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UMA CARTOGRAFIA DO MAL EM O SILMARILLION, DE J. R. R. TOLKIEN

Tópico em 'J.R.R. Tolkien e suas Obras (Diga Amigo e Entre!)' iniciado por Administração Valinor, 17 Jan 2014.

  1. Administração Valinor

    Administração Valinor Administrador Colaborador

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    1. Apresentação da obra


    O Silmarillion, de John Ronald Reuel Tolkien, foi publicado postumamente em 1977 e conta a história de Arda, a Terra, desde sua origem até o fim da Terceira Era do Sol. Nesse livro narra-se como o mundo foi criado pelos Valar e também o nascimento de elfos e homens, assim como outras criaturas, boas e más, que, em constante conflito, fizeram a história que culmina nos eventos narrados em O Senhor dos Anéis. É em O Silmarillion que se delineia o contexto histórico e mitológico do mundo criado pelo autor.

    2. Sobre o Mal

    O problema do Mal sempre foi um desafio para a filosofia. O que é Mal? De onde vem o Mal? Essas e outras perguntas permanecem até hoje sem uma resposta definitiva.

    Como o presente trabalho pretende tratar da representação do Mal no livro O Silmarillion de J.R.R. Tolkien, é necessário mostrar algumas posições sobre o assunto e qual o conceito adotado para este trabalho.

    Em primeiro lugar, é importante considerar a definição que traz o dicionário para o Mal, pois, de certa forma, essa definição reflete a opinião do senso comum. Por exemplo, no Dicionário Houaiss temos a seguinte definição de Mal: “o que é nocivo; concorre para a ruína ou o dano de alguém ou de algo; destruição, desgraça; que se opõe ao bem, à ordem, à virtude, à honra”. Este é o conceito usado comumente. No entanto, com essa definição de Mal, é preciso adotar um ponto de referência, pois, se algo é nocivo, é nocivo para alguém, e o que é nocivo para uma pessoa, pode não ser para outra. Mas a questão do Mal não se resume somente com uma definição de dicionário. Assim, apresentarei as idéias de alguns pensadores e a opinião do próprio autor sobre a representação do Mal em sua obra.

    Santo Agostinho em seu livro Confissões conta toda a história de sua conversão e, durante este processo, começa a se perguntar sobre a origem do Mal, pois, para ele, se Deus criou todas as coisas e Ele é completamente bom, não poderia ter criado o Mal.

    Santo Agostinho, então, chega à conclusão de que o Mal não foi criado como ser, o Mal é o não-ser, uma privação do Bem, o não-Bem. Ele afirma que todas as coisas criadas por Deus são boas, pois podem ser corrompidas. É preciso haver o Bem para ocorrer a corrupção, ou seja, a diminuição do Bem. A corrupção é o Mal porque diminui o Bem, logo, todas as coisas, para serem corrompidas, precisam ser boas:


    Portanto, todas as coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e, nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper. (AGOSTINHO, 1973, p. 140).

    Santo Agostinho adota um ponto de vista religioso para tratar a questão do Mal, diferente do próximo pensador a ser considerado.
    No século XIX, Friedrich Nietzsche postulou a ideia de que não há Bem e Mal. Para ele não existe nenhuma verdade absoluta. Ele acredita que tudo o que há, ou pelo menos o que deveria haver, é a “vontade de poder” e para isso deve-se estar acima do Bem e do Mal.

    Ele pregava a transmutação de todos os valores, ou seja, afirmava que Bem era tudo aquilo que a humanidade acreditava ser Mal, e Mal tudo o que a mesma acreditava ser Bem, pois, para ele, tudo que aumenta no homem a “vontade de poder”, o próprio poder, é natural e, portanto, bom:


    O que é bom? – Tudo quanto aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade para o poder, o próprio poder.
    O que é mau? – Tudo quanto procede da fraqueza. (NIETZSCHE, 1953a, p. 11).

    Mas é necessário esclarecer o que Nietzsche entendia por “vontade de poder”. A “vontade de poder” de Nietzsche é um conceito desmistificador do cristianismo, é uma voz interna que nos diz exatamente o contrário do que diz nossa cultura cristã. Para Nietzsche essa vontade é inata, a verdadeira vontade do homem e deve ser cultivada por este. Conforme afirma Rodrigo Sales de Souza (2003):


    A vontade de poder é a vontade inesgotável e inata que habita em nós. O seu objetivo é satisfazer as nossas vontades, acumular poder e deixar fluir os nossos reais desejos, a nossa criatividade. [...] Essa vontade é criadora e poderosa, faz o homem criar, se superar, querer mais poder, querer se sobressair, querer dominar, querer sempre mais poder e prazer. Essa é a vontade de poder.

    Por este motivo o cristianismo e a “vontade de poder” são incompatíveis: a “vontade de poder” prega a “fortaleza” e o cristianismo, a “fraqueza”.

    Fraqueza para Nietzsche era a bondade. A humanidade, iludida pelo cristianismo, enaltecia justamente os valores que ele condenava: a bondade e a caridade. Em seu ponto de vista, esses valores não passam de meios de fuga para os fracos que, como nunca poderão chegar ao poder, idealizam uma vida perfeita após a morte, vida esta que, para os cristãos, só seria alcançada com a bondade. Por isso ele criticou tanto o cristianismo e seu idealismo, como vemos em seu livro O Anticristo: “O que é mais nocivo do que qualquer vício? – A piedade da ação com os fracassados e com os fracos; – o cristianismo …” (NIETZSCHE, 1953a, p. 11).

