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Valinor entrevista Reinaldo Imrahil J. Lopes

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    Equipe Valinor - Vamos começar pelas apresentações. Quem é você é qual sua profissão?

    Imrahil - Meu nome é Reinaldo José Lopes, tenho 25 anos, sou jornalista formado pela ECA-USP, trabalho como repórter e pauteiro de ciência na Folha de S.Paulo e colaboro regularmente com a Superinteressante também. Sou natural de São Carlos-SP (caipira com orgulho!).

    EV - Como conheceu Tolkien?

    Imrahil - Essa história é complicada. Tudo começou em 1993, lendo um xerox todo detonado de GURPS Fantasy, o primeiro RPG que eu conheci na vida. Havia duas menções intrigantes sobre Tolkien, uma na introdução, onde se dizia que ele havia criado um mundo todo, com línguas, geografia, metalurgia, genealogias etc. E havia a segunda menção: "Merry e Pippin, no final de O Senhor dos Anéis, seriam personagens de 150 pontos" (lembro de ter achado que Merry era nome de mulher). Pois bem, fiquei muito interessado em ler o livro, mas na época era inachável. Ainda não existia a versão da Martins Fontes, e livro importado era artigo de preço milionário pra mim na época. O contato pra valer só veio em 1998, quando eu entrei na USP e comecei a bater papo com um veterano da faculdade, que jogava RPG. Perguntei se ele tinha lido O Senhor dos Anéis e ele disse que sim, inclusive que tinha o livro em inglês, mas estava emprestado. "Mas eu tenho aqui O Silmarillion em inglês, também é do Tolkien, você não quer?” Eu topei. Lembro que precisei de um tempo pra criar coragem, mas quando finalmente comecei a ler, fiquei de queixo caído. Até hoje é o livro de que mais gosto.

    EV - Depois desse contato, qual foi a mudança, se é que houve alguma, que Tolkien causou na sua vida?

    Imrahil - A mudança foi brutal, em certos aspectos. Primeiro na apreciação que eu tenho do valor e do poder da mitologia. Segundo, pela apreciação nova das possibilidades da criação lingüística. Acho que a sensibilidade e o prazer que eu tinha com línguas (seja o português, seja outras) cresceu enormemente. E, acho que o elemento mais forte no dia-a-dia, a capacidade de ver o mundo natural com outros olhos, de um jeito mais luminoso, por falta de uma palavra melhor. Mas o efeito mais imediato foi que eu comecei a correr atrás de quase tudo o que eu pudesse encontrar sobre Tolkien. Entrei no Ardalambion pela primeira vez logo depois de fechar o Silma. E logo depois peguei também o SdA, que devorei em 15 dias.

    EV - O sentimento do SdA em relação ao que tinha sido O Silmarillion, como foi?

    Imrahil - Foi engraçado! Tava na cara que o tipo de narrativa era outro, muito mais detalhado, detido, focado numa escala de tempo bem menor. E, nos primeiros capítulos do SdA, também menos "sério". Mas aí começaram a aparecer as alusões a Lúthien, Númenor, aos Altos-Elfos, assim como o estilo usado pelo Tolkien na fala dos personagens mais antigos, e eu logo conectei uma coisa com a outra.

    EV – Bom, você já disse que o Silmarillion é seu livro preferido. Por quais motivos você prefere ele ao SdA?

    Imrahil - Primeiro, a linguagem. Eu a acho extremamente prazerosa de ler, é legal quebrar o código daquela linguagem super arcaica, formal. É quase o prazer de voltar no tempo e falar com um sujeito que falava como o Gil Vicente, mas cuja mente você consegue compreender com certo grau de empatia, mesmo assim. Segundo, a quantidade de mitologia "pura" que o Tolkien teve de elaborar, desde a criação de Arda. Pra mim é um dos mitos de criação mais belos que existem. Finalmente, o lado teológico. Como cristão (católico), eu vejo algumas verdades fundamentais transfiguradas de forma muito bela em termos míticos.

    EV - Existe alguma coisa que não te agradou nos livros?

    Imrahil - Essa é difícil. Confesso que inicialmente achava Tom Bombadil um saco. E que não me conformava com o papel passivo do Frodo durante o Expurgo do Condado, me dava um certo desespero. Mas eu acho que são defeitos menores, ou nem são defeitos de verdade. São coisas que, no quebra-cabeças maior do universo, fazem todo o sentido. Pôxa, eu gosto até dos poemas! Só doidos como eu costumam engolir os poemas do SdA. A maioria das pessoas os lê pulando (risos).

