Afinal, quem era Ungoliant?

O grande problema é que não existe afirmação alguma que seja categórica, do tipo “Ungoliant, a Maia, se aproximou de Telperion”. Mas o que podemos (e devemos) fazer é tentar raciocinar em cima dos materiais que foram publicados a respeito da “senhora de sua própria luxúria”.

De cara, podemos descartar a possibilidade de que ela fosse uma Vala. Conhecemos todos os Poderes Angélicos, e deles apenas Melkor se corrompeu. E os primeiros companheiros de queda de Melkor foram outras criaturas “angélicas”, da ordem dos Ainur, que se deixaram atrair pelo poder e majestade originais do mais poderoso dos Valar. Sem sombra de dúvida todas essas criaturas eram Maiar. E, embora os Eldar não soubessem com certeza de onde viera Ungoliant, eles acreditavam que “ela descera da escuridão que jaz à volta de Arda, quando Melkor pela primeira vez olhara com inveja para o Reino de Manwë, e que no princípio ela era uma dos que ele corrompeu para seu serviço” (O Silmarillion, “Do Escurecimento de Valinor”).

O que pouca gente sabe, contudo, é que a passagem continuava nos manuscritos de Tolkien, narrando com mais detalhes a conversa de Melkor e Ungoliant quando ambos planejavam a destruição das Árvores. Tal conversa foi finalmente reproduzida no livro “Morgoth´s Ring”, da série “The History of Middle-earth”. Eis um trecho dos mais significativos: “´Vem para fora!´, disse ele [Melkor]. ´Três vezes tola: primeiro por deixar-me, depois por viver aqui em torpor estando ao alcance de riquezas incontáveis, e agora por evitar-me, Provedor de Dádivas, tua única esperança!´”.

A implicação dessas passagens é que Ungoliant era realmente um espírito que Morgoth corrompera antes mesmo que Arda fosse feita, e que posteriormente tentou tornar-se independente de seu comando. Essas evidências me levam a crer, portanto, que a Destruidora das Árvores era realmente uma Maia.

O Apocalipse segundo Tolkien!

Com a publicação recente de O Silmarillion no Brasil, os fãs brazucas
de  Tolkien puderam finalmente conhecer a história da criação do mundo
de Arda e a origem de Elfos e Homens. O que pouca gente sabe é que 
Tolkien elaborou também uma narrativa sobre o fim do mundo. Publicada
postumamente no livro The Shaping of Middle-earth, da série The History
of Middle-earth, a história era inicialmente o epílogo do Silmarillion,
mas acabou sendo retirada das versões posteriores da mitologia. Vale a
pena conhecer esse texto:
 
 
 
"Depois do triunfo dos Deuses, Earendel navegou
ainda os oceanos do firmamento, mas o Sol o chamuscava e a Lua o caçava
no céu…Então os Valar ergueram seu navio branco Wingelot acima da
terra de Valinor, e o lançaram através da Porta da Noite. E por muito
tempo Earendel navegou dentro da vastidão sem estrelas, Elwing a seu
lado, a Silmaril sobre sua fronte, viajando pela Escuridão detrás do
mundo, uma estrela reluzente e fugitiva. E de quando em quando ele
retorna e brilha atrás dos cursos da Lua e do Sol acima das defesas dos
Deuses, mais brilhante que todas as outras estrelas, o marinheiro do
céu, guardando vigilância contra Morgoth nos confins do mundo. Assim
navegará ele até que veja a Última Batalha ser lutada sobre as
planícies de Valinor.

Assim falou a profecia de Mandos, que ele declarou em Valmar no
julgamento dos Deuses, e rumor dela foi sussurrado entre todos os Elfos
do Oeste: quando o mundo for velho e os Poderes se tornarem cansados,
então Morgoth retornará através da Porta, saído da Noite Atemporal; e
ele destruirá o Sol e a Lua, mas Earendel cairá sobre ele como uma
chama branca e o derrubará dos ares. Então a última batalha será lutada
nos campos de Valinor. Naquele dia Tulkas combaterá Melkor, e à sua
direita estará Fionwe e à sua esquerda Turin Turambar, filho de Hurin,
Conquistador do Destino; e será a espada negra de Turin que infligirá a
Melkor sua morte e fim definitivo; e assim serão os Filhos de Hurin e
todos os homens vingados.

