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The History of Middle-earth II – The Book of Lost Tales II

Em The Book Lost Tales II, Christopher Tolkien termina de apresentar aos leitores a primeira fase do trabalho de seu pai, que foi até o início dos anos 20 e gerou as primeiras versões da mitologia do Silmarillion. Neste segundo livro dos Lost Tales, as histórias avançam para a chegada dos Noldoli ou Gnomos (os futuros Noldor) às Grandes Terras e sua guerra com Melkor.

 

A primeira história é a de Tinúviel e Beren, e o leitor já é confrontado com o abismo entre a versão de O Silmarillion e a antiga: Beren é um elfo, um dos Noldor, e toda a complicada relação entre Nargothrond e Doriath, envolvendo Celegorm, Curufin e Finrod Felagund, ainda não havia aparecido. Mas o mais impressionante é a figura de Tevildo, o Príncipe dos Gatos, um espirito maligno em forma felina que, nessa versão do mito, desempenha um papel muito semelhante ao que Sauron desempenharia posteriormente.

A seguir, temos a primeira versão da história de Túrin Turambar, e a história da queda de Gondolin na versão mais completa que chegou a ser escrita por Tolkien. É interessante notar que, nesse estágio, Gondolin havia sido fundada apenas depois da Batalha das Lágrimas Incontáveis, e Tuor não tinha nenhuma relação com a casa de Hador; na verdade, as três casas dos amigos-dos-elfos ainda não tinham sido criadas.

Outra grande surpresa dos Lost Tales é o papel dos anões na história do Nauglafring (o futuro Nauglamír do Silmarillion). Os anões dessa versão são seres envelhecidos, soturnos e perversos, que se unem a um Noldo da corte de Tinwelint (Thingol) para se apoderar da Silmaril.

Encerrando os Lost Tales, temos os fragmentos da História de Eärendel (Eärendil) e de Eriol ou Aelfwine, o marinheiro humano que teria escrito os Lost Tales. Mais diferenças fascinantes aparecem: a princípio, a Guerra da Ira havia sido iniciada sem a permissão dos Valar, e Eärendel não tinha o papel de salvador que desempenhou depois na mitologia. E, através da história de Eriol, sentimos qual era o projeto inicial de Tolkien: Tol Eressëa, a Ilha Solitária, teria se aproximado das Terras Mortais e se tornado a ilha de Leithien (a Inglaterra). E a tradição dos elfos teria sido preservada em solo inglês, inspirando a mitologia que Tolkien criaria.

Conteúdo do Livro

Contos – "The Tale of Tinúviel", "Turambar and the Foalókë", "The Fall of Gondolin", "The Bauglafring", "The Tale of Eärendel" e "The History of Eriol or AElfwine and the End of the Tales"
Poemas – "Éala Éarendel Engla Beorhtast", "The Bidding of the Minstrel", "The Shores of Faëry", "The Happy Mariners", "The Town of Dreams and the City of Present Sorrow" e "The Song of Eriol"
Escritos datam de 1916 – 1920

Appendix – Names in the Lost Tales Part II:
Retirado dos primeiros "lexicons" das línguas Élficas e também inclui palavras em "Qenya" e "Goldogrin or Gnomish". Também inclui palavras da "The Namelist to the Fall of Gondolin"
Escritos datam de 1915

A Segunda Profecia de Mandos

Luthiens_Lament_Before_MandosExiste uma referência no Contos Inacabados, na seção Os Istari, que diz o seguinte: “Manwë não descerá da Montanha até a Dagor Dagorath, e a Chegada do Fim, quando Melkor retornará“. Christopher Tolkien fez um comentário no pé da página, ao leitor: “Esta é uma referência à Segunda Profecia de Mandos, que não aparece no Silmarillion; sua elucidação não pode ser tentada aqui, uma vez que necessita de algum explicação da história da mitologia em relação à versão publicada”.

Unfinished Tales foi publicado em 1980, e, afortunadamente, com a publicação, em 1986 do quarto volume da The History of Middle-earth, entitulado The Shaping of Middle-earth, pode-se ententer mais sobre a Segunda  Profecia de Mandos. Elas aparecem neste volume de duas formas, no primeiro Silmarillion, o Sketch of the Mythology como escrito para o primeiro professor de Tolkien, R. W. Reynolds por volta de 1926, e também no Quenta Silmarillion propriamente escrito por volta de 1930. Para a versão do primeiro Silmarillion, veja section 19, pp. 40-1 de The Shaping of Middle-earth. A segunda versão, da qual alguns trechos abaixo foram retirados, encontra-se em section 19 , pp. 163-5 do mesmo volume:”Após o triunfo dos Deuses, Earendel continuou a navegar nos mares do céu, mas o Sol o queimava e a Lua o caçava no céu… Então os Valar desceram de seu navio branco, Wingelot, para a terra de Valinor, e o enxeram com brilho e o consagraram, e o lançaram através da Porta da Noite. E por muito tempo Earendel navegou na vastidão sem estrelas, Elwing a seu lado, a Silmaril à sua fronte, navegando o Escuro atrás do mundo, uma brilhante e fugitiva estrela. E algumas vezes ele retornava e brilhava atrás dos cursos do Sol e da Lua sob a proteção dos Deuses, mais brilhante que todas as outras estrelas, o marinheiro do céu, mantendo guarda a Morgoth até os confins do mundo. Dessa forma deverá navegar até que veja a Última Batalha sendo lutada nas planícies de Valinor.

