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Valinor entrevista Mormegil

Tópico em 'Comunicados, Tutoriais e Demais Valinorices' iniciado por Artigos Valinor, 25 Jun 2005.

  1. Artigos Valinor

    Artigos Valinor Usuário

    Este conteúdo é limitado a Usuários. Por favor, cadastre-se para poder ver o conteúdo e participar (não demora e não possui custos)
    é uma das listas de discussão brasileiras sobre Tolkien que se destaca pelo grande número de mensagens e pela qualidade das discussões. O responsável por ela é Marcello Santos, o "Mormegil", que nos concedeu uma entrevista em que falou sobre a lista, suas opiniões e interpretações da obra de Tolkien e dentre outros assuntos, do
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    , que pretende discutir "O Senhor dos Anéis" capítulo-a-capítulo.


    Colaboradores Fórum Valinor - Fale um pouco sobre o Marcello, antes de falarmos exatamente do Mormegil. Quantos anos tem? Qual a sua profissão?

    Mormegil - Eu estou com 36 anos, comemorados em 4 de julho. Sou carioca, mas moro em Minas Gerais desde 1994. Fiz o curso de Jornalismo na UFRJ, mas antes de chegar a exercer a profissão eu me tornei Sargento do Exército, e passei mais de 8 anos na função. Fui aprovado no concurso para Técnico da Receita Federal em 1997, permaneci quase seis anos em Divinópolis e hoje trabalho na Delegacia da Receita em Juiz de Fora


    Como surgiu a lista de discussão O Condado?

    É uma história que eu considero muito interessante. Eu participava, em 2001, de uma lista chamada “O Hobbit” - um grupo bastante simpático, embora um pouco desorganizado e com debates superficiais. Tornei-me Moderador daquele grupo em setembro, e comecei (junto com o Ancalagon e o Dwalin) a organizar melhor a lista, criando regras e iniciando discussões mais profundas e originais, que fizeram o grupo crescer rapidamente. Mas um sujeito que já era moderador quando eu entrei na lista, amigo pessoal do proprietário, começou a postar mensagens incentivando a pirataria digital e coisas semelhantes. Tivemos uma série de discussões, ele foi retirado da Moderação e. em seguida, banido da lista, sob uma chuva de ofensas e ameaças lançadas contra tudo e todos, inclusive dizendo que iria deletar a lista inteira. Isso foi no final de dezembro, e eu tirei uns dias de licença. Quando voltei a acessar a internet, no dia 07 de janeiro de 2002, tive uma desagradável surpresa: a lista havia desaparecido, e minha caixa postal estava lotada com mensagens me perguntando o que havia acontecido. Entrei em contato com o suporte do Yahoo, e a informação que me deram foi que a lista havia sido apagada por um de seus Moderadores ou Proprietários. Então eu tomei uma das minhas decisões mais felizes: criar uma nova lista e trazer de volta os integrantes daquela que havia sido tirada do ar. Na hora de escolher um nome, eu me lembrei dos Hobbits enfrentando os rufiões de Saruman, e o primeiro que me veio à cabeça foi “O Condado”. Hoje eu tenho certeza de que não poderia ter feito escolha mais apropriada.


    Você já participou, ou participa, de outras listas de discussão sobre Tolkien?

    Participo de muitas listas, no Brasil e no exterior, desde meados do ano 2000. Infelizmente, por pura falta de tempo eu não tenho participado ativamente de nenhum grupo de discussão além do Condado, embora leia as mensagens das outras listas no formato “Resumo diário”. Gosto muito de acompanhar as discussões na usenet (rec.art.books.tolkien e alt.fan.tolkien), onde se travam excelentes debates sobre a obra do Professor. No Yahoo, sou associado de longa data na Valinor, Amon Hen, Duvendor, Toca-MG e Elfling, entre outras. Participo também das listas das Sociedades Tolkien da Argentina, Peru e Chile, e sou um dos representantes do Condado na Federação Tolkiendili Brasileira.


