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Uma fase de Thomas Hobbes num paralelo aos déspotas de Tolkien

Tópico em 'J.R.R. Tolkien e suas Obras (Diga Amigo e Entre!)' iniciado por Elessar Hyarmen, 22 Dez 2012.

  1. Elessar Hyarmen

    Elessar Hyarmen Senhor de Bri

    Gostaria de deixar a seguinte frase abaixo do autor Thomas Hobbes:


    "Qualquer governo é melhor do que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada e do medo permanente da morte violenta."
    - Thomas Hobbes


    Vocês concordam com a afirmação acima?

    Levando em consideração os personagens de Tolkien como Morgoth, Sauron ou Saruman, podemos fazer uma analogia entre suas historias e sistemas de governo com a frase acima?
     
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  2. Morfindel Werwulf Rúnarmo

    Morfindel Werwulf Rúnarmo Geofísico entende de terremoto

    Mas o despotismo também é uma violência e pior, com uma cabeça central por trás do mal, eu não concordo com a frase.

    Mas para aplicar na Terra Média teria que pensar um pouco mais para encontrar paralelos.

    Mas a discussão é boa.
     
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  3. Grimnir

    Grimnir Usuário

    realmente eu não sei se o espírito da frase é esse, mas eu acho que é mais difícil migrarmos da anarquia para a democracia do que se partíssemos do despotismo. talvez a ideia de hobbes é que a anarquia torna impossível qualquer tentativa de organização dos seres humanos, uma vez que cada indivíduo estará agindo de forma totalmente egoísta. já no caso do despotismo, onde realmente há o predomínio da violência, ainda há espaço para resistência contra um "inimigo em comum", de modo que é possível ainda partir para um regime menos controlados. no caso da anarquia, não existe inimigo em comum, pois qualquer indivíduo pode ser seu inimigo, bastante apenas a vontade dele ser diferente da sua.
     
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  4. Lórien Leaf

    Lórien Leaf Usuário

    Sauron e Morgoth eram tiranos, mas será que não havia anarquia em seus domínios?
     
  5. Mercúcio

    Mercúcio Well-Known Member

    Por trás dessa frase de Hobbes está uma questão central: a visão negativa do ser humano em seu estado de natureza, emblemática do ponto de vista do individualismo moderno. Trata-se da famosa metáfora que diz que o homem é lobo do próprio homem. Na teoria de Hobbes, o Estado surgiria como um contrato social com o objetivo justamente de constranger essa natureza atávica ruim e preservar o homem dele mesmo. E é sob esse contrato que se legitima a posição do monarca.

    Quando transpomos tais concepções para a obra de Tolkien, temos que pensar que seu universo mítico é regido pela dicotomia bem x mal como forças que se degladiam efetivamente e governam o destino da Criação. O mal surge da dissonância da música e a propagação do elemento Morgoth corrompe a criação. Quando pensamos nas sociedades organizadas do legendário, apenas podemos conceber um mal atávico no caso dos orcs/goblins, criaturas essencialmente dissolutas e corruptas. Mas o mal também nasceu entre os filhos de Ilúvatar. Primogênitos, sucessores e adotivos (naugrim) viram nascer em seu meio o ódio, o medo e a ganância e, em diversas ocasiões, escreveram páginas de injustiça com o sangue de seus semelhantes.

    Em todo o caso, parece haver gradações. Os primogênitos me parecem os menos corruptíveis. Os noldor deixaram-se enredar pela influência de Morgoth e pesou o fato de terem Fëanor, cujo temperamento o tornava uma bomba-relógio. Seu juramento, no qual tomaram parte seus filhos, foi causa de boa parte das catástrofes da primeira era entre os elfos, a começar pelo assassínio dos Teleri.
    Afora este caso, temos exemplos mais pontuais: Ëol, Maeglin e Saeros são alguns nomes que agora me vêm à mente.

    No caso dos sucessores, o quadro é muito mais heterogêneo e, por isso mesmo, complexo. Muitos foram seduzidos por Morgoth e, posteriormente, por Sauron e Saruman. Mas mesmo para além desses exemplos, são nitidamente mais suscetíveis à corrupção. Alguns exemplos também pontuais me vêm à mente: a loucura de Boromir, o assassinato de Déagol, o exército que traiu Isildur. Quando volvemos à primeira era, a virtude entre os homens se encontra fundamentalmente entre os edain tutelados pelos elfos, quando encontramos exemplos como Beren que é, em si, a personificação da virtude: o guerreiro de valor, com um profundo senso de honra, cuja desventura fora capaz de mover de compaixão o juiz dos mortos.

