Terá sido a Guerra do Anel uma luta por liberdade religiosa?

À primeira vista os motivos para a Guerra do Anel e para a resistência
dos Povos Livres ao Senhor do Escuro parecem bem claros: o desejo de
preservar a liberdade política e a integridade física da tirania e
violência do Senhor do Escuro. Contudo, Tolkien aponta como causa
principal da resistência algo muito pouco evidente: a luta por
liberdade religiosa.
 
 
 

Num comentário escrito pelo
Professor sobre uma resenha de O Retorno do Rei de 1956, ele explica da
seguinte forma a causa do conflito na narrativa: “Em O Senhor dos
Anéis, o conflito não é basicamente sobre a ‘liberdade’, embora isso
esteja naturalmente envolvido. É sobre Deus, e seu direito exclusivo à
honra divina. Os Eldar e os numenoreanos acreditavam no Único, o
Verdadeiro Deus, e consideravam a adoração de qualquer outra pessoa uma
abominação. Sauron desejava ser um Deus-Rei, e era considerado assim
por seus servos; se tivesse sido vitorioso, ele exigiria honra divina
de todas as criaturas racionais e poder temporal absoluto sobre o mundo
todo”.

Por incrível que pareça, sob esse
ponto de vista a Guerra do Anel toma os contornos de uma verdadeira
guerra santa, e a luta contra Sauron se transforma numa rebeldia contra
a pior das escravid̵es Рa espiritual.

Gondor e seus egí­pcios

Os paralelos entre os povos e culturas do universo
tolkieniano e os do “mundo real” são sempre um dos temas preferidos dos
fãs do Professor. E é muito legal conhecer as idéias do próprio Tolkien
sobre esse assunto quando ele comenta, numa carta de 1958 à fã Rhona
Beare, sobre as semelhanças entre os homens de Gondor e alguns povos
antigos:

 

 

“Os numenoreanos de Gondor”, diz o Professor, “eram
altivos, peculiares e arcaicos, e são melhor representados em termos
(digamos) egípcios. Eles se pareciam com “egípcios” em muitas coisas –
o amor pelo gigantesco e pelo massivo, e a capacidade para construí-lo.
E também em seu grande interesse por ancestralidade e túmulos. (Mas
não, é claro, em teologia, a respeito da qual eles eram hebraicos, ou
ainda mais puritanos). Imagino que a coroa de Gondor, o reino do Sul,
era muito alta, como a do Egito, com asas colocadas não exatamente
juntas mas com um certo ângulo”
. Seguindo esse comentário, Tolkien
desenhou na carta uma coroa praticamente idêntica às usadas pelos
antigos faraós, com as afamadas asas de pássaros marinhos nas laterais.

 

Pois
bem, o Egito e Israel são influências, como já vimos. Em outras cartas,
Tolkien amplia esse leque incluindo o Império Bizantino e o Sacro
Império Romano: “O progresso da história [em O Senhor dos Anéis] termina com algo que se parece muito com o reestabelecimento de um
Sacro Império Romano com sua sede em Roma”.

Descubra os Sete Nomes de Gondolin!

As breves menções em O Silmarillion que atribuem a
Gondolin o título de “Cidade dos Sete Nomes” costumam deixar os
leitores curiosos a respeito das denominações da cidade de Turgon. O
único lugar em que esses nomes são citados é a narrativa “A Queda de
Gondolin”, publicada em The Book of Lost Tales II. Vale a pena conferir
o trecho:

 

 
“Então disse Tuor: ‘Quais são esses nomes?’. E o líder da Guarda
respondeu: ‘É dito e é cantado: Gondobar sou chamada e Gondothlimbar,
Cidade de Pedra e Cidade dos que Habitam na Pedra; Gondolin, a Pedra da
Canção, e Gwarestrin sou nomeada, a Torre de Guarda, Gar Thurion ou o
Lugar Secreto, pois estou oculta dos olhos de Melko; mas aqueles que me
amam mais grandemente chamam-me Loth, pois como uma flor eu sou, e
mesmo Lothengriol, a flor que desabrocha na planície'”.

É preciso ter em mente, porém, que esses nomes foram criados por
Tolkien em torno de 1915-16, o que faz com que eles não sejam
compatíveis com o sindarin “maduro”. Mesmo assim, eles ajudam a ter uma
idéia do papel fundamental que Gondolin desempenhou desde sempre na
imaginação tolkieniana.

Haleth, O Caçador???