    O Condado é uma lista com número alto de mensagens por mês. A que você atribui essa participação grande dos membros da lista? Você acha que há alguma diferença essencial entre O Condado e outras listas sobre Tolkien?

    A grande participação dos membros da lista é fruto de vários fatores, a começar pelo respeito com que todos são tratados por todos. Fazemos o possível para que todos os “condadenses” se sintam realmente em casa na lista: entre nós não existem as tradicionais divisões entre veteranos e novatos ou entre especialistas e aprendizes. Além deste respeito às pessoas há também um grande respeito pelas dúvidas, perguntas e opiniões (não existem “perguntas bobas” ou “dúvidas sem valor”), o que faz com que todos se sintam valorizados, individual e coletivamente, e se vejam como partes importantes de uma comunidade, não como membros anônimos de uma lista de discussão. E isso, junto com o respeito e incentivo que os novatos recebem, faz muita diferença. Um dos benefícios dessa política é que os associados dividem com os Moderadores a tarefa de zelar pelo bom funcionamento da lista.
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    O principal diferencial que eu percebo entre O Condado e outras listas é, além dessa valorização, a quase obsessão que temos pela qualidade e pelo “on topic” [e somos orgulhosamente radicais nesse ponto]: no Condado somente permanecem aqueles que querem aprender, ensinar e discutir Tolkien, e estes logo se tornam debatedores e estudiosos contumazes, dedicados e profundos. Todos os assuntos que são ou podem se tornar off topic (filmes, livros, música, RPG, etc.) n’O Condado são rapidamente direcionados para a obra de Tolkien e os interessados começam a descobrir que Tolkien e sua obra são assuntos bem mais ricos e imensamente mais interessantes. Esse trabalho é feito pela equipe de Moderadores mais presente e atuante que eu conheço, outro fator que ajuda o grupo a se manter movimentado e eficiente. Sempre fui feliz na escolha dos Moderadores, e não me canso de agradecer pelo ótimo trabalho desenvolvido pelas nossas “Meninas Superpoderosas”. Completando o quadro, temos um conjunto claro, simples e eficazes de regras, que estabelecem os padrões de conduta necessários a qualquer comunidade organizada.


    Como você conheceu a obra de Tolkien?

    Eu estava começando a faculdade, em 1986. Um belo dia (belo mesmo), vi um colega folheando um livro grande, ilustrado, em Inglês. Era o “A Tolkien’s Bestiary”, de David Day. Fiquei fascinado com as imagens e os resumos que as acompanhavam. Eu já tinha ouvido falar de Tolkien e sabia de sua influência em vários setores artísticos e culturais, mas aquele foi o meu primeiro contato com sua obra. Pedi o livro emprestado, mas meu colega fez uma “chantagem” pela qual sou muito grato: ele só me emprestaria aquele livro depois que eu tivesse lido “O Senhor dos Anéis”, que ele me emprestou no dia seguinte. Eu quase literalmente devorei o livro em poucos dias, e assim que recebi o pagamento do estágio que fazia na época corri para uma loja de livros usados e comprei o SdA, na versão da editora portuguesa Europa-América, e o Hobbit, da extinta Artenova. No mês seguinte comprei o Silmarillion, o Hobbit e os Contos Inacabados, todos na versão portuguesa. Com o tempo comprei “As aventuras de Tom Bombadil”, os HoME, as Letters e alguns livros sobre Tolkien e sua obra. Desde então eu comprei, li e reli todos os livros escritos pelo Professor, incluindo os menos conhecidos e os que só recentemente foram publicados no Brasil.


    Qual foi o diferencial, ou o conjunto de qualidades que o fizeram gostar das histórias de Tolkien? Você considera que são as mesmas características que despertam o interesse em todos os outros milhares leitores?

    O que mais me atrai nos livros de Tolkien é o cuidado que ele tinha com os detalhes e com a coerência. O Professor passou a maior parte de sua vida escrevendo uma obra complexa e coerente com suas próprias leis internas. A presença de tantos detalhes e descrições gera um senso de realismo e uma consistência raramente encontradas em outros escritores. Creio que o maior parte dos leitores de Tolkien seja atraído por essas mesmas características - que, paradoxalmente, estão entre as maiores reclamações daqueles que não apreciam a obra de Tolkien.