    EV - E você reconhece alguma função para o Tom na obra, além de "uma aventura para os hobbits até Valfenda"?

    Imrahil - Eu acho que ele tem sim, mas é algo sutil pra burro. É o velho tema tolkieniano da relação entre os seres sencientes e a natureza. O Tom é daquele jeito, e é "imune" ao poder do Anel porque ele não quer comandar ninguém, nem mesmo seres como o Velho Salgueiro. Ele é o mestre de si mesmo porque não quer ser mestre de ninguém. Essa é a função dele.

    EV - E o interesse pela biografia de Tolkien, surgiu como?

    Imrahil - Acho que foi meio natural. Algo do tipo: "Que cazzo, esse sujeito criou todo esse edifício mitológico gigantesco! Que tipo de vida ele levava pra conseguir isso?” E o fato de eu saber from the outset que ele era um autor católico também aumentou o meu interesse. Eu queria saber como ele conciliava os dois extremos. E foi então que eu comprei a biografia do Humphrey Carpenter, traduzida pelo Ronald [Kyrmse], hoje fora de catálogo. E me deliciei. De uma coisa eu fiquei certo: o sujeito era complicado, até meio turrão, mas tinha uma decência íntima muito grande.

    EV - Você falou na biografia do Carpenter. O estudo do autor é importante para a compreensão da obra?

    Imrahil - É, mas acho que as pessoas tendem a exagerar isso um pouco. Não sei se a necessidade de traçar conexões o tempo todo entre o autor e a vida dele é saudável. No caso de Tolkien, cuja vida esteve longe de ser movimentada, mais relevante do que o que ele VIVEU foi o que ele LEU, e como ele dirigiu essas influências do mundo literário pra criar o "húmus da inspiração", como ele dizia.

    EV - E as suas preferências, desde cedo por filologia e mitologia?

    Imrahil - É, foi meio de cara sim. Como eu disse, uma das primeiras coisas que eu fiz foi ir fuçar o Ardalambion. Eu acho fascinante a idéia de que as línguas vieram primeiro e as histórias depois. Há a chamada hipótese Sapir-Whorf na lingüística, de que cada idioma é efetivamente um universo mental separado, que a língua que você fala informa toda a sua visão de mundo. E na Terra-média você vê exemplos claros disso: os Elfos com sua língua artística e mágica, a Fala Negra que escurece o céu só de ser pronunciada, e assim por diante.

    EV - Os povos descritos como reflexo da linguagem?

    Imrahil - Exato. E eu acho que isso é extremamente consonante com a realidade. Por que a gente não consegue traduzir a palavra "saudade" pra qualquer outra língua, por exemplo?

    EV - Alguns leitores acabam desenvolvendo um afeto muito grande pelas histórias, e se perguntam como seria se tivessem conhecido o autor delas. Você já teve essa vontade? O que teria dito?

    Imrahil - Eu adoraria ter conhecido o homem pessoalmente. Acho que essa vontade é comum a qualquer um que desenvolva uma ligação emocional com os livros. Acho que, em primeiro lugar, agradeceria pelo trabalho que ele fez e, acho, conversaria especialmente sobre o On Fairy Stories, sobre a idéia da Subcriação. Acho que o agradeceria por ter unido fé com mitologia de um jeito tão tocante. Eu sempre choro quando leio a conclusão desse ensaio. E acho que a gente daria boas risadas metendo o pau no Bush juntos, porque o Tolkien era um sujeito extremamente antiglobalização e antiimperialismo americano, pelo que você vê nas cartas dele. Ah, e eu perguntaria se ele sabia falar alguma coisa de português! Essa é uma grande curiosidade insatisfeita minha. Sabemos que ele entendia espanhol, mas nada sobre português.

    EV - Ele chegou a falar sobre o espanhol, não foi?

    Imrahil - Exato, o tutor dele era meio espanhol, o padre Francis Morgan.
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    EV - Você está fazendo um mestrado onde a tese é relacionada a Tolkien, não é?

    Imrahil - Exato. É uma tradução comentada do livro "Tree and Leaf", orientada pela Lenita Esteves (a tradutora do SdA).

    EV - Como tem sido esse trabalho?