Dessa forma falou a profecia de Mandos, que ele declarou em Valmar durante o julgamento dos Deuses, e rumores dele são sussurrados por todos os Elfos do Oeste: quando o mundo estiver velho e os Poderes cansarem-se, então Morgoth deverá retornar através da Porta para fora da Noite Eterna; e ele deverá destruir o Sol e a Lua, mas Earendel virá até ele como uma chama branca e o derrubará dos ares. Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwe e à sua esquerda estará Turin Turambar, filho de Hurin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Turin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então as Crianças de Hurin e todos os homens estarão vingados.

 

Então as Silmarilli serão recuperadas do mar, da terra e do céu; pois Eärendil descerá e dará aquela chama a qual mantinha posse. Então Feanor utilizará as Três e com seu fogo reacenderá as Duas Árvores, e uma grande luz surgirá; a as Montanhas de Valinor serão rebaixadas, para que a luz possa atingir todo o mundo. Naquela luz os Deuses novamente sentir-se jovens, e os Elfos despertão e todos os mortos levantarão, e o propósito de Ilúvatar estará completo em relação a eles. Mas dos Homens naquele dia a profecia não fala, com excessão de  Turin apenas, e a ele o nomeia entre os Deuses.

History of Middle-earth VIII – The War of the Ring

Com "The War of the Ring" (A Guerra do Anel), a série History of Middle-earth chega a uma de suas fases mais bem documentadas, num período que abrange basicamente o final da Segunda Guerra Mundial. Christopher Tolkien, então servindo na RAF (Real Força Aérea britânica), recebia de seu preocupado pai cartas constantes, muitas delas acompanhadas de grandes trechos de "O Senhor dos Anéis", que alcançava seus momentos decisivos.
 

"The War of the Ring", título que chegou a ser cogitado para o terceiro volume da saga, traz textos que vão da batalha no Abismo de Helm até a chegada dos Capitães do Oeste ao Portão Negro de Mordor. Mesmo tão perto do final da história, a multidão de rascunhos e passagens rejeitadas mostra que Tolkien ainda continuava tateando e experimentando para chegar ao texto ideal.

Um caso clássico disso é a passagem na qual o palantír de Orthanc aparece pela primeira vez: a princípio, a esfera negra que Gríma lança do alto da torre de Saruman simplesmente se espatifa nos degraus, sem que o autor tivesse qualquer idéia de sua importância para o futuro da história.

O próprio Faramir, um dos personagens mais conhecidos e amados pelos leitores (ou seria pelas leitoras?), surge como um obscuro capitão gondoriano de nome Falborn, para só posteriormente tomar o lugar de irmão de Boromir. Sobre isso, Tolkien escreve: "Tenho certeza de que não o inventei, nem mesmo o quis na história (embora goste dele), mas lá veio ele caminhando pelos bosques de Ithilien". O encontro inicial de Faramir com Frodo e Sam tem um clima bem mais tenso, com o nobre de Gondor abertamente desconfiado de uma traição contra Boromir.

A história dos combates decisivos no Pelennor e diante do Portão Negro também é um tanto estranha: para se ter uma idéia, estava inicialmente programado que um exército combinado de Ents e Elfos aparecesse para ajudar as forças de Aragorn no assalto a Mordor.

O livro conta com as já tradicionais notas de Christopher Tolkien sobre a evolução da história e belos desenhos em preto e branco, feitos pelo próprio Tolkien, de lugares como o Templo da Colina. Minas Tirith e a Toca de Laracna.

The History of Middle-earth X – Morgoth’s Ring

Para quem já mergulhou fundo nos temas da mitologia tolkieniana mas sente falta de ouvir a voz do autor sobre os grandes personagens e acontecimentos de seu universo ficcional, “Morgoths Ring” (O Anel de Morgoth) é o livro indicado. O décimo livro da série é talvez o mais rico em saborosos ensaios, nos quais o autor amarra a história de Arda numa só visão criativa e analítica.
“Morgoths Ring” documenta uma (rara) fase de criatividade sem travas de Tolkien, logo depois que “O Senhor dos Anéis” foi finalmente completado e o velho Professor se sentiu livre para voltar às lendas dos Dias Antigos da Terra-média, abandonadas desde 1937 (doze anos antes, portanto).