    Você acha que Tolkien, enquanto autor, merece um destaque ou reconhecimento diferente do que tem hoje em dia?

    Sem dúvida. Tolkien foi um excelente escritor, um dos maiores autores de seu tempo, e sua obra deveria receber um reconhecimento maior. Acho que ele precisa apenas ser mais conhecido e divulgado. Se isso acontecesse, o maior reconhecimento viria naturalmente.


    Qual a sua passagem ou história preferida dentre todos os livros publicados do Professor? Por que?

    Difícil responder, porque ao escolher um trecho eu sinto que estou cometendo uma injustiça com um monte de outras passagens igualmente interessantes. Em termos de história completa, a que mais prende a minha atenção é a história de Túrin, seguida de perto pelo conto de Beren e Lúthien. Quanto aos trechos individuais, eu simplesmente adoro a narrativa da Quinta Batalha de Beleriand, a Nirnaeth Arnoediad. É um dos momentos em que Tolkien melhor retrata o valor de seus personagens e as qualidades e defeitos das diversas raças.
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    Há algum aspecto, ou passagem de algum livro, que você não gosta?

    Essa é uma pergunta complicada, já que eu gosto de toda o obra dele, ainda que esse “gostar” seja mais forte em alguns pontos. Mas o trecho do qual eu menos gosto é a passagem que narra o encontro de Bilbo com os três Trolls, no livro “O Hobbit”. Claro que se trata de um livro mais leve e em estilo infantil, mas aqueles Trolls com nome, apelido e sobrenome, usando carteiras e falando com sotaque do interior da Inglaterra não me agradam nem um pouco. Alguém consegue imaginar um Troll chamado Willian Huggins?


    O que acha das críticas negativas em relação a Tolkien? Por que é considerado por tantos como "literatura imatura" ou "escapista"?

    Grande parte das críticas feitas a Tolkien é fruto de uma leitura superficial e incompleta de suas obras. Muitas vezes os críticos falham em compreender a essência da obra e se atém a aspectos menos importantes, tratando tudo como uma literatura “menor” e considerando que a presença de seres e elementos “fantásticos”, como dragões, Elfos e Anões, seria um sinal de falta de complexidade ou uma fuga da realidade. Claro que Tolkien não é um escritor perfeito e seus livros apresentam alguns pontos fracos e questionáveis, mas em geral eu considero que as críticas negativas tendem a ser infundadas ou, pelo menos, exageradas. Sem falar na quantidade de supostos críticos que mal leram os livros sobre os quais estão escrevendo...


    Existe uma comparação muito interessante que você faz entre o comportamento do personagem Túrin e o código dos samurais. Fale um pouco sobre isso.

    Esse é um assunto do qual eu gosto muito, e que já rendeu debates muito proveitosos no Condado. Eu costumo afirmar que o comportamento e as atitudes de Túrin se encaixam muito bem nos preceitos do Bushido, o “Caminho do Guerreiro”, o código de conduta dos samurais. Influenciado pelo Zen e pelo Confucionismo, o Bushido enfatiza os valores da “lealdade, auto-sacrifício, justiça, sentido da vergonha, modos refinados, pureza, modéstia, frugalidade, espírito marcial, honra e afeto”. Observando os princípios e regras desse código, podemos fazer um paralelo entre ele e as ações e personalidade de Túrin, que seguiu seu caminho (para o bem ou para o mal) usando regras de conduta quase perfeitamente compatíveis com o estilo de vida dos samurais. Os preceitos de “Honradez e Justiça” (“Crê na Justiça, mas não na que emana dos demais, e sim apenas na tua própria”), “Valor Heróico” (“Eleva-te sobre as massas das pessoas que temem atuar. Ocultar-se como uma tartaruga em sua carapaça não é viver”) e “Honra” (“O autêntico samurai só tem um juiz de sua própria honra, e é ele mesmo”) se aplicam com perfeição às atitudes e estilo de vida de Túrin. Mesmo o seu suicídio foi um ato coerente com a ética guerreira dos samurais, pois lhe permitiu morrer sem ter sido derrotado em combate. Soa como uma espécie de “versão tolkieniana” do Seppuku ou hara-kiri, o suicídio ritual feito pelos samurais para preservar ou recuperar a honra maculada voluntária ou involuntariamente. “A morte não é eterna; a desonra, sim” - essas palavras do samurai Mirumoto Jinto poderiam servir como um bom epitáfio pra o filho de Húrin.