    Imrahil - Infelizmente, não estou podendo dedicar a ele a atenção que eu gostaria por causa do meu trabalho jornalístico, mas mesmo assim tenho conseguido fazer algumas coisas legais. Me meti a estudar anglo-saxão, por exemplo, para entender a rima aliterativa que o Tolkien usa em um dos poemas que compõem o livro (e também no SdA, nos poemas de Rohan). Já concluí o Mythopoeia, que é um dos quatro textos do livro, e estou a meio caminho no conto Leaf by Niggle e no ensaio On Fairy Stories. É legal porque são textos centrais pra entender o que o Tolkien PENSAVA da literatura fantástica e da função da sua própria obra, mas que as pessoas em geral não conhecem porque eles não lidam diretamente com a Terra-Média.

    EV - Foi esse o motivo que o levou a escolher esse livro especificamente para sua tese?

    Imrahil - Foi. É algo que as pessoas no Brasil precisam conhecer pra entender o Tolkien, na minha humilde opinião. São textos que mostram uma capacidade teórica e formal muito grande, ao contrário do que dizem os que consideram Tolkien um idiota. E são textos lindos, que valem por si mesmos. A linguagem do homem não é nada menos que majestosa. Eu estou tentando fazer algo que os tradutores do Tolkien aqui ainda não tentaram, pelo que tenho visto, que é manter ao máximo o estilo arcaizante, as inversões, a sintaxe diferente dele.

    EV - Os ensaios em Tree and Leaf são importantes em que sentido na compreensão da literatura de Tolkien?

    Imrahil – De muitas maneiras. Acho que o principal é que eles são o padrão pelo qual o Tolkien diz que a literatura fantástica deve ser julgada. Ali ele diz, na opinião pessoal dele, qual a função e o estilo que ela deve assumir. Isso ele faz no On Fairy Stories em forma ensaística e no Mythopoeia em forma de poesia. E logo a seguir nós temos Leaf by Niggle e o Homecoming of Beorhtnoth, que então exemplificam essas idéias. Daria pra rebatizar o livro de "Literatura Fantástica: Teoria e Prática", eu acho. E também há o aspecto da relevância desse tipo de literatura pro mundo real, que ele enfatiza muito, e que pode ser resumido da seguinte forma: a fantasia ajuda a ver o mundo com olhos renovados, a ver a natureza como algo milagroso (o que efetivamente é) e portanto impede que a gente use a natureza simplesmente como nossa propriedade, como nossa escrava, mas como uma emanação de Deus (e por isso sagrada).

    EV - Você comentou sobre a importância de mostrar ao público a face mais formal de Tolkien. E como é a receptividade no meio acadêmico da obra de Tolkien?

    Imrahil - No Brasil não se dá nem pra falar em receptividade, porque quase não há trabalhos sobre o homem aqui. Até hoje eu só encontrei uma tese de doutorado na USP e um mestrado na Unesp sobre Tolkien. Agora, fora daqui a situação é mais complicada. Ainda há detratores, e acho que eles ainda são uma maioria ligeiramente maior. Mas muita gente séria, há décadas, tem incorporado Tolkien ao currículo das faculdades inglesas e norte-americanas. E esses caras têm demonstrado de forma convincente como o Tolkien 1) continua a grande tradição épica interrompida desde a Inglaterra medieval, e 2) é um autor relevante pra se entender essa carnificina contínua que foi o século 20 e está sendo o 21. Então eu diria que o mar está começando a ficar pra peixxxxxe pra nós (risos).

    EV - A tradução de poesia geralmente apresenta dificuldades extras em relação à de textos em prosa, visto que é necessário respeitar a disposição de versos, rimas, métrica, além da própria semântica do texto original, dentro das possibilidades que a língua oferece. No caso específico de Mythopoeia, como foi esse processo?

    Imrahil - Foi difícil. Eu acho que em certos pontos o texto ficou irregular em relação ao original. Você precisa dar alguns passos reinterpretativos - de certa forma, acaba recriando o poema mais que traduzindo. E um problema sério é que o inglês é uma língua muito mais "breve" que o português, as palavras são muito mais curtas. Então você consegue dizer muito mais coisas num verso em inglês. Uma coisa que eu realmente senti falta foi das repetições que o Tolkien usa, que são muito elegantes e "amarram" o texto, mas que simplesmente não cabem num decassílabo em português. Algumas referências legais, como as que ele faz à Circe da mitologia grega, acabaram sobrando também. No geral, acho que ainda dá pra melhorar - e eu vou trabalhar pra isso. O Ronald Kyrmse me deu umas sugestões bem legais nesse sentido. We shall see.

    EV - Não seria possível, por exemplo, aumentar o tamanho do verso para manter todo o texto dele?