Os textos começam seguindo uma ordem mais ou menos linear, a partir do Ainulindalë, o mito da criação de Arda, e seguindo pela história dos povos élficos até a fatídica rebelião de Fëanor. É nesse momento que “O Silmarillion” que nós conhecemos chega à sua forma quase definitiva (embora volta e meia Christopher Tolkien mostre onde ele precisou mexer para que o texto mantivesse sua coerência interna).

Dá para ver, por exemplo, que o texto final precisou misturar os Anais de Aman (um relato cronológico da história de Valinor) com o Quenta Silmarillion propriamente dito. É possível depreender o tempo que se passou entre o despertar dos Elfos e a chegada dos Noldor à Terra-média (uma bagatela de uns 4.200 anos), além de conferir algumas guloseimas que ficaram de fora do livro, como o Juramento de Fëanor em verso (acreditem, é um show) ou a bela descrição dos povos élficos:

“Os Vanyar são os Elfos Abençoados, e os Elfos da Lança, os Elfos do Ar, os amigos dos Deuses, os Elfos Sagrados e Imortais, e os Filhos de Ingwë; eles são o Belo Povo e o Alvo.

Os Noldor são os Sábios, e os Dourados, os Valentes, os Elfos da Espada, os Elfos da Terra, os Inimigos de Melkor, os de Mão Hábil, os Artífices de Jóias, os Companheiros dos Homens, os Seguidores de Finwë.”

Mas a coisa esquenta mesmo nas partes não-narrativas. Tolkien mergulha nos motivos das tragédias que determinaram a história de Arda e na cultura élfica. Exemplos disso são “Leis e Costumes entre os Eldar” (que pode ser lido aqui na Valinor), relatando a vida élfica do nascimento ao casamento; e “A História de Finwë e Míriel”.

Como cereja do bolo, temos o Athrabeth Finrod ah Andreth (o Diálogo de Finwë e Míriel, também disponível aqui na Valinor). Numa bela e apaixonada discussão filosófica, o rei élfico Finrod e a sábia humana Andreth, o destino final de Elfos e Homens em Arda é esmiuçado, revelando uma surpreendente ligação com a fé de Tolkien.

E não é só isso, como diriam as Organizações Tabajara: na seção Myths Transformed (Mitos Transformados), Tolkien revê os pressupostos básicos de sua mitologia (como a origem dos orcs e a Terra plana antes da Queda de Númenor) e chega a dizer que – pasmem – eles podem estar errados. Ainda bem que ele resistiu a mais essa revisão de seus textos…

 

Índice do Livro

 

Parte Um

Ainulindale

 

Parte Dois

Os Anais de Aman
Sexta Sessão
Parte Três
O Silmarillion tardio
A Primeira Fase
1 Dos Valar
2 De Valinor e das Duas Árvores
3 Do Despertar dos Elfos
4 De Thingol e Melian
5 De Eldanor e os Príncipes dos Eldalië
6 Das Silmarils e o Escurecer de Valinor
7 Da Fuga dos Noldor
8 Do Sol e Lua e o Ocultar de Valinor
Segunda Fase
O Valaquenta
A Mais Antiga Versão da História de Finwë e Míriel
De Fëanor e o Desacorrentar de Melkor
Das Silmarils e o Revolta dos Noldor
Do Escurecimento de Valinor
Do Abuso das Silmarils
Da Disputa de Ladrões
Parte Quatro
Parte Cinco

 

A Nova Sombra (The New Shadow)

Este conto se inicia nos dias de Eldarion, filho daquele Elessar de
quem as histórias têm muito a dizer. Cento e cinco anos se passaram
desde a queda da Torre Negra, e a história daquele tempo é pouco
lembrada pela maioria do povo de Gondor; mas existiam uns poucos que
continuavam vivendo e que se lembravam da Guerra do Anel como uma
sombra sobre o começo de suas infâncias. Um desses era o velho Borlas
de Pen-arduin. Ele era o filho mais novo de Beregond, o primeiro
Capitão da Guarda do Príncipe Faramir, que se mudara com seu senhor da
Cidade para Emyn Arnen.

 
"Realmente profundas são as raízes
do Mal", disse Borlas, "e a força negra é forte nelas. Aquela árvore
nunca será morta. Deixe os homens podá-las tão freqüentemente quanto
possam, elas lançarão brotos tão logo eles virem as costas. Nem mesmo
na Festa da Derrubada deverá o machado ser pendurado na parede!"

"Claramente você pensa estar falando palavras sábias", disse Saelon.
"Suponho isso pela melancolia em sua voz, e pelo balançar de sua
cabeça. Mas sobre o que é tudo isso? Sua vida parece bastante boa
sempre, para um homem idoso que agora não vai muito longe. Onde você
encontrou um galho de sua árvore negra crescendo? Em seu próprio
jardim?"