A evolução dos textos que compõem O Silmarillion nunca deixa de
surpreender o leitor. Mas uma das transformações mais surpreendentes e
radicais na estrutura histórica da Primeira Era com certeza é a sofrida
por Haleth, a indomável líder dos Haladin de Brethil. O fato é que, até
a época em que O Senhor dos Anéis foi publicado, Haleth era um homem.
 
 
 
A primeira aparição de Haleth nos textos
tolkienianos data do começo dos anos 30, no Quenta Noldorinwa ou
“História dos Noldor”. A princípio, Tolkien concebera a chegada dos
Edain a Beleriand como liderada por dois personagens principais: Bëor,
o Velho, e Hador, o Cabeça-dourada. Um dos filhos de Hador seria
Haleth, o caçador. Posteriormente, porém, Tolkien decidiu separar
Haleth da Casa de Hador, e criar a Terceira Casa dos Edain, os homens
da floresta de Brethil. Como é possível perceber também, o intervalo de
tempo entre a chegada dos Edain e o fim da Primeira Era era bem menor;
assim, apenas duas gerações separavam Bëor de Beren, o mesmo
acontecendo com Hador, que nas genealogias posteriores tornar-se-ia
membro da QUARTA geração dos Edain em Beleriand.

Pelo menos até 1951 (quando O Senhor dos Anéis já estava concluído)
Tolkien ainda concebia Haleth como homem, como se pode perceber lendo
“Os Anais Cinzentos”, um dos textos-base do Silmarillion publicado por
Christopher Tolkien. Provavelmente foi só em 1958, quando Tolkien
revisou o “Quenta Silmarillion” e escreveu o capítulo “Da Vinda dos
Homens para o Oeste”, que a história de Haleth como a valente filha de
Haldad e única governante feminina da Primeira Era finalmente se
estabeleceu.

Quantos anos durou a Guerra da Ira?

Tolkien escreveu pouquíssimo material a respeito
do fim da Primeira Era depois que O Senhor dos Anéis foi concluído e
publicado. Praticamente os únicos dados que temos a respeito da Guerra
da Ira, a grande batalha na qual os Dias Antigos terminaram, está no
Conto dos Anos da Primeira Era, publicado no livro The War of the
Jewels.
 
 
 
Como em quase todos os
manuscritos de Tolkien, a quantidade de mudança e correção no Conto dos
Anos foi imensa. Porém, de acordo com Christopher Tolkien, a decisão
final de seu pai sobre a data do início da Guerra da Ira foi 545 da
Primeira Era. Mais surpreendente, porém, é o fato de que a data de
TÉRMINO da guerra é o ano 587. Ou seja: uma longa guerra de quarenta e
dois anos foi necessária para que Morgoth pudesse ser derrotado. E olha
que o texto do capítulo “Da Viagem de Eärendil e da Guerra da Ira”
parece dar a impressão de que houve apenas uma grande batalha…

Outro fato interessante: o Contos
dos Anos também indica o líder do exército dos Vanyar na Guerra, que
teria sido Ingwiel, filho do Rei Supremo Ingwë.

A última aventura de Húrin Thalion

A história de Húrin, Senhor de Dor-lómin e maior dos guerreiros mortais
na Primeira Era, sempre teve uma importância central para a mitologia
tolkieniana. Não é por acaso que grande parte de O Silmarillion relata
as desventuras de Húrin, sua esposa Morwen e seus filhos Túrin e
Nienor. Em The War of the Jewels, décimo-primeiro livro da série The
History of Middle-earth, Christopher Tolkien revela aos leitores o
texto “The Wanderings of Húrin” (As Andanças de Húrin), no qual uma
aventura até então não relatada desse grande herói vem à tona.
 
 
 
O texto conta que Húrin, assim como seu filho
Túrin, reúne à sua volta um grupo desesperado de proscritos depois de
ser libertado de Angband. Ele tenta achar a entrada para Gondolin, sem
sucesso, e depois parte para Brethil, onde encontra Morwen, sua esposa,
à beira da morte. Quando esta morre, Húrin passa a acreditar que o povo
de Brethil havia se recusado a auxiliá-la, e deseja vingança.

Contudo, enquanto descansava, Húrin é surpreendido pela guarda de
Brethil. Os soldados o tratam com desprezo, e desejam mantê-lo, mas ele
é salvo pelo capitão deles, Manthor, um membro da Casa de Haleth.
Contudo, o atual governante de Brethil, Hardang, crê que Húrin foi
enviado por Morgoth para destruir Brethil, e manda encarcerá-lo até que
aguardasse julgamento. Manthor, revoltado com isso, procura auxiliar
Húrin durante o julgamento.