    Os anões, na sua ganância por ouro e pedras preciosas, também viram a corrupção de Arda nascer em seu meio. Sendo crias de Aulë, que segundo Tolkien era o que mais se assemelhava a Melkor em seu desejo de criar por si, era natural que guardassem essas disposições. Como exemplo, ocorrem-me os eventos ligados ao assassinato de Thingol. Ressalto, porém, que a mim parecem menos corruptíveis que os humanos. São fortes, resistentes e valorosos. E ao menos não me recordo de escaramuças entre anões e anões. Por favor me corrijam se eu estiver enganado.

    Feito este preâmbulo, é preciso considerar as formas de governo no legendário. Invariavelmente temos monarquias. Isso me lembra uma postagem do Olórin na área de Política:

    E Tolkien, como bom inglês, construiu modelos de monarquia com pouca variação em seu legendário. Não temos casos de cidades-estado republicanas. E embora os hobbits tivessem um sistema democrático, que me parece um exemplo bastante deslocado em sua mitologia, estavam sujeitos a relações de vassalagem com a coroa de Gondor.

    Também não há menções a parlamentos, de modo que podemos assumir que esses reinos eram regidos pelo que convencionalmente se chama de "monarquias feudais". Claro que há menção a conselhos, como em Nargothrond e em Doriath, mas me parecem meramente consultivos e não deliberativos. São em geral a fidalguia, uma aristocracia guerreira em torno do suserano. Conforme aludimos, os escritos de Hobbes se prestam justamente à justificação de uma forma de poder baseada no poder absoluto do monarca, conferido pelo contrato que, por sua vez, se fez necessário para constrangir a natureza viciosa do homem. Tomando a corrupção como algo presente entre elfos, homens e anões, ainda que haja gradações, essa concepção talvez se encaixe de alguma maneira, embora não sem ressalvas.

    Poderíamos, talvez, colocar algumas perguntas e as respostas podem ser muitas, tendo em vista a grande quantidade de exemplos no legendário entre estes três povos: há um elemento de violência ou coação na relação entre súditos e rei? Ou prevalece a tradição e a aura simbólica inerente à coroa como elemento de legitimação do poder? Claro que não são questões excludentes, mas podem nos ajudar a clarear as idéias. :think:

    Com relação ao despotismo, me parece que esteve mais presente entre os homens, embora possa haver casos exemplares entre anões (não me recordo de nenhum específico) e elfos (Fëanor, para mim, é um exemplo de déspota). Mas talvez sirva fundamentalmente ao caso dos orcs. Essencialmente maus, corrompidos e cruéis, parece incrível que possam ter subsistido reinos órquicos como os de Azog e Bolg. Isto porque o mal atávico cria forças eminentemente dispersivas e inorgânicas, de tal modo que parece não crível a formação de um aparato institucional que garanta a reprodução de um organismo social e político. O poder se estabelece pela violência, sim. Mas é necessário que haja também o consentimento. Nenhum poder se mantém tão somente pelo uso da força.

    Qualquer reino órquico necessariamente traria a marca do despotismo. E do ponto de vista do Hobbes, o elemento disciplinador de uma natureza má talvez fosse cabível. Mas ainda assim, pelo menos para mim, os reinos independentes de Azog e Bolg permanecem uma grande incógnita.

    Quando estão submetidos a Morgoth e a Sauron é uma situação diferente, me parece, pois o elemento morgoth encontraria diretamente ressonância em suas naturezas corrompidas, sendo movidos pelo medo e pela oportunidade de dar vazão a seus instintos cruéis sob as ordens desses senhores, seduzidos pela oportunidade do mal. Mas e quando estão entregues a si mesmos? Pergunto-me que ferramentas eram usadas para conter as "intrigas palacianas" e salvaguardar o pescoço dos líderes cruéis. Bolg, por exemplo, teria governado por cerca de 150 anos e só morreu em campo de batalha. :think:
     
    Última edição: 6 Mar 2016
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