Borlas levantou os olhos, e enquanto olhava
penetrantemente para Saelon ele imaginou repentinamente se este jovem
homem, geralmente alegre e freqüentemente meio zombeteiro, tinha mais
em sua mente do que transparecia em sua face. Borlas não tinha intenção
de abrir seu coração a ele, e tendo os pensamentos carregados falou em
voz alta, mais para si mesmo do que para seu companheiro. Saelon não
retornou seu olhar. Estava sussurrando suavemente, enquanto cortava um
apito de salgueiro verde com um afiado canivete.
Os dois homens
estavam sentados em uma árvore perto da escarpada margem leste do
Anduin, onde este corria aos pés das colinas de Arnen. Eles de fato
estavam no jardim de Borlas e sua pequena casa de pedras cinzentas
podia ser vista entre as árvores acima deles na inclinação da colina,
voltada para o oeste. Borlas olhou para o rio, e para as árvores com
suas folhas de Junho, e então longe, para as torres da Cidade sob o
brilho do final da tarde. "Não, não em meu jardim", ele disse,
ponderadamente.

"Então porque você está tão preocupado?"
perguntou Saelon. "Se um homem tem um belo jardim com muros fortes,
então ele possui tanto quando qualquer homem pode administrar para seu
próprio prazer". Ele fez um intervalo. "Enquanto mantiver a força da
vida nele", ele acrescentou. "Quando esta falha, porque se preocupar
com qualquer outro mal menor? Pois então ele deverá deixar seu jardim
para sempre em breve, e outros deverão cuidar das ervas daninhas".

Borlas suspirou, mas não respondeu, e Saelon continuou: "Mas existem
com certeza alguns que não se darão por contentes, e ao fim de suas
vidas preocuparão seus corações sobre seus vizinhos, e a Cidade, e o
Reino, e todo o amplo mundo. Você é um deles, Mestre Borlas, e sempre
tem sido, desde que eu o conheci como um garoto que você pegou em seu
pomar. Já naquele tempo você não estava contente em deixar as desgraças
em paz: me deteria com uma surra ou fortaleceria seus muros. Não. Você
ficou pesaroso e quis me melhorar. Você me recebeu em sua casa e falou
comigo.

"Eu recordo disso bem. "Trabalho de Orcs", você
disse muitas vezes. "Roubando boa fruta, bem, eu suponho que não seria
pior do que trabalho de garotos, se eles estão famintos, ou seus pais
são muito libertários. Mas destruir maçãs que não estão maduras para
estragá-las ou jogá-las! Este é um trabalho de Orc. Como você veio a
fazer tal coisa, rapaz?""

"Trabalho de Orcs! Eu estava
irritado por isso, Mestre Borlas, e muito orgulhoso para responder,
embora estivesse no meu coração para dizer em palavras de crianças: "se
é errado para um garoto roubar uma maçã para comer, também é errado
roubar uma para brincar. Mas não mais errado. Não fale para mim sobre
trabalho de Orc, ou eu poderei lhe mostrar algum!""

"Foi um
erro, Mestre Borlas. Pois eu tinha ouvido contos sobre os Orcs e seus
atos, mas eu ainda não tinha me interessado por eles. Você voltou minha
mente para eles. Eu me afastei dos pequenos roubos [meu pai não era
muito libertário], mas eu não esqueci os Orcs. Comecei a sentir ódio e
pensar na doçura da vingança. Nós brincávamos de Orcs, eu e meus
amigos, e algumas vezes eu pensei: "Deveria eu com meu bando ir e
derrubar suas árvores? Então ele iria pensar que os Orcs realmente
retornaram". Mas isso foi há muito tempo atrás", terminou Saelon, com
um sorriso.

Borlas estava assustado. Ele agora estava
recebendo confidências e não fazendo. E existia algo de inquietante no
tom do jovem, algo que o fez perguntar-se se no fundo do coração, tão
profundo quanto as raízes das árvores negras, o ressentimento infantil
não perdurava. Sim, mesmo no coração de Saelon, o amigo de seu próprio
filho, e o jovem que nos últimos poucos anos tinha mostrado a ele muita
bondade em sua solidão. De qualquer modo ele decidiu não lhe dizer mais
nada de seus próprios pensamentos.

"Ah!" ele disse, "todos
nós cometemos erros. Eu não reivindico sabedoria, meu jovem, exceto
talvez aquela pequena que alguém pode acumular com o passar dos anos.
Sei muito bem a triste verdade de que aqueles que tem boas intenções
podem causar mais mal do que aquelas pessoas que deixam as coisas
acontecerem. Sinto muito agora pelo que eu disse, se provocou ódio em
seu coração. Embora eu continue achando o mesmo: fora de hora talvez,
mas ainda verdade. Certamente mesmo um garoto precisa compreender que
fruta é fruta, e não alcança seu pleno existir até estar madura; então
fazer mau uso dela antes de madura é pior do que apenas roubá-la do
homem que a está cuidando: pois rouba o mundo, impedindo uma boa coisa
de se concretizar. Aqueles que assim o fazem estão unindo forças com
tudo que está fora de ordem, com as geadas e feridas e os ventos ruins.
E este é o estilo dos Orcs."

