith ou, por confusão com o nome de seu líder, Denwaith.

Este nome eles aplicaram primeiramente aos Nandor que vieram para Beleriand Oriental; mas este povo chamava-se com o velho nome do clã *Lindai, que fora tomado da forma Lindi para sua própria língua. A região onde mais comumente se fixaram como um povo pequeno e independente eles chamaram de Lindon (<*Lindana): esta era a região a oeste das Montanhas Azuis (Eryd Luin), cortada pelos tributários do grande rio Gelion e previamente nomeada pelos Sindar como Ossiriand, a Terra dos Sete Rios. Os Sindar rapidamente reconheceram os Lindi como parentes de origem Lindarin (ou Glinnil em Sindarin), utilizando uma língua que, apesar das grandes diferenças, continuava sendo percebível como aparentada à sua própria; e eles adotaram os nomes Lindi e Lindon, dando-lhes as formas Lindil (sq. Lindel) ou Linedhil, e Lindon ou Dor Lindon. No Quenya dos Exilados as formas utilizadas (derivadas dos Sindar ou diretamente dos Noldor) eram Lindi e Lindon (ou Lindone). Os Exilados Noldor também usualmente se referiam às Eryd Luin como Eryd Lindon, uma vez que a parte mais alta de suas cordilheiras faziam a fronteira oriental da região de Lindon.

Estes nome foram, mais tarde, substituídos entre os Sindar pelo nome “Elfos verdes”, pelo menos no que se referia aos habitantes de Ossiriand; pois eles ocultaram a si mesmos e tomaram tão pouca parte nas lutas contra Morgoth quando podiam. Este nome, (Sindarin) Laegel (plural Laegil, plural de classe Laegrim ou Laegel(d)rim) foi dado tanto devido à verdejante terra de Lindon quanto ao fato de que os Laegrim vestiam-se de verde como um auxílio à sua secritude. Este termo os Noldor traduziram em Quenya como Laiquendi, mas não era muito utilizado.

Notas:

[1] (Nota de J.R.R. Tolkien) Embora este Nome de Clã tenha *glind- em Sindarin, o g- não aparece no Amanya telerin nem no Nandorin, então neste caso pode ter sido uma adição ao Sindarin, que favoreceu e aumentou em muito grupos iniciais deste tipo.

[2] (Nota do Tradutor) a Lenda do Despertar, ou Cuivienyarna, está traduzida para português neste link.

[3] (Nota de Christopher Tolkien) A história encontrada nos Anais de Aman sobre os grupos de Morwë e Nurwë, que recusaram os chamados dos Valar e se tornaram Avari (HoME 10), foi abandonada.

[4] (Nota de Christopher Tolkien) O nome Lindar “Cantores” para os Teleri aparece no “Glossário” para o Athrabeth Finrod ah Andreth (HoME 10) e foi por um longo tempo um nome para a Primeira Família, mais tarde Vanyar. (N.T. a Valinor possui uma versão traduzida para português do Athrabeth Finrod ah Andreth)

[5] (Nota de J.R.R. Tolkien) Por esta razão o mais utilizado dos “títulos” os nomes secundários dos Lindar era Nedilli “Amantes das Águas”.

[6] (Nota de J.R.R. Tolkien) Uma formação agental simples (como *abaro > *abar a partir de *ABA) da raiz *TELE, cujo sentido inicial parece ter sido “fechamento, fim, vindo ao final”: uma vez que em Quenya telda “último, final”; tele- verbo intransitivo “encerrar, terminar” ou “ser a última coisa ou pessoa em uma série ou sequência de eventos”; telya verbo transitivo “teminar, concluir”; telma “uma conclusão, qualquer coisa utilizada para encerrar um trabalho ou assunto”. Este é provavelmente distinto de *tel-u “telhar, por a coroa/topo em um prédio”, visto no Quenya telume “telhado, topo” (esta é provavelmente uma das mais antigas palavras Élficas para os céus, o firmamento, antes do aumento de seu conhecimento e d invenção da palavra Eldarin Menel. Telumehtar “guerreiro do céu”, um antigo nome para Menelmakil, Órion). A palavra telluma “domo, cúpula” é uma alteração de telume sob a influência do Valarin delgsima. Mas *telu pode ser simplesmente uma diferenciação de *TELE, uma vez que o telhado era a parte final de uma construção; telma, que freqüentemente era aplicada ao último item de uma estrutura, como a última rocha ou o pináculo mais alto.

[7] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lago Mithrim, significando originalmente “Lagos dos Mithrim”. Mithrim era o nome dado a eles pelos habitantes do sul, devido ao clima mais frio, aos céus cinzentos e às névoas do Norte. Provavelmente foi devido aos Noldor terem entrado primeiramente em contato com este ramo norte que deram em Quenya o nome Sindar ou Sindeldi “Elfos Cinzentos” a todos os habitantes Telerin das terras ocidentas que falavam a língua Sindarin.• Embora esse nome tenha mais tarde também se referido ao nome Thingol (“Manto Cinzento”) de Elwë, uma vez que ele era reconhecido como Alto Rei de todas as terras e seus povos. É dito que os povos do norte vestiam-se em cinza, especialmente após o retorno de Morgoth, quanto secritude tornou-se necessária; e os Mithrim tinha uma arte de vestirem-se com um uma vestimenta cinzenta que os fazia quase invisíveis em locais com sombras ou uma terra pedregosa. Esta arte foi mais tarde utilizada nas terras do sul quandos os perigos da Guerra aumentaram.

[8] (Nota de J.R.R. Tolkien) Ver acima. A proporção, por 144, dos Eldar remanescentes na Terra-Média era contada como 26, dos quais 8 eram Nandor.

[9] (Nota de Christopher Tolkien) Em outros textos posteriores Círdan é citado como sendo parente de Elwë, mas eu não encontrei nenhuma citação sobre a natureza do parentesco.

[10] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lenwë é a forma pela qual seu nome era lembrado em histórias Noldorin. Seu nome foi provavelmente *Denwego, Nandorin Denweg. Seus filho era o chefe Nandorin Denethor. Estes nomes provavelmente significavam “ágil-e-ativo” e “ágil-e-fino”, de *dene- “fino e forte, ágil”, e *thara- “alto (ou longo) e esbelto”.