    Imrahil - Seria, mas aí você perde a métrica do original. Os versos iam ficar pesadões, enquanto o ritmo do poema é super ágil. Não sei se é o melhor jeito.

    EV - Mythopoeia parece ter uma história bem particular, relacionada à amizade de Tolkien com C.S. Lewis e sua famosa conversa de algumas horas sobre mitologia e suas implicações no mundo real. O que representa esse poema dentro do ideal literário de Tolkien?

    Imrahil - Pra mim o significado do texto se resume a dois versinhos ali pelo final: "I bow not yet before the Iron Crown nor lay my own small golden sceptre down - Eu não me curvo à Coroa de Ferro, nem meu cetrozinho dourado enterro. É o equivalente aos chifres de Rohan soando na aurora diante do Pelennor. É um grito de desafio. Ok, somos humanos, somos imperfeitos, podemos até corromper os mitos. Mas é melhor corrermos esse risco do que chafurdar num mundo sem magia e sem fé, num mundo puramente mecânico, perdendo a nossa alma e envenenando a Terra. Que é o que a Coroa de Ferro representa.

    EV – Ok, vamos mudar de assunto agora. A Valinor com certeza é especial para você, que é um dos fundadores do site. Como foi no começo? E como a vê hoje, depois dos 3 filmes e de tantas mudanças? Como é ver a Valinor figurando como referência sobre Tolkien na internet brasileira?

    Imrahil - O começo foi engraçado. Não dá pra dizer que a gente começou do zero, porque afinal tínhamos toda a base e a experiência da Calaquendi e da Pelennor atrás de nós. Mas eu lembro que a coisa era muito mais labour-intensive. A gente tinha uma equipe MUITO menor, cada um de nós tinha muitas responsabilidades ao mesmo tempo. Mas aí a página começou a virar uma espécie de bola de neve. Com mais leitores, vieram mais ofertas de colaboração, e de repente a gente estava com mais teias estendidas que a Laracna. Virou uma coisa meio autoperpetuadora, o que é legal e assustador ao mesmo tempo. Eu sei que hoje, se eu e o Deriel batermos as botas (e olha que mesmo ele, hein, que ainda leva muita coisa nas costas) a página vai em frente. E, claro, ser referência é prazeroso e um peso, tudo junto. A gente tem uma obrigação de fazer o melhor, e o fã cobra isso da gente, muitas vezes. De qualquer maneira, eu só lamento não me darem um salário pra fazer isso, porque, se fosse um emprego, seria o melhor emprego da minha vida.

    EV - E quanto ao Conselho Branco do qual você é membro-fundador. Como surgiu a idéia inicial da sociedade? E hoje, como está o Conselho?

    Imrahil - O Conselho nasceu como STB, Sociedade de Tolkien no Brasil, não sei se vocês sabem. E nasceu de um grupo de pessoas insatisfeitas com o que havia então, a Brazillian Tolkien Society, que, na nossa opinião, não estava sendo um órgão representativo e democrático em relação aos fãs brasileiros. Então, esse foi o foco inicial, e que se mantém até hoje, que é ser representativo e incluir as pessoas no processo decisório, da forma mais completa possível. Além disso, havia a vontade de trabalhar em termos sociais. Usar Tolkien como um instrumento poderoso de incentivo à leitura e à cultura. Bem, o CB já tem alguns anos de vida, e devagar esses objetivos estão se concretizando. Destaco iniciativas como a dos contadores de histórias da Casa de Vairë, a doação de livros e brinquedos a instituições que cuidam de crianças carentes e a até a doação de sangue! Acho que o grande desafio agora é integrar as diferentes Tocas, fazer com que as do Nordeste ou mesmo a do DF tenham uma vida tão ativa quanto a de SP. E, claro, fortalecer o caráter nacional do CB. Mas tudo bem, Gondor não se fez num dia.
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    EV – Mudando de assunto novamente, depois de você ver os três filmes da trilogia, você acha que o diretor conseguiu captar o espírito dos livros de Tolkien?

    Imrahil - Eu acho que o ESPÍRITO de forma geral foi mantido. O centro da obra escrita, que é o problema do poder, os valores de amizade e companheirismo, o lado épico. Tudo isso pode ser visto e reconhecido por quem vê os filmes, assim como por quem lê os livros. Mas (e esse é um grande “mas”) muitas coisas foram vulgarizadas nos filmes.

    EV – Por exemplo?