"E é o estilo dos homens
também," disse Saelon. "Não! Eu não quero dizer dos homens selvagens
apenas, ou aqueles que cresceram "sob a sombra", como dizem. Quero
dizer todos os Homens. Eu não faria mau uso de frutas verdes agora, mas
apenas porque eu não tenho mais nenhum uso para maçãs verdes, nem para
suas orgulhosas razões, Mestre Borlas. E realmente eu acho que suas
razões são tão enfermas quanto uma maçã que ficou muito tempo na loja.
Para as árvores todos os Homens são Orcs. Os Homens consideram a
concretização da história da vida de uma árvore antes de cortá-la? Pois
não importa o propósito: para ter espaço para lavoura, para usar sua
madeira em construções ou como combustível, ou meramente para abrir a
vista? Se as árvores fossem os juízes, poderiam colocar os Homens acima
dos Orcs, ou realmente acima das geadas e feridas? O que é mais
correto, elas poderiam perguntar, ter Homens se alimentando de sua
seiva ou as geadas?

"Um homem," disse Borlas, "que cuida de
uma árvore e a guarda das geadas e muitos outros inimigos não atua como
um Orc ou uma ferida. Se ele come sua fruta, ele não comete um dano.
Ela produz frutas mais abundantemente que suas necessidades para seu
próprio propósito: a continuação de sua própria espécie."

"Deixe-o comer a fruta então, ou brincar com ela," disse Saelon. "Mas
eu falei de matar, cortando ou queimando; e por qual direito os homens
fazem estas coisas às árvores."

"Não, você não falou. Você
falou do julgamento das árvores nesses assuntos. Mas árvores não são
juízes. Os filhos do Único são os mestres. Meu julgamento como um deles
você já conhece. Os males do mundo não estavam a princípio no grande
Tema, mas entraram com as desarmonias de Melkor. Os Homens não surgiram
com estas desarmonias; eles entraram depois como uma coisa nova,
diretamente de Eru, o Único, e então ele foram chamados Seus filhos, e
como tudo que estava no Tema eles possuem, para seu próprio bem, o
direito de usar todas as coisas corretamente, sem orgulho ou malícia,
mas com reverência.

"Se o menor dos filhos de um lenhador
sente o frio do inverno, a mais orgulhosa árvore não ficará ofendida se
for ordenada a ceder sua madeira para aquecer com fogo uma criança. Mas
a criança não pode estragar a árvore com brincadeiras ou malvadezas,
cortar sua casca ou quebrar seus galhos. E o bom lavrador usará
primeiro, se ele puder, madeira morta ou uma árvore velha; ele não
derrubará uma árvore jovem e a deixará apodrecer, sem outra razão a não
ser em seu prazer em lidar com o machado. Isto é Órquico!"

"Mas é sempre como eu disse: as raízes do Mal são profundas, e de longe
vem o veneno que trabalha em nós; por isso, tantos fazem estas coisas
de vez em quando, e tornam-se então realmente como os servos de Melkor.
Mas os Orcs fazem estas coisas todo o tempo; ferem com prazer todas as
coisas que podem sofrer, e são refreados apenas pela falta de poder,
não por prudência ou piedade. Mas já falamos o suficiente sobre isto."

"Por quê!" disse Saelon. "Nós apenas começamos. Não era sobre seu
pomar, nem suas maçãs, nem sobre mim que você estava pensando quando
falou do reaparecimento da árvore negra. Sobre o que você estava
pensando, Mestre Borlas, eu posso adivinhar, apesar de tudo. Eu tenho
olhos e ouvidos, e outros sentidos, Mestre." Sua voz diminuiu e
dificilmente podia ser ouvida sobre o murmúrio de um repentino vento
frio nas folhas, enquanto o sol se punha além de Mindolluin. "Você
então ouviu o nome?" Com pouco mais que um sopro ele formou as
palavras. "De Herumor?"

Borlas olhou para ele com surpresa e medo. Sua boca fez alguns movimentos trêmulos de fala, mas nenhum som veio dela.

"Vejo que ouviu," disse Saelon. "E você parece supreso ao perceber que
eu ouvi sobre ele também. Mas você não está mais surpreso do que eu ao
ver que este nome chegou até você. Pois, como eu digo, eu tenho olhos e
ouvidos aguçados, mas os seus estão agora turvos mesmo para o uso
diário, e o assunto tem sido mantido tão secreto quanto os perspicazes
conseguem."

"Quais perspicazes?" disse Borlas, repentina e
impetuosamente. A visão de seus olhos poderia ser turva, mas eles agora
queimavam com fúria.

"Por quê, aqueles que ouviram o
chamado do nome, claro," respondeu Borlas sem se perturbar. "Eles não
são muitos ainda, para or contra todo o povo de Gondor, mas o número
está aumentando. nem todos estão contentes desde que o Grande Rei
morreu, e alguns agora estão com medo."