[11] (Nota de Christopher Tolkien) Lenwë foi substituído pelo nome mais permanente Dan do pai de Denethor; deste texto ele foi adotado no Silmarillion.

[12] (Nota de J.R.R. Tolkien) O nome Nandor era um derivativo do elemento *dan, *ndan- indicando• o reverso de uma ação, desfazer ou anular seu efeito, como em “desfazer, voltar atrás (no mesmo caminho), desdizer, devolver (o mesmo presente e não outro em troca)”. A forma original *ndando, entretanto, implicava apenas em “alguém que volta atrás em sua palavra ou decisão”.

[13] (Nota de Christopher Tolkien) A afirmação de que os Nandor entraram em Beleriand “não muito depois do retorno de Morgoth” é outra contradição marcante aos Anais. Anteriormente é dito que eles vieram “antes do retorno de Morgoth”, o que sem dúvida implica no mesmo. Mas no Grey Annals existe uma maravilhosa evocação que “longos anos de paz se seguiram após a chegada de Denethor”, e foram longos de fato: de 1350 a 1495, 145 Anos dos Valar, ou 1389 Anos do Sol. Sou incapaz de explicar estas profundas mudanças na história interna.

[Nota do Tradutor: este é um texto clássico da série The History of Middle-earth, carinhosamente chamada de HoME, tanto em conteúdo quanto em formato. O texto é primariamente lingüístico e é mais voltado a fãs mais avançados em estudos dentro da obra de Tolkien. Perceba como os comentários, tanto de Tolkien pai como do filho, são algumas vezes maiores do que o próprio texto comentado, o que também é uma característica geral dos HoME. Christopher não mais edita profundamente os texto do pai, agora os comenta em detalhes, deixando bem claro que são seus comentários, deixando intocados todos os problemas, inconfruências e paradoxos do texto original. Em termos de conteúdo do texto, é um dos meus preferidos por tratar diretamente dos Clãs Élficos e suas proporções, além de nos fornecer informações únicas sobre cada um deles. Espero que vocês também o apreciem!]

The History of Middle-earth X

Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth

[Em um destes papéis meu pai adicionou: “Deveria ser o último item em um apêndice” (isto é, para O Silmarillion). Este comentário ele mesmo datilografou, no alto de uma cópia e de um carbono, com algumas correções subseqüentes quase idênticas em ambos. Após o comentário estão notas numeradas que acabam tendo mais importância do que o próprio comentário, uma vez que algumas delas constituem curtos ensaios. Distingo estas das minhas próprias notas numeradas do texto pelas palavras “Nota do Autor”. – Christopher Tolkien]

Este texto não é apresentado como um argumento de qualquer irrefutabilidade para os homens na presente situação destes (ou na que eles acreditam estar), embora possa ter algum interesse para os homens que partem de crenças ou suposições similares àquelas sustentadas pelo rei élfico Finrod.

Ele é, na realidade, simplesmente parte do retrato do mundo imaginário do Silmarillion, e um exemplo da espécie de assunto que, ao indagar as mentes em ambos os lados, o élfico ou o humano, deve ser dito um para outro após tornarem-se familiarizados. Vemos aqui a tentativa de uma mente élfica generosa de aprofundar as relações entre elfos e homens e o papel que lhes fora designado representar no que ele teria chamado de Oienkarmë Eruo (A produção perpétua do Um), que pode ser traduzido como “A administração de Deus do Drama”.

Há certas coisas neste mundo que precisam ser aceitas como “fatos”. A existência de elfos: isto é, de uma raça de seres intimamente aparentados com os homens, tão intimamente que eles devem ser considerados pelas características físicas (ou biológicas) simplesmente como ramos da mesma raça. Os elfos apareceram na Terra primeiro, mas não (mitologicamente ou geologicamente) muito antes; eles eram “imortais”, e não “morriam” exceto por acidente. Os homens, quando entraram em cena (isto é, quando encontraram os elfos), eram, contudo, como são agora: eles “morriam”, mesmo se escapassem de todos os acidentes, por volta da idade de 70 a 80 anos. A existência dos Valar: isto é, de certos Seres angelicais (criados, mas no mínimo tão poderosos quanto os “deuses” de mitologias humanas), cujo líder ainda residia em uma parte física real da Terra. Eles eram os agentes e vice-regentes de Eru (Deus). Eles haviam estado ocupados por eras imemoriais com um trabalho demiúrgico finalizando, segundo o propósito de Eru, a estrutura do Universo (Eä); mas estavam agora concentrados na Terra para o principal Drama da Criação: a guerra dos Eruhín (Os Filhos de Deus), elfos e homens, contra Melkor. Melkor, originalmente o mais poderoso dos Valar, tornara-se um rebelde, contra seus irmãos e contra Eru, e foi o primeiro Espírito do Mal.

Com respeito ao rei Finrod, deve-se compreender que ele inicia com certas crenças básicas, as quais ele diria serem derivadas de uma ou mais de uma destas fontes: sua natureza criada; instrução angelical; pensamento; e experiência.

1. Existe Eru (o Um); isto é, Um Deus Criador, que criou (ou mais estritamente, projetou) o Mundo, mas não é Ele próprio o Mundo. Este mundo, ou Universo, ele chama de , uma palavra élfica que significa “É”, ou “Que Seja”.

2. Há na Terra criaturas “encarnadas”, elfos e homens: estes são feitos de uma união de hröa e fëa (aproximadamente, mas não exatamente, equivalentes a “corpo” e “alma”). Este, ele diria, era um fato conhecido a respeito da natureza élfica e, portanto, poderia ser deduzido quanto à natureza humana a partir do parentesco próximo de elfos e homens.

3. Hröa e fëa, diria ele, são completamente distintos, e não no “mesmo plano de derivação de Eru”, (Nota do Autor 1) mas designados um para o outro, para permanecer em harmonia perpétua. O fëa é indestrutível, uma identidade única que não pode ser desintegrada ou absorvida por qualquer outra identidade. O hröa, entretanto, pode ser destruído e dissolvido: este é um fato de experiência. (Em tal caso, ele descreveria o fëa como “exilado” ou “desabrigado”.)