    Opondo-se a essa ideia, temos o autor de O Silmarillion, J. R. R. Tolkien, que, sendo um católico devoto, parece ter preferência pelo conceito agostiniano, como podemos ver através de suas cartas. Na carta de número 153, o autor afirma:


    Quase escrevi “irredimivelmente más”; mas isso seria ir longe demais. Pois ao aceitar ou tolerar sua criação – necessária para sua real existência –, até mesmo os Orcs se tornariam parte do Mundo, que é de Deus e fundamentalmente bom. (CARPENTER, 2006, p. 188-189).

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    Se considerarmos que Tolkien adota o conceito de Santo Agostinho, é interessante notar um fato que ocorre no livro O Silmarillion. Como o Mal é visto como não-Bem, pode-se fazer um paralelo com a escuridão vista como não-luz, já que o Mal é, freqüentemente, relacionado à escuridão e o Bem à luz. Mas, como afirma Zach Watkins (2005), Tolkien, no livro O Silmarillion, nos apresenta a escuridão como substância, como elemento concreto e não como não-luz, como vemos no trecho “A Luz desapareceu; mas a Escuridão que se seguiu era mais do que falta de luz. Naquela hora, criou-se uma Escuridão que parecia ser não uma falta, mas um ser provido de existência própria” (TOLKIEN, 2002, p. 85). Isso validaria a tese do “Mal encarnado” na obra, já que, se a escuridão é substância, o Mal também pode ser, pois, também em suas cartas, Tolkien afirma que Sauron, um de seus personagens, é a reencarnação do Mal. Na carta de n. 131 ele afirma: “ele [Sauron] torna-se uma reencarnação do mal” (TOLKIEN, 2006, p. 147), considerando que a encarnação seja Melkor.

    Neste ponto, Tolkien foge do conceito de Santo Agostinho, pois, para este pensador, não existe o Mal como substância, só como privação, mas a própria narrativa contraria a tese de encarnação do Mal, pelo menos no que diz respeito a Sauron, que era inicialmente bom e depois foi corrompido, ou seja, não era absolutamente mau.

    Considerando que o autor de O Silmarillion é extremamente cristão e, às vezes, expressa a sua preferência pelo conceito agostiniano, adotarei para o trabalho este mesmo conceito, lembrando que ele será aplicado a Eru, o deus de O Silmarillion, do mesmo modo que é aplicado ao Deus cristão, devido às semelhanças. Mas creio que as concepções de Nietzsche também podem ser aplicadas em relação às origens do Mal, pois, de acordo com a teoria da transmutação de valores, há uma correspondência entre o Mal cristão e o Bem nietzschiano e, considerando que o Mal representado na obra é fundamentalmente cristão, a correspondência acima é pertinente, o que facilita a explicação da corrupção de Melkor dentro da obra, já que a concepção agostiniana de Mal não abrange sua origem.

    Para complementar, usarei também a definição do Dicionário Houaiss, que considera o Mal como aquilo que prejudica alguém. Optando por esses conceitos, será necessário assumir um ponto de referência, que, no caso do presente trabalho, será constituído pelos filhos de Ilúvatar, ou seja, os Valar, os Maiar, os elfos e os homens. No entanto, é preciso deixar claro que há algumas exceções como, por exemplo, Melkor entre os Valar, os balrogs e Sauron entre os Maiar, entre outras. Portanto, serão considerados como representações do Mal na obra todos os seres que, de alguma maneira, prejudicam os filhos de Ilúvatar ou, na visão de Nietzsche, dão ouvidos à sua vontade de poder.

    3. As personagens

    Passemos agora à apresentação das personagens que representam o Mal na obra objeto de estudo já separadas em seus respectivos grupos.

    3.1. Grupo 1 – Melkor

    A primeira personagem que pode ser considerada representante do Mal e que compõe o Grupo 1 sozinha é Melkor, que é considerado o mais poderoso entre os Ainur. Mas no início da criação, quando a canção dos Ainur ainda se desenvolvia, Melkor já sentia em seu coração impulsos de criar coisas de sua própria imaginação e não as propostas por Eru, o Único, e, com isso, levava outros Ainur a seguirem a sua música. Esse procedimento fez com que Eru se irritasse e parasse a música, chamando a atenção de Melkor diante dos outros “e Melkor foi dominado pela vergonha, da qual brotou uma raiva secreta.” (TOLKIEN, 2002a, p. 6).

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    A partir daí os Ainur passaram a moldar o mundo que fora criado pela música e Melkor, odiando toda a criação e invejando os dons que Eru prometera aos seus filhos (elfos e homens), passou a destruir tudo o que era feito por seus irmãos e “desejava submeter à sua vontade tanto elfos quanto homens [...] e [...] ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade de outros” (TOLKIEN, 2002a, p. 8).