"Então, como eu
supus," disse Borlas, "e este é o pensamento que esfria o calor do
verão em meu coração. Pois um homem pode ter um jardim com muros
fortes, Saelon, e mesmo assim não encontrar paz ou satisfação ali.
Existem alguns inimigos que tais muros não manterão afastados; pois seu
jardim é apenas parte de um reino protegido, apesar de tudo. É para os
muros do reino que devemos olhar para sua defesa verdadeira. Mas qual é
o chamado? O que ele poderiam fazer?" ele clamou, colocando sua mão no
joelho do jovem.

"Irei fazer uma pergunta antes de
responder a sua," disse Saelon; e agora ele olhava de forma penetrante
para o velho homem. "Como você, que senta-se aqui no Emyn Arnen e
raramente sai mesmo para a Cidade – como você ouviu os sussuros do nome
dele?"

Borlas olhou para o chão e prendeu duas mãos entre
os joelhos. Por algum tempo ele não respondeu. Finalmente ele olhou
para cima novamente; sua face tinha se enrijecido e seus olhos estavam
mais desconfiados. "Eu não responderei esta pergunta, Saelon," ele
disse. "não antes de eu ter feito a você outra pergunta. Primeiro me
diga," disse ele lentamente, "você é uma daqueles que atenderam ao
chamado?"
Um estranho sorriso tremeluziu pela boca do jovem.
"Ataque é a melhor defesa," ele responder, "ou pelo menos assim nos
ensinou o Capitão; mas quando ambos os lados utilizam este conselho
existe um confronto de batalha. Portanto irei contra você. Não
responderei a você, Mestre Borlas, até que você me diga: você é uma
daqueles que atendeu ao chamado, ou não?"

"Como pode pensar isso?" gritou Borlas.

"E como você pode pensar isso?" perguntou Saelon.

"Quanto a mim," disse Borlas, "todas as minhas palavras não te deram a resposta?"

"Mas quando a mim, você poderia dizer," disse Saelon, "minha palavras
me fazem duvidável? Porque eu defendi um pequeno menino que jogou maçãs
verdes em seus companheiros de jogo em nome de Orcs? Ou porque eu falei
do sofrimento das árvores nas mãos dos homens? Mestre Borlas, não é
sábio julgar o coração de um homem pelas palavras ditas em argumento
sem respeito pelas suas opiniões. Ela podem ter sido ditas para
perturbá-lo. Arrogante talvez, mas possivilmente melhor do que mera
imitação. Eu não duvido que muitos daqueles que falam usam palavras tão
solenes quanto as suas, e falam reverentemente do Grande Tema e tais
coisas – na sua presença. Então, quem deverá responder antes?"

"O mais jovem deverá fazê-lo em cortesia ao idoso," disse Borlas; "ou
entre homens considerados iguais, aquele a quem foi perguntado
primeiro. Você é ambos."

Saelon sorriu. "Muito bem," ele
disse. "Deixe-me ver: a primeira questão que você fez e ficou sem
resposta foi: o que é o chamado, o que eles podem fazer? Você não pode
encontrar nenhuma resposta no passado com toda sua idade e
conhecimento? Eu sou jovem e menos instruído. Contudo, se você
realmente deseja saber, eu talvez possa fazer os sussuros mais claros a
você."

Ele se levantou. O sol tinha se posto por trás das
montanhas; as sombras estavam se aprofundando. O muro oeste da casa de
Borlas no lado da colina estava amarelado no vermelhidão do pôr-do-sol,
mas o rio estava escuro. Ele olhou para o céu, e então para o Anduin.
"É uma bela e tranquila tarde," ele disse, "mas o vento está mudando
para o leste. Existirão nuvens cobrindo a lua esta noite."

"Então, porque tudo isso?" disse Borlas, tremendo um pouco enquanto o
ar esfriava. "A menos que você apenas queira dizer a um velho homem
para se apressar para dentro de casa e poupar seus ossos da dor." Ele
levantou-se e viou-se para o caminho da casa, pensando que o jovem não
tinha intenção de dizer mais nada; mas Saelon parou junto a ele e
pousou uma mão em seu braço.

"Eu te previno para se vestir
bem após o anoitecer," ele disse. "Isto é, se você deseja aprender
mais; pois se deseja, virá comigo em uma jornada esta noite. Eu irei
encontrá-lo no portão leste, atrás da sua casa; ou pelo menos deverei
passar por aquele caminho tão logo esteja completamente escuro, e você
poderá vir comigo ou não, como quiser. Eu estarei vestido de preto, e
qualquer um que vá comigo deve estar vestido da mesma maneira. Adeus
por agora, Mestre Borlas! Aconselhe-se consigo mesmo enquanto a luz
perdura."

Por algum tempo depois de Saelon ter ido embora,
Borlas permaneceu parado, com os olhos fechados e descansando sua testa
contra a casaca de uma árvore ao lado do caminho. Enquanto permanecia
parado procurava em sua mente como esta estranha e alarmante conversa
tinha começado. O que ele faria após o cair da noite ele inda não
considerara.