Mas o resultado acaba sendo catastrófico: acusando os Haladin de
negarem abrigo a Morwen, Húrin acaba fazendo com que exploda uma guerra
civil em Brethil, na qual tanto Hardang quanto Manthor acabam mortos.
Impassível, Húrin parte da floresta em busca dos seus companheiros
proscritos, carregando consigo o peso da maldição de Morgoth.

Um pouco de humor tolkieniano

Nosso leitor Ricardo Pinheiro enviou uma pequena lista dos sintomas manifestados por quem é viciado em Tolkien. É, a coisa é patológica…
Você sabe que está lendo Tolkien demais quando:
  • Fica procurando runas élficas escritas nos brincos de argola da sua namorada… e depois os joga no fogo!

 

  • Começa a chamar gente baixinha de hobbit;

 

  • Jura que Bill Gates, na verdade, é Sauron disfarçado;

 

  • Vai na Floresta da Tijuca e tenta ouvir os animais e as árvores;

 

  • Vê um episódio de Jornada nas Estrelas e se pergunta: o Sr. Spock não é um elfo que foi parar em outro mundo?

 

  • Coloca no seu curriculum, na parte de idiomas: noções de alto-élfico e entês;

 

  • Monta uma rede com 9 computadores e os batiza assim: Gandalf, Aragorn, Frodo, Gimli…

 

  • … e reserva para aquele Windows que só trava e você detesta o nome de Sméagol, ou mesmo Gollum;

 

  • Monta 2 servidores no seu trabalho: Minas Tirith e Minas Morgul;

 

  • Vê um sacoleiro vindo do Paraguai e pergunta a ele se tem algum parentesco com os Sacola-Bolseiros;

 

  • Vira para um cara chato e xinga: “Seu Uruk-Hai!”;

 

  • … e se ele não entender, responde: “Apenas um orc…”

 

  • Quando for pai, pensa em um belo nome para o seu filho ou filha: Fangorn, Ugluk, Saruman, Arwen…

 

  • Começa a ouvir Led Zeppelin e gostar de Blind Guardian, não sabe por quê;

 

  • Acha que a maior concentração de ents ainda vivos está na Floresta Amazônica…

Afinal, quem era Ungoliant?

O grande problema é que não existe afirmação alguma que seja categórica, do tipo “Ungoliant, a Maia, se aproximou de Telperion”. Mas o que podemos (e devemos) fazer é tentar raciocinar em cima dos materiais que foram publicados a respeito da “senhora de sua própria luxúria”.

De cara, podemos descartar a possibilidade de que ela fosse uma Vala. Conhecemos todos os Poderes Angélicos, e deles apenas Melkor se corrompeu. E os primeiros companheiros de queda de Melkor foram outras criaturas “angélicas”, da ordem dos Ainur, que se deixaram atrair pelo poder e majestade originais do mais poderoso dos Valar. Sem sombra de dúvida todas essas criaturas eram Maiar. E, embora os Eldar não soubessem com certeza de onde viera Ungoliant, eles acreditavam que “ela descera da escuridão que jaz à volta de Arda, quando Melkor pela primeira vez olhara com inveja para o Reino de Manwë, e que no princípio ela era uma dos que ele corrompeu para seu serviço” (O Silmarillion, “Do Escurecimento de Valinor”).

O que pouca gente sabe, contudo, é que a passagem continuava nos manuscritos de Tolkien, narrando com mais detalhes a conversa de Melkor e Ungoliant quando ambos planejavam a destruição das Árvores. Tal conversa foi finalmente reproduzida no livro “Morgoth´s Ring”, da série “The History of Middle-earth”. Eis um trecho dos mais significativos: “´Vem para fora!´, disse ele [Melkor]. ´Três vezes tola: primeiro por deixar-me, depois por viver aqui em torpor estando ao alcance de riquezas incontáveis, e agora por evitar-me, Provedor de Dádivas, tua única esperança!´”.

A implicação dessas passagens é que Ungoliant era realmente um espírito que Morgoth corrompera antes mesmo que Arda fosse feita, e que posteriormente tentou tornar-se independente de seu comando. Essas evidências me levam a crer, portanto, que a Destruidora das Árvores era realmente uma Maia.

O Apocalipse segundo Tolkien!