    Por todo o tempo que esteve em Arda, Melkor mentiu, enganou, traiu, matou, provocou guerras, discórdias, doenças e devastações com a ajuda de seus servos malignos que, na maioria das vezes só o seguiam por medo. Ele não se importava com nada nem com ninguém, a única coisa que lhe interessava era o poder sobre todos os outros seres e coisas. Caracterizado pelos seus irmãos como “um espírito devastador e impiedoso” (TOLKIEN, 2002a, p. 23), Melkor era egoísta e maligno e, portanto, passou a ser chamado de Morgoth, o Sinistro Inimigo do Mundo.

    Com base nesse breve relato sobre Melkor podemos perceber que ele representa o Mal em todas as suas formas, o que levaria algumas pessoas a considerá-lo o Mal absoluto; mas, como vimos anteriormente, Santo Agostinho afirma que não há um Mal absoluto e que o Mal não é uma substância e, sim, a ausência do Bem e algo só pode ser corrompido se for inicialmente bom. Não há nenhuma evidência na obra de que Melkor seja inicialmente bom ou mau, mas vamos considerar as duas possibilidades.

    Se Melkor era inicialmente mau, podemos considerá-lo o Mal absoluto, o que contraria a tese de Santo Agostinho. No entanto, se Melkor era inicialmente bom, em algum momento ele foi corrompido. Mas foi corrompido por quem ou pelo quê? As únicas criações existentes eram seus irmãos, os Ainur, todos criados por Eru, e o próprio Eru; portanto, afirmar que Melkor foi corrompido no início implica dizer que sua corrupção se deu, senão por Eru, por uma de suas criações, o que também contraria a tese de Agostinho, pois, se assim fosse, Eru não poderia ser o Bem absoluto, principalmente se considerarmos o que Eru diz a Melkor quando este tenta mudar a música proposta:


    E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim a sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou. (TOLKIEN, 2002a, p. 6)

    Por outro lado, se consideramos a teoria da “vontade de poder” de Nietzsche, podemos dizer que o que leva Melkor a querer criar, a odiar a criação de Eru e a querer ser o Senhor da Terra é justamente a vontade de poder descrita pelo pensador, ou seja, a busca pelo poder, a realização de todas as vontades, mesmo que isso cause a destruição dos outros.

    Como veremos mais adiante, pode-se dizer que a vontade de poder é o que move todas as personagens representantes do Mal na obra, lembrando que, do ponto de vista de Nietzsche, nenhuma dessas personagens representariam o Mal, mas sim o Bem, pois, para ele, Bem é seguir a vontade de poder. Mas quanto às outras personagens, pode-se dizer que a teoria de Santo Agostinho pode ser aplicada, pois, a exceção de Melkor, todos os outros seres foram corrompidos.

    3.2. Grupo 2 – Maiar que servem a Melkor

    O Grupo 2 é composto pelos Maiar que serviam, de alguma forma, a Melkor.

    De todos que Melkor conseguiu arrebanhar, entre os Maiar, para seu exército, podemos destacar Sauron, Ungoliant e os balrogs. Entre estes, Melkor concedeu maiores poderes a Sauron, seu servo mais prestativo e maligno e, excetuando o fato de Sauron pertencer a uma ordem inferior a de Melkor, seus atos de maldade se nada diferenciavam dos de seu mestre, conforme afirma Tolkien (2002a) “e [Sauron] era menos maligno do que seu Senhor somente porque por muito tempo serviu a outro, e não a si mesmo” (p. 24).

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    Sauron, no entanto, quando se ergue como o segundo Senhor do Escuro, depois da destruição de seu mestre, é ainda mais poderoso que Melkor. Segundo Tolkien,


    Sauron era “maior”, efetivamente, na Segunda, que Morgoth no final da Primeira Era. Por quê? Porque, embora ele fosse muitíssimo menor por envergadura natural, ele ainda não tinha caído tão baixo. Com o tempo, ele também dissipara seu poder (de ser) no esforço de ganhar o controle de outros. Mas não foi obrigado a consumir-se tanto. Para dominar Arda, Morgoth havia deixado a maioria do seu ser passar para os componentes físicos da Terra. [...] Porém, Sauron herdou a “corrupção” de Arda, e só gastou seu (muito mais limitado) poder nos Anéis; porque eram as criaturas terrenas, nas suas mentes e vontades, que ele desejava dominar. (TOLKIEN, 1993)

    Como vemos, Sauron tinha muitas das características de seu Senhor, mas preferia a astúcia à força física, embora também a usasse se necessário, e, geralmente, representa o Mal em sua forma dissimulada “por muito tempo disfarçou seu pensamento e ocultou os desígnios sinistros que elaborava no coração.” (TOLKIEN, 2002a, p. 365).

    Ainda no Grupo 2 temos Ungoliant, uma Maia que assumiu a forma de uma aranha gigantesca e tecia teias negras, sugando toda a luz que encontrava. Ela não era uma serva propriamente dita, pois “no início ela fora um dos seres que ele [Melkor] corrompera para seu serviço. Ungoliant, no entanto, renegara seu Senhor, por desejar ser senhora de seu próprio prazer, [...]” (TOLKIEN, 2002a, p. 82). Porém, quando Melkor precisou de seus serviços, ela voltou a servi-lo em troca de recompensas e juntos destruíram as Duas Árvores de Valinor.

    O último ser do Grupo 2, ou melhor, seres, são os balrogs, também da raça dos Maiar. Eles são descritos como demônios de terror e “Seus corações eram de fogo, mas eles se ocultavam nas trevas, e o terror ia à sua frente, com seus açoites de chamas” (TOLKIEN, 2002a, p. 45).