Ele não estiva de bom humor desde a primavera,
embora suficientemente bem de corpo para sua idade, que o
sobrecarregava menos que sua solidão. Desde que seu filho, Berelach,
tinha se ido novamente em abril – ele estava nos Navios, e agora vivia
a maior parte do tempo perto de pelargir, onde seu trabalho estava –
Saelon tinha sido mais atencioso, a qualquer hora que estivesse em
casa. Ele viaja muito pelo reino atualmente. Borlas não estava certo de
seus negócios, embora ele compreendesse que, entre outros interesses,
ele negociava com madeira. Ele trouxera notícias de todo o reino para
seu velho amigo. Ou para o velho pai de seu amigo; pois Berelach tinha
sido sua constante companhia a certo tempo, embora aparentemente se
encontravam raras vezes hoje em dia.

"Sim, é isso," Borlas
disse para si mesmo. "Eu falei para Saelon de Pelargir, citando
Berelach. Ocorreram algumas pequenas inquietações no Ethir: alguns
marinheiros desapareceram, e também uma pequena embarcação da Esquadra.
Nada demais, de acordo com Berelach.
"A paz torna as coisas
frouxas," ele disse, eu me lembro, na voz de um sub-oficial. "Bem, eles
se foram em alguma brincadeira de si próprios, eu suponho – amigos em
um dos portos mais ocidentais, talvez – sem permissão e sem um piloto,
e afundaram. Serviu muito bem para eles. Nós temos tão poucos
marinheiros de verdade nestes dias. Peixe é mais rentável. Mas pelo
menos todos sabem que as costas ocidentais não são seguras para os
amadores."

"E foi tudo. mas eu falei disso para Saelon, e
perguntei se ele tinha ouvido alguma coisa disso no sul. "Sim," ele
disse, "Eu ouvi. Poucos ficaram satisfeitos com a visão oficial. Os
homens não eram amadores; eram filhos de pescadores. E não tem havido
tempestades fora do litoral há muito tempo.""

Enquanto
ouvia Saelon dizendo isto, repentinamente Borlas lembrou os outros
rumores, os rumores de que Othrondir falara. Era ele que costumava usar
a palavra "ferida". E então, meio que para si mesmo, Borlas falou em
voz alta sobre a �?rvore Negra.

Ele abriu seus olhos e
acariciou o formoso tronco da árvore onde tinha se apoiado, olhando
para cima para suas folhas sombrias contra o claro céu pálido. Uma
estrela brilhou por entre os galhos. Suavemente ele falou novamente,
como se para a árvore.

"Então, o que será feito agora?
Claramente Saelon está envolvido. Mas isto é claro? Existia o som de
zombaria em suas palavras, e escórnia da vida ordenada dos Homens. Ele
não responderia uma questão direta. As roupas negras! E ainda – porque
me convidar para ir com ele? Não para converter o velho Borlas!
Imprestável. Inútil tentar: ninguém poderia esperar vencer um homem que
se lembrava do Mal de antigamente, não importa quão distante. Inútil se
tiver sucesso: o velho Borlas não possui mais uso como ferramenta para
nenhuma mão. Saelon pode estar tentando bancar o espião, procurando
encontrar o que se esconde por detrás dos murmúrios. Preto pode ser um
disfarce, ou um auxílio para se esconder à noite. Mas novamente, o que
poderei fazer para ajudar em qualquer segredo ou missão perigosa? Eu
estaria melhor fora do caminho."

Com isso um pensamento
gélido tocou o coração de Borlas. Colocar fora do caminho – seria isso?
Ele seria atraído para algum lugar onde ele poderia desaparecer, como
os marinheiros? O convite para ir com Saelon foi dado apenas depois de
ter se assustado em revelar que sabia sobre os murmúrios – tendo até
mesmo ouvido o nome. E ele havia declarado sua hostilidade.

Este pensamento decidiu Borlas, e ele sabia que ele estava decidido
agora a fica de pe, vestido de preto, no portão, à primeira escuridão
da noite. Ele fora desafiado, e aceitaria. Ele bateu a palma de sua mão
contra a árvore. "Eu não estou caduco ainda, Neldor," ele disse; "mas a
morte não está tão longe que eu vá perder muitos bons anos, se eu
perder o jogo".

Ele aprumou suas costas e ergue a cabeça, e
caminhou pelo caminho, lenta mas firmemente. O pensamento cruzou sua
mente antes de pisar na soleira da porta: "talvez eu tenha sido
preservado por tanto tempo para este propósito: aquele que deve
continuar vivo, saudável em mente, que lembra o que se pasosu antes da
Grande Paz. O olfato possui uma longa memória. Eu acho que eu poderia
sentir o cheiro do antigo Mal, e conhecê-lo pelo que ele é."