4. A separação de fëa e hröa não é “natural”, e acontece não pelo propósito original, mas pela “Desfiguração de Arda”, que deve-se às operações de Melkor.

5. A “imortalidade” élfica está restringida dentro de uma parte do Tempo (que ele chamaria A História de Arda) e, logo, deveria ser chamada preferencialmente de “longevidade seqüencial”, cujo limite máximo é a extensão da existência de Arda. (Nota do Autor 2) A conseqüência disto é que o fëa élfico também está limitado ao Tempo de Arda ou pelo menos confinado dentro dele e incapaz de deixá-lo enquanto este dure.

6. A partir disto seguiria-se pensando, se não fosse um fato de experiência élfica, que um fëa élfico “desabrigado” deve ter o poder ou oportunidade de retornar à vida encarnada, se ele possui o desejo ou vontade para assim fazê-lo. (Na verdade, os elfos descobriram que seus fëar não possuíam este poder neles próprios, mas que a oportunidade e os meios eram fornecidos pelos Valar, pela permissão especial de Eru para a correção do estado não natural do divórcio. Não era permitido aos Valar forçar um fëa a retornar; mas eles podiam impor condições e julgar se o retorno deveria ser realmente permitido e, em caso afirmativo, de que modo ou após quanto tempo.) (Nota do Autor 3)

7. Visto que os homens morrem, sem acidente e querendo eles ou não fazê-lo, seus fëar devem possuir uma relação diferente com o Tempo. Os elfos acreditavam, embora não possuíssem qualquer informação exata, que os fëar dos homens, caso desencarnados, deixavam o Tempo (mais cedo ou mais tarde), e jamais retornavam. (Nota do Autor 4)

Os elfos notaram que todos os homens morriam (um fato confirmado pelos homens). Deduziram, então, que isto era “natural” aos homens (isto é, o era pelo desígnio de Eru), e supunham que a brevidade da vida humana devia-se à esta característica do fëa humano: que ele não estava destinado à permanecer muito tempo em Arda. Enquanto que seus próprios fëar, estando designados a permanecer em Arda até o fim desta, impunham uma longa resistência sobre seus corpos; pois eles possuíam (como um fato de experiência) um controle muito maior sobre eles. (Nota do Autor 5)

Além do “Fim de Arda”, o pensamento élfico não podia penetrar, e eles ficaram sem qualquer instrução. (Nota do Autor 6) Parecia-lhes claro que seus hröar devem ao final cessar e, portanto, qualquer tipo de reencarnação seria impossível. (Nota do Autor 7) Todos os elfos então “morreriam” no Fim de Arda. O que isto significava eles não sabiam. Diziam, portanto, que os homens possuíam uma sombra atrás de si, mas os elfos possuíam uma sombra à frente de si próprios.

Seu dilema era este: o pensamento da existência apenas como fëar lhes era revoltante, e achavam difícil de acreditar que isto era natural ou designado a eles, uma vez que eram essencialmente “habitantes em Arda” e, por natureza, completamente apaixonados por Arda. A alternativa: que seus fëar também deixariam de existir “ao Fim” parecia ainda mais intolerável. Tanto a aniquilação absoluta como o cessar da identidade consciente eram completamente repugnantes ao pensamento e ao desejo. (Nota do Autor 8 )

Alguns argumentavam que, embora completo e único (como Eru, de quem eles procediam diretamente), cada fëa, estando criado, era finito, e portanto também poderia ser de duração finita. Ele não era destrutível dentro do seu período determinado mas, quando este era alcançado, passava a ser; ou deixava de ter quaisquer outras experiências, e “residia apenas no Passado”.

Mas eles viram que isto não fornecia nenhuma saída. Pois mesmo se um fëa élfico fosse capaz de “conscientemente” de habitar no Passado ou contemplá-lo, esta seria uma condição completamente insatisfatória ao seu desejo. (Referência à Nota do Autor 8 ) Os elfos possuíam (como eles próprios diziam) um “grande talento” para a memória, mas esta tendia para o pesar ao invés da alegria. Por mais longa que a História dos elfos pudesse se tornar antes que terminasse, ela também seria um objeto de alcance muito limitado. Estar eternamente “aprisionado em um conto” (como diziam), mesmo se este fosse um conto muito grande que terminasse de forma triunfante, tornaria-se um tormento. Pois maior do que o talento da memória era o talento élfico para a criação, e para descobertas. O fëa élfico fora, sobretudo, designado a criar coisas em cooperação com seu hröa.

Portanto, em última instância, os elfos eram obrigados a contar com a “estel nua” (como diziam): a confiança em Eru de que, seja o que for que Ele tenha designado para além do Fim, isto seria reconhecido por cada fëa como (no mínimo) completamente satisfatório. Provavelmente inclui-se aí alegrias imprevisíveis. Mas eles mantinham a crença de que isto permaneceria em uma relação inteligível com sua natureza e desejos atuais, partindo deles e incluindo-os.

Por estas razões os elfos eram menos solidários do que os homens esperavam em relação à falta de esperança (ou estel) nos homens diante da morte. Os homens eram, é claro, em geral inteiramente ignorantes quanto à “Sombra Adiante” que condicionava o pensamento e sentimentos élficos, e simplesmente invejavam a “imortalidade” élfica. Mas os elfos eram, por sua vez, geralmente ignorantes quanto à persistente tradição entre os homens de que os homens também eram imortais por natureza.

Como é visto no Athrabeth, Finrod fica profundamente emocionado e impressionado ao descobrir esta tradição. Ele descobre uma tradição concomitante de que a mudança na condição dos homens em relação ao seu desígnio original foi devido a um desastre primordial, sobre o qual a tradição humana é incerta, ou pelo menos Andreth está relutante em dizer mais. (Nota do Autor 9) Ele mantém, entretanto, a opinião de que a condição dos homens antes do desastre (ou, como poderíamos dizer, do homem não caído) não poderia ter sido a mesma dos elfos. Isto é, sua “imortalidade” não poderia ter sido a longevidade dentro de Arda dos elfos; senão eles teriam sido simplesmente elfos, e sua posterior introdução separada no Drama, feita por Eru, não teria qualquer função. Ele pensa que a noção dos homens de que, inalterados, eles não teriam morrido (no sentido de deixar Arda), deve-se à deturpação humana de sua própria tradição, e possivelmente à comparação invejosa de si mesmos com relação aos elfos. Primeiramente, ele não acha que isto se encaixa, como poderíamos dizer, nas “peculiaridades observáveis da psicologia humana”, conforme comparadas com os sentimentos élficos com respeito ao mundo visível.

