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Velhice

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Paganus, 8 Ago 2013.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    -Meu amor morreu? Ou só mudou?

    Perguntava-se.

    Hoje já não havia sol morno, nem raios mais cálidos a aquecer dormências, hoje era só a brisa fria de um dia ameno. Ele pensava no que acontecera. Por que a imagem dela se tornava cada vez mais distante? Por que essa distância não era diáfana, etérea e apenas fantasmagórica? Ele a sentia se afastar cada vez mais da sua vida, dos seus pensamentos, mas de alguma forma seus cabelos e olhos negros permaneciam em seu coração. Cada vez menos sonhava com ela, cada vez menos se lembrava de suas palavras. E de seus gestos, trejeitos, caminhar. Coisas que foram tão importantes, tão essenciais... se esvaíam.

    Ele lembrava os sonhos que acalentara, das esperanças que nutrira, tudo aquilo de notável força moral, de grande importância na sua vida, tudo aquilo. Perdido! E tentava encontrar o momento em que isso se deu, em que se transformou a vida em algo mais complicado do que pensar no olhar dela, nas mãos, no colo. Talvez fosse... talvez quando ele encasquetara que o amor era impossível, que era inferior demais e ela por demais superior e se concentrara em repetir para si mesmo que devia ‘transformar a imagem dela em uma lembrança’, substituir o sentimento místico de adoração, de devoção, em uma lembrança doce, nem distante nem próxima, um recanto do cérebro que pudesse visitar quando sentisse falta mas sentia que, acima de tudo, lhe cumpria viver, seguir em frente. Daqui talvez se originasse o estado atual. Assim como passara, com a distância física, da paixão violenta à adoração quase religiosa da figura dela, talvez tivesse passado dos sonhos e das quimeras românticas a algo superior, um amor que não era mais amor, nem mesmo a admiração do primeiro olhar, mas algo diferente, algo sereno, doce.

    Não. Engana-se,certamente. Conforme os anos passavam percebia que seu amor mudava, embora essa percepção lhe fosse dolorosa, matando gradualmente sua alma romântica. Sofria com o constante ceticismo antes de perceber que não era cético da vida, mas apenas de si mesmo em relação a ela. Entendia que os afetos não eram eternos, que algumas fantasias eram fantásticas, que certos sonhos jamais aconteceriam pelo simples fato de se apoiarem em premissas falsas, em bases movediças, por se firmarem em edifícios morais e mesmo filosóficos que não eram maisque casas de madeira podre construídas à beira do mar, e a maré subia, subia, subia...não desesperara da verdade, de Deus, do bem, apenas os via com olhos menos feminis, com a alma fortalecida pela ciência e pela ascese. Tudo isso aprendera. Crescera. O amor se tornara uma lembrança nesse processo? Não, jamais. Como poderia? Como poderia ser que ela sumisse de si se, ao pensar nela, ainda que não o fizesse sempre, sentia as pernas tremerem, os olhos a se perderem, a alma a vagar, o coração a arder? E aquelas lágrimas que retinha a custo quando pensava no que poderia ter sido e não foi? E aquele sentimento de culpa, de impotência, de fragilidade,que atravessara a última pétala da flor da infância, passara pelo turbilhão da adolescência e ainda se mantinha atualmente? E, maior e mais avassalador e inconsolável que tudo, aquele abismo de ternura que envolvia o coração, engolfava todo o sentimento ruim, a tudo jogava no esquecimento, a tudo obscurecia para fazê-lo lembrar dela? Tudo ali. Ali ele tinha provas, apesar do seu ceticismo que lhe dava provas de sua leviandade, seu fantasismo, sua desconfiança para com seus sentimentos de amor, ali tinha ele a prova de que o amor existia. Sim, porque ninguém jamais o fizera sentir assim nem nunca o faria. Essa ternura era a prova irrefutável da existência do amor, de seu vigor e força, de sua vitalidade, de sua divindade.

    A verdade que não ousara confessar foi que o amor mudara, ele era agora mais que uma lembrança que se deseja manter, era uma força que fazia viver, uma flor de nostalgia, uma rosa de frescor juvenil, a luz que o mantinha de pé... Mesmo com as muitas paixões de minutos, horas, dias, semanas e mesmo meses, e até os grandes amores, os sentimentos de ternura, gratidão, a força que outras lhe concediam, lhe nutriam,ainda assim... era pouco ou nada diante do rosto dela. Percebia que se esquecia dela às vezes no começo, mas depois raramente se lembrava, tinha sempre mil coisas na cabeça e no peito, mas quando dela se lembrava, ou melhor, quando o coração que era todo dela comunicava o afeto ao cérebro, à consciência, ela vinha e imperava com toda sua majestade e nenhum pensamento negativo fazia mais que roçar as asas em um sol que lhes fritavam as penas todas. Com o tempo o sol queimava menos, e havia um solo pedregoso para tais pensamentos até mesmo pousarem, construírem ninhos em algumas árvores, se alimentarem... mas todos iam embora quando a terra voltava a se incendiar. Voltava sempre. Voltava mas algo mudara ainda, algo mais. Já se lembrava dela cada vez menos, mas nada lhe exigia, nada lhe imputava... nada. Assim como passara da idolatria mais pecaminosa de virtudes inexistentes e o esquecimento de vícios a uma antipatia feroz, a recriminações e maldições, agora...encontrara a paz.