    Só uma observação: É claro que Tolkien não conhecia profundamente esse código e não elaborou o personagem Túrin como uma alegoria representando os samurais; o que acontece é que os preceitos do Bushido são baseados nos mesmos princípios que regem os códigos de cavalaria medievais, a conduta dos soldados de Esparta e o comportamento dos guerreiros mais nobres de todos os povos e culturas: honra, coragem, justiça e espírito de sacrifício. Tolkien, como em tantos outros pontos, soube captar esses valores universais e transportá-los para sua obra. Qualquer dia eu vou escrever um ensaio detalhado sobre esse tema.


    Qual a sua opinião sobre os textos de ensaístas e estudiosos da obra de Tolkien, como Michael Martinez, Tom Shippey e Ronald Kyrmse? Até que ponto eles são importantes para a compreensão de Tolkien?
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    Eu procuro conhecer o trabalho de todos os especialistas, tanto os estrangeiros quanto os brasileiros (alguns dos quais estão no mesmo nível dos estudiosos mais renomados internacionalmente). Esses ensaios e estudos podem ser um auxílio bastante útil para os leitores, especialmente os que não têm acesso aos HoME e outros textos mais “acadêmicos” de Tolkien. Só faço uma ressalva: muitas vezes os ensaístas colocam suas opiniões pessoais como se elas fossem palavras do autor, e isso costuma causar confusão e erros de interpretação por parte dos leitores. Considero os textos de Michael Martinez, apesar de geralmente muito bem escritos, particularmente tendenciosos - e bastante perigosos por isso. Outra coisa para a qual eu costumo alertar os fãs de Tolkien é a quantidade de erros presentes em grande parte dos livros e revistas publicados para aproveitar o sucesso dos filmes de Peter Jackson. Algumas dessas publicações são verdadeiros “caça-níqueis”, e todo cuidado é pouco...


    Quais você considera as principais referências para algum leitor interessado em se aprofundar no estudo da obra de Tolkien?

    Esse é um dos pontos pelos quais eu sou muitas vezes chamado de “purista” (como se isso fosse algum defeito). Na minha opinião, um único texto de Tolkien vale mais que mil livros sobre Tolkien: nada substitui as palavras do autor, qualquer que seja ele, quando se trata de compreender sua obra e entender seu estilo. Claro que existem ótimos livros de referência, mas quem quer entender a obra de Tolkien precisa ler essa obra em primeira mão. Só se aprende Tolkien lendo Tolkien. Tendo isso em mente, as melhores referências para um estudioso seriam o “Complete Guide to Middle-Earth”, de Robert Foster, e o “The Road to Middle Earth”, escrito por T.A. Shippey. E para quem gosta de biografias o livro “Tolkien: a Biography”, de Humphrey Carpenter, é insuperável.


    O que você acha da polêmica sobre os erros e omissões encontrados na tradução brasileira dos livros de Tolkien? Eles comprometem de maneira significativa a compreensão do conjunto da obra? Em caso positivo, quais desses erros seriam os principais?