A porta sob a varanda estava aberta; mas a casa atrás estava na
escuridão. Aparentemente não havia nenhum dos sons costumeiros do
anoitecer, apenas um silêncio frágil, um silêncio morto. Ele entrou, um
pouco surpreso. Ele chamou, mas não houve resposta. Ele parou na
estreita passagem que passava através da casa, e parecia que ela estava
envolvida em escuridão: nenhum vislumbre do crepúsculo do mundo lá fora
permanecia aqui. Repentinamente ele sentiu, ou assim pareceu, pois
vinha como se fosse de além dos sentidos: ele sentiu o cheiro do antigo
Mal e o conheceu pelo que ele era.

 
[tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega] 

Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto "Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em "O
Silmarillion" publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para "A Queda de Doriath" e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo "O Silmarillion", que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem mais
cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
 
 
 
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo
que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no "Conto de Turambar" (HoME II.113-15) e
no "Conto do Nauglafring" (HoME II.221 e próximas), passando pelo
"Rascunho da Mitologia" (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o
"Quenta" (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que
pode ser visualizado no "O Conto dos Anos" e em algumas poucas
referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história
contada em "O Silmarillion" publicado percebe-se logo de início que
este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que em
certas características essenciais não existe referência alguma mesmo
nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se
ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria
alguma outra solução que não aquela no "Quenta" para a questão "Como o
tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?". Lá, a maldição que Mîm
pôs sobre o ouro à sua morte "caiu sobre os seus possuidores. Cada um
dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas
Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o
tesouro para as Mil Cavernas". Como é dito no HoME IV.188, "isto
arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o
ouro com o qual então ele foi humilhado". Parece para mim mais provável
(mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os
fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os
portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da
Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do "The Wanderings of
Hurin" Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil
e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamente de Thingol com relação aos Anões é
impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no
Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de
Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei
(ver HoME II.245-6). No "Rascunho da Mitologia" nada mais é dito sobre
o assunto além de que os Anões foram "expulsos sem pagamento", enquanto
no "Quenta" "Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida
recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles,
e houve uma batalha nos Salões de Thingol". Parece não haver dicas ou
pistas nos escritos posteriores (no "Conto dos Anos" a mesma frase é
utilizada em todas as versões "Thingol discutiu com os Anões"), exceto
uma encontrada nas palavras transcritas do "Sobre Galadriel e
Celeborn": Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a
parte de Morgoth "e os próprios erros de Thingol".

No "Conto dos Anos" meu pai parece não ter considerado o problema da
passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do
Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras "não pode" na versão D
ele mostrou que ele considerava a história que delineou como
impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma
possível solução: "De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi
atráido para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto
pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturação removido Doriath é
destruída pelos Anões".

Na história que aparece em "O Silmarillion" os fora-da-lei que vão a
Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o
único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui
supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de
Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como
finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com
Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir
já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que
mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de
Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem
proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada
novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de
meu pai, citada à página 353, onde os Ents "Pastores de �?rvores", são
introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado
de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho
Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o
escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um
estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra
"manipulação" dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na
história de "A Queda de Gondolin", para qual meu pai nunca retornou,
algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na
narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à
história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente
incompatíveis com "O Silmarillion" como projetado e que havia uma
escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar
a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as
inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido,
ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

 
[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]

History of Middle-earth XII – The Peoples of Middle-earth

Pois é, tudo acaba, até as coisas que parecem inacabáveis – como a série History. Mas tudo bem, o final é em grande estilo. "The Peoples of Middle-earth" (Os Povos da Terra-média), por trás do título assumidamente genérico, traz mais testemunhos memoráveis do gênio criativo tolkieniano – a começar pela contracapa, com a reprodução de um belíssimo manuscrito, iluminado (ou seja, ilustrado) à maneira medieval pelo próprio autor.
 

Os textos voltam a "O Senhor dos Anéis", com a relato de como se desenvolveram os Apêndices da saga. Há coisas como a única genealogia conhecida dos príncipes de Dol Amroth (incluindo os filhos de Imrahil) e até uma raridade: o prefácio de "O Senhor dos Anéis" que existia na primeira edição, com um tom muito mais pessoal que o conhecido por nós (sempre reservado, Tolkien achou que devia alterar isso).

Há também uma série de interessantes ensaios filológicos e históricos. Um deles revela detalhes inéditos sobre a história dos Anões, inclusive os nomes de suas sete casas, além de uma grande aliança entre eles e os antepassados dos Rohirrim durante a Segunda Era. Outro mostra como uma simples desavença sobre a pronúncia das palavras aumentou ainda mais a rixa entre os partidários de Fëanor e os demais Noldor.

Mas as coisas mais legais são provavelmente dois textos curtos e inacabados, que deixam um terrível gostinho de "quero mais". São "The New Shadow" (A Nova Sombra, disponível na Valinor), com a continuação nunca terminada de "O Senhor dos Anéis", e "Tal-Elmar", com um raríssimo relato da chegada dos numenorianos à Terra-média vista pelos olhos dos Homens Selvagens.