    Mas ela era ainda mais que uma lembrança. Descobriu algo chocante, mesmo para ele que já se livrara de todas as ilusões, ele que julgava que nenhum movimento do amor lhe era desconhecido, que cria que nada ainda o surpreenderia. Descobriu que o sentimento envelhecera. Descobriu que o amor amadurecera. Ele viu com a clareza e a nitidez dos anjos que o amor não apenas não era o deus apolíneo dos poetas como não era uma mera projeção da individualidade e, portanto, sujeito a toda sorte de vicissitudes. O amor era uma coisa viva. Ele não se importou mais em definir o amor. Se for carinho, gratidão, um tipo de contra-solidão, um traço de divindade, um não-sei-o-quê... não queria saber. O que ele sabia é que assim como sentia em si a maturação de uma semente divina que sofria uma série de coisas para que pudesse morrer continuamente e ressuscitar sempre, cada vez mais purificado, iluminado, assim era seu amor por ela. Teve de sofrer, sua cruz, seu gólgota, um sofrimento longamente incrustado em si, um amor que se era fraco e infantil e tíbio por nunca ter sequer procurado se realizar, se alimentara de si mesmo por anos, se fortalecera com sua maturidade, com suas idéias, seus valores, sua alma toda. Ele entendia agora que não era sua compreensão do amor que mudara, era o próprio amor que mudara, de criança birrenta passara a um seminarista recatado e hoje era um padre velho, um ancião, um verdadeiro asceta que guardava aquele coração de desenganos, ilusões a partir de uma coisa que ali foi crescendo,germinando, maturando...

    Sentiu-se privilegiado.Quantos amores não morriam na sua aurora? Quantos não padeciam comum olhar? E quantos não se iam matando aos poucos com a indiferença,o sofrimento, o martírio? E quanto à grossa massa de amores que sofriam na convivência mútua, que se envenenavam com o ciúme, o orgulho, a arrogância, a covardia, quantos não eram assim corrompidos, assassinados? Ele escapara a tudo com sua covardia, ele se afastara do gozo do amor, mas essa distância tão cheia de sofrimento, abnegação, lhe permitira vê-la de longe, lhe distanciara dos dissabores mais diretos, lhe poupara das dores físicas e emocionais mais profundas. Mas o mais precioso de tudo fora que o próprio afastamento que lhe repelira toda verdadeira maturidade, todo senso prático do amor, toda a árdua ascese da convivência, fora o que mais lhe permitira crescê-lo longe do veneno. O sentimento se livrara da erosão ao mesmo tempo em que evitara os pontos negativos dessa impermeabilidade pela forma como foi integrada no seu interior. Seria por ele, pelo seu crescimento pessoal, que o amor ‘melhorara’. Não era o amor que o faria querer se tornar uma pessoa melhor. Era ele que se tornara uma pessoa melhor para o amor.

    Isso mostrava o valor essencial que ela tinha para ele, enquanto a inspiradora de toda a sua transformação, de toda a sua vida, sonhos, aspirações. Salvava a si mesmo da passividade no amor. Salvava o amor da vacuidade. Salvava até a ela no amor. Mostrava que ela não era mais um ideal, era algo real e que se podia verificar em sua alma e até na sua carne. Mostrava que ela não era apenas uma paixão, porque contra tudo e contra todos, naquela natureza impossível e enfrentando um mundo insano, ela permanecera! Só o fato de algo, ou alguém, permanecer, para ele, já era um milagre! Provava novamente o amor, como nem a ternura seria capaz de fazê-lo.

    Ele desmantelara todas as ilusões e todas as desilusões em que poderia cair, rompera o abismo da idealidade, das quimeras, do próprio sonho, tudo se tornava mais real, mais concreto. Ao mesmo tempo destruía todas as inconstâncias que as paixões violentas corriam o risco de transformar seu incenso, a tudo derrubava, derrubava pelo sentimento provado pelo fogo.

    Sentia-se velho. O primeiro motivo era por ter chegado a esse ponto sem tomar nenhuma iniciativa. O segundo, pela idade do seu amor. O terceiro, pela triste constatação de que, com ambos os motivos, seria demais negar que não passara pela verdadeira prova pelo fogo, os primeiros contatos sérios do amor, o primeiro beijo, as primeiras carícias, o primeiro verdadeiro amor. E só posteriormente, durante a convivência, o diálogo e as explosões, a lenta jornada de gelo e fogo, é que o destino mostraria se eles poderiam de fato envelhecer juntos, com um amor verdadeiramente velho.

    Não buscava mais, agora, que a coragem que lhe faltara para mostrar a ela seu amor, e mostrar que ele mudara, que eram ambos diferentes.

    -O que aconteceu com você?

    -Comigo nada. O tempo passou, eu mudei, meu amor por você mudou. Agora estou pronto..
     
    Última edição por um moderador: 8 Ago 2013

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