Logo, ele supõe que é o medo da morte o resultado do desastre. Ela é temida por agora estar ligada com a separação de hröa e fëa. Mas os fëar dos homens devem ter sido designados a deixarem Arda de boa vontade ou de fato pelo desejo de fazê-lo – talvez após um tempo maior do que a atual vida humana média, mas ainda assim em um tempo muito curto comparado às vidas élficas. Assim, baseando seu argumento no axioma de que a separação de hröa e fëa não é natural e é contrária ao seu desígnio, ele chega (ou se preferir, precipita-se) à conclusão de que o fëa de um homem não caído levaria consigo seu hröa ao novo modo de existência (livre do Tempo). Em outras palavras, esta “suposição” era o fim natural de cada vida humana, embora, até onde sabemos, este foi o fim do único membro “não caído” da humanidade.* Ele tem então uma visão dos homens como os agentes da cura da “desfiguração” de Arda, não meramente ao desfazer a desfiguração ou o mal perpetrado por Melkor, mas ao produzir uma terceira coisa, Arda Refeita – pois Eru jamais simplesmente desfaz o passado, mas gera algo novo, mais magnífico do que o “primeiro desígnio”. Em Arda Refeita elfos e homens encontrarão separadamente alegria e contentamento, uma amizade recíproca, um elo que será o Passado.

* A referência é à Virgem Maria.

Andreth diz que, neste caso, o desastre foi aterrador para os homens; pois esta recriação (se esta de fato era a função apropriada dos homens) não pode ser alcançada agora. Finrod evidentemente mantém a esperança de que ela será alcançada, embora ele não diga como isso poderia acontecer. Ele agora vê, porém, que o poder de Melkor era maior do que havia sido compreendido (mesmo pelos elfos, que na verdade viram-no em uma forma encarnada): se ele fora capaz de modificar os homens e assim destruir o plano.

Em um sentido mais exato, ele diria que Melkor não “modificou” os homens, mas os “seduziu” (tornando-os leais a ele) nos primórdios de sua história, de modo que Eru modificou o “destino” deles. Pois Melkor podia seduzir mentes e vontades individuais, mas não podia tornar isso hereditário, ou alterar (contrária à vontade e ao desígnio de Eru) a relação de todo um povo com o Tempo e com Arda. Mas o poder de Melkor sobre as coisas materiais evidentemente era vasto. A totalidade de Arda (e, de fato, provavelmente muitas outras partes de Eä) foi desfigurada por ele. Melkor não era apenas um Mal local na Terra, nem um Anjo Guardião da Terra que desencaminhou-se: ele era o Espírito do Mal, erguendo-se mesmo antes da criação de Eä. Sua tentativa de dominar a estrutura de Eä, e de Arda em particular, e alterar os desígnios de Eru (que regiam todas as atividades dos Valar fiéis), introduziu o mal, ou uma tendência à aberração a partir do desígnio, em toda a matéria física de Arda. Foi por esta razão, sem dúvida, que ele foi totalmente bem sucedido com os homens, mas apenas parcialmente com os elfos (que permaneceram como um povo “não caído”). Seu poder foi exercido sobre a matéria e através dela. (Nota do Autor 10) Mas os fëar dos homens eram por natureza mais fracos no controle de seus hröar, diferente do que acontecia no caso dos elfos. Os elfos como indivíduos poderiam ser seduzidos a um tipo de “melkorismo” menor: desejando serem seus próprios mestres em Arda e possuírem as coisas a seu próprio modo levando, em casos extremos, à uma rebelião contra a tutela dos Valar; mas ninguém jamais ficou a serviço ou tornou-se leal ao próprio Melkor, nem jamais negou a existência e a supremacia absoluta de Eru. Algumas coisas horríveis dessa espécie, Finrod adivinha, os homens devem ter cometido, como um todo; mas Andreth não revela quais eram as tradições dos homens sobre esse assunto. (Referência à Nota do Autor 9)

Finrod, contudo, compreende agora que, do modo como se davam as coisas, nenhuma criatura ou ser criado em Arda, ou em todo Eä, era poderoso o suficiente para contrapor ou curar o Mal: isto é, subjugar Melkor (em sua presente pessoa, reduzida como estava) e o Mal que ele havia dissipado e enviado de si mesmo para o interior da própria estrutura do mundo.

Apenas o próprio Eru poderia fazer isto. Portanto, uma vez que era inconcebível a idéia de que Eru abandonaria o mundo à dominação e triunfo absolutos de Melkor (que poderia significar sua ruína e redução ao caos), Eru deve, em determinado momento, vir a se opor a Melkor. Mas Eru não poderia entrar completamente no mundo e na sua história que, apesar de grande, é apenas um Drama finito. Como Autor, Ele deve permanecer sempre “fora” do Drama, mesmo que esse Drama dependa de Seu desígnio e de Sua vontade para seu início e continuação, em cada detalhe e momento. Finrod, por esse motivo, crê que Ele, quando vier, terá que ficar tanto “fora” como “dentro”; e assim ele vislumbra a possibilidade de complexidade ou de distinções na natureza de Eru que, apesar de tudo, O caracterizam como “O Um”. (Nota do Autor 11)

Uma vez que Finrod já adivinhara que a função redentora fora originalmente designada especialmente aos homens, ele provavelmente prosseguiu para a expectativa de que “a vinda de Eru”, se acontecesse, estaria primeira e especialmente relacionada com os homens: isto é, a uma suposição ou visão imaginativa de que Eru viria encarnado em forma humana. Isto, contudo, não aparece no Athrabeth.