    Imrahil - Em muitos casos o PJ mostrou uma mania meio tacanha de seguir as receitinhas do que faz um bom filme de Hollywood. Como com a personalidade do Théoden e do Faramir (oh, os personagens têm de ter conflito interno o tempo todo, têm de ter reviravoltas), numa ênfase meio exagerada nas batalhas (em especial no Abismo de Helm) e numas coisas que parecem mera mania de mexer na história deixando-a menos lógica e internamente consistente, como na idiotice de ligar a vida de Arwen ao Um Anel em O Retorno do Rei. São falhas meio grotescas, às vezes, mas como ele teve o bom senso de utilizar o texto original tolkieniano em muitos casos, e os atores colocaram uma paixão incrível nos papéis, no fim, eu diria que a Demanda foi realizada.

    EV - Você acha que há preconceito do fãs mais antigos, que leram os livros, com os mais novos, que surgiram após os filmes e freqüentemente não leram os livros?

    Imrahil - Eu acho que nem dá pra existir esse preconceito,até por uma questão numérica. Nós éramos tão poucos antes do filme que, se tentássemos excluir os novatos eles simplesmente iam chutar nossos traseiros e nos mandar passear (risos). O fato é que a imensa maioria dos fãs (no Brasil) são fãs pós-filme. Não sei se a maioria deles gosta só dos filmes. A minha experiência mostra que não é bem assim mas, de qualquer maneira, acho que só se pode olhar com desprezo para o fã pós-filme se ele achar que os filmes são o suprassumo e disser que tem preguiça de ler os livros, que eles são um saco etc. Definitivamente, por melhor que os filmes sejam, os livros são artisticamente e intelectualmente um desafio maior e, graças a Eru, a maioria das pessoas que viu o filme tem aceitado esse desafio.

    EV - Tanto em termos de adaptação como em termos de realização cinematográfica, qual dos filmes te agradou mais?

    Imrahil - Sem pestanejar, o Retorno do Rei. É uma opinião um pouco enviesada, porque afinal o livro também é o meu favorito. Mas eu acho que foi o episódio em que os roteiristas conseguiram aproveitar de maneira mais inteligente e fiel o TEXTO do Tolkien, as falas soberbas e poéticas dos personagens. O episódio em que as coisas são menos "corridas", fora os momentos pós-Montanha da Perdição. E o que tem o impacto emocional maior. Eu choro LENDO a chegada dos Rohirrim ao Pelennor, e tive a mesmíssima sensação ao ver a cena. Aquela coragem suicida do Théoden e da Éowyn na tela eu nunca vou conseguir esquecer!

    EV - Como você vê o Retorno do Rei podendo ser o primeiro filme do gênero de fantasia a levar o prêmio mais importante do Oscar, em 76 anos de festa?

    Imrahil - Sinceramente, eu acho que esse Oscar não importa muito não. E ainda não estou acreditando muito numa vitória do PJ. Seja como for, o público já fez sua escolha - e foi pela fantasia. Nada que a Academia e seus vovozinhos fãs de filmes sobre o Holocausto digam vai mudar isso. A fantasia no cinema ganhou um novo respeito graças à Trilogia do Anel, isso é fato. Agora, só um último comentário pra provocar: acho que PJ merece o prêmio de melhor diretor, mas, em termos de roteiro adaptado, Cidade de Deus merece muito, mas muito mais.

    EV - O que você acha da possível adaptação de "O Hobbit" nas mãos do Peter Jackson? Nós já vimos que ele se preocupa muito em mostrar batalhas, grandes cenas de ação. Você acha que ele saberia dar conta do recado sem desfigurar demais a obra?

    Imrahil - Eu acho que a coisa seria menos deletéria porque a narrativa de "O Hobbit" é muito mais linear e até singela, em certos momentos. E JÁ TEM montes de alívio cômico, coisa que é bem mais escassa no SdA e que o PJ "teve" (entre muitas aspas) de enxertar na Trilogia. Além disso, uma coisa que eu sempre achei é que, até hoje, ninguém conseguiu fazer um dragão que me satisfizesse no cinema (com a possível exceção parcial do Draco/Sean Connery em Coração de Dragão). Bem, eu acho que a trupe do PJ provavelmente está qualificada para fazer o melhor trabalho do tipo de todos os tempos. E eu adoraria ver o Ian Holm encarnar o Bilbo de novo, sem falar do Ian McKellen.

    EV - Diga pra gente uma cena de toda trilogia que você tenha particularmente adorado, e outra que você faria alguma modificação.