    Gothmog era o Senhor dos balrogs e o mais terrível entre todos. Eles estavam sempre à disposição de Melkor, mesmo quando este foi prisioneiro dos Valar, e aguardavam sua volta e suas ordens, nunca agindo por conta própria. Embora os balrogs não buscassem o poder para si, podemos perceber que tinham a necessidade de satisfazer seus desejos de destruição e morte, o que também se encaixa na vontade de poder.

    3.3. Grupo 3 – Servos inferiores

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    Seguindo com a apresentação temos o Grupo 3, que é composto pelos animais criados por Melkor, a saber: Ancalagon e Glaurung, dragões; Carcharoth e Draugluin, lobos e também a raça distorcida por ele, a raça dos orcs.

    Ancalagon, o dragão alado, era conhecido como “o Negro” e era “o mais poderoso do exército de dragões” (TOLKIEN, 2002a, p. 321). Embora causasse grande destruição quando saía de seu esconderijo, só foi usado por Melkor na Última Guerra contra os Valar. Quanto a Glaurung, o Grande Lagarto, sua participação nos atos maldosos de seu Senhor é bem mais ativa. Ele era conhecido como “Pai dos Dragões” e participou de quase todas as guerras de Melkor, mas seu principal feito foi o feitiço que lançou em Nienor, filha de Húrin, um dos grandes entre os homens.

    “Lançou então sobre ela [Nienor] um feitiço de trevas totais e esquecimento, para que ela não se lembrasse de nada que algum dia lhe houvesse acontecido, nem seu nome, nem o nome de nada” (TOLKIEN, 2002a, p. 278). A conseqüência desse feitiço foi o casamento de Nienor com o seu irmão Túrin e, algum tempo depois, o suicídio dos dois. Além de maligno e destruidor, Glaurung também era astuto e inteligente.

    Os principais entre os lobos de O Silmarillion também são dois: Draugluin e Carcharoth. Draugluin era descrito como “uma fera terrível, experiente no mal, senhor e pai dos lobisomens de Angband.” (TOLKIEN, 2002a, p. 220). Seu principal feito foi lutar contra o cão de Valinor, Huan, pelo qual foi derrotado. Embora tivesse grande poder, não suportou o combate com o cão de Valinor, pois, além de poderoso, Huan era muito sábio e Draugluin só concentrava sua maldade na força física.

    Quanto a Carcharoth, pode-se dizer que sua participação é maior nas maldades de seu mestre. Carcharoth era da raça de Draugluin e foi alimentado pelas próprias mãos de Melkor


    O lobo cresceu rapidamente até não conseguir se enfiar em nenhuma cova, mas permanecia deitado, enorme e faminto, aos pés de Morgoth. Ali, as fogueiras e as agonias do inferno nele se impregnaram; e ele foi tomado por um espírito devorador, atormentado, terrível e forte. Carcharoth, o Goela Vermelha, ele é chamado no relato daqueles tempos; e Anfauglir, Mandíbulas Sedentas. (TOLKIEN, 2002a, p. 226 – 227)

    Melkor criara Carcharoth para combater Huan, pois havia uma profecia que dizia que o cão de Valinor só poderia ser morto pelo lobo mais poderoso do mundo. Mas a vontade de Melkor só se cumpriu muito tempo depois, pois antes do confronto entre Carcharoth e Huan, o lobo de Melkor engoliu uma das Silmarils da coroa de seu Senhor e a pedra começou a queimar dentro dele (mesmo estando segura pela mão de Beren, um entre os grandes heróis dos homens, que também foi engolida pelo lobo), porque a Silmaril queimava e machucava sempre que estava em mãos indevidas. Com a pedra queimando suas entranhas, Carcharoth correu em disparada até encontrar, algum tempo depois, Huan com quem travou sangrenta batalha, que causou a morte de ambos.

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    Carcharoth, que fora criado para um fim específico, também concentrava toda sua maldade na força física e assim conseguiu satisfazer o desejo de seu mestre que, por sua vez, satisfizera os desejos malignos de seu lobo em vida, alimentando-o com carne viva.

    Ainda no Grupo 3 temos a raça dos orcs que, entre os servos de Melkor, são em maior quantidade e também são os únicos, com exceção de alguns homens, que, depois da queda de Melkor, serviram a Sauron. Os orcs foram criados a partir da corrupção dos elfos, conforme afirma Tolkien (2002a)


    É, porém, considerado verdadeiro pelos sábios de Eressëa que todos aqueles quendi [elfos] que caíram nas mãos de Melkor antes da destruição de Utmno foram lá aprisionados, e, por lentas artes de crueldade, corrompidos e escravizados; e assim Melkor gerou a horrenda raça dos orcs, por inveja dos elfos e em imitação a eles, de quem eles mais tarde se tornaram os piores inimigos. (TOLKIEN, 2002a, p. 49)

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    Sendo uma raça criada a partir da deformação de outra, os orcs não sentiam amor por nada nem por ninguém, odiavam seu Senhor, seus inimigos e até seus iguais; não eram muito inteligentes, mas matavam sem piedade qualquer criatura.