O argumento não é, claro, apresentado no Athrabeth nestes termos, ou nesta ordem, ou tão precisamente. O Athrabeth é uma conversa, na qual muitas suposições e etapas de pensamento têm que fornecidas pelo leitor. Na verdade, embora o texto trate de coisas como a morte e as relações de elfos e homens com o Tempo e Arda, e uns com os outros, seu verdadeiro propósito é dramático: exibir a generosidade da mente de Finrod, seu amor e piedade por Andreth, e as trágicas situações que devem surgir do encontro de elfos e homens (na época da juventude dos elfos). Pois, como finalmente torna-se evidente, Andreth havia se apaixonado na juventude por Aegnor, irmão de Finrod; e embora ela soubesse que ele retribuía seu amor (ou assim poderia ter feito, caso se dignasse a isso), ele não o havia declarado, e a deixara – e ela acreditou que havia sido rejeitada por ser muito inferior a um elfo. Finrod (embora ela não soubesse disso) sabia sobre essa situação. Por esta razão ele compreendeu e não se ofendeu com a amargura com a qual ela falava dos elfos, e mesmo dos Valar. Ele foi bem sucedido no final ao fazer com que ela compreendesse que ela não havia sido “rejeitada” por desprezo ou por arrogância élfica; mas que a partida de Aegnor deu-se por motivos de “sabedoria”, ao custo de grande dor para Aegnor: ele era igualmente vítima da tragédia.

No evento, Aegnor pereceu logo após essa conversa, quando Melkor rompeu o Cerco de Angband na desastrosa Batalha das Chamas Repentinas, e a destruição dos reinos élficos em Beleriand fora iniciada. Finrod refugiou-se na grande fortaleza meridional de Nargothrond; mas não muito depois sacrificou sua vida para salvar Beren Maneta. (É provável, embora não seja afirmado em nenhum lugar, que a própria Andreth tenha perecido nessa época, pois todo o reino do norte, onde Finrod e seus irmãos e o Povo de Bëor habitavam, foi devastado e conquistado por Melkor. Mas ela seria então uma mulher muito idosa.)

Finrod foi assim morto antes que os dois casamentos entre elfos e homens acontecessem, apesar de que, sem sua ajuda, o casamento de Beren e Lúthien não teria ocorrido. O casamento de Beren certamente realizou sua previsão de que tais casamentos ocorreriam apenas por algum propósito elevado do Destino, e que o destino menos cruel seria o fato de que a morte logo os encerraria.

Notas do Autor sobre o “Comentário”

Nota 1

Porque acreditava-se que os fëar foram criados diretamente por Eru, e “enviados para dentro” de Eä; enquanto que Eä fora concluído por intermédio dos Valar.

De acordo com o Ainulindalë, houve cinco estágios na Criação. a) A criação dos Ainur. b) A comunicado de Eru sobre o seu Desígnio aos Ainur. c) A Grande Música, que era como se fosse um ensaio, e que permaneceu no estágio de pensamento ou imaginação. d) A “Visão” de Eru, que era novamente apenas uma amostra de possibilidade e estava incompleta. e) A Realização, que ainda está em andamento.

Os Eldar acreditavam que Eru era e é livre em todos os estágios. Esta liberdade foi mostrada na Música por Sua introdução, após o surgimento das dissonâncias de Melkor, de dois novos temas, representando a chegada de elfos e homens, que não estavam no Seu primeiro comunicado. Portanto Ele pode, no estágio 5, introduzir diretamente coisas que não estavam na Música e que assim não são realizadas através dos Valar. Não obstante, isto continua em geral verdadeiro no que diz respeito a Eä como concluído através da intervenção deles.

As adições de Eru, contudo, não serão “estranhas”; elas serão ajustadas à natureza e ao caráter de Eä e daqueles nele habitam; elas podem realçar o passado e enriquecer seu propósito e sua importância, mas o passado estará contido nelas e não será destruído.

Assim, a “novidade” dos temas dos Filhos de Eru, elfos e homens, consistia da associação dos fëar com (ou da “habitação” deles nos) hröar pertencentes a Eä, de tal modo que os primeiros estariam incompletos sem os últimos e vice-versa. Mas os fëar não eram espíritos de um tipo completamente diferente dos Ainur; enquanto que os corpos eram de um tipo mais parecido com os corpos de seres vivos já na idéia primordial (mesmo se adaptados à sua nova função, ou modificados pelos fëar residentes).

Nota 2

Arda, ou “O Reino de Arda” (como estando diretamente sob o governo do vice-regente de Eru, Manwë) não é fácil de se traduzir, uma vez que nem “terra” nem “mundo” são inteiramente adequadas. Fisicamente Arda era o que chamamos de Sistema Solar. Presumivelmente os Eldar poderiam ter tido informações tão numerosas quanto precisas a respeito disso, de sua estrutura, origem e sua relação com o resto de Eä (o Universo) como podiam compreender. Provavelmente aqueles que se interessavam adquiriram este conhecimento. Nem todos os Eldar se interessavam por tudo; a maioria deles concentrava sua atenção na (ou, como eles diziam, “estavam apaixonados pela”) Terra.

As tradições mencionadas aqui passaram dos Eldar da Primeira Era para os elfos que nunca conheceram diretamente os Valar e para os homens que receberam os “ensinamentos” dos elfos, mas que possuíam mitos, lendas cosmogônicas e suposições astronômicas próprios. Porém não há nada nelas que entre seriamente em conflito com as noções humanas atuais do Sistema Solar e de seu tamanho e posição relativos ao Universo. Deve ser lembrado, contudo, que isto não implica necessariamente que a “Informação Verdadeira” a respeito de Arda (tal como os antigos Eldar podem ter recebido dos Valar) deva condizer com as atuais teorias dos homens. Além disso, os Eldar (e os Valar) não estavam sobrecarregados ou mesmo principalmente impressionados pelas noções de tamanho e distância. Seu interesse, certamente o interesse do Silmarillion e de todas as questões relacionadas, podem ser chamado de “dramático”. Lugares ou mundos eram interessantes ou importantes pelo o que acontecia neles.

Certamente é o caso, com as tradições élficas, de que a parte principal de Arda era a Terra (Imbar, “A Habitação”), como a cena do Drama da guerra dos Valar e dos Filhos de Eru com Melkor: de modo que, usada livremente, Arda parece com freqüência significar a Terra; e que, deste ponto de vista, a função do Sistema Solar era tornar possível a existência de Imbar. Com respeito à relação de Arda com Eä, a afirmação de que os principais Ainur demiúrgicos (os Valar), incluindo o originalmente maior de todos, Melkor, fixaram sua “residência” em Arda desde o seu estabelecimento, também implica que, a todo instante, Arda era dramaticamente o ponto principal em Eä.