    Eu sempre critiquei a tradução feita pela editora Martins Fontes, e confesso que me senti gratificado com o trabalho da Força-Tarefa Valinor, que encontrou dezenas de erros grosseiros e omissões dos mais variados tipos e tamanhos. Nunca gostei do tom coloquial usado em muitas partes da tradução, que não condiz com o estilo utilizado por Tolkien no texto original. Os erros e omissões (algumas vezes com o desaparecimento de parágrafos inteiros!) atrapalham o entendimento da obra, porque os leitores deixam de ter acesso a informações importantes e são impedidos de perceber alguns detalhes fundamentais para a compreensão do sentido do texto. Outra coisa que não me agrada é a tradução de termos como “stewards” (que se transforma no pomposo “Regentes”) e “rangers” (que a Martins Fontes traduziu, de forma incoerente com o contexto, como “guardiões”). O leitor brasileiro é induzido a uma série de enganos e erros de interpretação por causa dessa tradução inadequada, e tivemos muitos exemplos desse tipo de situação nos debates da lista: leitores com visões deturpadas pelo péssimo trabalho realizado pela MF.


    A edição portuguesa do "O Senhor dos Anéis", da editora Europa América, utiliza traduções de nomes diferenciadas para "stewards" e "rangers", dentre outras. Qual das duas versões teria sido a mais coerente no processo de tradução? Quais termos você considera mais adequados em relação aos usados na edição da Martins Fontes?

    Com toda certeza o trabalho de tradução da Europa-América foi muito mais fiel ao original, e eles foram muito felizes ao escolher a maioria dos termos empregados na tradução desses pontos mais complicados.
    A Martins Fontes traduziu "steward" como o pomposo termo "regente", o que é muito incoerente: afinal, durante muitos séculos os stewards eram apenas os conselheiros do Rei, mas nunca assumiam a regência alguma. Também se perdeu o sentido de humildade e simplicidade presente naquele título (que era a tradução de Arandur, "servo/seguidor do Rei") e perdeu totalmente a distinção que Tolkien fazia entre o "stewards" e os "ruling stewards". A Europa-América traduziu como "Mordomos", uma tradução literal que preserva muito bem o sentido original empregado por Tolkien. A versão portuguesa também foi mais coerente ao traduzir "rangers" como "caminhantes", uma vez que os Dúnedain se mostravam mesmo como andarilhos aparentemente sem maior importância. A MF errou ao usar a palavra "guardião" em sua tradução, porque pouquíssimas pessoas sabiam que os "rangers" executavam a tarefa vital de patrulhar e proteger a região correspondente ao antigo Reino do Norte. Os poucos que conheciam a missão deles não os chamavam de rangers, que no contexto do livro é um termo um tanto quanto pejorativo e suspeito. E uma das grandes incoerências causadas por essa tradução infeliz aparece quando Frodo é alertado para não confiar em Aragorn, justamente porque ele era um "guardião". Uma recomendação como essas não faz o menor sentido.
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    Os tradutores da edição atual do "O Senhor dos Anéis" processaram a editora Martins Fontes exigindo uma parte dos lucros nas vendas, usando como um dos argumentos a qualidade do trabalho feito na tradução. Você acha que é correto tradutores receberem parte da renda referente às vendas?

    Não acho correto que os tradutores exijam uma parcela dos lucros, a não ser que isso tenha sido firmado em contrato. Claro que o trabalho de tradução, muitas vezes dificílimo, deveria ser mais valorizado e respeitado, mas eles não são os autores da obra e não creio que devam receber direitos autorais, a não ser em casos muito particulares. E no caso específico da tradução do “O Senhor dos Anéis”, se o argumento é a qualidade do serviço realizado, então eles é que deveriam ser obrigados a pagar polpudas indenizações, já que fizeram um trabalho de qualidade deplorável.


    Tolkien é uma influência grande em muitos ramos artísticos, como a música, a pintura, o cinema e, como não poderia deixar de ser, para outros escritores. Você tem interesse em procurar bons artistas e músicos que têm Tolkien como inspiração ou referência? Há algum aspecto negativo nessa inspiração?