Serão nesse momento as Silmarils recuperadas da terra, do mar e do ar;
pois Earendel descerá e entregará a chama que havia estado sob sua
guarda. Então Feanor tomará as Três e liberará seu fogo para reacender
as Duas �?rvores, e uma grande luz aparecerá; e as Montanhas de Valinor
serão aplainadas, para que a luz chegue ao mundo inteiro. Naquela luz
os Deuses se tornarão de novo jovens, e os Elfos acordarão e todos os
seus mortos se levantarão, e o propósito de Iluvatar quanto a eles
estará cumprido. Mas dos Homens naquela dia a profecia não fala, salvo
apenas de Turin, e ela o nomeia entre os Deuses".

Repare que, nas versões antigas do mito, o personagem que depois seria
o Maia Eonwë é Fionwë Úrion, FILHO de Manwë e Varda. É extremamente
tentador imaginar como seria a versão final dessa narrativa
apocalíptica, se Tolkien tivesse podido completar o Silmarillion ainda
em vida, mas o mais provável é que ela não vale como epílogo da
mitologia que nós conhecemos.

Eram os Valar os deuses nórdicos?

Quando Tolkien começou a esboçar sua mitologia, lá pelos meados dos anos 10 de nosso século, a inspiração mais forte para ele era a dos mitos do norte da Europa. E, aparentemente, o próprio conceito dos Valar surgiu influenciado pelos deuses do pantão germânico e nórdico.

A pista para essa possibilidade aparece no livro The Book of Lost Tales II, que reúne as versões mais antigas das histórias de Beren e Lúthien, de Túrin, da queda de Gondolin e de Eärendil. O personagem principal dos Lost Tales, porém, é o marinheiro humano Eriol, que parte da Europa medieval e navega na direção oeste até alcançar Tol Eressëa, a Ilha Solitária, onde os Eldar lhe contam as histórias dos Dias Antigos.

Eriol pertencia ao povo anglo-saxão, e contou aos elfos sobre os deuses de sua gente, como Wóden e Thunor (para os escandinavos, esses mesmos deuses seriam Odin e Thor, o senhor de Asgard e seu filho, o deus do trovão). Ao ouvirem as histórias de Eriol sobre seus deuses, os elfos imediatamente identificaram Odin com Manwë e Thor com Tulkas.

É claro que essas idéias foram posteriormente abandonadas, tanto pelo fato de que Manwë não é o pai de Tulkas no Silmarillion que conhecemos, como pela transformação dos Valar de deuses em Poderes Angélicos, os guardiões do Criador no mundo. Mas não deixa de ser interessante imaginar como seria a mitologia do Silmarillion hoje se ela tivesse continuado com essa orientação.

Bored of the Rings: as histórias que Tolkien não contava

Tudo bem, vamos pôr a coisa em contexto histórico. O ano é 1969, auge da contracultura nos EUA, e a edição norte-americana de O Senhor dos Anéis, lançada pela Ballantine Books em 1965, era um dos maiores fenômenos da cultura de massa na época. Foi então que dois estudantes de Harvard, Henry N. Beard e Douglas C. Kenney, resolveram criar a mais famosa e hilária paródia da trilogia: Bored of the Rings, que copia de forma corrosiva e às vezes obscena quase todos os aspectos do livro de Tolkien, até mesmo as línguas élficas, com o seu Auld Elvish, equivalente ao alto-élfico.

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Terra-média, o Um Anel de Morgoth

Quem lê sobre o final da Guerra da Ira e a derrota de Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, no Quenta Silmarillion, tende a ficar abismado com a violência do ataque dos Valar. Afinal, para derrotar o Inimigo do Mundo, o exército de Valinor afunda quase toda  Beleriand.
Pouca gente sabe, mas Tolkien deixou um ensaio que explica de maneira muito clara o porquê de toda essa destruição. Publicado no livro Morgoth’s Ring, o décimo da série The History of Middle-earth, o texto explica que Morgoth “fixou” sua forma física, ao contrário dos outros Valar, para “controlar a hroa, a ´carne´ ou matéria física, de Arda. Ele tentou identificar-se com ela, num procedimento muito parecido com o de Sauron e os Anéis, embora muito mais vasto e perigoso. Assim, fora do Reino Abençoado, toda ´matéria´ tendia a ter um ´ingrediente de Melkor´”.
Silma John Howe melkor3

Tolkien explica que, dessa forma, Morgoth foi transferindo sua antiga potência “angélica” para a própria Terra-média: “Por essa razão, Morgoth tinha que ser combatido, principalmente através de força física, e uma enorme destruição material seria o resultado provável de qualquer combate contra ele (…) Esta é a principal explicação para a contínua relutância dos Valar em entrar em combate aberto com Morgoth. A tarefa e o problema de Manwë eram muito mais difíceis que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth, disseminado. Toda a Terra-média era o Anel de Morgoth”.