Essas visões não são matemáticas ou astronômicas, ou mesmo biológicas, e portanto não se pode dizer que elas necessariamente entram em conflito com as teorias de nossas ciências físicas. Não podemos dizer que “deve” haver em algum outro lugar em Eä outros sistemas solares “como” Arda, e ainda menos que, caso existam, eles ou qualquer um deles possua um paralelo a Imbar. Não podemos sequer dizer que estas coisas são matematicamente muito “prováveis”. Mas mesmo se a presença de “vida” biológica em outro lugar de Eä fosse demonstrável, isto não invalidaria a visão élfica de que Arda (pelo menos enquanto essa durar) é o centro dramático. A demonstração de que existira Encarnados em outro lugar, paralelamente aos Filhos de Eru, certamente modificaria quadro, mas não o invalidaria. A resposta élfica provavelmente seria: “Bem, há outro Conto. Não é o nosso Conto. Eru sem dúvida pode permitir mais de um. Nem tudo é descrito no Ainulindalë; ou o Ainulindalë pode possuir uma referência mais ampla do que conhecemos: outros dramas, semelhantes em gênero mas diferentes em processo e resultado, podem ter continuado em Eä, ou ainda podem continuar”. Mas certamente eles acrescentariam: “Mas eles não estão acontecendo agora. O drama de Arda é o interesse atual de Eä”. De fato a visão élfica é claramente a de que o Drama de Arda é único. Não podemos presentemente afirmar que isto é falso.

Os elfos estavam, é claro, primeira e profundamente (mais profundamente do que os homens) preocupados com Arda, e com Imbar em particular. Eles parecem acreditar que o universo físico, Eä, teve um início e teria um fim: que ele era limitado e finito em todas as dimensões. Eles certamente acreditavam que todas as coisas ou “estruturas”, isto é, construídas (embora simples e incipientemente) a partir da matéria básica, que eles chamavam erma, eram impermanentes dentro de Eä. Logo, eles preocuparam-se muito mais com o “Fim de Arda”. Sabiam que eles próprios estavam limitados à Arda; mas a duração de sua existência eles parecem não terem conhecido. Possivelmente os Valar não sabiam. Muito provavelmente eles não foram informados pela vontade ou desígnio de Eru, que na tradição élfica parece exigir duas coisas de Seus Filhos (de ambas as raças): acreditar Nele e, partindo disto, ter esperança ou confiar Nele (fato que era chamado pelos Eldar de estel).

Mas em qualquer caso, quer descrito na Música ou não, o Fim poderia ser ocasionado por Eru a qualquer momento através de uma intervenção, de modo que ele certamente não poderia ser previsto. (Uma intervenção menor deste tipo e aparentemente prenunciada foi a catástrofe na qual Númenor foi destruída e a residência física dos Valar em Imbar terminou.) A concepção élfica do Fim de fato era catastrófica. Eles não acreditavam que Arda (ou, de qualquer modo, Imbar) iria simplesmente estagnar-se em uma inanição sem vida. Mas esta concepção não foi incorporada por eles em qualquer mito ou lenda. Ver Nota 7.

Nota 3

Na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel. (Míriel “morreu” em Aman ao se recusar a não mais viver no corpo, e desse modo levantou toda a questão da separação não natural de um fëa élfico e seu hröa, e da privação de elfos que ainda viviam: Finwë, seu esposo, foi deixado solitário.) Os Valar, ou Mandos como o porta-voz de todas as ordens e, em muitos casos, seu executor, receberam poder para convocar, com total autoridade, todos os fëar desabrigados de elfos à Aman. Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem realojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.

A eles era dada uma escolha, pois Eru não permitia que seu livre-arbítrio lhes fosse retirado. De modo similar, os fëar desabrigados eram convocados, e não trazidos, a Mandos. Eles poderiam recusar as invocações, mas isto indicaria que de algum modo eles foram maculados, ou não desejariam recusar a autoridade de Mandos: a recusa tinha graves conseqüências, procedendo inevitavelmente da rebelião contra a autoridade.

Eles “geralmente permaneciam em Aman”. Simplesmente porque eles ficavam, quando realojados, mais uma vez em seus verdadeiros corpos físicos, e retornar à Terra-média era, portanto, muito difícil e arriscado. Além disso, durante o período do Exílio dos Noldor, os Valar haviam momentaneamente cortado todas as comunicações (por meios físicos) entre Aman e a Terra-média. Os Valar certamente poderiam ter arranjado a transferência, se houvesse uma razão suficientemente grave. A privação de amigos e parentes aparentemente não era considerada uma razão suficiente. Provavelmente sob a instrução de Eru. De qualquer forma, no que diz respeito aos Noldor, estes, como um povo, isolaram-se da misericórdia; eles deixaram Aman exigindo liberdade absoluta para serem seus próprios mestres, para prosseguirem com sua guerra contra Melkor com seu próprio valor desassistido, e para enfrentar a morte e suas conseqüências. O único caso de um arranjo especial registrado nas Histórias é o de Beren e Lúthien. Beren foi morto logo após seu casamento, e Lúthien morreu de tristeza. Ambos foram realojados e enviados de volta à Beleriand; mas ambos tornaram-se “mortais” e posteriormente morreram de acordo com a longevidade humana normal. A razão para isso, que deve ter sido realizado por uma permissão expressa de Eru, não ficou completamente aparente até tempos depois, mas certamente fora de um peso único. A tristeza de Lúthien era tão grande que, de acordo com os Eldar, levou à piedade até mesmo Mandos, o Inabalável. Beren e Lúthien juntos realizaram o maior de todos os feitos contra Melkor: a recuperação de uma das Silmarils. Lúthien não era dos Noldor, mas filha de Thingol (dos Teleri), e sua mãe Melian era “divina”, uma Maia (um dos membros inferiores da raça espiritual dos Valar). Desse modo, da união de Lúthien e Beren, que foi possível devido ao seu retorno, ocasionou-se a infusão tanto de uma linhagem “divina” como de uma élfica na humanidade, fornecendo um elo entre a humanidade e o Mundo Antigo, após o estabelecimento do Domínio dos Homens.