    Eu nunca procurei conhecer o trabalho de algum artista exclusivamente porque ele teria sido inspirado ou influenciado por Tolkien. Gosto de observar essas influências (às vezes involuntárias) quando as encontro, mas em geral não me sinto particularmente atraído por elas. Acho que esse processo é inevitável e benéfico como meio de popularizar a obra do Professor. O único ponto negativo que eu vejo é uma possível banalização e “idiotização” caso esses artistas não entendam o sentido e os valores presentes nos escritos de Tolkien.


    As recentes adaptações cinematográficas de "O Senhor dos Anéis" pelo diretor Peter Jackson tiveram enorme sucesso. Qual a sua opinião sobre elas? Conseguiram transmitir, mesmo com todas as adaptações, o espírito que Tolkien colocou em seu livro?

    O sucesso dos filmes foi mais do que merecido, porque Peter Jackson e sua equipe fizeram um trabalho memorável, especialmente na parte “técnica”. Enquanto entretenimento cinematográfico, são trabalhos excelentes. O que faltou foi eficiência na adaptação da obra de Tolkien. Claro que seria impossível produzir um filme que fosse a “tradução” literal do SdA para o cinema, mas houve muitas alterações que comprometeram a coerência e reduziram em muito o mérito existente nos livros. De qualquer forma, apesar dos pesares, o espírito da obra do Professor está presente, ainda que meio esmaecido, na trilogia de Peter Jackson. O que faltou foi manter personagens consistentes com o que Tolkien desejava (alterações nos personagens eram algo que Professor abominava) e retratar o valor de cada raça. Gostei do resultado final em termos de diversão, mas lamento bastante as deturpações desnecessárias feitas na obra de Tolkien com a intenção de melhorá-la.


    Qual você considera a passagem ou cena que ficou mais bem retratada nos três filmes? E dentre as modificações/adaptações em relação ao livro, qual aquela mais desnecessária ou que tenha estado em maior desacordo com os ideais de Tolkien?

    Uma coisa que se destaca no SdA é a consistência que os personagens, raças e culturas mantém ao logo do livro. Tudo tem uma grande coerência, algo que Peter Jackson não soube (ou não quis) preservar em seus filmes. Sem dúvidas as partes que mais me chamaram a atenção foram as passagens de Moria e Rohan. Não pelas ações dos personagens, mas pela excelente ambientação e pela beleza dos cenários. E as mudanças mais incômodas para mim são justamente as que mais agridem a lógica e os conceitos que Tolkien nos apresentou: eu simplesmente odiei a participação dos Elfos no Abismo de Helm, algo que vai contra qualquer lógica, dentro do contexto do livro, e a Arwen guerreira do primeiro filme, fazendo os papéis desempenhados por Glorfindel e Elrond (o pior é que nos outros dois filmes ela aparece como uma donzela chorosa e insegura, numa tremenda falta de coerência interna do filme). Outra parte que eu achei deplorável foi o Conselho de Elrond, em que o clima sério, solene e respeitoso presente no livro foi transformado em uma verdadeira baderna. Essas modificações são totalmente opostas ao que Tolkien escreveu, e desprezam boa parte da genialidade que ele colocou em seu livro.
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    Os filmes de Peter Jackson trouxeram muitos novos leitores e aumentaram significativamente o movimento de sociedades, listas e fóruns de discussão sobre Tolkien no Brasil. Da mesma forma, é notável que desde a saída de "O Retorno do Rei" dos cinemas o movimento dessas comunidades acabou por diminuir muito. Por que você acha que isso aconteceu?

    Esse era um processo inevitável diante das circunstâncias. As comunidades que surgiram por causa dos filmes ou usaram a obra de Peter Jackson como base para as discussões estavam fadadas a desaparecer, ou pelo menos a ter seu movimento bastante reduzido quando os filmes saíssem de cartaz. Os grupos que não seguiram esse caminho e mantiveram o foco na obra de Tolkien, independente do sucesso dos filmes, não foram afetados por esse fenômeno. Talvez o melhor exemplo seja O Condado, que mantém uma média superior a 1200 mensagens por mês e bateu seu próprio recorde de mensagens em maio deste ano, época em que a maioria das listas e comunidades estava enfraquecendo e sofrendo os efeitos da saída de "O Retorno do Rei" dos cinemas. O número de mensagens no Condado aumentou este ano, apesar do (ou, talvez, por causa do) fim da exibição dos filmes.