Com a publicação recente de O Silmarillion no Brasil, os fãs brazucas
de  Tolkien puderam finalmente conhecer a história da criação do mundo
de Arda e a origem de Elfos e Homens. O que pouca gente sabe é que 
Tolkien elaborou também uma narrativa sobre o fim do mundo. Publicada
postumamente no livro The Shaping of Middle-earth, da série The History
of Middle-earth, a história era inicialmente o epílogo do Silmarillion,
mas acabou sendo retirada das versões posteriores da mitologia. Vale a
pena conhecer esse texto:
 
 
 
"Depois do triunfo dos Deuses, Earendel navegou
ainda os oceanos do firmamento, mas o Sol o chamuscava e a Lua o caçava
no céu…Então os Valar ergueram seu navio branco Wingelot acima da
terra de Valinor, e o lançaram através da Porta da Noite. E por muito
tempo Earendel navegou dentro da vastidão sem estrelas, Elwing a seu
lado, a Silmaril sobre sua fronte, viajando pela Escuridão detrás do
mundo, uma estrela reluzente e fugitiva. E de quando em quando ele
retorna e brilha atrás dos cursos da Lua e do Sol acima das defesas dos
Deuses, mais brilhante que todas as outras estrelas, o marinheiro do
céu, guardando vigilância contra Morgoth nos confins do mundo. Assim
navegará ele até que veja a Última Batalha ser lutada sobre as
planícies de Valinor.

Assim falou a profecia de Mandos, que ele declarou em Valmar no
julgamento dos Deuses, e rumor dela foi sussurrado entre todos os Elfos
do Oeste: quando o mundo for velho e os Poderes se tornarem cansados,
então Morgoth retornará através da Porta, saído da Noite Atemporal; e
ele destruirá o Sol e a Lua, mas Earendel cairá sobre ele como uma
chama branca e o derrubará dos ares. Então a última batalha será lutada
nos campos de Valinor. Naquele dia Tulkas combaterá Melkor, e à sua
direita estará Fionwe e à sua esquerda Turin Turambar, filho de Hurin,
Conquistador do Destino; e será a espada negra de Turin que infligirá a
Melkor sua morte e fim definitivo; e assim serão os Filhos de Hurin e
todos os homens vingados.

Serão nesse momento as Silmarils recuperadas da terra, do mar e do ar;
pois Earendel descerá e entregará a chama que havia estado sob sua
guarda. Então Feanor tomará as Três e liberará seu fogo para reacender
as Duas �?rvores, e uma grande luz aparecerá; e as Montanhas de Valinor
serão aplainadas, para que a luz chegue ao mundo inteiro. Naquela luz
os Deuses se tornarão de novo jovens, e os Elfos acordarão e todos os
seus mortos se levantarão, e o propósito de Iluvatar quanto a eles
estará cumprido. Mas dos Homens naquela dia a profecia não fala, salvo
apenas de Turin, e ela o nomeia entre os Deuses".

Repare que, nas versões antigas do mito, o personagem que depois seria
o Maia Eonwë é Fionwë Úrion, FILHO de Manwë e Varda. É extremamente
tentador imaginar como seria a versão final dessa narrativa
apocalíptica, se Tolkien tivesse podido completar o Silmarillion ainda
em vida, mas o mais provável é que ela não vale como epílogo da
mitologia que nós conhecemos.

Eram os Valar os deuses nórdicos?

Quando Tolkien começou a esboçar sua mitologia, lá pelos meados dos anos 10 de nosso século, a inspiração mais forte para ele era a dos mitos do norte da Europa. E, aparentemente, o próprio conceito dos Valar surgiu influenciado pelos deuses do pantão germânico e nórdico.

A pista para essa possibilidade aparece no livro The Book of Lost Tales II, que reúne as versões mais antigas das histórias de Beren e Lúthien, de Túrin, da queda de Gondolin e de Eärendil. O personagem principal dos Lost Tales, porém, é o marinheiro humano Eriol, que parte da Europa medieval e navega na direção oeste até alcançar Tol Eressëa, a Ilha Solitária, onde os Eldar lhe contam as histórias dos Dias Antigos.

Eriol pertencia ao povo anglo-saxão, e contou aos elfos sobre os deuses de sua gente, como Wóden e Thunor (para os escandinavos, esses mesmos deuses seriam Odin e Thor, o senhor de Asgard e seu filho, o deus do trovão). Ao ouvirem as histórias de Eriol sobre seus deuses, os elfos imediatamente identificaram Odin com Manwë e Thor com Tulkas.

É claro que essas idéias foram posteriormente abandonadas, tanto pelo fato de que Manwë não é o pai de Tulkas no Silmarillion que conhecemos, como pela transformação dos Valar de deuses em Poderes Angélicos, os guardiões do Criador no mundo. Mas não deixa de ser interessante imaginar como seria a mitologia do Silmarillion hoje se ela tivesse continuado com essa orientação.

Tudo sobre J. R. R. Tolkien, o Senhor dos Anéis e O Hobbit