Nota 4

Mais cedo ou mais tarde: porque os elfos acreditavam que os fëar dos homens mortos também iam para Mandos (sem escolha quanto a isso: seu livre-arbítrio com respeito à morte era retirado). Lá esperavam até que fossem entregues a Eru. A verdade disto não é assegurada. Nenhum homem vivo tinha permissão de ir a Aman. Nenhum fëa de um homem morto jamais retornou à vida na Terra-média. Para todos os semelhantes decretos e afirmações havia sempre algumas exceções (por causa da “liberdade de Eru”). Eärendil alcançou Aman, mesmo na época do Banimento; mas ele carregava a Silmaril recuperada por sua ancestral Lúthien, e ele era meio-elfo, e não lhe foi permitido retornar à Terra-média. Beren retornou à vida de fato, por pouco tempo; mas ele na verdade jamais foi visto novamente por homens vivos.

A passagem “sobre o mar” para Eressëa (uma ilha à vista de Aman) era permitida, e de fato encorajada, a todos os elfos remanescentes na Terra-média após a queda de Morgoth em Angband. Isto realmente marcou o início do Domínio dos Homens, embora houvesse (na nossa visão) um longo período de crepúsculo entre a queda de Morgoth e a derrocada final de Sauron: isto é, continuando no decorrer da Segunda e Terceira Eras. Mas ao final da Segunda Era veio a grande Catástrofe (por uma intervenção de Eru que prenunciava, aparentemente, o Fim de Arda): a aniquilação de Númenor e a “remoção” de Aman do mundo físico. Portanto, a passagem de mortais “sobre o mar” após a Catástrofe – que é registrada nO Senhor dos Anéis – não é exatamente a mesma coisa. Esta foi, de qualquer modo, uma graça especial. Uma oportunidade para morrer de acordo com o plano original para os não caídos: eles chegavam a um estado onde poderiam adquirir um conhecimento e paz de espírito maiores, e estando curados de todos os ferimentos, tanto de mente como de corpo, por fim poderiam finalmente entregarem-se: morrer de livre vontade, e mesmo de desejo, em estel. Uma coisa que Aragorn alcançou sem qualquer tipo de auxílio.

Nota 5

Eles assim eram capazes de esforços físicos maiores e mais prolongados (em busca de algum objetivo dominante em suas mentes) sem fadiga; não estavam sujeitos à doenças; curavam-se rápida e completamente após ferimentos que teriam se mostrados fatais aos homens; e podiam suportar grandes dores físicas por longos períodos. Seus corpos não podiam, entretanto, sobreviver a ferimentos vitais ou a violentos ataques à sua estrutura; nem podiam substituir membros perdidos (tais como uma mão decepada). Por outro lado, os elfos podiam morrer, e morriam, por vontade própria; como, por exemplo, por causa de grande tristeza ou privação, ou por causa da frustração de seus desejos e propósitos dominantes. Esta morte intencional não era considerada imoral, mas era uma falta que indicava alguma deficiência ou mácula no fëa, e àqueles que chegavam a Mandos por estes meios poderia ser recusado uma outra vida encarnada.

Nota 6

Porque os Valar não possuíam tal informação; ou porque a informação era negada. Ver Nota 2 [quinto parágrafo].

Nota 7

Ver Nota 2. Os elfos esperavam que o Fim de Arda fosse catastrófico. Eles acreditavam que isto aconteceria pelo menos pela dissolução da estrutura de Imbar, se não de todo o sistema. O Fim de Arda não é, obviamente, a mesma coisa que o fim de Eä. Sobre isso sustentavam que nada poderia ser conhecido, exceto que Eä era derradeiramente finito. É digno de nota o fato de que os elfos não possuíam mitos ou lendas que tratassem do fim do mundo. O mito que aparece ao final do Silmarillion é de origem númenoreana; ele evidentemente foi criado por homens, embora os homens tivessem conhecimento da tradição élfica. Todas as tradições élficas são apresentadas como “histórias”, ou como relatos do que acontecera.

Estamos lidando aqui com o pensamento élfico em um período inicial, quando os Eldar ainda eram completamente “físicos” em forma corpórea. Muito mais tarde, quando o processo (já vislumbrado por Finrod) chamado “minguar” ou “desvanecer” tornou-se mais efetivo, suas opiniões a respeito do Fim de Arda, até onde os afetavam, devem ter sido modificadas. Mas existem poucos registros de quaisquer contatos do pensamento humano com o élfico em dias posteriores. Eles finalmente tornaram-se alojados, se isto pode ser assim chamado, não em hröar verdadeiramente visíveis e tangíveis, mas apenas na memória do fëa de sua forma corpórea e de seu desejo por ela; e, portanto, não dependentes da mera existência sobre o material de Arda. Mas eles parecem ter acreditado, e de fato ainda acreditam, que este desejo pelo hröa mostra que sua condição posterior (e atual) não lhes é natural, e permanecem na estel de que Eru irá curá-la. “Não natural”, ou devido completamente, como pensavam inicialmente, ao enfraquecimento do hröa (derivado da debilidade introduzida por Melkor na substância de Arda, sobre a qual ele deve se nutrir), ou devido parcialmente ao trabalho inevitável de um fëa dominante sobre um hröa material no decorrer de muitas eras. (No último caso, “natural” pode referir-se apenas a um estado ideal, no qual a matéria imaculada poderia suportar eternamente a habitação de um fëa perfeitamente adaptado. Não pode referir-se ao real desígnio de Eru, uma vez que os Temas dos Filhos foram introduzidos após o surgimento das dissonâncias de Melkor. O “minguar” dos hröar élficos deve ser, portanto, parte da História de Arda como contemplada por Eru, e modo pelo qual os elfos abririam caminho para o Domínio dos Homens. Os elfos consideravam sua substituição pelos homens um mistério, e um motivo de tristeza; pois eles diziam que os homens, pelo menos quanto a serem amplamente governados pelo mal de Melkor, possuem cada vez menos amor por Arda em si, e estão por demais ocupados em destruí-la na tentativa de dominá-la. Eles acreditam ainda que a cura de Eru de todos os pesares de Arda agora virá pelos ou através dos homens; mas a parte dos elfos na cura ou redenção será principalmente na restauração do amor de Arda, para o qual contribuirão suas memórias do Passado e compreensão do que poderia ter sido. Arda, dizem eles, será destruída pelos homens maliciosos (ou pela malícia nos homens), mas será curada pela bondade nos homens. A malícia, a dominante falta de amor, os elfos compensarão. Pela santidade dos homens bons – a ligação direta destes com Eru, anterior e acima de todas as obras de Eru – os elfos podem ser livrados do último de seus pesares: a tristeza; a tristeza que deve vir mesmo do amor altruísta de qualquer coisa abaixo de Eru.)