    Imrahil - Ok, essa é difícil pq são tantas (dos dois lados). Começando por uma que eu adorei de paixão - até hoje eu choro, mesmo depois de três anos e lá vai pedrada: é a chegada do Gandalf ao Condado, em especial na versão estendida. O filme conseguiu captar o Condado de forma especialmente feliz. Todo o amor da natureza e das coisas simples que ele representa está ali. Quanto a alguma que eu mudaria... "mudaria", aliás, é muito fraco, eu apagaria completamente: é a idiotice de fazer o Frodo praticamente entregar o Anel pra um nazgûl e o bicho ser assustado por uma mera flechinha do Faramir. Aquilo é um absurdo. Em qualquer mundo racional, o Anel teria sido pego e a jornada terminaria ali. Adeus, Frodo, adeus Terra-média, diga olá para Sauron.

    EV - Você acha que o PJ fez certo de excluir Saruman do último filme?

    Imrahil - Hm, claro, teria sido melhor se ele estivesse presente. Mas, DENTRO DO CONTEXTO DO FILME, achei que a ausência dele não comprometeu muito. Aliás, talvez mais importante que o Saruman teria sido um Expurgo do Condado.

    EV - Você acha que o Expurgo funcionaria no filme?

    Imrahil - Eu acho que poderia ser uma parte importante. Aliás, passei a ficar ainda mais convicto disso depois de conversar com um amigo, aliás, um dos únicos loucos que não gostou do RdR (e isso pq ele não é leitor dos livros). Enfim, ele me disse que não acreditava que os hobbits tinham feito tudo aquilo e chegado de volta ao Condado, e lá tudo continuava o mesmo. O Expurgo serviria para mostrar que nenhum lugar estava realmente protegido, que os hobbits tinham de encarar a Sombra onde quer que eles fossem. E mostraria que mesmo a vitória tem uma certa amargura, de forma ainda mais clara do que já é sugerido.

    EV - Você não acha que o Expurgo poderia sobrecarregar um filme que já tem duas horas de clímax?

    Imrahil - Eu acho que esse negócio de sobrecarregar é bobagem. Isso é receita de bolo. Se o negócio é bem-feito, o filme fica bom e pronto, não importa se tem dois, quatro ou 20 clímaxes.

    EV – Com sua permissão, nós vamos mudar ligeiramente o direcionamento da entrevista a partir de agora Na verdade já cansou ver você falar de Tolkien... vamos falar da sua vida. Você nasceu no interior de São Paulo, como já disse, não?

    Imrahil - Exato. Nascido e criado, com a graça de Deus.

    EV - São Carlos mais especificamente, né?

    Imrahil - Exato, lá mesmo, Sanca City. A Cidade do Clima, a Cidade-Sorriso, a Atenas Paulista. Entre outros epítetos.

    EV - "Atenas Paulista"?
    Imrahil - É, por causa do número de universidades. Tem uma federal e um megacampus da USP.
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    EV - Vem cá, interior... você não jogava bola na rua não?

    Imrahil - Jogava quase todo dia, acredite ou não. Tudo bem, eu era sempre o último a ser escolhido nos times... eu e um sujeito perneta ou na cadeira de rodas (ok, essa piada eu copiei do Neil Gaiman, but you got the idea).

    EV - Esse fato remete ao que aconteceu no encontro do Rio, em um certo jogo...?

    Imrahil - Pois é, aquele foi um vexame.

    EV - Como você explica aquilo?

    Imrahil - Como diria o pessoal do Rock e Gol: o senhor não tem envergadura moral para me criticar porque estava no mesmo time e teve um desempenho tão sofrível quanto.

    EV – Eu me lembro de ter feito 6 gols....

    Imrahil - Pode até ter feito, mas só porque te davam a bola de bandeja.

    EV - Lembrando que o nome do time era "Equipe Valinor".

    Imrahil - Enfim, acredite ou não, gosto de futebol (de ver e de jogar) pra caramba, mas tô meio fora de forma. Me dêem mais seis meses de treino e eu transformo nosso time em campeão da próxima Copa Valinor.

    EV - Claro... e eu viro o Papai Noel.

    Imrahil - Ah, uma cirurgia de miopia também ajudaria, porque eu não enxergo absolutamente nada sem os óculos.

    EV - Mas então... você empinava pipa, jogava bolinha de gude, essas coisas?