O grande dilema dos Poderes do Mundo era que Arda seria irremediavelmente desfigurada, seja na vitória ou na derrota. Mas no fim, como sabemos, os Valar prevaleceram – ainda que pagando um alto preço.

Que tal seu nome em Quenya?

Se não dá pra simplesmente aprender quenya de uma hora pra outra, saber o próprio nome na língua mais importante do universo tolkieniano já é um grande avanço. Esse é o objetivo da página Quenya Lapseparma (Livro dos Bebês em quenya), que provê um verdadeiro dicionário de nomes ocidentais traduzidos para o alto-élfico.

De acordo com Ales Bican, criador da página, a idéia de fazer essa listagem surgiu quando ele leu o artigo “Now we have all got Elvish names” (Agora todos nós temos nomes élficos), escrito por Helge Fauskanger, do site Ardalambion, um dos melhores em atividade sobre lingüística tolkieniana. “Peguei alguns dicionários de nomes em inglês, como o Oxford Dictionary of English Christian Names, e comecei a tentar a tradução para o quenya”, conta Bican.

O resultado, bastante completo, revelou algumas surpresas. O nosso prosaico Marina (em latim, “mulher do mar”) se equipara a Eärwen (eär=mar + wen=donzela), o nome da mãe de Galadriel; Sansão (em hebraico, “filho do Sol”) é idêntico ao nome do filho caçula de Elendil, Anárion (anar=sol + ion=filho de).

Vale lembrar que sobrenomes também podem ser traduzidos, embora não apareçam na lista de Ales Bican. O brasileiríssimo Silva (em latim “da floresta”) ficaria Aldaron, enquanto Lopes (espanhol antigo “filho do lobo”) seria Narmion. O endereço do Quenya Lapseparma é http://www.elvish.org/elm/names.html.

Já o ensaio de Helge Fauskanger pode ser lido em http://www.uib.no/people/hnohf/elfnam.htm.

Romance relata saga de Isildur

Embora esboçada em muitos livros de Tolkien, a história da derrota de Sauron pelos exércitos da Última Aliança, no final da Segunda Era, nunca foi contada numa narrativa completa. Os irmãos americanos Brian e Gary Crawford, fãs de carteirinha de O Senhor dos Anéis, decidiram remediar isso, e escreveram uma das mais elaboradas fans fictions já inspiradas por Tolkien: o romance Isildur.

A intenção dos dois irmãos, a julgar pela leitura do livro, foi realmente esclarecer os “cantos escuros” deixados por Tolkien na narrativa sobre a Última Aliança. Na verdade, a história se passa depois que as tropas de Elendil e Gil-galad conseguiram invadir Mordor, impondo um cerco de sete anos a Barad-dûr. Isildur, liderando os soldados de Gondor, percorre praticamente toda Rhovanion, reunindo forças para o ataque final a Sauron.

Mas o herdeiro de Elendil enfrenta a oposição dos Numenoreanos Negros de Umbar, liderados pelo cruel Malithôr (que, no decorrer das Eras, se tornaria o terrível Boca de Sauron). Através de ameaças, Malithôr consegue dissuadir muitos aliados de Gondor a ajudar Isildur, entre eles os homens de Erech, que são amaldiçoados pelo filho de Elendil (outra história que fica na sombra em O Senhor dos Anéis). Um último conselho de Elfos e Homens é reunido em Osgiliath, e a Aliança parte para sua cartada final.

O romance é uma leitura agradável e bastante fiel ao clima do universo tolkieniano, embora os autores pequem em alguns detalhes.

A boa notícia é que a obra se encontra disponível para download, traduzida para o Português por Victor Luiz Barone Júnior e Luis Fernando C. Fogaça para a antiga e offline Dúvendor.

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