    No que diz respeito aos orcs, pode-se dizer que a teoria agostiniana é a que melhor se aplica, pois temos aqui o que Santo Agostinho explica como sendo a corrupção de algo que é bom inicialmente. Mas não se pode descartar a teoria de Nietzsche, pois não se pode negar que, através do medo, os orcs buscavam e alcançavam certo poder sobre as outras criaturas.

    O ódio e a maldade dos orcs se externavam em forma de violência e crimes, e seu único desejo era a destruição. A deformação e a corrupção dos elfos para a formação dos orcs são consideradas os piores atos de maldade de Melkor e os orcs o odiavam por isso mais que todos.

    3.4. Grupo 4 – Fëanor e seus filhos

    O Grupo 4 é um grupo especial e é formado por Fëanor, um dos elfos mais poderosos da 1ª Era, e seus filhos Maedhros, Maglor, Celegorm, Curufin, Caranthir, Amrod e Amras.

    O grupo é considerado especial pois, embora Fëanor e seus filhos pratiquem muitos atos de maldade, eles estão contra Melkor e seus seguidores, e seus atos são guiados pelo juramento feito por Fëanor e a maldição dos Valar que se seguiu. Não se pode dizer, no entanto, que a maldição seja uma desculpa para os atos praticados, pois o que movia Fëanor era a mais pura vontade de poder, seu desejo de ter o próprio reino e a insatisfação de se submeter às ordens dos Valar, embora estes só dessem conselhos e não exigissem nada dos elfos. Mas o maior motivo da rebelião de Fëanor foi as mentiras plantadas por Melkor na época em que este estava em Valinor , ou seja, ele foi, de alguma forma, corrompido, mas não totalmente e, embora Fëanor e seus filhos praticassem atos malignos que se comparavam aos dos servos do inimigo, eles não eram seguidores de Melkor e lutaram em muitas guerras contra ele, o que nos prova que nem tudo que está contra o Mal é o Bem.

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    Fëanor, que era descrito como arrogante e teimoso, era um elfo muito poderoso e havia criado as Silmarils, pedras que continham as luzes das Duas Árvores de Valinor. Melkor, que desejava intensamente as pedras, começou a espalhar mentiras entre os elfos, tentando causar a discórdia entre eles, principalmente entre Fëanor e seus irmãos, Fingolfin e Finarfin. Fëanor, ainda que o odiasse mais que todos, deu ouvidos a algumas dessas mentiras e quando Melkor conseguiu roubar as Silmarils, ele se encheu ainda mais de ódio e jurou persegui-lo até à morte e recuperar as pedras e “Ferozes e cruéis foram suas palavras, e cheias de raiva e orgulho; [...] Sua ira e seu ódio eram dirigidos principalmente a Morgoth.” (TOLKIEN, 2002ª, p. 93). Mas o ódio de Fëanor não se restringia a Melkor e ele jurou


    perseguir até o fim do mundo com vingança e ódio qualquer Vala, demônio, elfo ou homem ainda não nascido, ou qualquer criatura, grande ou pequena, boa ou má, que o tempo fizesse surgir até o final dos tempos, quem quer que segurasse, tomasse ou guardasse uma Silmaril, impedindo que eles dela se apoderassem. (TOLKIEN, 2002a, p. 94)

    Desse juramento também fizeram parte seus filhos e muita desgraça ocorreu em conseqüência dele. Fëanor traiu seus irmãos e matou seus parentes, e seus filhos eram cruéis e malignos com qualquer pessoa que tomava uma Silmaril. Com exceção de Maedhros, que só era movido pelo juramento, os outros filhos de Fëanor matavam e enganavam sem nenhum remorso. Celegorm e Curufin eram os mais cruéis e foram responsáveis por várias mortes entre o povo élfico. Mas quando se precisava de qualquer um dos filhos de Fëanor nas guerras contra Melkor eles lutavam com mais ódio e vontade ainda e Melkor os temia mais do que a qualquer outro elfo.

    A maldade de Fëanor e seus filhos é demonstrada pela ambição e pela vingança e, embora não tivessem a intenção de destruir como os servos de Melkor, eles destruíam, matavam e enganavam se fosse necessário; por este motivo, em alguns momentos, podiam ser tão cruéis quanto os orcs ou outros seres malignos.

    3.5. Grupo 5 – Personagens menores

    O Grupo 5 é dedicado às personagens que representam o Mal, mas que não têm uma participação muito grande na obra. Entre essas personagens temos um anão, um elfo, um morcego gigante e alguns homens.

    O anão Mîm trai Túrin e seus companheiros e pode ser considerado uma pequena representação do Mal. O elfo Maeglin trai seu tio Turgon, rei de Gondolin, e revela a Melkor a localização da última fortaleza dos elfos só por invejar Tuor, um homem, que se casa com Idril, filha de Turgon. Thuringwethil era a mensageira de Sauron e assumia a forma de um grande morcego. Não se tem muita informação sobre ela, mas é descrita com “enormes asas providas de dedos [...] guarnecidas na extremidade de cada articulação com uma garra de furo.” (TOLKIEN, 2002a, p. 225). Ainda neste grupo temos alguns homens que também representam o Mal, mas de uma maneira menos importante.