    Imrahil - Bolinha de gude eu nunca curti, pipa eu tentei um tempo mas achava sacanagem talhar (cortar a linha dos outros) e usar cortante, enquanto todo mundo fazia isso. Aí eu perdia minha pipa e ficava chorando. Até eu desistir. Mas brincava pra caramba de esconde-esconde na rua, duro-ou-mole...

    EV - Você tem irmãos?

    Imrahil - Tenho um irmão mais novo, de 19 anos, chamado Renato. A gente é bem diferente, e boa parte da vida brigou que nem gato e rato. Ele nunca gostou de estudar, e sempre foi meio rebelde. Hoje a relação entre a gente está mais calma, mas ainda não dá pra conversar muito um com o outro.

    EV - Rebelde? Não era nerd, não?

    Imrahil - Magina, ele, nerd? Nunca! Aliás, no meu tempo a expressão nerd ainda não era usada. O pessoal me chamava de CDF mesmo. Ah, e durante um bom tempo eu fui gordo. Enorme, balofo. O pessoal, no prezinho, ficava cantando: "Gordo, baleia, saco de areia, bunda vermelha". Desnecessário dizer que eu saía na porrada, mas não adiantava muito.

    EV - Você não lutava kung fu?

    Imrahil - Não, eu fazia judô, mas judô é completamente inútil pra brigar.

    EV - Sua família é italiana, não é?

    Imrahil - Minha família é misturada, na maior parte é italiana. Uns cinqüenta por cento. Mas tem também uma parte espanhola e uma parte portuguesa. Mas me identifico bem mais com o lado italiano.

    EV –Você fala italiano?

    Imrahil - Falo, adoro italiano.

    EV - Diz aí pra galera que tá lendo a entrevista “eu amo vocês, e sei q vocês me amam”em italiano.

    Imrahil – Amici, io vi amo, e so che voi mi amate. E um ditadinho bem simpático: Fare il giornalista è molto faticoso, ma è meglio che lavorare. “Ser jornalista é muito cansativo, mas é melhor que trabalhar”.

    EV - Então Reinaldo... essa língua (sem duplo sentido) já te rendeu gatinhas? Tô ligado que elas adoram um italiano...

    Imrahil - Eu diria que a Tania/Aredhel gostou dessa parte quando eu contei pra ela. Mas o truque-chave foi recitar um poema do Camões pra ela.

    EV – Ah, sim... então foi assim que você a seduziu?

    Imrahil - Foi um dos movimentos-chave, digamos. Foi muito embaçado pra gente começar. Não por hesitação dos dois, porque os dois ficaram a fim de cara, mas porque uma amiga dela ficou empatando o jogo.

    EV - Amigas... sempre elas...

    Imrahil - Ela aparentemente estava a fim de mim também, e inventou que a Tania havia voltado com o ex-namorado. Só depois eu fui descobrir que era cascata.

    EV - Há quanto tempo está com ela?

    Imrahil - A gente faz 5 anos de namoro no dia 7 de agosto.

    EV - Vai casar?

    Imrahil - Vou casar com certeza, assim que a situação financeira ficar melhor. Já estou poupando pra comprar a casa.

    EV - Hm... cuidado, você sabe q tem muitas fãs, né?

    Imrahil - Se tenho eu nunca as vi. Essas fãs são lenda.

    EV - Nunca ouviu falar do Clube da Luluzinha?

    Imrahil - Eu já, ele é que pelo jeito não ouviu falar de mim. Graças a Deus a feiúra ajuda a virtude e mulher, em geral, não dá em cima de mim. É um evento quase tão raro quanto um horizonte de eventos.

    EV - Bem, mas já ouvi dizer que você é mais famoso que o Lula. Quem disse isso foi seu amigo Deriel... vai desmentir?

    Imrahil - O Fábio é fofo, mas o carinho dele por mim exagera um pouco as coisas.

    EV – Fofo, né? "Me falaram" q você e ele tem um relacionamento muito "aberto". Alguém lá de cima... algumas mensagens lá no fórum da equipe, talvez... nada de mais.

    Imrahil - É bi artístico. Tipo Caetano e Gil, sabe.

    EV - Entendo.

    Imrahil - Falando sério agora, a gente é amigo há muito tempo, e eu tenho essa mania de brincar de viadagem com amigos próximos. E até com os não tão próximos (como você, hoje mais cedo).

    EV – Er... há quanto tempo você conhece o Fábio?

    Imrahil - Desde 2000, quando nós dois participávamos da lista da famosa e finada Na Toca do Hobbit.