    O Brasil tem muitas comunidades dedicadas a discussões e estudos sobre Tolkien. Até que ponto isso é benéfico ou prejudicial aos fãs?

    Eu considero essa diversidade como algo bastante favorável. A existência de diferentes comunidades permite que a obra de Tolkien seja analisada e discutida sob aspectos e pontos de vista diferentes, agregando leitores com características variadas. Seria uma situação prejudicial se houvesse algum tipo de repetição de esforços em comunidades virtualmente iguais, cuja única diferença fosse o nome. Se isso acontecesse, os debates se diluiriam e a tendência seria um enfraquecimento geral. Mas, felizmente, o que temos são comunidades com perfis diferentes, e estas servem como ponto de encontro para fãs das mais diversas tendências. É a maneira mais eficiente de se atingir um público-alvo maior e, assim, divulgar a obra de Tolkien para o maior número possível de pessoas. Comunidades que nada têm a acrescentar tendem a desaparecer - só permanecem em atividade as que atendem as necessidades e expectativas dos fãs.


    O Condado é uma das comunidades que compõem a FTB, Federação Tolkiendili Brasileira. Como você vê a existência dessa associação?

    Eu acho que a Federação tem um papel muito importante: servir de ponto de encontro e representação oficial para as principais comunidades tolkiendili do Brasil, congregando os diversos grupos, fortalecendo o trabalho de todos e reforçando os laços de amizade entre seus associados. Através da FTB, a diversidade de associações e comunidades se torna um ponto altamente vantajoso, pois cada grupo mantém sua independência e individualidade sem estar sozinho na tarefa de estudar e divulgar a obra de Tolkien. Também é fundamental contar com uma entidade que tenha legitimidade para representar os tolkiendili brasileiros diante de organismos internacionais como a Tolkien Society e o Tolkien Estate.


    Falando sobre literatura de uma forma geral, quais são os seus autores e obras preferidos?

    Eu tenho um gosto bastante variado, mas com uma certa predileção pelos épicos. Adoro a Ilíada e a Odisséia, sou fã da "Eneida", de Virgílio, mas também gosto muito dos livros de Vítor Hugo (especialmente "Os trabalhadores do mar") e Umberto Eco. Gosto de livros de terror como os de Clive Barker, de livros com histórias de guerra e de relatos históricos/semi-históricos. A obra que mais me agradou nos últimos tempos foi a trilogia "As crônicas de Artur" (O rei do Inverno, O inimigo de Deus e Excalibur), de Bernard Cornwell, e o livro mais instigante que já li foi o genial "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marques. E tenho uma atração muito grande por livros sobre os samurais e sua cultura.
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    O Condado tem planos ou projetos para o futuro próximo?

    Temos sim. Nosso principal projeto, atualmente em andamento, é o estudo detalhado do livro “O Senhor dos Anéis”. Estamos fazendo uma análise capítulo a capítulo do SdA. Nosso objetivo é incentivar a leitura e discussão dos livros de Tolkien de uma maneira profunda e agradável, seguindo um cronograma que todos possam acompanhar e envolvendo leitores de todos os níveis de experiência, dos novatos aos especialistas mais experientes e calejados. Esse é um projeto bastante ambicioso e um desafio que me deixa particularmente empolgado, por todos os frutos que ele vai nos trazer.

    Para o ano de 2005, temos planos de construir o nosso site. As idéias, o formato e a estrutura já existem, mas a demanda nas discussões do Condado é muito grande e sobra pouco tempo para tocar o projeto da maneira que desejamos. Enquanto o site não vem, nós vamos preparando o material e coletando informações, mensagens e outras “pérolas” para a posteridade, algumas das quais são colocadas na seção de arquivos da lista.
     

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