    Brodda, Lorgan, Ulfang, Uldor, Ulfast e Ulwarth são homens orientais que, sob ordens de Melkor, matavam e escravizavam, atendendo aos seus desejos malignos. Herumor e Fuinur eram númenoreanos renegados, poderosos entre os haradrim, que também obedeciam a Melkor, embora também agissem por conta própria, matando sem piedade.

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    Por fim, temos alguns entre os Reis de Númenor que, pode-se dizer, representam o Mal devido à cobiça, à inveja e ao desejo de imortalidade que eles cultivavam em seus corações. Entre eles podemos destacar Ar-Pharazôn, Ar-Gimilzôr, Ar-Sakalthôr, Ar-Zimrathôn, Ar-Adûnakhôr e Gimilkhâd.

    Estas são as personagens que representam o Mal em suas várias faces na obra objeto de estudo e, em alguns casos, pode-se traçar um paralelo entre algumas dessas personagens e personagens de outras mitologias. Este será o assunto do próximo tópico deste trabalho.

    4. As possíveis influências

    Algumas personagens de O Silmarillion carregam certos traços que nos remete a personagens presentes em outras mitologias, principalmente na Mitologia Nórdica e na Judaico-cristã. Pode-se falar de uma provável influência devido à grande semelhança entre algumas dessas personagens e não se pode descartar o fato de Tolkien ser um grande conhecedor de mitologia e um cristão devoto.
    Neste trabalho apresentarei dois casos em que se pode falar em influências, somente para ilustrar, o que não exclui a possibilidade de outras ocorrências; portanto, me aterei a Melkor e Carcharoth.

    4.1. Melkor

    Melkor, a personagem que, a princípio, concentra em si toda a maldade do mundo tolkieniano, pode ser comparado (e, nesse sentido, ter sido influenciado) a duas grandes personagens: Loki, deus da Mitologia Nórdica, e Lúcifer, anjo caído da Mitologia Judaico-cristã.
    No que se refere a Loki, podemos dizer que Melkor apresenta algumas semelhanças com o deus nórdico. Loki era mentiroso e invejoso, assim como Melkor e ambos tinham um irmão poderoso com o qual rivalizavam: Odin e Manwë, respectivamente. No entanto, há uma pequena mas importante diferença entre Loki e Melkor. Enquanto Loki faz parte de uma mitologia politeísta, Melkor pertence a um mundo monoteísta, pois, embora os Valar sejam chamados de deuses algumas vezes, são apenas espíritos criados por Eru, o Único, conforme afirma Tolkien na carta de número 181


    Não há personificação do Único, de Deus, que de fato permanece afastado, fora do Mundo, e acessível diretamente apenas aos Valar ou Governantes. Estes ocupam o lugar dos “deuses”, porém são espíritos criados ou aqueles da criação primordial que por sua própria vontade entraram no mundo. Contudo, o Único retém toda a autoridade suprema [...] (CARPENTER, 2006, p. 226)

    Sendo assim, Melkor se aproxima mais de Lúcifer do que de Loki; mesmo o autor de O Silmarillion faz uma relação entre a ordem dos Ainur e os anjos da mitologia cristã quando chama os Valar de “seres angelicais” (CARPENTER, 2006, p. 198). Além disso, se considerarmos a história de Melkor e a do demônio cristão, encontramos muitas outras semelhanças além da de pertencerem a uma mitologia monoteísta, como veremos a seguir.

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    Tanto Melkor quanto Lúcifer foram os primeiros seres criados por seu Deus; ambos eram belos e poderosos e tinham grande necessidade de criar. Lúcifer, por invejar a criação do mundo e dos homens, foi expulso do céu e jogado no inferno e Melkor foi expulso dos círculos do mundo por causa do ódio e da inveja que sentia dos elfos e dos homens. Os dois conseguiram arrebanhar seguidores dentre s seus e ambos podiam assumir formas belas ou terríveis, conforme lhes convinha.

    Há muitas outras semelhanças entre eles e vários adjetivos utilizados para caracterizar Lúcifer podem ser aplicados a Melkor com perfeição, como por exemplo: mentiroso, Inimigo do Mundo, Grande Inimigo, o Mal, etc. Outro dado comum entre eles é que ambos são conhecidos por vários nomes. Lúcifer também podia ser chamado de Satanás ou Diabo, assim como Melkor era conhecido como Morgoth ou Bauglir.
    Algumas dessas semelhanças se aplicam também a Sauron, sucessor de Melkor, que, assim como seu senhor, assumia forma bela ou terrível, era conhecido por vários nomes e enganava as criaturas com belas e doces mentiras.

    Como pudemos perceber há várias características de Lúcifer em Melkor e não se pode descartar a possibilidade de influência da personagem cristã na construção da personagem tolkieniana.

    4.2. Carcharoth

    O lobo maligno criado por Melkor nos remete, quase imediatamente, ao lobo Fenrir da Mitologia Nórdica. Fenrir, filho de Loki, é descrito como feroz e cruel, assim como Carcharoth e, além de se assemelharem na maldade e na ferocidade, os dois lobos participam de um episódio semelhante: Fenrir decepa a mão de Tyr e Carcharoth a de Beren.

    Conforme dito anteriormente, outras personagens representantes do Mal em O Silmarillion podem encontrar seres correspondentes em outras mitologias, mas elas não serão apresentadas no presente trabalho.