    EV - Você já passou vergonha com ele imitando o Capitao Kirk?

    Imrahil - Puxa, comigo ele nunca fez isso!

    EV - Nunca imitou o Cap Kirk pra você ver?

    Imrahil – Não, vou cobrar essa da próxima vez!

    EV - Sim, pede pra ele imitar quando ele se decepciona com a Federação.

    Imrahil - Vou pedir. Enfim, o Fábio, apesar de temperamental (e ele sabe que é) é um dos sujeitos mais confiáveis e decentes que eu conheço. Se você entendê-lo, é amigo pra vida toda. E é assim que eu quero que ele continue.
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    EV - Você tem saudades de algo da infância?

    Imrahil – Putz. De muita coisa, mas a principal é uma coisa meio Samwise Gamgi.Tinha uma árvore enorme, linda, na frente da casa de uma vizinha minha, onde a gente se sentava pra conversar e brincar. Só que ela soltava muitas folhas, e as vizinhas (inclusive a minha mãe) eram fanáticas por limpeza. E tanto fizeram que acabaram cortando a coitada da árvore. O toco está lá até hoje. Nunca vi motivo mais estúpido pra acabar com a vida de algo que demora décadas pra crescer. E sinto falta de outra coisa também: eu passava quase todas as tardes com a minha avó, porque minha mãe trabalhava e não tinha com quem me deixar. E ela fazia bolo quentinho pra mim, a casca ainda durinha. Era bom demais.

    EV - Interior... interior... você se mudaria de volta pra lá?

    Imrahil - Sem pestanejar. Eu odeio São Paulo. O duro é que jornalista no interior ganha uma miséria. Meu sonho é poder trabalhar como freela, ganhando bem, de casa. Mandando as matérias por e-mail, e morando em São Carlos.

    EV - Mas você gosta do que faz, não?

    Imrahil - Ah, sim, sou apaixonado. Jornalismo de ciência é uma delícia de fazer. É divertido, é importante, é um desafio intelectual. Não me vejo fazendo outra coisa nos próximos 30 anos.

    EV - Já fez alguma matéria que realmente te deu orgulho de fazer?

    Imrahil - Uma que eu achei que realmente ficou boa e que eu adorei escrever foi um perfil do Walter Neves, o antropólogo que analisou o crânio da "Luzia" (o ser humano mais antigo das Américas). Primeiro porque ele é uma figura divertidíssima, um sujeito sensacional. Ele tem um lado meio folclórico, piadista. E ao mesmo tempo, na nossa conversa (um total de quatro horas) ele me contou uma coisa supertrágica da vida dele, que ele nunca tinha falado pra ninguém. Bem, resumindo, ele é gay, e o grande amor da vida dele morreu de Aids. Eu acho legal essa relação de confiança que você cria com o entrevistado. Tem muito jornalista que só usa o entrevistado. Mas eu gosto de cultivar isso.

    EV - Você se acha um bom jornalista? E quem é um bom pra você?

    Imrahil - Quem sou eu pra me julgar? Eu tento fazer o meu melhor sempre. Mas não tenho muito traquejo e cara-de-pau, e sou escrupuloso demais, o que nessa profissão nem sempre é uma vantagem. Um cara que eu admiro é o Clovis Rossi, colunista da Folha, que eu não conheço pessoalmente, mas que, pelo menos quando escreve mostra uma independência e uma envergadura moral (como diria o povo do Rock e Gol) invejável.

    EV – Pra fechar... Reinaldo por Imrahil e Imrahil por Reinaldo. E nesse ponto você pode agradecer alguém ou deixar um recado, etc.

    Imrahil - Bom, eu não sei se há uma distinção clara entre eu e a minha "persona" do nick. Acho que o Reinaldo escolheu o Imrahil como nick pra evocar aquela nobreza que Númenor e os Eldar deram pra raça humana. E eu acho que é importante a gente lutar por isso. As pessoas se acostumaram demais com o seu lado mais medíocre ou mesmo maldoso. A gente tem lutar sempre pra fazer o melhor. Como diz o Tolkien nas cartas, se a gente não mirar no mais alto, não vai conseguir acertar nem no meio. Claro que a gente nunca vive à altura dos próprios ideais - a gente é humano - mas é preciso tentar. É isso. Só queria agradecer ao pessoal da Valinor pela oportunidade, ao meu amor, a Taninha, ao Fábio e aos meus colegas queridos da equipe. E, por último, i Eru i or ilyë mahalmar eä tennoio.
     

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