Nota 8

Desejo. Os elfos insistiam que os “desejos”, especialmente desejos fundamentais como são tratados aqui, deviam ser considerados como indicações das naturezas reais dos Encarnados, e da direção na qual sua satisfação imaculada deve se situar. Eles faziam distinção entre o desejo do fëa (percepção de que alguma coisa certa ou necessária não está presente, levando ao desejo ou esperança por ele), o desejo, ou vontade pessoal (o sentimento da falta de alguma coisa, a força que primeiramente diz respeito a si próprio, e que pode ter pouca ou nenhuma referência à adequação geral das coisas) e a ilusão, a recusa de reconhecer que as coisas não são como deveriam ser, levando à ilusão de que elas são como alguém desejaria que fossem, quando elas não são dessa forma. (O último poderia ser chamado agora de “pensamento desejoso”, legitimamente; mas este termo, diriam os elfos, é absolutamente ilegítimo quando aplicado ao primeiro. O último pode ser refutado por referência aos fatos. O primeiro não. A não ser que acredite-se que o desejo seja sempre ilusório e a única base para a esperança de correção. Mas os desejos do fëa podem ser freqüentemente mostrados como sendo razoáveis por argumentos não ligados ao desejo pessoal. O fato de que eles estão de acordo com o “desejo”, ou mesmo com a vontade pessoal, não os invalida. De fato, os elfos acreditavam que o “alívio do coração” ou a “instilação da alegria” (à qual eles freqüentemente referem-se), que podem acompanhar a declaração de uma proposição ou de um argumento, não é uma indicação de sua falsidade, mas sim do reconhecimento da parte do fëa de que ele está no caminho da verdade.)

Nota 9

É provável que Andreth na verdade estivesse relutante em dizer mais. Em parte por um tipo de lealdade que impedia os homens de revelarem aos elfos tudo o que sabiam sobre a escuridão em seu passado; e em parte porque ela sentiu-se incapaz de decidir-se quanto às conflitantes tradições humanas. Versões mais longas do Athrabeth, evidentemente editadas sob influência númenoreana, fazem-na dar, sob pressão, uma resposta mais precisa. Algumas são muitos breves, outras são mais longas. Contudo, todas concordam em tornar a causa do desastre a aceitação de Melkor como rei (ou rei e deus) pelos homens. Em uma versão, uma lenda completa (resumida na escala temporal) é fornecida explicitamente como uma tradição númenoreana, pois ela faz Andreth dizer: Este é o Conto que Adanel da Casa de Hador me contou. Os númenoreanos em sua maioria, e suas tradições não élficas principalmente, descendiam do Povo de Marach, do qual a Casa de Hador era líder. A lenda possui certas semelhanças quanto às tradições númenoreanas no que diz respeito ao papel desempenhado por Sauron na queda de Númenor. Mas isto não prova que ela seja completamente uma ficção dos dias pós-queda. Ela sem dúvida é derivada de tradições verdadeiras do Povo de Marach, completamente independente do Athrabeth. [Nota adicionada: Nada é afirmado, por meio desta, a respeito de sua “verdade”, história ou não.] as atividades de Sauron natural e inevitavelmente assemelhavam-se àquelas de seu mestre ou repetiam-nas. É triste que um povo de posse de tal lenda ou tradição tenha sido posteriormente iludido por Sauron mas, geralmente em vista da história humana, não é incrível. De fato, se peixes possuíssem tradições e sábios entre eles, o trabalho dos pescadores provavelmente quase não seria impedido.

Nota 10

A “Matéria” não é considerada má ou oposta ao “Espírito”. A matéria era completamente boa em origem. Ela permaneceu uma “criatura de Eru” e ainda boa em grande parte, e de fato autocurativa, quando não perturbada: isto é, quando o mal latente introduzido por Melkor não era despertado deliberadamente e usado por mentes malignas. Melkor concentrou sua atenção na “matéria” porque os espíritos só podiam ser completamente dominados pelo medo; e o medo era mais facilmente empregado através da matéria (especialmente no caso dos Encarnados, aos quais ele mais desejava subjugar). Por exemplo, pelo medo de que as coisas materiais que eram amadas pudessem ser destruídas, ou o medo (nos Encarnados) de que seus corpos pudessem ser feridos. (Melkor também usou e perverteu para seus propósitos o “medo de Eru”, completa ou vagamente compreendido. Mas isto foi mais difícil e perigoso, e exigiu mais astúcia. Espíritos inferiores poderiam ser atraídos pelo amor ou admiração dele próprio e de seus poderes, e conduzidos assim a uma postura de rebelião contra Eru. Seu medo Dele poderia então ser obscurecido, de modo que eles aderissem a Melkor, como um capitão e protetor, tornando-se por fim aterrorizados demais para retornarem à lealdade a Eru, mesmo após terem descoberto quem Melkor era e terem começado a odiá-lo.)

Nota 11

Na verdade isto já havia sido vislumbrado no Ainulindalë, no qual é feita referência à “Chama Imperecível”. Isto parece querer dizer a atividade Criativa de Eru (em certo sentido distinta Dele ou de dentro Dele), pela qual as coisas poderiam receber uma existência (embora derivativa e criada) “real” e independente. A Chama Imperecível é enviada a partir de Eru, para residir no coração do mundo e o mundo então É, no mesmo plano dos Ainur, e eles podem entrar nele. Mas isto, claro, não é o mesmo que a reentrada de Eru para derrotar Melkor. Isto refere-se ao mistério da “autoria”, pela qual o autor, apesar de permanecer “fora” e independente de seu trabalho, também “reside” nele, em seu plano derivativo, abaixo daquele de seu próprio ser, como a fonte e garantia de seu ser.