    5. Considerações finais

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    O deus Loki em uma representação do séc. XVIII


    Ao longo deste trabalho procurei apresentar algumas personagens de O Silmarillion que pudessem ser chamadas de representações do Mal na obra e, para tanto, utilizei as reflexões de Santo Agostinho e Nietzsche que me ajudaram a formar o conceito de Mal com que trabalhei.

    Com a apresentação das personagens pôde-se perceber que o mal pode se apresentar de várias formas e muitas delas foram encontradas na obra objeto de estudo. Também foi possível observar que nem sempre o que está contra o Mal é o Bem, como no caso de Fëanor e seus filhos.

    Quanto à questão do Mal, ficou claro que não é tão fácil afirmar se uma personagem é boa ou má e que é necessário levar em consideração vários pontos e, principalmente, procurar uma teoria que possibilite o estudo das mesmas. No presente caso foram adotadas duas teorias distintas, quase contrárias, de épocas e culturas diferentes: o Mal como não-Bem de Santo Agostinho e “a vontade de poder” de Nietzsche. A partir dessas duas linhas pude fazer um estudo mais aprofundado das personagens e chegar a resultados mais satisfatórios.

    Foi possível perceber também que há grandes semelhanças entre as personagens estudadas e personagens representantes do Mal de outras mitologias, o que pode ser considerado um indício de que as personagens tolkienianas, mais recentes, podem ter sofrido influências de tais personagens mitológicas.

    Para finalizar creio que é necessário dizer que esta pesquisa pretende chamar a atenção para o fato de que um estudo sobre as personagens consideradas más pode ser, às vezes, mais rico devido à maior complexidade dessas personagens em relação às consideradas boas. É importante ainda ressaltar que, diante da escassez de estudos sobre a obra tolkieniana no Brasil, procurou-se incentivar novas pesquisas nessa área, além de incentivar também a leitura de Santo Agostinho e Nietzsche, cujas idéias foram utilizadas para este trabalho.

    6. Referências bibliográficas

    AGOSTINHO, S. Confissões. São Paulo: Abril, 1973.

    CARPENTER, H (Org.) As cartas de J. R. R. Tolkien. Tradução de Gabriel Oliva Brum. Curitiba: Arte e Letra, 2006.

    HOUAISS, A. et al. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

    NIETZSCHE, F. W. O Anticristo. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953a.

    SOUZA, R. S. Um sentido para a “vontade de poder” de Nietzsche. CienteFico. Ano III, v. I, Salvador, janeiro-junho 2003. Disponível em: . Acesso em: 22 set 2006.

    TOLKIEN, J. R. R. Morgoth’s ring. S.l.: Houghton Miffling, 1993. Tradução de Vera Ferraz disponível em:

    ___. O Silmarillion. Tradução de Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 2002a.

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  2. LuizWsp

    LuizWsp A torch in the dark In Memoriam

    (:Excelente trabalho. Enriquecedor e bem escrito. Quem fez?

    1- Achei muito curiosa a noção de bem e mal de Nietzsche, não concordei nem por um instante que alguém que busca poder a todo custo possa ser considerado bom. Pra mim, tudo bem ele não classificar isso como mal pleno, mas chamar isso de bem, aí já é distorcer o sentido que o senso comum tem da palavra. Sabemos que a ganância traz benefícios, mas traz igualmente ou até mais malefícios.

    “O que é bom? – Tudo quanto aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade para o poder, o próprio poder.”

    Um ditador que solta uma arma química sobre um país de inocentes porque deseja dominar outra nação se encaixa nessa frase, mas ninguém ousaria dizer que não é uma grande maldade.

    2- Sobre Santo Agostinho, a noção de bem e mal dele é muito religiosa. Como toda religião, traz soluções muito convenientes para tampar qualquer plot-hole ou absolver qualquer erro ou incoerência de Deus ou da religião.

    Pela lógica, ele chegou ao resultado óbvio que, se Deus criou todas as coisas e o Mal existe, Deus criou o Mal. Em vez de perceber a óbvia incoerência e admitir o erro (ou Deus não criou tudo, ou Deus criou também o Mal), ele cria uma saída de emergência no mínimo “cara-de-pau”: O Mal é uma ausência do Bem, tal qual a escuridão é ausência de luz.

    Pra mim essa argumentação não cola. Ora, se um engenheiro é contratado para fazer um projeto de iluminação de um estabelecimento, e nele ainda há pontos de escuridão, se desculpar que esses pontos são apenas pontos de não-luz, não o redimem do fato de que ele não iluminou o estabelecimento todo. Em outras palavras, ele falhou. Ou seja, ou Deus falhou ao criar tudo e deixar alguns pontos de maldade, ou ele criou o mal propositalmente.

    Além disso, ausência de bem não é a única fonte de maldades. Novamente usando o exemplo do ditador, a maldade não vem apenas por ser omisso em fazer o bem.

    3- Gostei da análise de que na guerra Melkor x Feanor não existia um lado do bem. Hoje em dia, está na moda fazer obras (novelas, filmes, livros) onde o explorado é a dualidade, de que ninguém é puramente bonzinho nem totalmente malvado. Por muitas vezes já escutei críticas a Tolkien por conta disso, dizem que é muito romântico já que pinta os dois lados muito bem definidos. Creio que esses críticos amadores deveriam ler esse texto (:
     
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  3. Clara

    Clara Que bosta... Usuário Premium

    Muito bom mesmo.
    Vale a pena ler. :yep:
     
  4. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque



    Melkor pensaria nisso como uma isca boa. Mas seria só uma isca falsa porque ele não gostava de administrar corretamente a velocidade do mundo.

    Por exemplo, qual era uma das razões para que a percepção da passagem de tempo, apenas dentro dos círculos do mundo, tenha sido desfigurada? Porque na cabeça de Melkor havia apenas uma razão para que Eru permitisse a maldade no mundo que era um erro ou uma falha no caráter do Único (para Melkor os outros estão sempre com alguma deformidade e todos estão endividados). Essa era uma opinião parcial e errada, vinda de quem havia composto uma música superficial e repetitiva, incapaz de imaginar razões variadas e co-existentes que na mente de Ilúvatar apareciam como inúmeros agentes e fatores contribuindo ao mesmo tempo para um resultado inimaginavelmente belo. O ex-Vala ficara obcecado com conceitos de curta duração e nunca a velocidade fora tão inimiga da perfeição quanto em Melkor.

    Melkor trabalhava solitariamente porque não lhe era visível uma associação em conselho. Afinal, conselhos diminuem a velocidade das coisas e ele espalhava como definitivo que era possível perceber falha em Eru (ou pior, como se fosse a única opção) que fosse verdade que o conceito de maldade fosse igual dentro e fora do mundo. Mas não era. Ou ainda, era uma demonstração de ignorância em estado bruto uma vez que Eru ocupava a instância final da existência do mundo e era imperceptível na observação de falhas.

    De modo que existiam funções (fora do mundo) que do ponto de vista dos recursos da eternidade podiam ser apenas uma brincadeira ou uma simulação (afinal, os espíritos possuíam brincadeiras que para homens podiam ser mortíferas e era bom que houvesse corpos e espíritos no mesmo mundo).

    Como fora dito, a Morgoth não interessava espalhar que a eternidade (de Eru) tratava as questões de fora em uma perspectiva diferente em relação aos círculos temporários do mundo. Para ele era lucrativo acusar velozmente os outros de erro. Porque a crise lhe era benéfica e ele lutava para que as pessoas precisassem viver e crescer com crises)

    A vida dele fora um rosário de acusações rápidas e sumárias. Ele acusou o pobre Húrin que viu a família destruída mas nunca conhecera o que de bom e justo havia em Húrin porque não lhe preocupava a velocidade dos julgamentos.

    Uma rapidez que era característica da fúria da música que compusera e que no entanto era dominada por uma música mais justa e envolvente.
     
    Última edição: 21 Jan 2014
  5. Elendil

    Elendil Equipe Valinor

    A autora desse ótimo texto é a Nienna, antiga usuária do Fórum, mas que não participa mais. Acho que seu nome é Mirane. Este artigo estava há alguns anos esperando ser publicado e o resgatei das entranhas da Valinor. =P
     
  6. Amon_Gwareth

    Amon_Gwareth Paragon

    Gostei do texto, mas tenho algumas observações pontuais

    Conforme destacado, o personagem Fëanor é uma construção excepcional de Tolkien.

    A minha leitura é a seguinte: por ser um personagem dualista, ou seja, essencialmente bom, mas que, em função das próprias decisões, foi mau, é possível aplicar o perspectivismo, do próprio Nietzsche, para analisar a trajetória de Fëanor. Fëanor jamais desejou o mal pelo mal, apenas defendia fervorosamente, ou mesmo fanaticamente, aquilo que considerava bom, ou até mesmo o que os Ainur ensinaram que era bom. Utilizando o ponto de vista de Fëanor, é possível afirmar que ele não foi mau.

    Mas Tolkien, de forma brilhante, dá destaque às ações objetivas de Fëanor, e igualmente, e até mesmo principalmente, às consequências. Acredito que concordamos quando eu digo que o "aftermath" de Fëanor é trágico. Eu, portanto, leio que: de acordo com a obra de Tolkien, as ações objetivas definem a diferença entre bem e mal, e não as perspectivas subjetivas (ou seja, as idéias de Nietzsche).

    Eu vejo uma hierarquia teísta extremamente rígida no lugar da descaracterização do politeísmo.

    1) Eru executa intervenções diretas no destino da sua criação. O maior exemplo, certamente, está no fim de Númenor.

    2) O politeísmo, em hipótese alguma, descarta a função de entidades originadoras. Temos como exemplo as entidades primordiais gregas (Aether, Uranus, Gaia, Erebus, etc). Apesar de, no Silmarillion, explicitamente, somente existir um, a origem de seres como Ungoliant nunca foi bem descrita. Alguns dizem que ela é criação de Melkor, ou consequência caótica das dissonâncias na grande música. Em qualquer um dos casos, fica sugerido que existe, pelo menos uma (mesmo que Melkor), entidade primordial que não é Eru. A grande diferença entre monoteísmo e politeísmo se resguarda na oposição entre uma única entidade primordial, contra múltiplas entidades. Como existem, pelo menos, duas entidades, não enxergo forma de descartar o politeísmo na obra de Tolkien.

    Claro que, durante a obra inteira, sempre ficou absolutamente clara a distinção entre Eru e as demais entidades.
     

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